2016, Ciência, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Os reis do sol

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington, de Stuart Clark

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“A maior parte do mundo havia sentido os efeitos elétricos das auroras e, exceto pelo vendaval enfrentado pelo Southern Cross, havia assistido a tudo como uma manifestação silenciosa no céu inteiro, que inspirara espanto e terror em igual medida. Ninguém se recordava de ter visto antes algo naquela escalam nem qualquer livro de história registrava uma ocorrência de tão amplo alcance como aquela. A Terra tivera uma experiência singular. Mas o que fora aquilo?
A resposta estava a meio mundo de distância, onde um abastado cavalheiro vitoriano, cujo maior prazer era entregar-se a sua avassaladora paixão pela astronomia, estava às voltas com seu próprio quebra-cabeça científico. Ele estava no lugar certo, na hora certa, e havia visto algo sem precedente. E agora tentava entender.” (pp. 23-24)

Sou uma grande nerd, esta é a verdade. Cursei História e não me entendo com Matemática, mas sou super curiosa em relação a outras disciplinas, como Biologia e Física (tirando os cálculos, por favor!). Quando vi entre a lista dos livros disponíveis para parceria do Grupo Editorial Record, não resisti e pedi Os reis do sol, uma verdadeira viagem pelos primórdios da Astronomia moderna.

O prólogo nos descreve as erupções solares que ocorreram em 2003 e atingiram a Terra, causando interferência em alguns equipamentos eletrônicos e danificando satélites e espaçonaves – nem preciso falar do enorme prejuízo causado por tudo isso. Houve a ocorrência de auroras em alguns pontos do globo, verdadeiros espetáculos luminosos resultantes da colisão das partículas solares com nossa atmosfera.

 

A partir deste fenômeno tão recente, Clark nos leva para uma viagem pela História da Ciência moderna, retomando nomes importantes para a Astronomia. Além de Richard Carrington, astrônomo britânico e amador, conta também sobre William Herschel, Alexander von Humboldt, Henrich Schwab e outros grandes nomes da ciência, que estudaram planetas e estrelas, campos magnéticos, relações – confesso que a partir de certo momento comecei a ficar meio perdida entre a quantidade de cientistas e seus nomes. Todos eles tiveram que lidar com observação de fenômenos, registro, busca por testemunhas e provas sobre suas hipóteses. Um dos aspectos mais interessantes do livro é esse passeio pelo método científico moderno: o autor descreve inclusive os obstáculos, fracassos e decepções pelas quais passaram esses cientistas – instrumentos deficientes, inveja acadêmica, resistência a mudança de paradigmas, erros.

O autor Stuart Clark é britânico, jornalista, e escreve textos para publicações especializadas em Astronomia: Astronomy nowNew ScientistBBC Focus. É colaborador da Agência Espacial Europeia e tem mais livros publicados (em inglês) sobre assuntos ligados ao tema, como o telescópio Hubble, por exemplo.

De linguagem precisa e ainda assim acessível, o livro Os reis do sol é um ótimo livro de divulgação científica. Clark utiliza de vez em quando transcrições de documentos (textos de cientistas), além de apresentar observações explicativas e relevantes no rodapé sobre alguns assuntos. A bibliografia ao final do livro é vasta e está dividida por capítulo.

Eu obviamente sei que o Sol é importante, mas vocês já pararam para pensar no quanto? E no quão pouco sabemos sobre ele? Pesquisas científicas sobre o Sol são relativamente recentes – datam do século XIX -, e um astrônomo depende dos dados coletados anteriormente a ele para formular novas ideias e hipóteses. Este livro me deu uma nova visão sobre Ciência, saber e, é claro, nosso Astro-Rei. É maravilhoso ver o quanto os conhecimentos que consideramos diferentes disciplinas se interligam, ou seja, não são separados: Física, Matemática, Artes (desenho, fotografia), História, Biologia, Economia, Química. Este é um daqueles livros de não-ficção que acabam sendo mais fantásticos que muita história de ficção científica por aí!

