2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Parceria, Resenha

A música do universo

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos, de Janna Levin

“Em algum lugar do universo, dois buracos negros colidem – pesados como estrelas, pequenos como cidades, literalmente buracos (espaços vazios) negros (com total ausência de luz). Presos pela gravidade, nos últimos segundos que passam juntos eles se deslocam em milhares de revoluções em torno de seu futuro ponto de contato, revolvendo-se no espaço e no tempo até colidir e se fundir num buraco negro maior, num evento mais poderoso do que qualquer outro desde a origem do universo, produzindo uma energia que é mais de 1 trilhão de vezes a de 1 bilhão de sóis. Buracos negros colidem em escuridão total. Nada de energia que irrompe disso se apresenta em forma de luz. Telescópio algum jamais mostrará o evento.
Essa profusão de energia emana de buracos que se coalescem numa forma puramente gravitacional, como ondas na forma de espaço-tempo, como ondas gravitacionais. Uma astronauta flutuando nas proximidades não enxergaria nada. Mas o espaço que ela estivesse ocupando ressoaria, deformando-a, apertando-a e depois a esticando. Se estivesse perto o bastante, seus sistema auditivo poderia vibrar em resposta. Ela
 ouviria a onda.” (pp. 11-12)

Primeira coisa: não sei nada de Física. Só tive aula de Física no Ensino Médio (e lá se vão mais de 10 anos!), e olhe que mesmo nesse período, não absorvi muita coisa. Portanto, alguns (muitos!) conceitos de Física são absolutamente misteriosos para mim: “buraco negro” é um deles. Acho difícil conceber algo escuro e vazio, mas que ao mesmo tempo é muito pesado e poderoso. Porém, a curiosidade é sempre maior que a ignorância. Em fevereiro de 2016, assisti a notícias de que cientistas haviam finalmente conseguido captar o som das ondas gravitacionais. Quando a Companhia das Letras, editora parceira do canal Redemunhando, me apresentou este lançamento de livro, não resisti e o pedi.

Janna Levin, a autora do livro, é norte-americana e professora de Física e Astronomia na Universidade de Columbia, além de escritora. Ela possui outros livros, incluindo um sobre Alan Turing. No livro A música do universo, a autora nos leva por uma viagem científica, tratando de conceitos de Física, e também dos caminhos percorridos por cientistas do nosso século para comprovar a teoria de Einstein das ondas gravitacionais, formulada há cem anos. Basicamente, o livro nos conta a história da montagem de experimentos para a captação dessas ondas – em especial a concepção e montagem do LIGO, Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser. Tais ondas, pensaram os cientistas, por não liberarem energia luminosa (ou seja, não podem ser vistas), deveriam ser captadas por meio de sons.

Como traduzir sons em palavras? Mais ainda, como comunicar ao leitor a grandiosidade da captura dos sons das ondas gravitacionais e colocá-las em letras impressas? Mas afinal de contas, o que são ondas gravitacionais?

Eu obviamente não sou a melhor pessoa para explicar o conceito. No meu parco entendimento, tratam-se de pequenas deformações no espaço-tempo, em forma de ondas, que se propagam pelo universo a partir de uma colisão entre buracos negros. Mais ou menos como mostra a imagem a seguir:

O fascinante sobre isso é que esse acontecimento não propagaria luz, de maneira que não seria observável por nós nem por telescópios. Entretanto, considerou-se que seria possível desenvolver um dispositivo altamente detalhado e específico (e caro!) que captasse os sons produzidos a partir dessa colisão. [Para saber mais sobre o assunto, separei alguns vídeos de divulgação científica sobre isso disponíveis no Youtube: Nerdologia, Primata falante.]

Albert Einstein previu este fenômeno nos primeiros decênios do século XX, e até o final deste século, havia dúvidas sobre se tal experimento de captação de evidências das ondas gravitacionais seria possível ou viável. O livro de Levin documenta o processo de aprovação e construção do LIGO, dirigido pelos físicos Kip Thorne e Ronald Drever do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e Rainer Weiss da Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É importante ressaltar que este foi um empreendimento realizado com a colaboração de centenas de cientistas, e não apenas dos três supracitados.

A narrativa mescla dados, os bastidores da montagem do LIGO e de protótipos e experimentos. Tais descrições por diversas vezes são muito detalhadas, de maneira que interessarão mais a leitores especializados que aos leigos e que buscam uma leitura mais panorâmica (como eu). Além disso, a autora também conta sobre a trajetória de físicos envolvidos no empreendimento, relatando parte de suas vidas pessoais e entrevistas com os próprios.

