2016, Companhia das Letras, Contos, Fantasia, Favoritos, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Infanto-juvenil, Resenha, Seguinte, Vídeo

Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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2015, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha, Séries e trilogias, Vídeo

O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

O tempo e o vento, de Erico Verissimo

oteov

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
[…]
Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo modo ele ainda governa Santa Fé! Maragato algum jamais botará o pé no Sobrado nem como inimigo nem como amigo: nem agora nem nunca!
Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a à maneira de cigarro, acende-lhe a ponta e leva-a aos lábios. Como não há mais nenhum pedaço de fumo em casa, para aliviar a vontade de fumar ele pita apenas a palha.
Ruído de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue o vulto da cunhada.
— Acho que a criança vai nascer esta madrugada — murmura Maria Valéria.
Fica ali imóvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as mãos trançadas sobre o estômago. Por alguns instantes Licurgo permanece calado. Nada mais pode dizer senão repetir o que vem dizendo há quase uma semana com uma obstinação que às vezes se transforma em fúria: aconteça o que acontecer, não pedirá trégua.” (pp. 17-26)

O tempo e o vento é uma saga que conta a história da família Terra Cambará desde suas origens, em 1745, até o momento em que a obra foi escrita, 1945. Passeamos através das gerações dessa família totalmente imersa na história do Rio Grande do Sul – e, portanto, do Brasil – e de suas tradições, mudanças, guerras, disputas políticas.

A série conta com três obras (O continenteO retratoO arquipélago) geralmente divididas em 7 volumes, conforme mostrado na imagem do início do post.

Esta foi uma das melhores experiências de leitura que tive em 2015. Já tinha o box com os sete livros, que haviam sido indicados por minha mãe, porém, a preguiça sempre falava mais alto e fui deixando para lá. Até que a Tati Feltrin iniciou o projeto #LendoOTempoEOVento, e eu resolvi embarcar junto, aproveitar o embalo.

Os sete livros contam a história da família Terra-Cambará; nos dois volumes de O continente, temos contato com diversos personagens que remontam ao passado distante da família e viram figuras icônicas. São os fundadores da família: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, etc. Intercalados com os capítulos desses personagens, visualizamos o “presente”, ou seja, o início do século XX, em que o Sobrado da família Terra-Cambará está em guerra: cercado por inimigos políticos (ver o trecho inicial do post). Aos poucos, magistralmente, Verissimo vai costurando uma narrativa dinâmica, viva e interessante. Vai se delineando a história da família Terra-Cambará.

A partir dos dois volumes de O retrato – e isso inclui também os três volumes de O arquipélago -, o foco será o personagem dr. Rodrigo Terra Cambará e sua família nuclear: filhos, esposa, irmão, tios. Ele condensa muitas das características do lado Cambará (carisma, intrepidez,

Não se preocupe com a quantidade de personagens, pois todos os livros (ao menos os da edição da Companhia das Letras) vêm com a devida árvore genealógica, e Erico Veríssimo é habilidoso em introduzir personagens aos poucos e lhes dar características muito marcantes. Por isso, eles se tornam quase que pessoas reais, graças a suas contradições, qualidades e defeitos – inclusive, Verissimo coloca personagens históricos misturados com os ficcionais (como Getúlio Vargas, por exemplo), e uns não deixam nada a dever aos outros.

A saga está repleta de dualidades e circularidades, o que aumenta ainda mais o mérito do autor.

As dualidades são opostas, mas ao mesmo tempo complementares, uma precisa da outra para atingir um equilíbrio. O simbolismo de tempovento é muito forte, estando o tempo representando as permanências, enquanto que o vento (o minuano) representa as mudanças bruscas. No caso das permanências, basta perceber que, apesar de as gerações passarem na família, muitos personagens “se repetem”: é o caso das mulheres que comandam a família – e, posteriormente, o Sobrado -: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria. Elas são a mesma personagem em tempos diferentes: as rochas da família, mulheres que enxergam além dos seus próprios olhos (quando velhas, inclusive ficam cegas), e organizam a vida familiar. Quanto às transformações, são marcadas principalmente pelas guerras na região, mortes na família, conflitos.

