2016, Companhia das Letras, Ficção, Infanto-juvenil, Resenha, Séries e trilogias

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3, de Lemony Snicket

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“Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire cuja história está aqui contada.” (Mau começo, p. 9)

Mal podia esperar para escrever sobre esta série. Tanto que não aguentei esperar ler mais do que três livros desta série de treze; acho que a leitura vale a pena, mesmo que eu ainda não saiba o final da série toda. Ao longo dela, acompanhamos três irmãos: Violet, de 14 anos, é conhecida por sua grande criatividade. Ela é uma verdadeira engenheira e adora inventar coisas; quando está exercendo seu talento, é possível ver sobre sua cabeça engrenagens, alavancas e roldanas em funcionamento. Klaus, o irmão do meio, tem 12 anos e é um rato de biblioteca; lê todos os livros que encontra pela frente e tem uma boa memória. A caçulinha, Sunny, ainda é um bebê, mas é espertíssima! Sua habilidade especial consiste em morder as coisas (ela prefere os objetos mais duros) com seus quatro dentinhos afiados.

Certo dia, os três são tomados de surpresa pela pior notícia possível: seus pais, o sr. e a sra. Baudelaire, faleceram num incêndio arrasador. Além do amor dos pais, o fogo também tomou dos irmãos sua casa (uma mansão, que ficou em cinzas) e seu conforto. A família Baudelaire possuía uma grande fortuna, porém, Violet, Klaus e Sunny só poderão ter acesso à herança quando a irmã mais velha completar 18 anos. Enquanto isso, eles ficarão à mercê de algum tutor legal, um parente a ser designado pelo sr. Poe, um burocrata com boa intenção mas, aparentemente, poucos miolos.

Digo isto porque ele os colocará sob a tutoria de um parente distante da família, o conde Olaf. Olaf é uma pessoa detestável, que explora as crianças (às quais ele chama de “órfãos”) obrigando-as a realizar tarefas desnecessárias e passar por verdadeiras situações de violência física e psicológica, tudo para tentar botar as mãos na herança.

Este é o mote geral do primeiro livro, Mau começo, e os próximos seguem uma linha similar. Sempre o conde Olaf bola um plano mirabolante para tentar tomar conta da fortuna dos Baudelaire, é frustrado, e foge para retornar no livro seguinte. Como só li esses três primeiros volumes, não posso falar sobre os próximos. Mas é bem possível que a trama geral se repita e torne-se mais entediante para alguns leitores. Entretanto, lendo apenas os três primeiros, confesso que gostei muito!

Grande parte do meu encantamento pela obra vem da linguagem utilizada pelo autor Lemony Snicket. Ele inova ao conversar com o leitor e ser totalmente sincero (por exemplo, no início dos livros, ele sempre alerta que é melhor que o leitor desista logo da leitura, pois trata-se de uma história que só contém desgraças sofridas pelos irmãos – veja o trecho inicial do post). Snicket também explica palavras e expressões, mostrando o que elas significam naquele contexto (“[…] vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” — até a praia” [Mau começo, p. 10]). Há também a “tradução” das falas de Sunny, que é sempre muito engraçada. A irmã pequenina tem uma linguagem própria dos bebês, mas o narrador faz questão de explicar sempre o que ela quer dizer.

Além de todas essas “inovações” narrativas, o texto é muito objetivo e dinâmico. O bom humor está presente o tempo todo na maneira que a história é contada, e o mundo mundo em que vivem os Baudelaire inventado (os nomes combinam com os lugares, o que dá um ar fantasioso) também exerce certo fascínio e torna tudo ainda mais divertido.

Apesar do alerta constante de Snicket, a história dos Baudelaire não mostra apenas desgraças e infelicidades. Ela conta com momentos de respiro, ternura, compreensão, saudade, e até mesmo de alegria. As desgraças são apenas os motores da ação. Talvez o ponto principal da história é que juntos, os irmãos Baudelaire são incríveis. Diferentes entre si, cada um com sua personalidade, eles formam um time coeso e ativo. A série é infanto-juvenil, mas eu estrou amando, mesmo sendo adulta!

Ah! Haverá uma série da Netflix, a ser lançada em janeiro de 2017. O conde Olaf será interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, e eu achei este trailer o máximo! Captou muito bem a atmosfera fantasiosa e bem-humorada dos livros. Mal posso esperar! 🙂

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+ info:
Mau começo / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
152 páginas.

A sala dos répteis / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
184 páginas.

O lago das sanguessugas / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
192 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público de qualquer idade!)

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

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2016, Ficção, Multifoco, Parceria, Resenha, Séries e trilogias

Exilado

Exilado (volumes 1 e 2), de Carlos Adriano Estevez

 

“É isso, agora eu me lembro. Não foi quando eu recebi aquele e-mail em russo que a insônia apareceu e as coisas pararam de fazer sentido. Nem quando ela desapareceu. A insônia surgiu antes, quando um cara moreno, vestido de calça sarja caqui, camiseta marrom de manga comprida e com um colete que mais parecia um trapo jogado sobre os ombros, surgiu pela manhã como um Testemunha de Jeová fugido da Ilha de Lost e me deu o Livro Sem Nome que, segundo ele, precisava de um final melhor do que o que havia sido escrito.” (pp. 29-30, v. 1)

O autor de Exilado, Carlos Adriano Estevez, contatou o Redemunhando pelo Facebook e perguntou se eu me interessaria em ler os dois volumes da obra. Fiquei muito curiosa pela sinopse (bem maluca, preparem-se!) e aceitei. Os dois livros me foram enviados e contêm dedicatórias muito cuidadosas feitas pelo Carlos.

No volume 1 desta duologia, o livro divide-se basicamente em dois focos narrativos: temos a história de Emiliano Ruas e Ruas (sim, inspirado no próprio Lucas Silva e Silva do programa Mundo da Lua da TV Cultura!), um cara comum, com um trabalho entediante num banco, e que enfrenta trânsito todos os dias; e paralelamente, corre a história dos garotos Yuri e Igor, gêmeos ucranianos que se veem inserido num mundo quase fantástico de envolvimento com mafiosos e mistérios em 1998, e que só serão compreendidos ao longo da narrativa. Lá para o meio do primeiro volume, um terceiro fio narrativo se desenrola nos Estados Unidos em 1968, tendo como protagonista um menino chamado Peter.

O diário de Emiliano, que se passa em 2014, é absurdamente engraçado – juro que chorei de rir ao ler determinados trechos, por conta dos termos e expressões utilizadas -, enquanto que Yuri parece que vive em um sonho, daqueles bem doidos. Emiliano narra seu cotidiano a partir do momento em que passa a ter noites maldormidas ou insones. Ele atribui parte de seu cansaço ao desaparecimento de uma mulher (no início, não sabemos exatamente qual é seu relacionamento com ela, mas deduz-se que trata-se de um caso amoroso) e ao recebimento de um misterioso e-mail em russo. Mas mais do que isso, sabe que sua dificuldade de dormir tem a ver com o recebimento do Livro Sem Nome, precisamente o livro que conta a história de Yuri, Igor e da família deles na Ucrânia.

Misturando toques de mitologia nórdica, referências pop dos anos 1990, 2000 e 2010, e um pouco de aventura medieval, Estevez traça uma trama intrincada e curiosa. Seu estilo é muito dinâmico e repleto de bom humor, além de ser claro. Ou seja, é possível entender o que está acontecendo na narrativa, apesar de muitas vezes não sabermos como aquilo que está sendo narrado se conecta com as partes que já conhecemos. A narrativa é repleta de idas e vindas no tempo, mas tudo é devidamente explicitado no início de cada capítulo: sabemos em que ano e em que lugar a ação está acontecendo.