A linguagem da obra é tranquila e informal, apesar de apresentar alguns conceitos físicos mais complicados. E, pelo fato de a autora ser especialista da área de Astronomia, é confiável e precisa nas informações científicas.

Um dos aspectos mais interessantes do livro foi perpassar diversos momentos históricos desde meados do século XX – notadamente no Estados Unidos, espaço onde se encontra o LIGO e se concentra a pesquisa sobre este tema. O nazismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial, a criação da bomba atômica, o Projeto Manhattan e a Guerra Fria servem como panos de fundo para o desenvolvimento da pesquisa sobre ondas gravitacionais.

Outro ponto notável é a desproporção entre homens e mulheres no livro, o que obviamente reflete a desproporção entre homens e mulheres na academia, em especial na área de Física. Faz pensar no grande potencial que podemos estar ignorando ou perdendo simplesmente por motivos de preconceito.

Impressiona o alto nível de incerteza do experimento, já que ele depende da colaboração da natureza. Mesmo frente a tantas dúvidas e improbabilidades da detecção das ondas gravitacionais, o projeto foi em frente e cumpriu sua missão. O livro mostra diversos obstáculos científicos que foram enfrentados por esses pesquisadores, o que é um processo natural (embora difícil) na ciência: guerra de egos, experiências que falham, falta de financiamento, resistência nos meios acadêmicos.

É um ótimo livro, mas pode ser detalhado demais para um público leigo e simplesmente curioso pelo assunto. Acredito que um leitor mais especializado desfrutará muito mais da obra.

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+ info:

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos / Janna Levin; tradução Paulo Geiger.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
257 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Hedra, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Descobrindo o Islã no Brasil

Descobrindo o Islã no Brasil, de Karla Lima

 “As derradeiras revelações chegaram à humanidade em um ambiente populoso, barulhento e empoeirado. A Arábia Saudita ainda não se chamava assim e mal passava de uma conjunção de rotas comerciais rodeada de tribos inimigas por todos os lados quando, em Hijaz, no ano 570, nasceu o homem que, atualmente, dá nome a mais meninos do que qualquer outro no mundo. Muhammad e derivações como Mohamed, Ahmad e Mahmud não são campeões de popularidade apenas nos países de maioria muçulmana: ocupam o terceiro lugar na Inglaterra e são os mais comuns em recém-nascidos em Bruxelas e Amsterdã. Maomé, versão brasileira, é ‘errado e inaceitável’, ensina um folheto do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina. O profeta é Muhammad – Muhammad bin Abdullah. A vida não foi fácil para o pequeno Muhammad.” (p. 26)

A autora Karla Lima entrou em contato comigo pelo Instagram do Redemunhando ( @redemunhando ) e perguntou se eu gostaria de recebê-lo para resenhar. Como o tema me interessa muito, e já tinha ouvido falar bem do livro, aceitei a proposta. E não me arrependi.

Lima é jornalista e se propôs a desvendar as culturas islâmicas presentes na cidade de São Paulo e seus arredores. Ela até fez uma experiência de vestir o véu por uma semana e realizar seus afazeres comuns, tais como ir fazer compras, abastecer o carro, trabalhar. O objetivo era sentir na pele como uma muçulmana era tratada na cidade, perceber as reações das pessoas a esse hábito feminino muçulmano, experiência que ela relata rapidamente na introdução do livro.

Além da introdução e de uma bibliografia no final, que inclui livros, filmes e websites, o livro se divide em seis partes: Nascimento, onde a autora trata do surgimento do Islã; Infância, que fala sobre a difusão do Islã e como vivem as crianças que são criadas dentro da religião muçulmana; Adolescência, sobre a difusão do Islã e o estabelecimento de algumas doutrinas, além de mostrar as mudanças na cobrança com relação às regras religiosas por que passam os muçulmanos e as muçulmanas a partir da puberdade; Maioridade, sobre os pilares da religião; Morte, parte interessante que discute a associação comum, porém normalmente equivocada, do Islã com a violência; e Renascimento, um balanço crítico de méritos e falhas dos muçulmanos na visão da autora.