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+ info:

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington / Stuart Clark; tradução Laura Rumchinsky.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
250 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Contos, Ficção, Resenha

Obra completa de Murilo Rubião

Obra completa, de Murilo Rubião

 “[…] Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
(p. 21)

Murilo Rubião (1916-1991) nasceu no interior de Minas Gerais. Funcionário público, jornalista, formado em Direito, e escritor, sua obra literária compõe-se de mais de 30 contos. 33 deles estão reunidos neste volume da Companhia de Bolso. Ele é considerado um dos precursores da literatura fantástica no Brasil.

De fato, seus contos apresentam elementos fantásticos muito acentuados (eu diria absurdos), mas que devem ser considerados “normais” dentro da história. Ou seja, o autor parte de uma situação obviamente irreal, mas que deve ser tratada como verossímil dentro daquele universo – como um coelho que muda seu formato quando quer (canguru, cavalo, pulga); ou dragões falantes; ou uma mulher que engorda indefinidamente à medida que seus desejos intermináveis são satisfeitos. Mas essas situações servem para despertar no leitor reflexões sobre aspectos mais profundos da alma humana, como a busca por identidade, a incompreensão do outro, a empatia, a memória, entre outros. Em comum, verifica-se a impotência dos personagens e, muitas vezes, o abandono por eles sofrido.

Foi uma leitura boa, apesar de incômoda. Fiquei perturbada por não conseguir racionalizar muitos aspectos da obra, e por não obter todas as explicações que esperava em praticamente todos os contos. Ou seja, um dos pontos positivos da leitura foi me conhecer ainda melhor como leitora (meus amigos Edmar e Carmem apontaram que devo ser uma pessoa muito racional. Eu tento, de fato. Mas acho que mais procuro racionalidade e lógica nas coisas do que sou racional). Costumo gostar de finais abertos, mas realmente acredito que a falta de algumas explicações prejudicaram minha impressão final sobre os contos. Se Rubião queria provocar o leitor, atingiu seu objetivo comigo. Em alguns momentos, fiquei até irritada. O autor tem ótimas ideias e sua escrita é muito clara. Porém, na minha opinião, há algumas falhas de execução, que são justamente essa falta de explicações (geralmente, de coisas pequenas, e não do grande problema apresentado pelo conto, mas sem as quais fiquei com uma sensação de incompletude).

Uma das coisas de que mais gostei foram as epígrafes dos contos. A epígrafe serve para resumir o conteúdo de um texto, e isso acontece de maneira límpida e precisa nestes textos. A maioria delas é retirada da Bíblia (e todos os contos reunidos de Rubião têm epígrafes) e tem tudo a ver com a história contada. Foi agradável terminar de ler um conto e voltar para reler a epígrafe, constatando que ela se encaixava perfeitamente.

Os contos do início da edição da Companhia de Bolso apresentam mais acentuadamente o elemento fantástico; do meio para o final, a fantasia fica mais sutil. Gostei mais dos contos do final. Meus favoritos foram: O ex-mágico da Taberna Minhota (um trecho dele está transcrito no início do post), A cidadeOfélia, meu cachimbo e o marA flor de vidroO edifícioMemórias do contabilista Pedro InácioBruma (a estrela vermelha)O homem do boné cinzentoA noiva da casa azulPetúniaOs comensais. Este, o último conto da coletânea, me parece que sintetiza os elementos principais da obra do autor, mas de maneira mais fina e madura que os outros. (Até que tive muitos favoritos para quem não gostou tanto. Porém, ter gostado de alguns não significa que os compreendi completamente. Acho que de nenhum conto entendi 100%.) Mas sem sombra de dúvidas, meu favorito foi Aglaia, sobre um casal que não consegue parar de ter filhos, apesar de tentarem todos os métodos contraceptivos – inclusive não ter contato sexual. Os partos se multiplicam, o número de filhos, idem, e o tempo de gestação se encurta cada vez mais. Um conto agoniante e que trata de uma situação tipicamente feminina (também trazendo a visão masculina), inclusive da problemática do aborto.