O volume 2 é uma continuação do volume 1, e recomendo que ambos sejam comprados juntos. O primeiro termina num ponto muito alto, o que deixa o leitor curioso para saber como as coisas se resolverão. Porém, no segundo volume, as coisas se complicam e o volume de informações que exigem certa memória por parte do leitor é maior. A trama demora para revelar as conexões entre as histórias e personagens, mas mesmo isso achei interessante, já que a narrativa é instigante o bastante para nos manter curiosos e presos à leitura. Como pontos negativos, a existência de muitos personagens – e vários com nomes russos, o que não facilita -, pode confundir o leitor. A alternância nos diferentes tempos da narrativa (anos 1960, 80, 2000 e 2010) também pode causar esse efeito fragmentário e confuso. Ah, a história também tem cenas muito violentas e repletas de sangue, então se você for uma pessoa sensível a esse tipo de coisa, saiba que há bastante.

Apesar disso, para mim, este foi o típico caso de livro certo na hora certa. Eu estava querendo já há um tempo ler algo com uma história instigante e uma narrativa mais rápida. Estevez conduz bem o fio dos acontecimentos, cheios de ação, e conseguiu me prender na leitura. É um orgulho ter autores brasileiros e independentes produzindo obras tão divertidas e criativas!

Clique aqui para acessar a página do autor no Facebook e encomendar o livro.

+ info:

Exilado v. 1 / Carlos Adriano Estevez.
Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2015.
283 páginas.

Exilado v. 2 / Carlos Adriano Estevez.
Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2015.
246 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

O tempo e o vento, de Erico Verissimo

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Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
[…]
Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo modo ele ainda governa Santa Fé! Maragato algum jamais botará o pé no Sobrado nem como inimigo nem como amigo: nem agora nem nunca!
Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a à maneira de cigarro, acende-lhe a ponta e leva-a aos lábios. Como não há mais nenhum pedaço de fumo em casa, para aliviar a vontade de fumar ele pita apenas a palha.
Ruído de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue o vulto da cunhada.
— Acho que a criança vai nascer esta madrugada — murmura Maria Valéria.
Fica ali imóvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as mãos trançadas sobre o estômago. Por alguns instantes Licurgo permanece calado. Nada mais pode dizer senão repetir o que vem dizendo há quase uma semana com uma obstinação que às vezes se transforma em fúria: aconteça o que acontecer, não pedirá trégua.” (pp. 17-26)

O tempo e o vento é uma saga que conta a história da família Terra Cambará desde suas origens, em 1745, até o momento em que a obra foi escrita, 1945. Passeamos através das gerações dessa família totalmente imersa na história do Rio Grande do Sul – e, portanto, do Brasil – e de suas tradições, mudanças, guerras, disputas políticas.

A série conta com três obras (O continenteO retratoO arquipélago) geralmente divididas em 7 volumes, conforme mostrado na imagem do início do post.

Esta foi uma das melhores experiências de leitura que tive em 2015. Já tinha o box com os sete livros, que haviam sido indicados por minha mãe, porém, a preguiça sempre falava mais alto e fui deixando para lá. Até que a Tati Feltrin iniciou o projeto #LendoOTempoEOVento, e eu resolvi embarcar junto, aproveitar o embalo.

Os sete livros contam a história da família Terra-Cambará; nos dois volumes de O continente, temos contato com diversos personagens que remontam ao passado distante da família e viram figuras icônicas. São os fundadores da família: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, etc. Intercalados com os capítulos desses personagens, visualizamos o “presente”, ou seja, o início do século XX, em que o Sobrado da família Terra-Cambará está em guerra: cercado por inimigos políticos (ver o trecho inicial do post). Aos poucos, magistralmente, Verissimo vai costurando uma narrativa dinâmica, viva e interessante. Vai se delineando a história da família Terra-Cambará.

A partir dos dois volumes de O retrato – e isso inclui também os três volumes de O arquipélago -, o foco será o personagem dr. Rodrigo Terra Cambará e sua família nuclear: filhos, esposa, irmão, tios. Ele condensa muitas das características do lado Cambará (carisma, intrepidez,

Não se preocupe com a quantidade de personagens, pois todos os livros (ao menos os da edição da Companhia das Letras) vêm com a devida árvore genealógica, e Erico Veríssimo é habilidoso em introduzir personagens aos poucos e lhes dar características muito marcantes. Por isso, eles se tornam quase que pessoas reais, graças a suas contradições, qualidades e defeitos – inclusive, Verissimo coloca personagens históricos misturados com os ficcionais (como Getúlio Vargas, por exemplo), e uns não deixam nada a dever aos outros.

A saga está repleta de dualidades e circularidades, o que aumenta ainda mais o mérito do autor.

As dualidades são opostas, mas ao mesmo tempo complementares, uma precisa da outra para atingir um equilíbrio. O simbolismo de tempovento é muito forte, estando o tempo representando as permanências, enquanto que o vento (o minuano) representa as mudanças bruscas. No caso das permanências, basta perceber que, apesar de as gerações passarem na família, muitos personagens “se repetem”: é o caso das mulheres que comandam a família – e, posteriormente, o Sobrado -: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria. Elas são a mesma personagem em tempos diferentes: as rochas da família, mulheres que enxergam além dos seus próprios olhos (quando velhas, inclusive ficam cegas), e organizam a vida familiar. Quanto às transformações, são marcadas principalmente pelas guerras na região, mortes na família, conflitos.

Outro caso das dualidades complementares são os polos homem-mulher. As personagens femininas da família, como já foi dito, são, em geral, fortes e estáveis. Apesar de estarem conformadas à vida doméstica (como era comum à época), ali exercem seu poder de decisão e de resistência. Elas são, assim como o tempo, a permanência, a continuidade. São essas mulheres que esperam as mudanças e as atitudes dos personagens masculinos – os quais são mais intempestivos, volúveis, e, por isso, efêmeros. Eles representam as mudanças bruscas, como o vento.

Os Terras e os Cambarás também formam uma dualidade que encontra seu equilíbrio dentro da dinâmica familiar: os Terras são fixos, teimosos, resistentes, enraizados. Já os Cambarás, tendem a ser aventureiros, apaixonados, correm riscos.

Outra virtude da saga é mesclar acontecimentos históricos com a ficção; guerras por fronteiras no sul do país, fraudes eleitorais durante o período oligárquico, reviravoltas políticas que culminam na Revolução de 1930, etc. Os contextos são muito bem apresentados, e o autor habilmente coloca nas falas dos personagens opiniões diversas sobre política, religião, economia, ideologias, etc. Ou seja, temos acesso a muitos argumentos e pontos de vista diferentes através dos personagens. É importante ler livros que tragam o diálogo, ainda que ficcional, em tempos – como o nosso – de ameaça à democracia.

Se você tem medo de ler clássicos ou literatura brasileira, procure O continente em alguma biblioteca. Tenho certeza de que não vai achar a linguagem difícil nem a história chata. Verissimo nos brinda com uma escrita maravilhosa, descritiva na medida certa para nos fazer ter sensações e nos situarmos no ambiente da narrativa, mas não excessiva. E a linguagem dele permanece atual e simples, muito fluida e acessível ao leitor brasileiro. Recomendadíssimo!

No canal, fiz uma playlist com todo o diário de leitura de O tempo e o vento: são 11 vídeos em que falo separadamente sobre cada livro (no caso de O continente, falo de cada capítulo).

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Favoritos, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Harry Potter – livros 4, 5, 6 e 7

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 2: livros 4, 5, 6 e 7)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Continuando minhas impressões da releitura da série Harry Potter (para ver a PARTE 1, clique aqui!):

Harry Potter e o Cálice de Fogo

O Cálice de fogo talvez seja um dos volumes com mais ação da saga; o Torneio Tribruxo e a ascensão de Voldemort são os motores de toda a aventura e tensão do livro. Acho que gostei mais dele na releitura do que na primeira vez que o li!