Outro caso das dualidades complementares são os polos homem-mulher. As personagens femininas da família, como já foi dito, são, em geral, fortes e estáveis. Apesar de estarem conformadas à vida doméstica (como era comum à época), ali exercem seu poder de decisão e de resistência. Elas são, assim como o tempo, a permanência, a continuidade. São essas mulheres que esperam as mudanças e as atitudes dos personagens masculinos – os quais são mais intempestivos, volúveis, e, por isso, efêmeros. Eles representam as mudanças bruscas, como o vento.

Os Terras e os Cambarás também formam uma dualidade que encontra seu equilíbrio dentro da dinâmica familiar: os Terras são fixos, teimosos, resistentes, enraizados. Já os Cambarás, tendem a ser aventureiros, apaixonados, correm riscos.

Outra virtude da saga é mesclar acontecimentos históricos com a ficção; guerras por fronteiras no sul do país, fraudes eleitorais durante o período oligárquico, reviravoltas políticas que culminam na Revolução de 1930, etc. Os contextos são muito bem apresentados, e o autor habilmente coloca nas falas dos personagens opiniões diversas sobre política, religião, economia, ideologias, etc. Ou seja, temos acesso a muitos argumentos e pontos de vista diferentes através dos personagens. É importante ler livros que tragam o diálogo, ainda que ficcional, em tempos – como o nosso – de ameaça à democracia.

Se você tem medo de ler clássicos ou literatura brasileira, procure O continente em alguma biblioteca. Tenho certeza de que não vai achar a linguagem difícil nem a história chata. Verissimo nos brinda com uma escrita maravilhosa, descritiva na medida certa para nos fazer ter sensações e nos situarmos no ambiente da narrativa, mas não excessiva. E a linguagem dele permanece atual e simples, muito fluida e acessível ao leitor brasileiro. Recomendadíssimo!

No canal, fiz uma playlist com todo o diário de leitura de O tempo e o vento: são 11 vídeos em que falo separadamente sobre cada livro (no caso de O continente, falo de cada capítulo).

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Dia Internacional da Mulher 2016 – Lygia Fagundes Telles

Bom dia!!!

Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é dia de reafirmar a luta contra o machismo e pelos direitos equitativos! 🙂

Junto com outros amigos booktubers, resolvi fazer um vídeo em homenagem a uma das minhas escritora favoritas: a Lygia Fagundes Telles! ❤

Aproveitei a ocasião para, além de recomendar a leitura dessa grande escritora, bater um papo sobre como funciona o Prêmio Nobel de Literatura (para o qual Lygia foi indicada este ano!) e representatividade nesse tipo de prêmio.

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O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton


“Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam – como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção. […]
Mas uma coisa parece clara a todos os que voltam do trabalho de campo: os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença. […]
Quando não conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza de que encontramos algo. Analisando o documento em que ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e maravilhosa visão de mundo.
Este livro tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares. Seu procedimento é examinar as surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos; uma versão primitiva de ‘Chapeuzinho Vermelho’ (‘Little Red Hiding Hood’), a narrativa de um massacre de gatos, uma bizarra descrição de uma cidade, um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia – documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele.” (pp. 13-15)

 

A leitura deste livro faz parte do projeto Papo de Historiadoras, proposto pela Lari (blog Papo de Historiadora). Nos conhecemos via internet graças a esse mesmo projeto, e junto conosco, as amigas Kelly (blog e canal Aventuras na Leitura) e Cris (blog Pedras em Bolsos) também embarcaram. Foi um prazer conhecê-las, e espero que este projeto ajude a espalhar um pouquinho de conhecimento historiográfico para o público que nos lê/assiste. Para mim, serviu como uma retomada dos estudos e da leitura de obras consideradas clássicas para a historiografia.