É muito possível traçar paralelos entre a escrita de Rubião e a de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Gabriel García Márquez. Os traços borgianos, em minha visão, foram as questões de eternidade e infinitude (um prédio com número infinito de andares do conto O edifício, por exemplo); os kafkianos, ficam expressos em contos que tratam de burocracias, como A filaA cidadeA diáspora; e a aproximação com García Márquez está no tom fatalista de não se poder escapar do destino, presente em diversos contos.

Esta edição apresenta uma introdução chamada Vida e obra de Murilo Rubião, com informações interessantes; e ao final, tem-se uma cronologia relacionada ao autor e à sua escrita. Senti um pouco de falta de saber em que ano os contos foram escritos e publicados, pois gostaria de ver se percebo algum tipo de amadurecimento na obra, apesar de os aspectos gerais se repetirem. Mas acredito que isso não foi incluído na edição pois o autor costumava reescrever seus contos com muita frequência, dessa forma sendo difícil estabelecer a data certa de criação da história (ou, ao menos, de sua versão final).

Fiz esta leitura conjuntamente com os amigos Giovanni do blog Metacrônica, e Carmem Lúcia, do blog O que vi do mundo. Debatemos bastante os contos, e certamente a maioria das impressões e conclusões aqui apresentadas não teriam acontecido – ou não tão claramente – sem eles. Obrigada!

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+ info:

Obra completa / Murilo Rubião.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
227 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
 FACIL

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2016, Intrínseca, Não ficção, Resenha

Ted Talks

Ted Talks: o guia oficial do TED para falar em público, de Chris Anderson

“Seu objetivo não é ser um Winston Churchill ou um Nelson Mandela. É ser você. Se você é cientista, seja cientista; não tente ser um militante. Se é artista, seja artista; não tente ser um acadêmico. Se é um sujeito comum, não queira simular um impressionante estilo intelectual; seja esse sujeito comum. Você não tem obrigação de fazer uma multidão se pôr de pé com uma oratória notável. Um tom de conversa pode funcionar muito bem. Na verdade, para a maioria das plateias, é bem melhor assim. Se você sabe conversar com um grupo de amigos durante o jantar, também sabe falar em público.” (p. 23)

Quem é que não sente um friozinho na barriga antes de apresentar um trabalho diante de uma plateia, ou falar em público? O livro Ted Talks está aí para te ajudar (e me ajudar, e ajudar a todo mundo que quiser lê-lo) nisso. Falar em público não precisa ser um bicho-de-sete-cabeças, se você lançar mão de algumas técnicas.

Antes de mais nada, para quem não sabe, o TED é começou como um ciclo de palestras nos Estados Unidos, e o nome vem dos assuntos que eram abordados nessas palestras: Tecnologia, Entretenimento, Design. Este é um ciclo de palestras que sempre se destacou por apresentar conferências interessantes – não apenas pelos temas tratados, mas também pela forma como são abordados. Atualmente, o lema da organização é “ideas worth spreading”, ou seja, “ideias que valem a pena serem compartilhadas”, em tradução livre. Os temas se expandiram (vão desde fotografia até agricultura, passando por psiquiatria e negócios – veja a lista dos tópicos aqui, são centenas), mas uma coisa não mudou: essas palestras continuam sendo relativamente curtas (de até 20 minutos), altamente instigantes e inspiradoras. [Para não perder a oportunidade, aproveito para recomendar aqui uma das minhas favoritas: O perigo de uma história única, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie.] Afinal, como é possível transformar uma palestra sobre algum tema específico em uma fala estimulante para uma platéia ampla?

O livro TED Talks foi escrito pelo atual presidente do TED, e serve como guia de preparação para uma fala em público: uma aula, uma reunião em que se tenha que apresentar resultados, um seminário na faculdade, um discurso no casamento do seu melhor amigo. Percorrendo um caminho que vai da escolha do tema até a apresentação no palco, o livro traz diversas dicas para falar em público (veja o sumário abaixo).