Não me lembrava de quanto o Rony está rabugento na primeira metade deste livro! Quase todos os seus comentários são negativos, ou xingando, ou virando o nariz para alguma coisa; me irritou um pouco. Ah! E é neste volume que aparece a odiável repórter/mentirosa Rita Skeeter.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

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Esse era o livro de que menos gostava na saga na primeira vez que a li. Isso mudou. Mas a irritação com o livro veio porque Harry está num momento de muita tensão: com 15 anos (hormônios!), Lord Voldemort acaba de retornar com força (mas com cautela, escondido, o que faz com que pouca gente acredite no relato de Harry a respeito de seu retorno), e Harry parece uma pilha de nervos. Conversar com ele durante esse ano equivale a pisar em ovos: é necessário extremo cuidado com o que se diz e como se diz, senão ele “explode” e tem um chilique.

Agora, aos pontos positivos: gosto de acompanhar os alunos se preparando para os N.O.M.s – ou seja, a “vida normal” transcorrendo na escola -, e principalmente a criação do cargo de Alta Inquisidora de Hogwarts, dado à detestável Dolores Umbridge. Esse aspecto do livro é muito sombrio, pois muito real. Ele fala a respeito de censura, manipulação política e midiática, tortura, leis autoritárias. Ou seja, Umbridge e o Ministério da Magia implantam uma verdadeira ditadura em Hogwarts, para impedir que Harry Potter alerte a todos a respeito do perigo iminente do retorno de Voldemort. O objetivo ali é calá-lo à força.

Reparei que Gina Weasley tem realmente um papel crescente nos livros. Da primeira vez que li, pensava que ela era muito apagada, apenas a irmãzinha de Rony e que de repente, torna-se importante. Mas não: sua personalidade forte sempre esteve ali, a conta-gotas.

E é incrível como não lembrava de quase nada deste livro. Me espantei especialmente com a visita de Harry & amigos a Saint Mungus, o hospital bruxo (sério, isso tinha sido simplesmente apagado da minha mente!), entre outras coisas.

É um livro onde muitas coisas são misteriosas a princípio, e é uma delícia acompanhar o trio por mais um ano em Hogwarts. Várias coisas acontecem em A Ordem da Fênix. Gostei muito mais do livro nesta releitura!

Harry Potter e o enigma do príncipe

Este, reli durante a Maratona Literária de Inveno (#MLI2015). Mas foi uma releitura que mais pareceu “leitura inteira”! Fiquei abismada com o quão pouco me lembrava do livro – com exceção de algumas cenas bem marcantes…

Não lembrava que havia uma cena no início do livro em que Narcisa Malfoy de fato firma o voto perpétuo (lembrava apenas do cumprimento desse voto), nem que Dumbledore ia buscá-lo na casa dos Dursley, nem que Harry passava essas férias de verão nA Toca, nem que eles visitavam o Beco Diagonal e a loja Gemialidades Weasley, etc., etc., etc.!

Gina continua ficando mais e mais interessante (como pude ser #TeamCho por tanto tempo?!), sua personalidade é uma das mais legais e ousadas da série.

Dumbledore está muito presente neste volume (diferentemente do Ordem da Fênix), e de maneira mais humanizada, mais próxima de Harry (não simplesmente como o diretor da escola distanciado). A penseira aparece bastante para nos fazer tomar conhecimento do passado de Voldemort / Tom Riddle, e este é um recurso genial de Rowling para fazer flashbacks!!!

 

Harry Potter e as relíquias da morte

Caramba, que livro bom! Definitivamente, reler a série toda, agora adulta, me deu a possibilidade não só de compreender melhor todas as pistas que Rowling deixou ao longo dos livros, mas também de retomar os últimos livros. Apesar de terem sido, obviamente, os que li por último, não eram eles que mais tinham “ficado” na minha cabeça. É como se as cenas dos três primeiros livros tivessem sido mais marcantes para mim na infância. Agora, percebo que os três últimos constituem o fechamento perfeito para a série.

Neste volume, Lord Voldemort e seus seguidores tomaram o poder de fato, e todos aqueles que apoiam Harry Potter, apoiaram Dumbledore e são contra o Lorde das Trevas, serão perseguidos. Por isso, o trio (e quase toda a Ordem da Fênix) passa a viver na clandestinidade, mudando-se de um ponto remoto da Grã-Bretanha ao outro. A missão deles é identificar objetos que são horcruxes e destruí-los. Mas eles  têm problemas enormes: não sabem por onde começar, muito menos como terminar.

Acontece muita muita muita coisa neste último volume e, em certos momentos, domina um tom melancólico.

Na minha opinião, a maneira como Rowling resolve a história, o final, é perfeita. Pensava que ela iria deixar metade do público leitor de Harry Potter insatisfeita, mas a mulher é um gênio. Não subestimou os leitores nem os personagens, e a história praticamente não teve lacunas ou pontas soltas ao terminar. Antigamente, odiava o último capítulo (o último de todos), mas hoje entendo o porquê de ela ter feito isso, embora ainda não goste dele.

Nem preciso dizer que chorei, né? Mas o mais impressionante foi que chorei lendo a dedicatória e as epígrafes. Ou seja, antes de começar o livro. Vai entender. Coisa de fã.

 

Sobre a série inteira:

É notável a capacidade de J. K. Rowling de manter o nível de tensão alto durante a série inteira; são raros os capítulos em que nada acontece. Ela mostra detalhes aparentemente supérfluos, mas que mais tarde serão explicados (por exemplo, em A Câmara Secreta, Harry escorrega numa poça d´água – algo inútil a princípio -, mas que se revelará uma pista importante sobre o monstro que se esconde por trás das paredes). Isso sem falar de aspectos que não são explicados no próprio livro, mas apenas no fim da série. São elementos que dão um ótimo ritmo de leitura; não é à toa que tantos leitores se formaram com Harry Potter.

Durante a releitura da série inteira, não pude me esquivar de pensar nos personagens como os atores dos filmes (aliás, perfeitamente escolhidos para os papéis, pela aparência, e também pela personalidade), coisa que não me agrada tanto, porque perdi aquele elemento puramente imaginativo da primeira vez que li e os filmes ainda não haviam sido lançados. Mas isso era inevitável que acontecesse, e já era de se esperar.

Aliás, dias antes de começar a reler, conversei com minha amiga Patrícia sobre isso, e ela comentou que não tinha vontade de reler Harry Potter pois não queria perder a sensação que tinha tido da primeira vez que leu. Achei um argumento extremamente válido. Dito isto, respeito a posição de quem pensa assim, mas amei ter relido e não me arrependo nem por um minuto.

Os personagens são incrivelmente bem construídos e complexos, dificilmente vemos apenas um lado de algum dos personagens – mesmo dos vilões. Rowling explora de maneira magnífica todas as nuances deles: momentos de insegurança, dúvida, coragem, fragilidade, força, raciocínio, conflito, arrogância. O destaque é para Snape, na minha opinião um dos melhores personagens da literatura (sim, de todos os tempos).

Sem dúvida a série apresenta um crescente em relação a amadurecimento. Não só os personagens amadurecem, mas também a história como um todo, a qual vai-se tornando mais e mais sinistra ao longo dos livros. Gosto muito de como a autora revela as coisas aos poucos, sem pressa, livro a livro – e, ainda assim, sem enrolação. É descritiva e objetiva na medida certa. Ou: Rowling “não dá ponto sem nó”.

Por isso, recomendo a quem quiser ler Harry Potter que não pare de lê-lo após ler apenas um ou dois livros. A obra toda consiste nos sete, não dá para parar no meio e compreender sua grandeza. Para quem já é adulto, isso pode ser um pouco penoso, já que os primeiros apresentam características mais juvenis. Reafirmo: continue lendo. Pelo menos nos dois volumes derradeiros, você vai se apaixonar.