Como se pode ver, o livro mescla a história do Islã e suas regras gerais (doutrinas, hábitos) a histórias individuais. Ou seja, assim como a religião, o livro traz aspectos públicos e privados que são tratados pelo Islã. O que está no Alcorão, e como as pessoas e alguns países interpretam isso. Por exemplo, após explicar o significado do uso obrigatório do véu para mulheres e a necessidade do jejum durante um mês por ano dentro das regras da religião, por meio de entrevistas, temos acesso a diversas visões sobre o Islã: mulheres que usam o véu ou hijab e mulheres que escolhem não usá-lo (e não se sentem menos religiosas por isso); pessoas que realizam o jejum no mês do Ramadã, e pessoas que não o fazem.

As entrevistas revelam muitos pontos de vista diferentes sobre o Islã, justamente porque são feitas com pessoas extremamente diferentes: homens, mulheres, adolescentes; xeiques, seguidores e convertidos (ou “revertidos”) à religião; sunitas e xiitas; brasileiros, sírios, libaneses, egípcios, sauditas, palestinos.

As questões ligadas ao feminino me chamaram muito a atenção: a vestimenta como uma proteção contra a lascívia masculina, afinal de contas, representa submissão ou liberdade? O estudo e a profissão, trabalhar fora de casa, casamento… que tipo de atitudes são consideradas “adequadas” ou “desejáveis” dentro da religião? Para essas questões também existe uma variação de opiniões entre os fiéis. Aspectos ligados à propriedade pertencer a mulheres, à satisfação sexual feminina, ao divórcio, e à utilização de métodos contraceptivos são aceitos e garantidos pela religião, que são pontos que valorizam as mulheres.

Como acompanhamos o processo de pesquisa, a autora apresenta seus pontos de vista o tempo todo, em primeira pessoa, criticando posições, questionando os entrevistados, e de vez em quando, se entrevê uma ponta de ironia. Na última parte do livro, ela tece uma crítica contundente e bastante pessoal sobre a atitude dos muçulmanos frente à unilateralidade midiática (o problema de a mídia só apresentar os muçulmanos como violentos). Para mim, o tom irônico às vezes era bem-vindo, e às vezes soou como um pouco incisivo.

A escrita do livro, bastante acessível, pode parecer um pouco desorganizada para alguns leitores, embora não tenha me incomodado – aliás, achei uma maneira interessante e dinâmica de apresentar o tema. Essa mescla entre público e privado está entremeada pelo relato do processo de pesquisa e montagem do livro: é como se acompanhássemos Karla Lima em suas visitas, impressões, entrevistas, nas estatísticas e processos históricos que ela nos apresenta, e em análises de preceitos e leis islâmicos.

Livro altamente recomendado para quem quer aprender mais sobre o Islã, sobre diversos pontos de vista dentro da religião, ou simplesmente para quem é curioso em relação ao tema.


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 + info:
Descobrindo o Islã no Brasil / Karla Lima.
– São Paulo: Hedra, 2016.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Ciência, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Os reis do sol

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington, de Stuart Clark

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“A maior parte do mundo havia sentido os efeitos elétricos das auroras e, exceto pelo vendaval enfrentado pelo Southern Cross, havia assistido a tudo como uma manifestação silenciosa no céu inteiro, que inspirara espanto e terror em igual medida. Ninguém se recordava de ter visto antes algo naquela escalam nem qualquer livro de história registrava uma ocorrência de tão amplo alcance como aquela. A Terra tivera uma experiência singular. Mas o que fora aquilo?
A resposta estava a meio mundo de distância, onde um abastado cavalheiro vitoriano, cujo maior prazer era entregar-se a sua avassaladora paixão pela astronomia, estava às voltas com seu próprio quebra-cabeça científico. Ele estava no lugar certo, na hora certa, e havia visto algo sem precedente. E agora tentava entender.” (pp. 23-24)

Sou uma grande nerd, esta é a verdade. Cursei História e não me entendo com Matemática, mas sou super curiosa em relação a outras disciplinas, como Biologia e Física (tirando os cálculos, por favor!). Quando vi entre a lista dos livros disponíveis para parceria do Grupo Editorial Record, não resisti e pedi Os reis do sol, uma verdadeira viagem pelos primórdios da Astronomia moderna.

O prólogo nos descreve as erupções solares que ocorreram em 2003 e atingiram a Terra, causando interferência em alguns equipamentos eletrônicos e danificando satélites e espaçonaves – nem preciso falar do enorme prejuízo causado por tudo isso. Houve a ocorrência de auroras em alguns pontos do globo, verdadeiros espetáculos luminosos resultantes da colisão das partículas solares com nossa atmosfera.