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As dicas apontam para ter uma linha-mestra para sua fala e uma estrutura para a palestra, entrar em sintonia com seu público, estratégias de narrativa, recursos visuais, roteirização, ensaio, começos e finais impactantes, que roupas usar no dia da apresentação, técnicas para se sentir menos nervoso ou inseguro. Além disso, o livro ainda traz uma introdução interessante que fala sobre “contar histórias” (essa atividade milenar que remete a tempos remotos em que as comunidades humanas se reuniam para ouvir e contar histórias em volta de uma fogueira), agradecimentos, um pouco da história do TED e uma lista das palestras citadas no livro. Isso porque, além das técnicas expostas, Anderson dá, ao longo do texto, exemplos de oradores, e traz experiências reais de palestrantes que já passaram pelo TED. É possível intercalar a leitura com as palestras disponíveis na Internet, a fim de que possamos visualizar exatamente o que o autor quer dizer com aquele exemplo.

Podem parecer dicas óbvias (eu, como professora, já aplicava diversas delas no meu processo de preparação de aula e apresentação, embora intuitivamente), mas é muito bom tê-las todas compiladas e organizadas em um único volume. A linguagem de fácil entendimento (bem objetiva) e o tom informal aproximam o autor do leitor. Fora isso, gostei muito da edição: páginas, fonte, diagramação. Tudo muito confortável – e esse corte vermelho maravilhoso! Recomendado para quem se interessa por falar em público ou quer aprender um pouco dessa habilidade.

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+ info:

TED Talks: o guia oficial do TED para falar em público / Chris Anderson; tradução Donaldson Garschagen e Renata Guerra.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
239 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Aleph, Ficção, Ficção científica, Resenha

Neuromancer

Neuromancer, de William Gibson

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“O céu sobre o porto tinha cor de televisão num canal fora do ar.
Não é que eu esteja usando – Case ouviu alguém dizer ao abrir caminho na multidão aglomerada na porta do Chat. – Meu corpo é que desenvolveu uma deficiência maciça de drogas. – Era uma voz do Sprawl e uma piada do Sprawl. O Chatsubo era um bar de expatriados profissionais; você podia beber ali todos os dias durante uma semana e nunca ouvir duas palavras em japonês.
Quem estava cuidando do bar era o Ratz, que enchia uma bandeja de copos com cerveja Kirin draft, com uma prótese de braço que se movia aos trancos. Ele viu Case e deu um sorriso; seus dentes eram uma teia composta de aço do leste europeu e decomposição marrom. Case achou um lugar no bar, entre o bronzeado improvável de uma das putas do Lonny Zone e o uniforme naval perfeitamente engomado de um africano alto com as faces vincadas com fileiras precisas de cicatrizes tribais.
– Wage esteve aqui mais cedo, com dois ajudantes – disse Ratz, servindo-lhe uma cerveja com a mão boa. – Será que é algum negócio com você, Case?
Case deu de ombros. A garota à sua direita deu uma risadinha e um cutucão.
O sorriso do bartender ficou ainda maior. Sua feiúra era legendária. Numa época em que ser bonito saía barato, havia alguma coisa de heráldica na ausência de beleza que exibia. O braço antigo gemeu quando ele o estendeu para pegar outra caneca. Era uma prótese militar russa, um manipulador com force-feedback de sete funções, revestido com plástico rosa encardido.” (p. 31)

Neuromancer é um romance de ficção científica originalmente lançado em 1984 nos Estados Unidos. Ganhou três dos mais importantes prêmios de ficção científica:  Nebula, Hugo e Philip K. Dick. Este foi o primeiro romance do autor William Gibson e é o primeiro da trilogia Sprawl.

Este livro insere-se num sub-gênero da ficção científica chamado cyberpunk, cuja premissa é high tech, low life, ou seja, “alta tecnologia, baixo nível de vida”. Trata-se de um futuro comandado por altíssima tecnologia, mas que enfrenta grandes problemas socioeconômicos.