Por último, não sou a Hermione mas gostaria de deixar meu protesto contra as quebras de regras da escola (e da vida!) que Harry, Rony e a própria Hermione praticam nos primeiros livros. Eles acham que vão ser expulsos de Hogwarts umas dez vezes e, no final das contas, só perdem pontos da Grifinória (e às vezes os ganham!) por isso, e recebem algumas punições do tipo lustrar troféus de quadribol da escola. Vou dizer que Hogwarts foi muito permissiva e eles, imprudentes. (Isso significa que agora sou adulta, eu acho.)

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e o Cálice de Fogo / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
535 páginas.

Harry Potter e a Ordem da Fênix / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
472 páginas.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
704 páginas.

Harry Potter e as Relíquias da Morte / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
551 páginas.

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Favoritos, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Harry Potter – livros 1, 2 e 3

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 1: livros 1, 2 e 3)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Não vou falar sobre a incrível J. K. Rowling, nem preciso descrever a história de Harry Potter (se você não a conhece, pode ser um E.T., e recomendo que vá logo preencher essa lacuna na sua vida).

O fato é que sou uma daquelas que cresceu com os livros de Harry. Não foram especificamente estas as obras que me fizeram começar a ler (para isso, tive Pedro Bandeira, Maurício de Sousa, entre outros), mas com certeza Harry Potter foi uma série das mais marcantes em minha vida. Comecei a ler o primeiro volume por volta de uns 12 anos (não tenho certeza, talvez aos 11) e por influência do Pedoro, meu amigo de infância, que havia recomendado muito o livro (acho que já contei essa história brevemente). O resto, já sabemos (como aconteceu com milhares de crianças e jovens no mundo inteiro): viciei e fiz minha pobre mãe correr atrás de cada novo lançamento, ano a ano, nas livrarias, até o lançamento do derradeiro sétimo livro, em novembro de 2007 no Brasil – ok, no caso do último volume, comprei por conta própria, pois já estava na faculdade.

Harry Potter foi minha série de livros da adolescência. Quando terminei de ler o último, fiquei altamente melancólica com o fim (definitivo) daquela fase da minha vida.

Passados sete anos da minha última leitura potteriana, me bateu uma vontade de reler a série. Não sei exatamente porquê, talvez por achar que o blog não estaria completo sem um post sobre essa obra que foi fundamental para mim, talvez por saudades, talvez por curiosidade. Quis ler de novo, agora sabendo a história completa; procurando pistas para as respostas de enigmas que anteriormente passaram despercebidas e coisas do tipo. Não costumo reler livros (talvez agora o faça mais, pelo menos para comentar minhas impressões de leitura sobre meus favoritos), mas tomei coragem e valeu muito a pena. Harry Potter não decepciona. 🙂

Nunca tive a coleção completa dos livros; tive sim quase todos os volumes (acho que sempre me faltou o primeiro) naquela capa antiga, que eu amava, aliás. Porém, no início de 2014, quando me mudei para Belo Horizonte, fiz uma grande doação de livros, e nessa, lá se foram meus antigos Harry Potters. Com exceção do Prisioneiro de Azkaban, que guardei por ser meu favorito, e agora dei de presente para meu irmão (detalhe fofo: no verso da capa, estavam escritos meu nome e o da minha irmã, com data do ano 2000. Meu irmão só nasceu em 2003, então acrescentei o nome dele ao nosso, e a data em que presenteei-o a ele). Mas quando fui procurar para repor minha coleção (vocês não achavam que eu viveria sem ter os livros, né?), não encontrei a coleção com as capas antigas e coloridas em português. Acabei comprando uma edição especial, de capa branca.

Farei um apanhado de coisas que me chamaram atenção nesta segunda leitura.

Harry Potter e a Pedra Filosofal

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O primeiro volume é obviamente o que eu me lembrava menos, e não sei porquê me surpreendi (novamente!) com o que eu já sabia: a ótima escrita de Rowling, descritiva na medida certa, objetiva quando necessário. E também não me recordava da enorme quantidade de informação dada no início do livro: os quatro primeiros capítulos já delineiam a história de toda a série: a morte dos pais de Harry e sua sobrevivência, sua convivência irritante com os Dursley na rua dos Alfeneiros, a presença de bruxos misturados no mundo trouxa, a existência da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Nos capítulos seguintes, temos mais descobertas: o funcionamento do mundo bruxo, a apresentação aos amigos Rony Weasley e Hermione Granger (a Hermione só vira amiga deles após a metade do livro!!! Antes disso, os meninos a consideram chata e esnobe), as novidades de Hogwarts, quadribol e, é claro, a aventura final: o resgate da Pedra Filosofal das mãos de um fraco Voldemort que renasce como ameaça. Esse enfrentamento só acontece no penúltimo capítulo, e é bem rápido. Na época em que li pela primeira vez, achei tudo mais extenso, prolongado.

Ainda é uma história mais ingênua (muitos a classificam como “infantil”), pois também é um período em que o protagonista é criança e tem apenas onze anos. Além disso, é o tomo de construção do cenário e dos personagens principais, então descreve alguns detalhes do mundo bruxo para situar o leitor, o que não me incomodou nem um pouco.

Alguns personagens que aparecem bastante no primeiro volume vão sumindo ao longo dos livros, embora não desapareçam por completo: os fantasmas das casas (especialmente o poltergeist Pirraça), Filch e sua gata madame Nor-r-ra. Ainda falando sobre personagens, Dumbledore é um senhor absolutamente maluco neste primeiro volume!

Os antagonistas de A pedra filosofal são Filch, Snape e Draco Malfoy (os três extremamente odiados por Potter), além do próprio Voldemort, aqui apenas uma “sombra” dependente e escondida na nuca do professor Quirrell, sob seu turbante púrpura.

Harry Potter e a Câmara Secreta

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O forte de A câmara secreta é mesmo a trama e como as peças do quebra-cabeças vão se encaixando para que descubramos o que diabos está acontecendo em Hogwarts. É muito interessante esse caráter de suspense do livro, de resolução de mistério. Provavelmente por isso é um dos meus preferidos da série. Essa leitura foi muito parecida com a que fiz pela primeira vez, me surpreendi (de novo!) em vários momentos.

Neste livro, novamente Filch, Madame Nor-r-ra e os fantasmas têm papéis importantes que serão diluídos nos próximos livros. Já é neste volume que Harry conhece A Toca, casa dos Weasley (pelo que me recordava, isso só acontecia depois, no terceiro livro), e é inacreditável o quão irritante é o professor Lockhart!

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

O terceiro é, sem dúvidas, meu livro preferido da saga. O que o Câmara Secreta faz num nível mais simples em relação a pistas e revelações, o Prisioneiro de Azkaban o faz com maestria. Relendo agora e já sabendo de toda a história, é incrível como Rowling espalha as pistas pelos mais diversos capítulos, como se fossem detalhes irrelevantes, mas que no final, farão todo o sentido!

O que mais gosto aqui é justamente o grande volume de informações sobre o passado de Harry e de sua história (a morte de seus pais e circunstâncias desconhecidas deste episódio); fora que a presença (na verdade, uma presença invisível e incerta) de Sirius Black, foragido de Azkaban, torna a narrativa mais tensa e interessante. Também simpatizo muito com o personagem Remo Lupin, professor de Defesa Contra As Artes Das Trevas deste volume.

O final é frenético e fantástico, dá aquela sensação de friozinho na barriga e vontadezinha de chorar. Maravilhoso.

(Para que o post não ficasse mais longo que já está, preparei uma PARTE 2, com as impressões de leitura dos livros 4, 5, 6 e 7, e também o sentimento sobre a saga como um todo! Clique aqui para ver a PARTE 2!)

 

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e a Pedra Filosofal / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
223 páginas.

Harry Potter e a Câmara Secreta / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
252 páginas.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
318 páginas.

Padrão
Distopia, Ficção, Filme, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Trilogia Divergente

 Trilogia Divergente, de Veronica Roth

 

*ATENÇÃO: esta é uma resenha longa pois fala sobre três livros e no final, faço um comentário sobre o filme Divergente.