Conforme explicitado pelo trecho inicial do texto, o intuito do livro de Darnton é analisar alguns documentos inusitados, geralmente desprezados por historiadores que utilizam metodologias mais tradicionais, para nos abrir uma janela para o pensamento popular da França do Antigo Regime (séculos XV a XVIII). Em cada um dos seis capítulos, ele analisa um tipo de documento diferente, escrito por um “tipo” social (trabalhadores da zona rural, burguesia, intelectuais, etc.), e tais documentos, aparentemente “esquisitos” nos dias de hoje, revelam detalhes interessantíssimos da época, além de nos lembrarem da distância temporal que nos separa daquelas populações.

Um dos pecados dos historiadores – talvez o maior – é cometer anacronismos, que nada mais são do que “utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico”. Este livro definitivamente não os comete. Darnton analisa cada aspecto descrito com o maior cuidado em investigar qual teria sido o provável significado daqueles fatos na época, sua importância e suas simbologias. Uma palavra, uma maneira de descrever, uma referência; tudo isso serve de material ao historiador para vislumbrar as maneiras de pensar.

A linguagem do autor é deliciosa e acessível – ainda mais vinda de um historiador, de quem esperamos grande pompa! -; apesar de em alguns momentos a leitura poder ficar mais lenta, vale muito a pena para quem se interessa por História e por seus detalhes que revelam muito (aqui reside parte da mágica da História, ao meu ver!).

No meu canal no Youtube, fiz um diário de leitura, uma espécie de resumo e impressões de leitura para cada capítulo do livro.

Apresentação

É a porção mais curta da obra, e de importância crucial. Aqui, o autor revela suas intenções, objetivos e métodos de maneira muito clara, além de situar o leitor a respeito da História das Mentalidades. O trecho inicial do post é retirado dessa parte.

Capítulo 1 – Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso

O primeiro capítulo baseia-se nos contos de fadas camponeses do Antigo Regime. Parte de uma história do que hoje chamamos de Chapeuzinho Vermelho para contextualizar, questionar a análise psicanalítica dos contos de fadas, perceber as transformações e permanências nesses textos – no tempo e no espaço. É um estudo extremamente perspicaz por parte de Darnton, além de ser sobre um tema que todo mundo adora: os misteriosos contos de fadas.

Capítulo 2 – Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin

O massacre de gatos que dá nome ao livro aqui toma forma; através de um documento escrito por um dos participantes deste massacre, um trabalhador urbano de uma gráfica parisiense, somos levados a uma “viagem” para compreender o contexto, a simbologia, os significados e os motivos que levaram à matança de tantos felinos certo dia no fim do século XVIII.

Capítulo 3 – Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto

Neste capítulo, o autor parte de uma descrição da cidade de Montpellier feita por um autor anônimo (e burguês) e não se sabe com qual objetivo. A ideia principal é descobrir, através da maneira como esse burguês descreve a cidade, qual é a sua visão de mundo, com que categorias ele organiza a sociedade e como enxerga as relações entre os habitantes de Montpellier.

Capítulo 4 – Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras

A partir de um arquivo de polícia, Darnton nos apresenta um panorama da intelectualidade de Paris em meados do século XVIII. Um policial que organizou as fichas de seus investigados nos oferece a oportunidade de compreender como funcionava a vida dos escritores dessa época, qual ideia a sociedade fazia deles, porquê eram suspeitos ou perigosos a ponto de ser necessário que fossem investigados.

Capítulo 5 – Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie

No quinto capítulo, Darnton analisa o porquê de a Enciclopédia organizada por Diderot e D´Alambert ser considerada tão revolucionária, se ela trazia temas tão banais em seu conteúdo. Tratou-se de uma verdadeira crítica à visão de conhecimento que se tinha anteriormente.