 

A partir deste fenômeno tão recente, Clark nos leva para uma viagem pela História da Ciência moderna, retomando nomes importantes para a Astronomia. Além de Richard Carrington, astrônomo britânico e amador, conta também sobre William Herschel, Alexander von Humboldt, Henrich Schwab e outros grandes nomes da ciência, que estudaram planetas e estrelas, campos magnéticos, relações – confesso que a partir de certo momento comecei a ficar meio perdida entre a quantidade de cientistas e seus nomes. Todos eles tiveram que lidar com observação de fenômenos, registro, busca por testemunhas e provas sobre suas hipóteses. Um dos aspectos mais interessantes do livro é esse passeio pelo método científico moderno: o autor descreve inclusive os obstáculos, fracassos e decepções pelas quais passaram esses cientistas – instrumentos deficientes, inveja acadêmica, resistência a mudança de paradigmas, erros.

O autor Stuart Clark é britânico, jornalista, e escreve textos para publicações especializadas em Astronomia: Astronomy nowNew ScientistBBC Focus. É colaborador da Agência Espacial Europeia e tem mais livros publicados (em inglês) sobre assuntos ligados ao tema, como o telescópio Hubble, por exemplo.

De linguagem precisa e ainda assim acessível, o livro Os reis do sol é um ótimo livro de divulgação científica. Clark utiliza de vez em quando transcrições de documentos (textos de cientistas), além de apresentar observações explicativas e relevantes no rodapé sobre alguns assuntos. A bibliografia ao final do livro é vasta e está dividida por capítulo.

Eu obviamente sei que o Sol é importante, mas vocês já pararam para pensar no quanto? E no quão pouco sabemos sobre ele? Pesquisas científicas sobre o Sol são relativamente recentes – datam do século XIX -, e um astrônomo depende dos dados coletados anteriormente a ele para formular novas ideias e hipóteses. Este livro me deu uma nova visão sobre Ciência, saber e, é claro, nosso Astro-Rei. É maravilhoso ver o quanto os conhecimentos que consideramos diferentes disciplinas se interligam, ou seja, não são separados: Física, Matemática, Artes (desenho, fotografia), História, Biologia, Economia, Química. Este é um daqueles livros de não-ficção que acabam sendo mais fantásticos que muita história de ficção científica por aí!

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+ info:

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington / Stuart Clark; tradução Laura Rumchinsky.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
250 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Ficção, Galera Júnior, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Parceria, Resenha

George

George, de Alex Gino

George (1)

“George pegou uma edição de abril que já tinha visto incontáveis vezes. Folheou pelas páginas com um flip-flip-flip seco que fez o papel soltar um leve aroma.
Ela parou em uma foto de quatro garotas na praia. Elas estavam em fila, vestidas com roupas de banho, cada uma fazendo uma pose. Um guia na lateral direita da página recomendava os vários estilos baseados no tipo de corpo. Aos olhos de George, todos os corpos pareciam iguais. Eram corpos de garotas.
Na página seguinte, duas meninas estavam sentadas em uma toalha, rindo, com os braços nos ombros uma da outra. Uma estava usando um biquíni listrado; a outra, um maiô de bolinhas, cavado nos quadris.
Se George estivesse lá, ela se encaixaria na cena, rindo e juntando os braços com os delas. Usaria um biquíni rosa-choque e teria cabelo comprido, no qual as novas amigas adorariam fazer tranças. Elas perguntariam o nome dela, e ela diria: 
meu nome é Melissa. Melissa era como ela se chamava no espelho, quando ninguém estava olhando e ela podia pentear o cabelo castanho liso para a frente, como se tivesse uma franja.” (pp. 8-9)

George é um livro infanto-juvenil que tem uma protagonista diferente das comuns: ela é uma menina que tem corpo de menino. Vivendo sua pré-adolescência sem ter consciência exata do que se passa com seu corpo e seus sentimentos – como qualquer adolescente -, ela ainda tem que lidar com a esmagadora sensação de não se encaixar no padrão esperado, de não se adequar às expectativas da sociedade à sua volta (inclusive de família e amigos, que não sabem pelo que ela está passando). Certo dia, a turma deve encenar uma peça na escola. George resolve tentar interpretar um papel considerado feminino, o da aranha Charlotte.