De acordo com Lawrence Person, “os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros distópicos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano” (fonte: Wikipedia). Case, o protagonista, definitivamente se encaixa nesta definição. Ele é um ex-hacker que foi destituído de sua função e marginalizado (desculpem, precisei repetir a palavra, pois ela é muito precisa neste caso) do ciberespaço. Até que recebe um “chamado” para realizar uma missão perigosa e, de certa forma, vingar-se.

Neuromancer é importante por ter trazido grandes inovações: seja na inserção de elementos antes pouco tratados na literatura (próteses biônicas e inteligência artificial), seja na criação de conceitos. O que me atraiu para ler este livro foi uma pesquisa acadêmica. Ao me deparar com o conceito de ciberespaço, a referência à obra de Gibson foi quase inevitável. Ele criou este universo onde as pessoas estão mergulhadas num mar de tecnologia e hiperconectividade, antes da popularização da Internet. Hoje, o ciberespaço é utilizado para descrever em parte a nossa própria sociedade, cheia de redes wi-fi.

A capacidade de descrição de Gibson é fora do comum, e ele estabelece com maestria o ambiente que quer criar. Se não pela história, o livro vale a pena pela criação intensa e precisa de um universo – que na verdade é a própria Terra num futuro próximo, diferente de outros autores de ficção científica como Asimov e Bradbury, que focam muitas de suas obras em um futuro mais distante e em outros planetas. Gibson também constrói uma trama toda cheia de colagens, com referências a expressões e gírias utilizadas por diversos grupos e áreas do conhecimento que, de tão específicas, podem nos escapar.

Como bem colocou Tati Dantas, do blog No país das entrelinhas, o livro é mais megalomaníaco do que complicado – o que não significa que não seja complicado. Existem termos muito específicos o que torna a leitura confusa. O livro é, sim, ambicioso. Confesso que me perdi na história em diversos momentos (é mais fácil contar as partes que eu entendi do que as que eu não entendi), e fiquei irritada com isso, mas fiz questão de terminar o livro.

A intersecção com obras de distopia clássicas, notadamente Admirável mundo novo de Aldous Huxley, é visível. Não só pela questão do domínio pela tecnologia, mas também pelas drogas como meio de controle mental. O filme Matrix recebe influências diretas deste livro, tanto por sua concepção quanto por seu protagonista, é possível lembrar do filme em diversos pontos.

Na edição especial de 30 anos da editora Aleph, além de um trabalho gráfico preciso e que complementa o conteúdo do livro, existem ainda uma introdução escrita pelo próprio autor especialmente para a edição brasileira; três contos publicados antes de Neuromancer, mas que já antecipam muito das tendências e do estilo do autor (Johnny MnemônicoQueimando cromoHotel New Rose); e uma entrevista muito esclarecedora de William Gibson. Pela entrevista, podemos entrever muitas das intenções, inspirações, referências utilizadas pelo autor em sua obra.

É um livro que desafia o leitor. É possível entender as linhas gerais da história e captar intensamente a atmosfera criada pelo autor, mas não cada detalhe (pelo menos, eu não consegui). Valeu a pena pela experiência, mas dificilmente será um livro que relerei.

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+ info:
Neuromancer / William Gibson; tradução de Fábio Fernandes
São Paulo: Aleph, 2014.
416 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2016, Ciência, Infantil, Infanto-juvenil, Não ficção, Resenha

Sugadores de sangue

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue, de Humberto Conzo Jr.