Capítulo 6 – Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica

Aqui, veremos através de cartas a enorme influência de Rousseau teve sobre seus leitores e a construção de uma nova forma de leitura, de relacionamento entre escritor e leitor.

Fiz ainda um vídeo de conclusão, usando as críticas que o próprio Darnton faz ao seu trabalho. Só gostaria de dizer que este foi um dos melhores livros lidos em 2015, e recomenda-se tanto para um público especializado, quanto para um público leigo.

 

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+ info:

O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução Sonia Coutinho.
São Paulo: Paz e Terra, 2014.
379 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Um antropólogo em Marte

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks


“Nessa perspectiva, deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal, revelando poderes latentes, desenvolvimentos, evoluções, formas de vida que talvez nunca fossem vistos, ou mesmo imaginados, na ausência desses males. Nesse sentido, é o paradoxo da doença, seu potencial ‘criativo’, que forma o tema central deste livro.
Assim como é possível ficar horrorizado com a devastação causada por doenças ou distúrbios de desenvolvimento, por vezes também podemos vê-los como criativos – já que, se por um lado destroem caminhos precisos, certas maneiras de executarmos coisas, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar caminhos e maneiras diferentes, forçá-lo a um inesperado crescimento e evolução. Esse outro lado do desenvolvimento ou da doença é o que vejo, potencialmente, em quase todo paciente; e é isso que me interessa especialmente descrever aqui.” (p. 16)

Oliver Sacks (1933-2015) foi um médico neurologista britânico e que escreveu vários best-sellers ao longo de sua carreira. Seus livros falam principalmente sobre casos interessantes que acompanhou, junto com preciosas e humanas reflexões.

Um antropólogo em Marte se encaixa justamente no modelo: neste livro, Sacks relata sete casos de pacientes que desenvolveram doenças (ou já nasceram com elas) que os levaram a reconstruir toda a sua existência e sua identidade. São pessoas que se adaptaram, apesar de (ou talvez por causa de) suas doenças. Nesse sentido, os paradoxos de que falam o subtítulo referem-se justamente ao potencial criativo decorrente das doenças nesses casos, de um certo poder de renovação e ressignificação diante de tais adversidades.

Um dos primeiros pontos que me chamou a atenção, já na Apresentação do livro, escrita pelo próprio Sacks, foi que ele se questiona o que é chamado de “doença”. Ele se questiona se tudo aquilo que consideramos doenças o são de fato, ou se podem ser simplesmente novas adaptações ao mundo. Muitas vezes, “deficiências” geram caminhos diferentes para um mesmo aprendizado, desenvolvimento, interpretação (inclusive, ao falar sobre isso, o autor cita Vygotsky, um grande pensador da educação e da cognição infantil). (O livro foi publicado em 1995, portanto, deve ter havido avanços relacionados à definição de certas doenças, tratamentos, etc.)

O autor acompanha, nos sete pacientes, a recriação de processos e a reconstrução de identidades, através de duas abordagens: uma médico-científica – mais objetiva -, e uma inter-subjetiva – ele procura ficar junto com esses pacientes nos seus ambientes domésticos, na vida cotidiana, a fim de obter uma visão mais completa de suas vidas.

Vamos aos casos:

  • O caso do pintor daltônico foi um dos mais intrigantes para mim. Trata-se de um homem, Sr. I., que, aos 65 anos de idade, perdeu a visão das cores após um acidente (pequeno) de carro. Parecia que nada havia acontecido, até que este homem, que era pintor e vivia de sua arte, percebeu que estava enxergando tudo em preto, branco e tons de cinza. Inicialmente, seu desespero é total, ao descobrir que não existe possibilidade de voltar a enxergar em cores, ele entra numa depressão profunda. O autor nos apresenta um histórico do conhecimento sobre a capacidade de representar as cores, e nos conta a evolução/adaptação do pintor à sua nova realidade.
sr. I