O livro é claramente direcionado ao público juvenil, o que é perceptível pela sua linguagem mais simples e direta, e pela maneira como a narrativa é contada. É interessante ver como Alex Gino trata George desde o início pelo pronome “ela”, o que já direciona a leitura para tornar mais clara a maneira como a personagem se enxerga. É um belo exercício de empatia proposto ao leitor. (Aliás, a título de curiosidade, @ autor@ gosta de ser chamad@ pelo pronome “they”, em inglês, que não indica gênero. Inclusive, em seu website, pede para que não se utilize pronome masculino ou feminino para se referir a el@. Peço desculpas pelos @, mas foi a única maneira que encontrei – em português – de respeitar o pedido.)

O que mais chama atenção no livro é, de fato, a protagonista, muito delicada em suas percepções. Mas os personagens que mais me cativaram foram Kelly, a melhor amiga de George, e Scott, irmão mais velho da protagonista. Eles ajudam o leitor a compreender a importância da família e dos amigos em momentos de crise, como eles podem funcionar como uma espécie de âncora emocional, um apoio mesmo, sem o qual a pessoa se desestabilizaria.

Gostaria de ressaltar apenas um ponto que achei exagerado ao longo da narrativa. Me pareceu que alguns estereótipos de gênero – notadamente o feminino – foram reforçados. Como se todas as coisas de que George gostasse fossem consideradas necessariamente femininas: jogo de amarelinha e pular corda, a ideia de que meninas quando querem se arrumar usam saias, etc. Sei que não é a tônica do livro – e provavelmente, nem a intenção de Gino -, mas achei que valia a pena mencionar este aspecto.

É uma obra que traz os temas de gênero, relações pessoais (amizades, familiares), conflitos internos e questões identitárias. Da forma mais suave possível, a questão dos transgêneros é tratada como deve ser: algo normal e digno de respeito. Certamente é uma história que revela o quanto a diversidade humana pode ser rica para a convivência de todos. Recomendado para todos, mas acho que um público pré-adolescente vá gostar mais.

Pedi o livro para o Grupo Editorial Record de parceria, já que precisava ler um livro com temática LGBT para O Grande Desafio do Culto Booktuber deste mês.

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+ info:

George / Alex Gino; tradução Regiane Winarski.
Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016.
142 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Cultura em letras, História, Não ficção, Parceria, Resenha

A era dos mortos-vivos

A era dos mortos-vivos: zumbis, mito, modernidade, de Eliel Barberino

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“Alteridade é o conceito que melhor define a análise que faremos dos mortos-vivos. Ao buscar entendê-los, na verdade estaremos numa busca de nós mesmos. Ao fazermos um exame dos temas que os zumbis nos apresentam, creio que você perceberá que os zumbis somos nós, eu e você. Que o medo que temos dessas criaturas é um medo sublimado de nós mesmos e dessa civilização que criamos. Que o levante dos mortos-vivos contra toda a ordem social é apenas a sublimação inconsciente de nossa revolta contra um mundo que perdeu a graça.” (p. 10)

O autor Eliel Barberino entrou em contato comigo pela página do Redemunhando no Facebook. No princípio, fiquei um pouco receosa por ser um livro de zumbis (sou covarde para temas de terror), mas quando vi que tratava-se de uma história dos zumbis, ou seja, da origem desses personagens, definitivamente fiquei interessada.

Barberino é um entusiasta dos zumbis e estudou Filosofia. Resolveu unir as duas atividades neste livro de não-ficção, que está dividido em introdução, duas partes teóricas, epílogo, agradecimentos e bibliografia. As partes I e II do livro são bastante diferentes: a primeira, chamada O surgimento do fenômeno, trata das origens do zumbi como monstro; e a segunda, O zumbi como crítica da modernidade, analisa alguns aspectos da contemporaneidade para conectá-las com a mitologia dos mortos-vivos.

A parte I pende mais para uma análise histórica, e contextualiza toda a epidemia – com o perdão do trocadilho – de popularidade dos zumbis: jogos, filmes, séries, livros. Esta parte é deliciosa de ler. Certamente um dos momentos que mais gostei foi o exame sobre os monstros “típicos” de cada tempo (bruxas, vampiros, Frankenstein, etc.), pois cada um deles reflete os medos mais intrínsecos com os quais cada uma das comunidades lida naquele momento. O zumbi representa o nosso medo da morte, mas também da decadência e da impotência. Por ser um monstro secularizado (corporificado, e não sobrenatural), possui um grande apelo à realidade atual.

Quanto às origens das lendas de mortos-vivos, Barberino as busca na cultura pop, na história europeia, haitiana e também nas obras do cineasta George Romero, que criou o zumbi (e também o apocalipse zumbi!) da maneira como conhecemos hoje. Preciso ressaltar que achei geniais as relações da crença vodu no morto-vivo com a escravidão colonial nas Américas.

