2016, Alfaguara, Ficção, Leia Mulheres, Resenha

Outros cantos

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende


“No cenário descortinado da frente da casa, podia-se ver o silêncio sólido do fim de tarde de um domingo num mundo sem nada, ninguém, mundo sem criador, parecia. Só eu estava lá, mergulhada na ausência, incrustada e imobilizada na quentura espessa, como um fóssil na rocha. Teria chegado ao fim do mundo, onde tudo para, não há mais lugar para lutas? A razão nada me dizia e meu corpo entregava-se à imobilidade de um calango sobre a pedra, uma quase desistência de qualquer mudança. De dentro de mim não vinha mais nenhum esboço de movimento. Já me via naufragando em lágrimas e na decepção de nada encontrar ao fim de tão longa e arriscada viagem, não fosse, de repente, a irrupção de um longínquo canto, outra voz, inteiramente outra, mas que eu reconhecia, atravessando o susto, voz humana. Ôôôôôôôôô êêêêêêê ôôôôôôôôôôôô. Pareceu que aquele canto fazia uma tinta encarnada surgir do chão, no horizonte, e elevar-se, encher o céu e chegar aonde eu estava, até então, sozinha e tornada em mineral, tingindo-me e tudo ao meu redor.” (p. 12)

Em Outros cantos, conhecemos uma história que se desdobra inicialmente em duas frentes. Na primeira, a narradora Maria faz, no presente, uma viagem de ônibus. Cada detalhe de sua viagem (os faróis do ônibus, os buracos na estrada, as luzes dos postes na estrada, o cheiro da comida de algum outro passageiro, etc.) acende em sua memória uma viagem mais antiga, na década de 1970, que ela fez para o sertão brasileiro. Essa rememoração do trecho de sua vida no sertão é a segunda frente do texto.

Aparentemente simples, a escrita de Rezende torna esta uma história extraordinária pela sua delicadeza e força. O título ambíguo pela utilização da palavra “cantos” traduz bem a veia poética de Maria Valéria Rezende: ao mesmo tempo, ela está falando sobre outros lugares e sobre outras vozes. De um lirismo comparável a, arrisco dizer, João Guimarães Rosa – um dos meus autores favoritos! -, o texto da autora me fez sentir um acalento no coração. Não quero dizer que eles são escritores com estilos parecidos. O ambiente sertanejo e a sensibilidade ao descrevê-lo foi o que me fez estabelecer uma comparação, mas a linguagem, os pontos de vista, as épocas, são totalmente diversas.

Nos anos 1970, quando Maria chega ao sertão nordestino, seu objetivo é trabalhar como alfabetizadora num recanto do mundo onde tudo é difícil: a água é o bem mais essencial; o trabalho é árduo e mal pago; as moradias, simples e sem luxos. A própria escrita é um conhecimento superficial (inútil!) neste ambiente. E no meio de tudo isso, Maria descobre arte, humanidade e a si mesma.

É uma memória muito localizada na região árida do Nordeste brasileiro, mas é ao mesmo tempo bastante universal. A própria protagonista tece relações entre as pessoas e os costumes do sertão com outras viagens que ela fez, para a Argélia e para o México, por exemplo. Somos todos humanos, afinal de contas, com problemas existenciais parecidos.

Além de tudo isso, é uma história que se passa em áreas rurais do país durante a época da ditadura militar brasileira. Essas são regiões praticamente esquecidas em nossos estudos e na literatura atual, predominantemente urbana e centrada no Centro-Sul.

O romance, classificado como obra de ficção, é inspirado na experiência real que Maria Valéria Rezende teve na década de 1970, trabalhando como educadora no sertão pernambucano durante os chamados anos de chumbo. A autora, nascida em Santos (SP), venceu o prêmio Jabuti em 2015 nas categorias romance e melhor livro de ficção, pelo livro Quarenta dias. Pelo que vi em Outros cantos, o prêmio foi absolutamente merecido. Amei muito a escrita da autora e suas abordagens, já é candidata a autora favorita.

O período militar é citado mais ao final do livro, e vemos que a protagonista está inserida num contexto de resistência, mas de maneira muito mais sutil que as resistências que costumamos estudar na escola (guerrilhas, movimentos populares, textos de artistas), tanto pelas condições do local e da população tratados, quanto pela natureza do oficio exercido por Maria. É mais um tipo de experiência e olhar a que temos acesso através da Literatura.

Livro excelente, leitura recomendadíssima!

Clique aqui para comprar Outros cantos pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Outros cantos / Maria Valéria Rezende.
Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
146 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Padrão
2016, Companhia de Bolso, História, Leia Mulheres, Não ficção, Resenha

Vozes de Tchernóbil

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

“Você vive como uma pessoa normal. Uma pessoa comum. Assim, como todo mundo à sua volta: vai ao trabalho e volta para casa. Recebe um salário médio. Uma vez por ano, você sai de férias. Você tem mulher. Filhos. É uma pessoa normal! E de repente, de um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. Um animal raro! Uma coisa que interessa a todo mundo, mas que ninguém conhece. Você quer ser como todas as pessoas, mas isso não é mais possível. Não há como voltar ao mundo anterior. Você passa a ser olhado de forma diferente. As pessoas lhe perguntam: ‘Lá foi tão terrível assim? Como foi o incêndio da central? O que você viu?’. Ou, por exemplo: ‘Você pode ter filhos? A sua mulher o abandonou?’. Nos primeiros tempos, todos nós nos tornamos raridades em exposição. A própria expressão ‘homem de Tchernóbil’  até hoje funciona como sinal acústico. Todos giram a cabeça na sua direção. ‘Você é de lá!'” (Monólogo sobre toda uma vida escrita nas portas, depoimento de Nikolai Fomítch Kalúguin, um pai, pp. 65-66)