Duas pinturas feitas pelo sr. I., logo antes do acidente em que perdeu a visão das cores

  • O último hippie fala de Greg, um adolescente rebelde da década de 1960 que, após se envolver com drogas e brigar com os pais, foi para um centro Hare Krishna e lá encontra seu foco. Identificou-se com a filosofia e as práticas da organização. No início da década de 1970, começou a queixar-se de ter a visão ofuscada, o que foi interpretado como iluminação espiritual. Os pais, que não tiveram comunicação direta com ele por anos, acabaram conseguindo permissão para visitá-lo em 1975, e se depararam com uma pessoa completamente diferente de seu filho: agora gordo, careca com um sorriso permanente e “estúpido” no rosto, e comentários “idiotas”. Levado ao médico, foi constatado um tumor no cérebro. O tumor foi retirado, mas Greg permaneceu com as sequelas: ficou completamente cego e seriamente incapacitado neurológica e mentalmente. Tudo isso aos 25 anos. Porém, Greg não tinha consciência de sua cegueira (ele achava que enxergava), de suas capacidades mentais perdidas, do passado nem do futuro – havia um único ponto que o despertava: as bandas dos anos 60 que ele amava. Ao fim das contas, o ex-adolescente rebelde passou a viver serenamente nas condições que se apresentaram a ele. Sua personalidade tornou-se dócil e solar, e sua vida resumia-se ao presente.
  • Uma vida de cirurgião é sobre um homemcom síndrome de Tourette. Trata-se de um distúrbio em que a pessoa pode apresentar, entre outras características, tiques, grunhidos, blasfêmias, xingamentos, obscenidades, comportamento impulsivo, agitação, etc. Tudo isso está fora do controle da pessoa. Ou seja, ela pode estar conversando normalmente e, de repente, estala os dedos, ou toca seu próprio pé, ou fala uma palavra esquisita. (Obviamente que essa descrição está superficial e incompleta. No vídeo abaixo (em inglês), as crianças que têm essa síndrome explicam infinitamente melhor do que eu.) Este caso é curioso pois o paciente que sofre com a síndrome de Tourette (tem todos esses tiques nervosos, comportamentos considerados estranhos e que se manifestam em horas inapropriadas, etc.) é um cirurgião. Entretanto, quando está na sala de cirurgia, concentrado, operando, misteriosamente, perde suas características de Tourette.

  • Ver e não ver conta sobre Virgil, um homem que perdeu sua visão aos 6 anos. Portanto, havia aprendido 100% como ser cego. Tinha o tato, o olfato e a audição muito apurados. Aos 50 anos de idade, descobriu-se que sua cegueira era operável e ele poderia recuperar parte de sua visão. Sua esposa insistiu muito na cirurgia, porém, sua reação imediata ao recuperar a visão não foi a de maravilhamento que todos estavam esperando; foi a de incompreensão. Virgil não sabia mais ver. Ele enxergava formas, movimentos e cores, mas não sabia dar sentido àquilo. Seus olhos sequer se fixavam em um objeto. Virgil precisava aprender a ser vidente, da mesma maneira que, quando criança, aprendeu a ser cego. O mais interessante desse caso é perceber que os significados que damos às coisas são resultado da correlação entre sentidos. Nós, que nascemos com todos eles, conectamos som, imagem, sensação tátil, olfativa, etc. Mas alguém que nasce sem um sentido (a visão, por exemplo) ou o perde na infância, faz tais conexões sem precisar dele, que nos faria tanta falta.
  • A paisagem dos seus sonhos é a respeito de Franco Magnani, um homem que nasceu no vilarejo de Pontito, na Itália. Ele pinta quadros que reproduzem as construções e ruas de Pontito de maneira muito precisa, mesmo tendo ido embora de lá definitivamente há quase 30 anos. Ao ir visitar o paciente em sua casa, Sacks se depara com todas as paredes, gavetas, etc., repletas de quadros de Pontito, e o artista só fala sobre suas lembranças de infância no vilarejo, obsessivamente. Ele tinha visões e sonhos com Pontito, tudo emocionalmente muito avassalador e minuciosamente detalhado. As aparições que Magnani presenciava envolviam um aspecto visual tridimensional (ele podia se mover entre as ruas de Pontito e enxergar de vários ângulos), um auditivo (ele ouvia os sinos da igreja de Pontito), um tátil, um olfativo. Pontito se materializava para Franco, mesmo após anos sem visitá-la, e Sacks tenta desvendar isso.