Na segunda parte, mais filosófica, o texto muda de tom. Aí, o autor propõe reflexões sobre as representações e simbologias que o zumbi evoca, além de uma forte crítica à modernidade. Apesar de muito interessante, fiquei com a impressão de uma pessoalidade muito grande na argumentação: o autor critica diversas posições filosóficas das quais discorda (por exemplo, posturas materialistas/empiristas/naturalistas “radicais”, relativismos) e, com isso, acaba emitindo julgamentos de valor, pessoais, sobre alguns aspectos da modernidade. Parece que tais posições se tornam o objetivo principal dos capítulos, e os zumbis aparecem só pontualmente. E por se tratar de argumentações filosóficas, o texto fica bem mais teórico, o que pode não agradar a alguns leitores, embora não tenha me incomodado.

De qualquer maneira, foi uma leitura extremamente agradável, e fiquei muito empolgada ao ler a primeira parte – inclusive, me deu algumas ideias para a sala de aula. Encontrei um ou outro erro de revisão, mas o livro é curto (tem 116 páginas) e direto, com uma escrita prazerosa. A fonte é de tamanho relativamente grande, o que facilita ainda mais a fluidez da leitura.

A análise dos zumbis e de toda a sua cosmologia como fenômeno cultural e desses personagens como metáforas do século XXI enriquece demais a percepção que temos sobre a realidade e a “moda” dos zumbis em todas as mídias. Além disso, ao propor um exercício de identidade e alteridade, Barberino nos provoca a pensarmos também sobre nós mesmos, a morte e nossos medos. Recomendadíssimo para quem se interessa pelo tema!

Clique aqui para comprar A era dos mortos vivos pelo site da editora Cultura em Letras

+ info:

A era dos mortos vivos / Eliel Barberino.
Rio de Janeiro: Cultura em Letras Edições, 2016.
116 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Civilização Brasileira, História, Não ficção, Parceria, Resenha

A tortura como arma de guerra

A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado, de Leneide Duarte-Plon

Tortura Como Arte de Guerra (1)

“Foi a doutrina francesa que serviu de alicerce ao edifício teórico que elaborou a tese do inimigo interno e redesenhou a Doutrina de Segurança Nacional. Segundo essa teoria militar, o adversário a ser combatido é o inimigo interno, representado por comunistas, intelectuais, operários, camponeses, líderes sindicais, estudantes e artistas, simpatizantes de ideias consideradas subversivas. Para lutar contra o inimigo interno, os militares criaram a Lei de Segurança Nacional (LSN).
[…]
As principais vítimas das ditaduras que foram se implantando na América do Sul eram, pois, membros do Partido Comunista (PC), de partidos de esquerda e até mesmo teólogos da Libertação. […]
O primado dos serviços de informação, o controle das populações civis, os interrogatórios ‘coercitivos’ em centros clandestinos, o uso do soro da verdade, os desaparecimentos forçados de opositores, os esquadrões da morte, as execuções sumárias e a prática de jogar de um avião os ‘subversivos’ ou ‘terroristas’ são elementos da prática da doutrina francesa de ‘guerra contrarrevolucionária’, o antídoto para a ‘guerra revolucionária’.” (pp. 37-38)

Conforme expliquei no post sobre o livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, em julho escolhi esses dois livros porque me parecem temas extremamente relevantes, e também interessantes para a reflexão e, inclusive, para serem levados para a sala de aula. São temas que me interessam profissionalmente falando, e é importante que os professores se mantenham (nos mantenhamos) atualizados a respeito das novidades – não só em termos de notícias, mas também no que se refere a trabalhos acadêmicos mais recentes. Requisitei ao Grupo Editorial Record o livro A tortura como arma de guerra justamente com este intuito.

Leneide Duarte-Plon é uma jornalista brasileira que reside atualmente na França. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2015 com o livro Um homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar (Civilização Brasileira), que escreveu em coautoria com Clarisse Meireles.

No livro A tortura como arma de guerra, Duarte-Plon parte de entrevistas com o general francês Paul Aussaresses, responsável pela utilização de tortura como arma de combate contra os independentistas na Argélia (país que, até o ano de 1962 era colônia francesa). Tais entrevistas lhe forneceram material para analisar como a tortura é admitida e até considerada um método aceitável de “manutenção da ordem” ou “combate ao terrorismo” em determinados momentos da História, e inclusive por Estados considerados desenvolvidos, como a França.