“A saliva dos morcegos-vampiros contém um anestésico que evita que a presa sinta a mordida – um corte rápido com os dentes incisivos. Ela também contém uma substância anticoagulante que impede o estancamento da ferida enquanto o morcego estiver se alimentando, o que pode durar cerca de 20 minutos. Essa substância anticoagulante vem sendo estudada para o desenvolvimento de remédios para o coração, formação de coágulos e derrames nos seres humanos.
[…]
Já na cidade de Coimbra, em Portugal, a Biblioteca Joanina tem uma história nada lendária. […]. Mas o que realmente chama a atenção são as colônias de morcegos nos vãos entre as paredes e as estantes. Durante o dia, eles permanecem lá escondidos, não atrapalhando a rotina dos visitantes. No final do expediente, os móveis são cobertos por mantas de couro, e a biblioteca passa a ser território dos morcegos, que se encarregam de manter o local livre de traças, baratas e outros insetos muito comuns e danosos em bibliotecas, evitando assim a utilização de inseticidas.” (p. 10 e 15)

Conheci o autor Humberto Conzo Jr. pelo seu excelente canal no Youtube, o Primeira Prateleira. Lá, ele fala sobre diversos tipos de livros, inclusive infantis. Além de escritor de livros para crianças, Humberto ainda é formado em Biologia e História, e isso se reflete no livro Sugadores de sangue.

O livro trata de animais que se alimentam de sangue, sejam eles morcegos, pulgas, piolhos, sanguessugas, moscas ou mosquitos. Intercalando informações sobre as diferentes espécies, seus hábitos e habitats, características e curiosidades, quando possível, Humberto ainda nos fala sobre mitos e lendas envolvendo aquelas criaturas, além de contextualizar historicamente determinadas situações. Essas foram, é claro, as partes de que mais gostei: ao falar de morcegos, já pensamos imediatamente em vampiros e no conde Drácula. Além disso, conhecemos a lenda indígena amazônica do surgimento do guaraná, a situação inusitada da biblioteca joanina, além da menção a lendas do rock (Ozzy Osbourne) e personagens pop (Batman). No caso das pulgas, ficamos sabendo que a peste, ocorrida na Idade Média, tem nas pulgas seus principais “meios de transporte”, e que no século XIX, se costumava fazer “mercados de pulgas”. E assim por diante…

Doenças transmitidas por esses bichos sugadores de sangue tem um destaque especial no livro, já que o autor trabalha com controle de pragas. Além dos sintomas, as formas de prevenção são descritas (malária, febre amarela, bicho-de-pé, dengue, doença de Chagas, etc.). Ah, o caso das sanguessugas que foram – e ainda são – utilizadas como tratamento médico também é bastante interessante (o ponto negativo é que algumas pessoas podem se sentir hipocondríacas, procurando os sintomas descritos. Eu mesma, na parte dos piolhos, não parava de coçar a cabeça!).

De linguagem clara e direta, o livro traz informações relevantes e precisas; não subestima a inteligência das crianças, pois usa vocabulário variado e termos tecnicamente corretos. É temático e interdisciplinar, e traz um bom humor em momentos escolhidos.

As xilogravuras de Eduardo Ver complementam bem o texto, e a edição da WMF Martins Fontes está impecável.

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Recomendo demais (Dia das Crianças tá aí!); só atentem para a idade da criança. Por ser um livro com muita escrita e informações científicas, deve ser mais adequado a crianças mais velhas, de 7 ou 8 anos em diante. O livro serve para crianças grandes também, assim como eu!


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+ info:

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue / Humberto Conzo Jr.; gravuras Eduardo Ver.
São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.
48 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Ficção, Galera Júnior, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Parceria, Resenha

George

George, de Alex Gino

George (1)

“George pegou uma edição de abril que já tinha visto incontáveis vezes. Folheou pelas páginas com um flip-flip-flip seco que fez o papel soltar um leve aroma.
Ela parou em uma foto de quatro garotas na praia. Elas estavam em fila, vestidas com roupas de banho, cada uma fazendo uma pose. Um guia na lateral direita da página recomendava os vários estilos baseados no tipo de corpo. Aos olhos de George, todos os corpos pareciam iguais. Eram corpos de garotas.
Na página seguinte, duas meninas estavam sentadas em uma toalha, rindo, com os braços nos ombros uma da outra. Uma estava usando um biquíni listrado; a outra, um maiô de bolinhas, cavado nos quadris.
Se George estivesse lá, ela se encaixaria na cena, rindo e juntando os braços com os delas. Usaria um biquíni rosa-choque e teria cabelo comprido, no qual as novas amigas adorariam fazer tranças. Elas perguntariam o nome dela, e ela diria: 
meu nome é Melissa. Melissa era como ela se chamava no espelho, quando ninguém estava olhando e ela podia pentear o cabelo castanho liso para a frente, como se tivesse uma franja.” (pp. 8-9)