Veronica Roth é uma escritora norte-americana nascida em Nova Iorque em 1988. Iniciou o lançamento da série de livros em 2011, os quais se revelaram um sucesso imediato (best-seller do NY Times e o primeiro lugar entre os mais vendidos).

 

As sinopses de cada livro serão descritas a seguir, separadamente. Ao final, faço um apanhado com comentários e minha opinião sobre a série em geral.

Volume 1:  Divergente

Este primeiro volume da trilogia nos situa no mundo pós-apocalíptico de Chicago, em algum período não especificado (como acontece nas distopias, no futuro): uma cidade cheia de prédios de tijolos, concreto, cabos de energia elétrica, mas parcialmente abandonada. Esta sociedade dividiu-se, em algum momento do passado, em cinco facções, cada qual com seu papel social e suas características (qualidades e defeitos):

A Abnegação valoriza o altruísmo e condena o egoísmo. É a facção responsável por governar e organizar a cidade (teoricamente, pensam no bem comum, e não em proveito próprio). Cuidam dos sem-facção. Seus membros se vestem da cor cinza.
A Franqueza é a facção que valoriza a honestidade acima de tudo, ali a mentira é banida. Cuidam da justiça e seus membros se vestem de preto e branco.
A Amizade desgosta de disputas e evita confrontos; cuida da alimentação da população, vive em fazendas além dos muros da cidade. Na Amizade, as pessoas se vestem de vermelho e amarelo (no filme, é laranja).
Erudição é a facção do conhecimento, onde a ignorância é considerada a origem de todo o mal. Os eruditos vestem-se de azul claro (no filme, qualquer tom de azul).
A Audácia é responsável pelo policiamento da cidade, seus membros são destemidos, e não raro, bem sem noção. Vestem-se de preto.
Existem também os sem-facção, que são pessoas que não completaram seus treinamentos dentro de uma facção ou foram expulsas de lá. São párias da sociedade, e fazem os trabalhos mais indesejados por aqueles que têm facção: motoristas, faxineiros, etc.

As facções se organizam geograficamente como se fossem bairros, e cada uma delas reflete seus valores: a Abnegação possui prédios simples, cinzentos, quadrados e sem adornos; a Erudição, prédios envidraçados, iluminados e repletos de livros e computadores; a Audácia, um local subterrâneo, cheio de irregularidades, e assim por diante.
(Isso se parece muito com Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, em que a sociedade é dividida em castas para que possa haver uma harmonia social, e cada uma delas se veste de uma cor e tem uma função dentro do corpo social. Em 1984, de George Orwell, existem também os “sem-facção”, são os proletas.)

O início do livro gira em torno de uma escolha que todo adolescente deve fazer aos 16 anos: em qual facção quer ficar para o resto de sua vida. Para facilitar, antes da escolha há um teste que direciona suas habilidades e encaixa sua maneira de pensar em alguma das cinco facções.

A protagonista do livro chama-se Beatrice, tem 16 anos e vai participar da cerimônia de escolha em breve. Vive com sua família (pai, mãe, irmão) na Abnegação e, portanto, seus valores sempre foram ligados ao altruísmo, ajudar os outros, nunca pensar em si mesmo. Mas Beatrice sente-se diferente. Ela não tem certeza de que é tão altruísta assim, às vezes se preocupa com ela mesma mais do que deveria e sente não pertencer totalmente à sua facção.

Ao fazer o teste, que consiste numa simulação em que ela deve fazer algumas escolhas, seus testes são inconclusivos. Isto é alarmante, uma vez que raramente acontece. Significa que Beatrice tem tendências para mais de uma facção (é uma divergente), e isso é considerado perigoso por alguns líderes – é, de certa maneira, uma fuga da ordem estabelecida. Portanto, ela deve manter essa informação em segredo, e fazer sua escolha (em qual facção deve ficar para o resto de sua vida?) baseada em seus instintos.

O que eu contei é só o início do livro. Beatrice passará por muitas provações ao longo da história. Se você não quiser saber o que acontece, não leia a seguir. Pule para o final (minhas impressões da série). Não acho que o que vou contar seja spoiler, mas pode ter gente que considere. Vou contar o que acontece, em linhas gerais, no livro; o legal mesmo é saber como tudo acontece.

+ info:
Divergente / Veronica Roth; trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
502 páginas.

 Ainda sobre o livro 1 (SPOILERS): Beatrice acaba por escolher a facção Audácia, o que surpreende a todos, inclusive sua família. Ela é a única transferida da Abnegação para a Audácia, os outros transferidos vêm de outras facções (Erudição e Franqueza). A partir de sua escolha, ela deve se adaptar a um modo de vida completamente diferente (em alguns sentidos, oposto ao que estava acostumada): extrovertido, agressivo, de grande resistência física e psicológica, e sem seus pais e irmão. Para ser aceitos na Audácia, os novatos devem passar por um treinamento muito duro que envolve combate, manejo de armas, enfrentamento de medos; se não forem aprovados, se tornarão sem-facção. Nesse meio-tempo, Tris (o novo nome de Beatrice) faz amizades e envolve-se amorosamente com Quatro, um dos instrutores do treinamento. Juntos, eles descobrem que a facção Erudição se associou aos líderes da Audácia, e desenvolveu um “soro da obediência” o qual é injetado em todos os membros da Audácia, a fim de criar um exército obediente (praticamente zumbi!) para combater sua ex-facção, a Abnegação (onde ainda estão seus pais) e tomar o poder. Tris não é atingida pelo soro por ser uma divergente, e fica consciente durante todo o processo. Ela não pode revelar que não está sob o efeito do soro, se não, saberão que é uma divergente e com certeza ela não sobreviverá.

Volume 2: Insurgente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro livro.

Após uma dura batalha contra Jeanine, a líder da Erudição, Tris, Quatro e algumas outras pessoas fogem para se esconder na Amizade, as fazendas no entorno da cidade, cuja atitude é de aparente neutralidade. Ali, descobrem algumas informações sobre a guerra que está por vir envolvendo as facções, enquanto cada uma escolhe um lado e Tris e Quatro são foragidos da Erudição e da Audácia.

Neste volume, conhecemos melhor as outras facções (Amizade, Franqueza), e a trama toda corre em torno de descobertas a respeito dos planos da Erudição (por que atacaram a Abnegação tão impiedosamente? O que eles pretendem? Como realizarão tudo isso? Qual será o futuro da sociedade de facções?) e da caça a Tris e Quatro. O romance entre os dois fica mais real neste volume, com brigas, irritações, dúvidas e grandes dilemas. O perigo de morte e traição está sempre próximo.

+ info:
Insurgente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
511 páginas.

Volume 3: Convergente

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro e ao segundo livros.

Neste terceiro volume, alguns personagens descobrem a verdade sobre sua sociedade e todo o sistema de facções. Digamos que eles saem da Matrix e passam a conhecer o propósito e a intenção de tudo aquilo, o que obviamente bagunça suas crenças e certezas.

Achei um pouco esquisita uma mudança que a autora fez neste livro: ela intercala capítulos na visão de Tris e na visão de Quatro, coisa que ela nunca havia feito nos livros anteriores, por isso achei estranha. Mas é fácil nos acostumamos a esse sistema, e tal escolha faz sentido no final das contas.

Convergente é mais lento que os outros, porque tem um volume maior de informações e menor de ações (não se engane, ainda assim tem muita coisa acontecendo!), demorei mais para terminar que os demais. Ainda assim, o final é eletrizante, vale muito a pena! Quando terminei de lê-lo, até fiquei em dúvida se este não foi o volume mais interessante. Talvez não, por conta da originalidade da narrativa do primeiro, mas ainda não me decidi.

+ info:
Convergente / Veronica Roth, trad. Lucas Peterson.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
526 páginas.