Franco Magnani, pintando uma imagem “futurista” de Pontito

Comparações entre fotografias de Pontito e quadros de Magnani, pintados de memória

  • Prodígios é sobre pessoas autistas que desenvolvem (descobrem) um talento muito pronunciado, intenso e extraordinário. O paradoxo está justamente no fato de que os autistas são pessoas que possuem uma deficiência no entendimento das regras sociais e no desenvolvimento de habilidades sociais. Poderia-se pensar, portanto, que seus cérebros seriam fragilizados – até o momento em que você se depara com um autista com habilidades incríveis, como Stephen Wiltshire. Stephen tinha uma memória fora do comum para construções, prédios e carros; bastava uma olhadela, que absorvia a paisagem. Além disso, Stephen descobriu que sabia desenhar essas coisas extremamente bem (a BBC fez um documentário que conta a história de Stephen. O vídeo abaixo é de uma visita que ele fez a Istambul, mostra Stephen desenhando a paisagem panorâmica que viu em um helicóptero). O que intriga Oliver Sacks (e a nós, leitores), é que o autista não tem uma consciência do “eu”, de uma identidade. Porém, como é possível que um artista não tenha subjetividade? Stephen, mesmo reproduzindo grande parte do que via e captando a essência das coisas, acrescentava detalhes que não estavam originalmente lá.

Um dos desenhos de Stephen Wiltshire

  • O último caso, Um antropólogo em Marte, também fala de uma autista: Temple Grandin, bióloga e engenheira bem-sucedida. Escreve artigos científicos (também é professora universitária), escreveu uma autobiografia e é especialista em comportamento animal. Temple tinha uma vida profissional agitadíssima, e nenhuma vida social. O paradoxo é que a paciente tinha uma capacidade tão grande de compreender os animais (principalmente animais de fazenda, tanto que se especializou em tornar abatedouros de vacas e bois menos cruéis, para que os animais não sofressem tanto), apesar de não ter a menor compreensão do comportamento humano.

 

Ao descrever os casos, parece que contei muita coisa sobre cada um deles, mas o livro é riquíssimo! São histórias muito inspiradoras.

Nos sete capítulos, Sacks descreve  o histórico e as sensações do paciente, discute alguns pontos (sobre “normalidade”, questiona o sentido que as coisas têm para nós porque estamos acostumados a determinadas percepções e interpretações do mundo) e, em geral, apresenta um histórico do conhecimento que se tem a respeito de determinada “doença” – por exemplo, como as cores foram percebidas e teorizadas ao longo do tempo, como descobriu-se que o cérebro interpreta as cores e dá sentido a elas, como desenvolveu-se o conceito de autismo, a evolução e as contradições dos estudos sobre a memória humana, etc. Além de tudo isso, ele apresenta a visão médica do caso, e conta como foi a adaptação à nova (ou antiga) condição. Sem dúvida, os momentos em que ele conta a respeito do personagem (paciente) e suas reflexões são mais literários, ao passo que os panoramas da construção dos conhecimentos necessários a analisar o caso, e também as descrições médicas, são mais técnicas, científicas e, portanto, mais áridas.

O presente e o passado, as memórias e lembranças que se perdem ou não desaparecem nunca, permeiam todo o texto; são aspectos que levam a uma reorganização da realidade do indivíduo e da construção de sua identidade.