George é um livro infanto-juvenil que tem uma protagonista diferente das comuns: ela é uma menina que tem corpo de menino. Vivendo sua pré-adolescência sem ter consciência exata do que se passa com seu corpo e seus sentimentos – como qualquer adolescente -, ela ainda tem que lidar com a esmagadora sensação de não se encaixar no padrão esperado, de não se adequar às expectativas da sociedade à sua volta (inclusive de família e amigos, que não sabem pelo que ela está passando). Certo dia, a turma deve encenar uma peça na escola. George resolve tentar interpretar um papel considerado feminino, o da aranha Charlotte.

O livro é claramente direcionado ao público juvenil, o que é perceptível pela sua linguagem mais simples e direta, e pela maneira como a narrativa é contada. É interessante ver como Alex Gino trata George desde o início pelo pronome “ela”, o que já direciona a leitura para tornar mais clara a maneira como a personagem se enxerga. É um belo exercício de empatia proposto ao leitor. (Aliás, a título de curiosidade, @ autor@ gosta de ser chamad@ pelo pronome “they”, em inglês, que não indica gênero. Inclusive, em seu website, pede para que não se utilize pronome masculino ou feminino para se referir a el@. Peço desculpas pelos @, mas foi a única maneira que encontrei – em português – de respeitar o pedido.)

O que mais chama atenção no livro é, de fato, a protagonista, muito delicada em suas percepções. Mas os personagens que mais me cativaram foram Kelly, a melhor amiga de George, e Scott, irmão mais velho da protagonista. Eles ajudam o leitor a compreender a importância da família e dos amigos em momentos de crise, como eles podem funcionar como uma espécie de âncora emocional, um apoio mesmo, sem o qual a pessoa se desestabilizaria.

Gostaria de ressaltar apenas um ponto que achei exagerado ao longo da narrativa. Me pareceu que alguns estereótipos de gênero – notadamente o feminino – foram reforçados. Como se todas as coisas de que George gostasse fossem consideradas necessariamente femininas: jogo de amarelinha e pular corda, a ideia de que meninas quando querem se arrumar usam saias, etc. Sei que não é a tônica do livro – e provavelmente, nem a intenção de Gino -, mas achei que valia a pena mencionar este aspecto.

É uma obra que traz os temas de gênero, relações pessoais (amizades, familiares), conflitos internos e questões identitárias. Da forma mais suave possível, a questão dos transgêneros é tratada como deve ser: algo normal e digno de respeito. Certamente é uma história que revela o quanto a diversidade humana pode ser rica para a convivência de todos. Recomendado para todos, mas acho que um público pré-adolescente vá gostar mais.

Pedi o livro para o Grupo Editorial Record de parceria, já que precisava ler um livro com temática LGBT para O Grande Desafio do Culto Booktuber deste mês.

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+ info:

George / Alex Gino; tradução Regiane Winarski.
Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016.
142 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Ficção, Rádio Londres, Resenha

Butcher’s Crossing

Butcher’s Crossing, de John Williams

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“Contemplando a terra plana e vazia junto com a qual ele parecia fluir e com a qual parecia fundir-se, mesmo ficando imóvel em pé, ele se deu conta de que a caçada para a qual contratara Miller era apenas um estratagema, um truque para enganar a si mesmo, uma forma de enfraquecer seus hábitos mais arraigados. Não fora nenhum negócio que o atraíra até ali, ou até o lugar aonde estava prestes a ir; viera por livre e espontânea vontade. Ele estava livre sobre a planície, no horizonte ocidental, que parecia estender-se sem interrupção até o sol poente, e não podia acreditar que ali existiam cidades e vilas grandes o bastante para distraí-lo de seu objetivo. Sentia que, a essa altura, onde quer que morasse, tanto agora quanto no futuro, se afastaria cada vez mais da cidade para se retrair na natureza selvagem.” (p. 59)