O que achei da série:

Distopia é um gênero que vem tomando volume nos últimos anos, especialmente entre jovens. A distopia é, na realidade, a antítese da utopia (uma sociedade ideal, com um governo incorruptível e que resolve os problemas visando sempre o bem comum, como ocorre em A República, de Platão, ou em Utopia, de Thomas Morus). Segundo a Wikipedia, as distopias são “geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, ‘caem as cortinas’, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.” A mesma página da Wikipedia lista características que comumente encontramos na literatura distópica (como 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley), que aqui reproduzo:

  • Tem conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro;
  • Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor; [frequentemente isso ocorre por oposição, ou seja, o autor apresenta uma sociedade da qual ele discorda politicamente*]
  • Exploram a estupidez coletiva; [ou a fácil manipulação da população]
  • O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo;
  • Discurso pessimista, raramente “flertando” com a esperança; [geralmente, o discurso da elite que governa está pautado na felicidade calma e estável, ou seja, em como a sociedade está boa agora, controlada, em ordem, a fim de não incitar grandes convulsões sociais. A liberdade é um valor temido por esses governantes]
  • Violência banalizada e generalizada.

* Os comentários em itálico e entre colchetes são acréscimos meus.

Particularmente, sou muito fã de distopias, pois acredito que elas escancaram falhas de nossa própria sociedade (ao ler 1984, minha cabeça “explodiu” com a questão da vigilância permanente, falta de privacidade, controle total; em Admirável mundo novo, temos uma política do pão e circo levada ao extremo, com drogas “da felicidade” sendo distribuídas à população a fim de que, drogada, ela seja manipulável e acrítica).

Um exemplo atual de distopia que fez muito sucesso foi a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, a qual também traz essa questão do pão e circo muito ampliada pelo reality show que é a arena dos Jogos.

Divergente se encaixa nesse molde, e ainda pertence ao gênero chamado de “jovem adulto” (ou young adult em inglês), livros que tratam da transição entre a adolescência e a vida adulta dos personagens principais, e que têm tido enorme aceitação no mercado editorial brasileiro.

Gostei bastante da ideia da autora das facções e, principalmente, do processo de seleção / escolha que os jovens têm que enfrentar aos 16 anos – uma escolha permanente e irreparável. Me fez pensar em uma versão mais extrema dos vestibulares, por conta de toda pressão, da sensação que temos ao prestá-lo de que aquela é a nossa única chance e não podemos falhar, etc.

De escrita MUITO fácil, a leitura é rápida. O tempo todo na série tem alguma coisa acontecendo, e ficamos curiosos para saber do que se trata. A narrativa é em primeira pessoa, pelos olhos de Tris – exceto no terceiro volume, onde se intercalam as visões de Tris e de Quatro como narradores. Os mistérios do primeiro livro não são tão misteriosos assim (é possível encaixar as peças do quebra-cabeça da trama bem antes que a protagonista o faça, o que inevitavelmente nos faz pensar que ela é um pouco lerdinha de vez em quando). Em Insurgente e Convergente, parece que melhora um pouco nesse sentido.

Sobre Tris, ou Beatrice, nossa protagonista, ela é bem “real”: cheia de dúvidas (assim como Katniss de Jogos Vorazes, mas menos chata e insegura), baixinha, não muito bonita (seu próprio par romântico admite isso!), e ainda assim uma heroína nos moldes tradicionais (no final deste post falo um pouco sobre a jornada do herói proposta por Campbell), pois é corajosa, segura e tem princípios e caráter fortes. Uma personagem bem construída.

Essa foi uma heroína que não me irritou (diferentemente de Ayla!), com exceção dos momentos pseudorromânticos do primeiro livro, em que ela não percebe que o cara gosta dela nem quando ele põe a mão em sua cintura, ou aproxima o rosto de seu queixo e fica olhando-a nos olhos e coisas do tipo. Aí achei ela tapada mesmo. Ainda sobre o romance em Divergente, tirou um pouco o foco da parte interessante (a percepção da manipulação, a tensão dos treinamentos, etc.), mas entendo que é algo que adolescentes gostam de ler (eu é que estou lendo na época errada da vida!). Se não acrescenta muita coisa (uns dramas de vez em quando), também não é algo que atrapalhe a história. A partir do segundo livro, o romance toma um papel mais crucial na história, deixando de ser dispensável.

A violência está presente: armas, lutas, guerras e sangue são constantes na trilogia, e por isso não é muito recomendável para crianças. Adolescentes e adultos com certeza já viram coisas piores nos telejornais.

É uma trilogia que intercala questões mais internas (dúvidas, decisões, dor, morte, culpa) e faz pensar sobre nosso mundo – questões como vigilância e (falta de) privacidade, manipulação, governo, confiança, ordem e tensão social, pobreza, poder.

Valeu a pena ler. Fiquei com uma baita “ressaca” depois desse livro (coisa que não é tão comum para mim), pensando no ambiente deles, nos personagens, etc… :/ Precisei de, tipo, um dia para me recuperar.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público adolescente e jovem adulto)

Divergente, filme, 2014

Para falar a verdade, assisti ao filme antes de ler o livro, e foi ele que me despertou a curiosidade para a história. Achei um filme divertido, embora algumas coisas fiquem no ar (é claro, não dá para incluir tudo que tem num livro de 500 páginas em um filme de duas horas).

Depois que li, percebi que algumas coisas foram modificadas para se encaixarem no filme, mas nada que comprometa muito a história. A questão do romance também me incomodou um pouquinho, mas provavelmente seja porque esse não é o tipo de cena que eu mais valorize. Como é de se esperar, alguns personagens são mais parecidos com as descrições do livro do que outros: me chamaram muito a atenção Quatro e a mãe de Tris. A própria protagonista está bem parecida.

Se está em dúvida se deve ler o livro ou não, veja o filme. Mas saiba que o livro será muito parecido (então se você assistir ao filme antes, já descobrirá o que acontece no livro; as cenas ficam na cabeça na hora de ler). Abaixo, no “+ info”, há um link para o trailer.

+ info:
Divergente / Direção: Neil Burger.
– Estados Unidos, 2014.
Ficção científica, aventura.
2h19min.
Trailer (legendado)

classificação: 4 estrelas

Obrigada pela leitura!
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2014, Ficção, Filme, Objetiva, Resenha, Séries e trilogias

Trilogia Fronteiras do Universo

 Trilogia Fronteiras do universo, de Philip Pullman

 

*ATENÇÃO: esta é uma resenha longa pois fala sobre três livros e no final, faço um comentário sobre o filme A bússola de ouro. E tem várias ilustrações bonitas.

Mantive a grafia apresentada na edição do livro, que contém muitas palavras com letra maiúscula.

Philip Pullman é um escritor britânico que nasceu em 1967 e continua vivo até hoje (agosto de 2014). Sua história está ligada à Universidade de Exeter em Oxford, onde ia para ler e prestar serviços temporários, e depois veio a tornar-se professor de crianças e na Universidade de Westminster (Londres). Ele eventualmente deixou o magistério para tornar-se escritor em tempo integral. Ganhou diversos prêmios e escreveu esta série de que tratarei, chamada Fronteiras do universo (no original em inglês, His dark materials). A trilogia fantástica fez muito sucesso pelo mundo e Pullman recebeu prêmios importantes por ela. Existem outros livros, além da trilogia, que seguem sua mesma lógica, cujos títulos em inglês são: Lyra´s Oxford (2003), Once upon a time in the North (2008) e The Book of Dust (ainda não lançado). Este último contará também com Lyra como protagonista e tratará da origem do Pó, a história da Faca Sutil e esclarecimento sobre alguns personagens da trilogia e seus relacionamentos [as informações sobre os demais livros foram retiradas do blog Epílogo].

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As sinopses de cada livro serão descritas a seguir, separadamente. Ao final, faço um apanhado com comentários e minha opinião sobre a série em geral.