O autor é cuidadoso ao falar de doenças, e desconfia de ações como atribuir a genialidade criativa de diversas personalidades (como Sócrates, Einstein, as irmãs Bronte, Baudelaire, Dostoievski, Van Gogh, Proust, entre muitos outros) apenas a uma doença ou condição psíquica. Isso é apenas parte de como essas pessoas são, e obviamente podem contribuir para suas obras, mas será que explicam tudo?

Sacks cita pensadores de diversas áreas ao longo do texto: física, filosofia, educação, literatura, artes plásticas. Isso dá ao seu texto um caráter muito interdisciplinar, e tira o “peso” que teria uma obra técnica sobre um assunto puramente médico. Além disso, as notas de rodapé são absolutamente pertinentes e explicativas, e não simples referências a outras obras. Isso também facilita o entendimento do leitor leigo e torna a obra mais compreensível e menos acadêmica.

As descrições vívidas que o autor faz das situações dos pacientes-protagonistas nos levam a uma empatia muito grande (como não ficar desesperado, ou ao menos incomodado, ao ler que o pintor entrou em seu ateliê multicolorido pelas telas e viu tudo em preto e branco? Ao perceber que sua arte e, portanto, sua vida, haviam perdido o sentido?). A busca pela pessoa do paciente, por sua vida cotidiana, social, seus pensamentos e impressões, torna esta obra única e muito especial, além de reforçar a já mencionada empatia. Embora os dados médicos e explicações técnicas sejam interessantes, os casos dos pacientes são definitivamente o ponto mais fascinante do livro, ao menos para um leitor leigo como eu.

Deu pra perceber que recomendo o livro?!

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+ info:

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais / Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
333 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

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Só garotos

Só garotos, de Patti Smith


“Havia dias, dias de chuva cinzentos, em que as ruas do Brooklyn mereciam uma fotografia, cada janela, as lentes de uma Leica, uma visão granulada e imóvel. Juntávamos nossos lápis de cor e folhas de papel e desenhávamos feito crianças ensandecidas, ferozes, noite adentro, até que, exaustos, caíamos na cama. Deitávamos abraçados, ainda desajeitados, mas felizes, trocando beijos sufocantes até dormir.
O menino que eu conhecera era tímido e pouco articulado. Gostava de ser pego, levado pela não e de se entregar completamente a um novo mundo. Era másculo e protetor, mesmo sendo feminino e submisso. Meticuloso em seu modo de vestir e se portar, era também capaz de um caos assustador em seu trabalho. Seus mundos particulares eram solitários e perigosos, ansiosos por liberdade, êxtase e desprendimento.
Às vezes eu acordava e o encontrava trabalhando na penumbra de velas votivas. Acrescentando detalhes a um desenho, virando seu trabalho de um lado, de outro, examinando-o por todos os ângulos. Pensativo, preocupado, ele se virava e me via observá-lo e sorria. Aquele sorriso ultrapassava tudo o que estivesse sentindo ou experimentando – mesmo depois, quando estava morrendo, com dores fatais.” (p. 63)

Patti Smith é uma poetisa e musicista norte-americana conhecida por seu primeiro álbum, Horses (1975). Nascida em 1946, em Chicago, ficou conhecida como “poetisa do punk”, “ela trouxe um lado feminista e intelectual à música punk e tornou-se uma das mulheres mais influentes do rock and roll”.

O livro Só garotos conta sua história com o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) durante o final da década de 1960 e início dos anos 70, uma época em que ambos estavam na casa dos 20 anos e se deparavam com questões importantes de formação de personalidade, escolhas profissionais e pessoais, angústias e lutas para se tornarem artistas, etc. Lembrando que as décadas de 1960 e 70 foram também o momento de florescimento da contracultura (movimento hippie), de questionamento de comportamentos e de experimentações artísticas e pessoais intensas (estou falando também de drogas). Pode ser considerado um romance de formação desses dois artistas.