Obviamente, não se pretende dizer que o exército francês inventou a tortura, já praticada há tempos por diversas pessoas e instituições. O mais impressionante é imaginar que o Estado francês, considerado o baluarte dos direitos humanos, tenha praticado tortura como arma de guerra, como método de guerra recomendado e aprovado pelas autoridades. Mais do que isso, esse tipo de informação só veio à tona no ano de 2001, quando o general Aussaresses publicou um livro detalhando os métodos cruéis de combate dos militares franceses na Argélia nas décadas de 1950 e 1960. Até então, a França acreditava já ter resolvido o assunto do que eles chamavam de “acontecimentos da Argélia” – que nada mais eram que a Guerra de Independência (1964-1962).

O livro desperta reflexões sobre o fazer historiográfico e a memória oficial. Considerando, por exemplo, que o próprio reconhecimento de que os “acontecimentos” foram, em realidade, uma guerra contra a independência argelina, é possível refletirmos sobre o porquê de se tratar uma guerra como simples acontecimentos. O que muda quando mudamos essas (aparentemente) simples palavras? Percebemos que os aspectos simbólicos da memória são fundamentais para a política de uma nação, para entender como e porquê as coisas estão como estão. Um passado autoritário que não é bem resolvido cria rachaduras profundas no presente “democrático”.

Além de todos esses pontos importantíssimos, Duarte-Plon ainda revela, através de pesquisas documentais, que o general Aussaresses participou ativamente do treinamento de militares norte-americanos e latinoamericanos – inclusive brasileiros – na “escola francesa” ou “doutrina francesa”, que nada mais são que os métodos de tortura utilizados na Argélia com fins de repressão a guerrilhas rurais e urbanas. O general chamava isso de “guerra contrarrevolucionária”. Tais métodos, nas ditaduras militares latino-americanas, foram utilizados também na “caça” ao “inimigo interno”: pessoas de esquerda, como professores, artistas, políticos, operários, estudantes. Ele esteve no Brasil entre 1973 e 1975 e possuía estreitos laços de amizade com João Batista Figueiredo (entre outros figurões militares brasileiros), general presidente durante a ditadura.

O livro está dividido em duas partes, sendo que a primeira trata de como a “doutrina francesa” foi ensinada para militares de toda a América na década de 1960 e influenciou nas ditaduras militares latinoamericanas; e a segunda, mostra as entrevistas da autora com o general Aussaresses, realizadas em 2008 (ele faleceu em 2013), e entrevistas e depoimentos de outras pessoas interessantes ao caso. O livro conta com um prefácio extremamente lúcido de Vladimir Safatle, que fala sobre a importância de um país encarar seu passado violento de forma aberta e clara, a fim de realmente resolver tais situações. O paralelo o Brasil é evidente, já que, a tendência de “varrer para baixo do tapete” aspectos de um passado que nos envergonha parece ser a mais forte. A falta de elaboração dessas incômodas questões históricas no nível simbólico leva à emergência de situações reais, tais como pedidos pela volta da ditadura nas ruas, e manifestações pela “caça aos comunistas” num momento em que o Comunismo não é mais um horizonte possível.

Definitivamente, minhas partes favoritas foram o prefácio e a primeira parte, em que Duarte-Plon tece um panorama da ditadura brasileira em particular, e das latinoamericanas em geral, cruzando as informações dadas pelo general Ausseresses com relatórios militares da época e outras entrevistas. Existem, ao final, notas que esclarecem as fontes das informações. Depois de verificar tudo isso, fica impossível negar que houve, sim, torturas durante o regime militar.

Livro importante para se entender mais um aspecto da ditadura militar brasileira, e para se refletir sobre questões de direitos humanos. Recomendo demais!

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A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado / Leneide Duarte-Plon.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
294 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Civilização Brasileira, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, de Mario Luis Grangeia

Brasil (1)

No mês de julho, tive uma enorme meta literária, já que participei da Maratona Literária de Inverno #MLI2016 . Sabendo que além de todas essas leituras, ainda viajaria, apresentaria o TCC, e precisaria voltar para minha cidade a tempo de preparar aulas, resolvi pedir livros de tamanho menor, mas que ainda assim, me fossem de grande interesse. Entre os disponibilizados para parceiros do Grupo Editorial Record, acabei escolhendo dois de não-ficção, e que certamente me acrescentaram demais em termos de reflexão e bagagem cultural.