Volume 1: A bússola dourada

Este primeiro volume se passa em um mundo parecido com o nosso (inclusive geograficamente), mas não igual. Conta a história de Lyra, uma garota curiosa e corajosa que cresceu na Universidade de Oxford, mais precisamente na faculdade de Jordan. Cercada de eruditos homens Catedráticos e política, Lyra cresceu sob a tutela desses homens – especialmente do Reitor -; seu tio Lorde Asriel a vinha visitar de vez em quando, e também tratar de política. Lyra é moleca, vive brincando pelos telhados e porões da Jordan, mesmo isso não sendo permitido, com seu amigo e ajudante de Cozinha, Roger. Tem rivalidades com crianças de outras vizinhanças e não foge de uma briga (não raro, provoca-a). A garota, que ainda não atingiu a puberdade, está mais preocupada em brincar do que com a política que a rodeia no mundo dos adultos – mas logo ela se verá envolvida em uma trama complexa envolvendo tudo isso.

Lyra e Roger brincando pelos telhados da Jordan

Neste mundo descrito por Pullman, todas as pessoas são acompanhadas por daemons, seres que assumem a forma de animais. Os daemons representam a “alma” de cada pessoa, um pouco de sua personalidade, a sua consciência (podemos dizer que o daemon de Pinocchio é o Grilo Falante!). Sendo assim, os daemons das crianças são ainda indefinidos; podem modificar sua forma. Por exemplo, Pan (Pantalaimon, daemon de Lyra) inicia o livro com um formato de mariposa, para melhor poder se camuflar numa sala na penumbra (já que ele e Lyra estão explorando um local proibido); depois, transforma-se em arminho para dormir confortavelmente. Dependendo inclusive da sua profissão (dom?), seu daemon toma alguma forma. Sabemos que os daemons de criados (mordomos, empregados domésticos) tendem a ser cães – dependendo da “categoria” de servente, o cão seria também “superior”, de uma raça mais valorizada. Esses seres falam e têm expressões corporais muito transparentes, de modo que podemos ver reações internas das pessoas pelos comportamentos de seus daemons, nem sempre controláveis.

Algo interessante que me chamou atenção foi a denominação dada a muitos adultos no início do primeiro livro: o Administrador, o Reitor, o Capelão, o Bibliotecário, a Governanta. Quase como se não tivessem rostos, fossem entidades (aos poucos, sim, vamos sabendo um bocadinho sobre cada um desses adulto e alguns ganham nomes próprios). Um pouco como desenhos animados em que não conseguimos ver os rostos dos adultos, somente suas pernas (desenhos que levam em conta a perspectiva infantil).

Desenhos animados que mostram o ponto de vista infantil: os adultos são apenas corpos – geralmente, nem nome têm: são apenas “pai”, “mãe”, etc.

Neste mundo apresentado por Pullman, a Igreja é a instituição máxima (não fica claro qual Igreja, mas parece uma mistura de catolicismo com protestantismo: cita-se João Calvino, a Inglaterra já era oficialmente anglicana à época da escrita do livro, mas também a estrutura eclesiástica se parece muito com a da Igreja católica em certos momentos de sua história) que controla a vida de todos através de seus tentáculos, órgãos descentralizados com nomes um tanto quanto misteriosos como Magisterium, Colegiado dos Bispos, Tribunal Consistorial de Disciplina, Conselho de Oblação. Esses órgãos nem sempre são unidos; aliás, muitas vezes eram mesmo rivais. A faculdade Jordan, lar inicial de Lyra, é a instituição de maior autoridade em estudos teológicos experimentais (algo como física) – e, portanto, possui enorme poder político e prestígio num mundo comandado pela Igreja. Muitos estudos ali financiados e conduzidos são considerados de alta importância e, não raro, são secretos.

A narrativa ocorre em terceira pessoa (ou seja, o narrador é onisciente). Tal escolha do autor permite que o leitor transite entre núcleos da história e acumule informações diversas, as quais nem sempre todos os personagens têm acesso. Por exemplo, ora estamos vendo Lyra conversando com as crianças pelas ruas de Oxford; ora vemos uma conversa entre o Reitor e o Bibliotecário – conversa esta que outros personagens não ouvem, e nos dá ideia da história total.

Não conseguimos distinguir o tempo em que se passa a história, já que se passa em um universo paralelo; parece uma mistura passado e futuro. Explico: existem diversas tecnologias (instrumentos sofisticados) que se misturam com elementos como lamparinas e velas para iluminação, prédios de pedra, zepelins e tinas de madeira para tomar banho.

Após explicar todo esse contexto, podemos falar do enredo: Lyra presencia reuniões proibidas para ela (entre Catedráticos e seu tio), o que lhe abre os olhos a respeito de diversas coisas no mundo adulto: expedições para o Norte, a cabeça decepada de um explorador que investigava assuntos considerados perigosos, uma substância chamada Pó e evidências de cidades invisíveis.

Lyra e Pan escondendo-se no armário numa das primeiras cenas do livro. É aí que eles tomam contato com parte da verdade do “mundo adulto”.

Repentinamente, crianças – geralmente pobres e negligenciadas por suas famílias – começam a desaparecer da vizinhança. O boato é de que alguém as está sequestrando, e essas pessoas são apelidadas de Papões. Sabemos que (isso não é um spoiler, ok?) quem sequestra as crianças é uma jovem muito atraente, perfumada e irresistivelmente sedutora, que tem por daemon um macaco de pelagem dourada. Sua suavidade, carisma e (aparente) bondade “enfeitiça” as crianças a seguirem-na e a se conformarem à situação de prisioneiras. É neste momento que Roger, o grande amigo de Lyra, some da mesma maneira que outras crianças.

Lyra toma como missão encontrar seu amigo Roger de qualquer maneira, enquanto diversas coisas acontecem com ela. Nesse meio-tempo, o Reitor entrega à garota um instrumento chamado aletômetro, que é a tal bússola dourada, com a incumbência de descobrir o que é, como funciona e de manter o objeto protegido. É na realidade um objeto que mostra respostas, caso seu portador saiba fazer as perguntas corretas e interpretar seus simbolismos.

O aletômetro

Com a ajuda do aletômetro e de diversos aliados inusitados (gípcios, bruxas, um urso de armadura, um aeróstata), Lyra vai atrás de Roger, ao mesmo tempo em que tem que fugir de diversos perigos e descobre cada vez mais peças do quebra-cabeça.

(O final do livro é bem interessante! 🙂 )

Ah! Fiz um teste em um site (em inglês) para ver qual seria o meu daemon (são vááárias perguntas!), vou deixar no final do post.

 

+ info:
A bússola dourada / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
417 páginas.

 

Volume 2: A faca sutil

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro livro.

Em A faca sutil, Lyra atravessou a fronteira que existe entre dois mundos, e descobre um terceiro (o nosso). Cada mundo tem suas especificidades (como os daemons, no de Lyra; os carros, no nosso; ou os Espectros, no mundo em que Lyra inicia o livro), mas pode haver trânsito de um para o outro (embora não saibamos tudo a respeito disso)

Juntamente com um amigo, chamado Will (proveniente da Oxford que conhecemos, da Inglaterra do nosso mundo), Lyra agora está em busca de mais respostas sobre o Pó, os universos paralelos e também em busca de pessoas: Lorde Asriel, Dr. Stanislaus Grumman (o explorador cuja cabeça aparece decepada no primeiro livro!), John Parry (pai de Will). Com a ajuda do aletômetro, da faca sutil, outro objeto com propriedades importantes para a história, e de antigos e novos amigos, Lyra enfrenta mais uma série de desafios.

Lyra e Will

Portal entre dois mundos

É uma narrativa muito viva o tempo todo, dificilmente ficamos entediados. Tive a impressão de que neste segundo volume os capítulos são maiores.

+ info:
A faca sutil / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
370 páginas.

 

Volume 3: A luneta âmbar

*ATENÇÃO: a partir daqui, com certeza haverá spoilers em relação ao primeiro e ao segundo livros.