Nunca tinha ouvido falar do livro ou da autora, e fui lê-los totalmente no escuro, graças ao projeto #LeiaMulheres. O encontro de novembro em Belo Horizonte será sobre este livro, e acabei comprando-o. Que surpresa sensacional!!!

A escrita de Patti Smith é clara, direta, muito próxima do leitor e, ainda assim, um tanto doce. O olhar feminino da autora é palpável, mas não da maneira como estamos acostumados a ver e ouvir falar (delicadeza, fragilidade). Ela foge de estereótipos: passa por brincadeiras na infância (inclusive e principalmente brincadeiras consideradas tradicionalmente como masculinas, como guerra), “tornar-se uma mocinha” (tem que passar a vestir camiseta, mesmo que seus amigos não usem), gravidez indesejada, desemprego, fome e indigência, amizade e confiança, sexualidade, experimentações artísticas, intimidade, família, religião. Porém, definitivamente este é um romance de memórias, em que acompanhamos a formação de Patti Smith como artista, experimentando diversas formas de arte: desenho, poesia, música, teatro… e de Robert também.

Fiquei abismada com a capacidade de transportar o leitor para a época. Não era como se eu estivesse ouvindo alguém contar, nem como se eu estivesse assistindo a um filme sobre os anos 60. Eu estava lá. A autora nos insere com tanta destreza e naturalidade no panorama musical e artístico de Nova York, que essa é a impressão que fica.

A edição contém fotografias maravilhosas, muito expressivas e verdadeiras jóias pessoais da autora (sério, teve uma que me deixou com lágrimas nos olhos). Outra coisa, as referências artísticas são inúmeras (é impressionante o número e a qualidade dos artistas com quem essa mulher teve contato, mesmo que casualmente, esbarrando por aí): Velvet Underground, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, Blue Öyster Cult, Susan Sontag, Bob Dylan, fora a montanha de nomes que eu desconhecia. Definitivamente preciso reler o livro para pegar todas essas referências e escutá-las, lê-las, aprender mais sobre elas.

Há muito tempo que eu não curtia tanto uma leitura (com o blog e o canal, tenho lido muito, e de maneira bem acelerada – não por obrigação, até porque não ganho dinheiro com isso, mas por hábito). Acabei lendo de maneira menos ansiosa, degustando cada episódio narrado. Aliás, não se enganem: não é um livro super dinâmico. É um livro de memórias; o ritmo é mais lento mesmo, o que pode se traduzir numa leitura arrastada para algumas pessoas (no meio do livro, fiquei um pouco com essa sensação).

O livro, merecidamente, ganhou o National Book Award de não-ficção nos Estados Unidos em 2010. É uma leitura altamente recomendada, embora eu saiba que não é todo mundo que vá gostar. Peço desculpas se pareci exagerada na descrição das experiências de leitura, mas fui absolutamente sincera. O livro me emocionou de verdade.

Fiquem com uma das músicas de Patti Smith, do álbum já mencionado acima, Horses (1975). Escolhi esta, Birdland, por me trazer uma sensação de grito, “botar a boca no mundo”:

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+ info:

Só garotos / Patti Smith; tradução Alexandre Barbosa de Souza.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
272 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2015, Pessoal, Projeto de leitura, Vídeo

Projetos de leitura

Hoje tem VÍDEO EXTRA no canal Redemunhando!!!!!! 😀

É sobre os projetos de leitura que venho acompanhando – e amando!!! São quatro no total, embora eu realize alguns outros de maneira inconsciente (#LendoOMundo, por exemplo)!

Quis colocar o vídeo hoje para que vocês me acompanhem na leitura, especialmente do #LeiaMulheres e do #MêsDaConsciênciaNegraNaLiteratura! 😀

#LendoOTempoEOVento #PapoDeHistoriadoras

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