Butcher’s Crossing foi uma leitura que se entranhou na minha lista de leituras. Chegou de repente, sem aviso. Já tinha ouvido falar de John Williams (principalmente do romance Stoner), mas não tinha a intenção de lê-lo – pelo menos não por agora. Mas Butcher´s Crossing foi o livro escolhido para a discussão dO Espanador do mês de agosto, e resolvi encarar. Fui sem saber praticamente nada sobre o livro.

O livro se passa nos Estados Unidos no século XIX. O protagonista, Will Andrews, é um homem de 23 anos que larga sua graduação em Direito em Harvard, sua família e sua vida confortável, para ir em busca de sabe-se lá o quê. Aventura, natureza, significado. Chega a Butcher’s Crossing, um vilarejo no Kansas. Cenas de “velho oeste” norte-americano: na cidadezinha só existe um hotel para os forasteiros, um saloon, uma barbearia, e muita poeira. Este povoado sobrevive principalmente graças ao comércio de peles de búfalo, e Andrews decide arriscar-se numa caçada perigosa. Ele contrata outros três homens: Miller, que será o chefe da empreitada por sua larga experiência em caçadas de búfalos; Charley Hoge, que será o principal responsável por conduzir a carroça com os bois e por cuidar da parte “doméstica” (mantimentos, abrigo, etc.); e Schneider, especialista em esfolamento dos búfalos.

Cada um dos quatro tem um motivo diferente para ir à caçada: Miller quer realizar o sonho de conduzir uma grande caçada; Hoge vai por amizade e lealdade; Schneider, por dinheiro; e Andrews busca entendimento e sua própria identidade. O ideal de Will Andrews empresta ao texto um ar mais existencial no meio de tantas descrições de coisas externas, o que dá um belo equilíbrio ao texto.

A caçada se realiza em uma verdadeira marcha para o Oeste: os quatro vão até as inóspitas montanhas Rochosas do Colorado em busca das enormes manadas de búfalos ainda intocadas. O grupo passa por agruras que são verdadeiros testes de sobrevivência e de humanidade: calor, sede, frio, cansaço extremo, isolamento. Em determinados momentos, sentimos que os personagens quase se fundem ao ambiente, começam a fazer parte intrínseca dele – especialmente Miller. Chegamos ao ponto de enxergar a animalização do grupo de seres humanos.

A narrativa tem um ritmo perfeito para o período em que se passa, o que é uma das características que mais admiro num livro. Ou seja, as coisas não se sucedem rapidamente, ou com pressa. Isso não significa que a história fica chata; no meu caso, foi importante poder saborear cada momento. Foi um livro que li aos pouquinhos; toda noite, degustava um capítulo ou menos, e isso me deu muito prazer.

Apesar de possuir um estilo mais direto e objetivo, como costuma acontecer com literaturas de língua inglesa, Williams é descritivo – principalmente com relação a ambientes. Tal habilidade, juntamente com os diálogos entre personagens, me fizeram sentir assistindo a um filme do estilo western. É impossível não imaginar as cenas descritas com muita precisão, dá para dizer que a escrita do autor é cinematográfica.

No final, o livro dá uma guinada no ritmo e no destino das coisas – li as últimas 70 páginas de uma tacada só. Ainda não decidi se gostei muito dessa mudança; mas o que é certo é que o livro é altamente recomendável, e uma experiência de leitura sensacional!

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+ info:

Butcher´s Crossing / John Williams; tradução de Alexandre Barbosa de Souza.
Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2016.
332 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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