O maior dos três volumes, A luneta âmbar vai ainda mais fundo nos temas que permeiam a série toda: o Pó, os diferentes mundos, a Igreja.

Agora, haverá uma grande guerra (a maior de todas), envolvendo todas os seres conscientes de todos os mundos (já que os portais de um para o outro podem ser abertos): pessoas, pessoas com daemons, anjos, bruxas, ursos de armadura, galivespianos, fantasmas, Espectros. É claro que Lyra terá papel fundamental nessa guerra; ela será o elemento definidor. Os lados que batalharão serão basicamente o lado da Autoridade (Deus) e a Igreja, os quais defendem que é importante que as populações mantenham-se submissas e obedientes; e do outro lado, aqueles seres (humanos, anjos, bruxas, etc.) que acreditam que o livre-pensamento é mais importante que a fé absoluta.

Aqui, teremos Lyra e Will o tempo todo transitando entre mundos – dos mais familiares aos mais diferentes: o mundo dos mortos, o mundo dos mulefas, e seus próprios mundos também. De uma imaginação fascinante.

As temidas harpias, no mundo dos mortos

+ info:
A luneta âmbar / Philip Pullman.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
572 páginas.

 

O que achei da série:

É um texto bastante ágil, rápido de ser lido. O tempo todo acontecem coisas, a história realmente não fica entediante. Um elemento formal que certamente colabora com isso é o discurso direto: a utilização de travessões para construir diálogos torna a narrativa mais dinâmica.

Lyra é uma personagem muito interessante,  e não podemos nos esquecer que, como protagonista da trama, é uma heroína, e cumpre seu papel como tal (para ser um herói, em quase qualquer história, existe um roteiro – “a jornada do heroi”, descrita por Joseph Campbell -, e Lyra se encaixa muito bem nisso). Ela é corajosa, curiosa e muito fiel; conta com a ajuda de elementos importantes (objetos como o aletômetro, por exemplo, ou personagens como o urso Iorek Byrnison, o menino Will, a bruxa Serafina Pekkala), mas no final das contas, quem tem que resolver mesmo é ela.

A trilogia certamente conta sobre a transição da vida infantil para a vida adulta, a saudade da infância mais simples e cheia de brincadeiras para a “adultez” complexa e lotada de responsabilidades e inseguranças. Percebemos a oscilação de Lyra entre a imaginação e confiança infantis e as desilusões adultas. Ou, como contam na história, a transição da inocência para a experiência faz toda a diferença.

É interessantíssima a crítica feita à Igreja da história como instituição, que impõe comportamentos, proíbe avanços em nome de uma moral questionável e age com violência contra quem discorda. Inclusive, essa trilogia já foi apontada como uma resposta às Crônicas de Nárnia, do autor C. S. Lewis, obra que já foi criticada por Pullman como sendo propaganda religiosa, além de sexista e racista (segundo a Wikipedia). Nesse sentido, Fronteiras do universo é uma clara crítica à Igreja como instituição que atravanca avanços científicos e pensamentos questionadores.

Tentei ler a trilogia quando era mais nova, mas parei na metade do primeiro livro; desta vez, fui até o final. E devo dizer que, quanto mais avancei nos volumes, mais gostei da história: aos poucos tudo vai se encaixando, e tudo que parecia “solto” no primeiro livro tem um porquê nos demais, e assim por diante. Não costumo gostar tanto de tramas que misturam criaturas (vampiros, lobisomens, bruxas, etc. etc. etc.) – A EXCEÇÃO É HARRY POTTER, OK?! -, mas este o faz de maneira extremamente bem encaixada, de modo que nem é possível criticar. Cada ser tem seu papel na história, nenhum deles está ali por acaso.

De maneira geral, achei um livro muito bom, com uma proposta rica e diferente; não é uma história infantil, mas também não é literatura adulta.

Se você se interessou pelas sinopses que fiz anteriormente, provavelmente vai adorar os livros! Se gosta de livros de fantasia, estes são altamente recomendáveis!

classificação:  4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Esta, sim, é uma obra recomendada para público infanto-juvenil e jovem adulto)

A bússola de ouro, filme, 2007

http://calibrecultural.files.wordpress.com/2012/01/bdo-capa2.jpg

Lançado em 2007, o filme A bússola de ouro não foi um sucesso de bilheteria, e as críticas foram bem divididas. Acredito que seja por isso que não haja continuação.

Eu o assisti na época (e detestei, aliás), e assisti recentemente, depois de ler o livro. Devo dizer que agora entendi bem melhor a história (obviamente), e por isso, achei o filme melhor do que da primeira vez que o vi. Os personagens estão bastante fiéis às descrições do livro (Lyra é mesmo bem parecida), apesar de detalhes como a cor do cabelo da srta. Coulter serem diferentes, sua essência foi mantida (suas maneiras doces e suaves, o maldito macaco de pelagem dourada).

Três coisas me incomodaram bastante: a primeira é a ausência da menção da Igreja. Fala-se apenas em Magisterium, que é um dos órgãos da Igreja do mundo de Lyra, não deixando explícita qual é a instituição criticada. Isso claramente deve ter sido feito para não irritar os ânimos de pessoas religiosas e conseguir uma boa bilheteria, o que não foi atingido. Parece que teve gente da Igreja católica que se sentiu ofendida mesmo assim. Sendo esse um dos aspectos essenciais do livro, o filme deixou a desejar nesse sentido. A segunda coisa que não me agradou foi que mudaram bastante a ordem de alguns acontecimentos. Inclusive, uma das coisas mais legais do primeiro livro (Lyra e as crianças em Bolvangar, à mercê das experiências realizadas pelo Conselho de Oblação) quase não aconteceu no filme! E a terceira foi, é claro, o final. O primeiro livro termina de maneira estarrecedora, e o filme acaba antes disso (era possível completar a história com o acréscimo de apenas duas cenas, e considerando que o filme tem menos de 2 horas de duração, achei um ultraje não colocarem o final da história).

Relevando essas considerações, os efeitos especiais são muito bem feitos (se você está lendo isso em 2050, ignore este comentário, porque você deve achá-los ridículos), e mesmo tendo muita gente criticando as atuações, eu achei que foram bem satisfatórias. Lembrando sempre que o público recomendado para esse filme é mais infanto-juvenil, é um filme de fantasia e aventura. O trailer do filme está linkado logo abaixo, no + info. Vale a pena ver porque dá um resumo da história e uma ideia do filme.

Entre o filme e os livros, com certeza, leia os livros – até porque o filme não tem final e nem continuação.

+ info:
A bússola de ouro / Direção: Chris Weitz.
– Estados Unidos e Reino Unido, 2007.
Fantasia, aventura, ficção.
1h53min.
Trailer (legendado)

classificação: 3 estrelas

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Meu daemon

Your result for The Golden Compass Daemon Test…
Open Sensitive Soul

You are an open, emotional person and very sensitive to the things going on around you. You are empathetic and make an excellent listener, but you also like to share your thoughts, feelings, and opinions with the world. You are not particularly extroverted, preferring time at home with a group of friends than a busy and stressful night out among strangers and acquaintances.

You wear your heart on your sleeve, and probably become upset when someone tries to give you constructive criticism. Your loved ones tend to accidentally hurt your feelings with their insensitive, off-hand remarks, and then accuse you of being too sensitive.

You are open and honest, and you do not do well at hiding your feelings, even when you try. You prefer to get things out in the open and resolve them, rather than leaving them to fester. Other people might sometimes frustrate you by hiding their feelings, shrugging and saying “oh well” instead of standing up for themselves, like you try to do.

Your daemon’s form would represent highly sensitive nature, your frank honesty, and your devotion to friends and family. He or she would stick close to you and whisper comfort and advice in your ear most of the time. When you or your loved ones needed defending, however, he or she would become as openly vocal as you, and help you in your protestations.

Suggested forms:
Songbird, Dove, Swan, Domestic cat, Border Collie.

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