Os professores de História sabem que os temas mais sangrentos são alguns dos favoritos de serem estudados pelos alunos (como Holocausto e ditadura militar). E, à medida em que a História vai ficando mais próxima de nós, ainda mais instigadora fica, pois nos diz respeito diretamente. Já fiz a experiência de levar músicas para a sala de aula, e Cazuza e Renato Russo fizeram parte dela. Foi um sucesso! Levando em conta essa experiência, achei que esta obra de Mario Luis Grangeia poderia ser de grande apoio teórico para aproximar ainda mais os alunos do conteúdo do final da ditadura militar no país, o período da chamada “transição democrática”.

O Brasil atravessou um período de regime militar, em que os principais cargos do poder Executivo da União eram exercidos por militares. Do golpe, em 1964, até a eleição do primeiro presidente civil, em 1985, foram 21 anos de ditadura, em que direitos políticos foram cerceados da população. A censura aos meios de comunicação é um dos mais conhecidos, o qual atingiu a muitos artistas e programas de rádio, jornais e televisão. Além da censura oficial, havia também a perseguição de opositores ao regime, os quais eram chamados de “subversivos” e perseguidos, presos, torturados, exilados, “desaparecidos”.

Nos anos 1980, o regime já não se sustentava, em decorrência de crise econômica (índices de inflação crescentes) e aumento da pressão por uma abertura política por parte da sociedade civil. Nessa década, vivemos o período chamado de “transição democrática” no Brasil, anos de idas e vindas em direção à democracia e de retorno a atitudes autoritárias. Diferentemente dos países vizinhos da América Latina, a passagem de um governo autoritário para um governo democrático no nosso país foi mais contínuo, sem rupturas bruscas. Tratou-se de um processo gradual e lento, daí a adoção de medidas democráticas, mas pontuadas pela manutenção ou pelo recrudescimento de medidas autoritárias.

O livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática trata justamente desse período conturbado e de como esses dois artistas perceberam todas as mudanças e continuidades que o país vinha sofrendo. A via oposta também é verdadeira: Cazuza e Renato não só foram influenciados pelo contexto, como também influenciaram significativamente toda uma geração (não só uma!) de jovens com suas canções a respeito de autoritarismo, vida íntima, liberdade, revolta, questionamento e reflexão.

Além de uma apresentação, em que o autor explica a origem do livro e do que ele trata, e o primeiro capítulo introdutório, o texto ainda está dividido em 5 partes temáticas: Autoritarismo: aversão ao regime militarPatriotismo: exaltação e indignação convivemIdeologia: oscilação da esperança ao desencantoDesigualdades: renda concentrada e outras disparidades; e Orientação sexual: homossexualidade sem tabu. A obra também conta com um capítulo final chamado Crônicas do Brasil de ontem e hoje, posfácio, agradecimentos, uma linha do tempo com acontecimentos selecionados das vidas de Cazuza e Renato Russo, bibliografia e discografia.

Trabalho muito bem feito, Grangeia conseguiu transformar um texto acadêmico em obra acessível ao público leigo. De linguagem fluida, o autor parte das letras de Cazuza e Renato Russo para analisá-las à luz do momento político e social vivido à época. Um dos aspectos mais bacanas do livro é o entrelaçamento das letras com entrevistas que os cantores deram a jornais, revistas e televisão. Fugindo um pouco das especulações sobre o significado de cada verso, Grangeia consegue ir buscar quais foram as interpretações dos próprios autores das músicas.

É curioso que algumas músicas tratadas no livro tenham demorado quase 10 anos para serem gravadas e divulgadas, e ainda assim, continuavam fazendo sentido no contexto brasileiro (caso de Que país é este, escrita em 1978, mas que só estourou nas rádios em 1987). Era de se esperar que a situação melhorasse, mas é o tipo de letra que se encaixa como uma luva à nossa realidade ainda hoje. Nota-se não só nas músicas tratadas, mas também nas décadas de 1980 e início de 1990 como um todo, essa oscilação entre extremo desânimo pela situação e otimismo esperançoso pelas mudanças tão aguardadas – que nem sempre vieram, ou vieram, mas não com tantos benefícios.

Realmente, não me enganei quanto ao propósito do livro. É um material interessantíssimo para se pensar o contexto político dos anos 1980 no Brasil, muito possível de ser utilizado em sala de aula – muito atrativo também! -, e confiável em termos de pesquisa. Também recomendado para fãs de Cazuza, Barão Vermelho, Renato Russo, Aborto Elétrico e Legião Urbana!

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+ info:

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática / Mario Luis Grangeia.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
175 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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