Svetlana Aeksiévitch é uma escritora nascida em 1948 na Ucrânia e criada na Bielorrússia. Ela foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2015, que é dado pelo conjunto da obra, e lhe foi concedido “pela sua escrita polifônica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”. Ela é uma das únicas vencedoras do Nobel de Literatura a escreverem não-ficção (junto com outros 4 escritores), o que reflete sua formação jornalística. Segundo a Wikipedia, o escritor bielorrusso Ales Adamovich costuma dizer que ela alavancou um novo gênero literário, que ele chamou de  “novela coletiva”, “novela-oratório”, “novela-evidência”, “gente dançando com lobos” ou “coro épico”.

O livro em questão, Vozes de Tchernóbil, é o primeiro da autora traduzido e publicado no Brasil, e trata justamente do desastre nuclear ocorrido na cidade de Tchernóbil (ou Chernobyl) em 1986, pela voz de diversos depoimentos – daí os termos que evocam coletividade em sua obra. É realmente um coro, uma compilação de vozes de pessoas que, de alguma maneira, foram vítimas do acidente nuclear de Tchernóbil. No dia 26 de abril de 1986, houve uma explosão e um grande incêndio na Usina Nuclear de Tchernóbil, que lançaram uma enorme quantidade de radioatividade nas regiões ao redor. A Rússia teve 0,5% de seu território contaminado; a Ucrânia, 4,8%; a Bielorrússia sofreu contaminação de 70% de seu território pelas partículas radioativas – todos esses países eram parte da União Soviética. Mais de 400 aldeias da Bielorrússia (quase 500) foram abandonadas e até enterradas. Apesar disso, 20% da população desse país vive em território contaminado. Todas essas informações são fornecidas no início do livro.

Aleksiévitch pouco escreve textos próprios ao longo do livro, por isso é difícil falar de seu estilo como escritora lendo apenas esta obra. É claro que o estilo transparece nas transcrições, na seleção de depoimentos e na escolha da ordem em que eles são apresentados, mas não da mesma maneira que o estilo de um autor de ficção. Ressalta-se seu brilhante trabalho de coleta e transcrição de todos esses depoimentos; as pessoas de Tchernóbil, apesar de se sentirem o centro das atenções em diversas ocasiões (como fica claro no trecho inicial do post), também se sentem invisibilizadas, negligenciadas e rejeitadas. A autora enxergou além e realmente deu voz a esses seres, que em muitos casos vivem de maneira isolada em suas antigas aldeias radioativas.

Mas existem, sim, momentos do livro que foram escritos por ela: A título de epílogo, que traz o discurso de Aleksiévitch na ocasião do recebimento do Nobel (e ali, há trechos belamente escritos do seu diário) e a Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo. Nesse texto, ela defende a ideia de que o desastre nuclear em questão foi uma verdadeira quebra no tempo, um ponto de inflexão, e um enigma incompreensível. Para a autora, Tchernóbil foi o marco de uma nova era, no sentido de nos apresentar uma nova dimensão de catástrofe, nos levar a repensar os limites de conceitos como civilização e progresso; é o passado que interfere diretamente no futuro. Trata-se de uma visão muito lúcida e consciente da enormidade da situação. Transcrevo mais um trecho, que deixa claras algumas intenções de Aleksiévitch ao escrever:

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária de pessoas comuns. Aqui, no entanto, nada é ordinário: nem as circunstâncias nem as pessoas que, obrigada pelas circunstâncias, colonizaram esse novo espaço, vindo a assumir uma nova condição. Tchernóbil para elas não é uma metáfora ou um símbolo, mas a sua casa. Quantas vezes a arte ensaiou o Apocalipse, experimentou diversas versões tecnológicas do fim do mundo, mas agora sabemos com certeza que a vida é mais fantástica ainda.” (p. 40)

O foco de Svetlana é nas pessoas, em oposição a grande parte dos documentários e matérias já realizados sobre o tema, que têm seu enfoque principal da natureza não-humana, altamente contaminada pelos próximos (milhares de) anos.

Porém, existem pessoas que residem nas redondezas, recebendo as doses de radioatividade da região, e absorvendo ainda mais ao beber água, comer alimentos ali cultivados, beber leite de animais de Tchernóbil. O que leva alguém a ficar numa zona nuclearmente perigosa? As respostas são muito humanas: a maioria daquelas pessoas não quer sair do seu lugar. O sentimento de pertencimento é fortíssimo ao longo das falas dos entrevistados, e também a sensação de que não se encaixam em nenhum outro lugar. Essas pessoas tendem a ser idosas, que viveram ali durante muitos anos e não querem abrir mão de seu modo de vida. A Bielorrússia é um país essencialmente agrário, e muitas dessas pessoas são camponesas. A radiação, invisível e inodora – e onipresente -, parece uma ficção, uma invenção das autoridades, para quem ali vive. Embora eles reconheçam que há mortes em decorrência disso, não concebem recomeçar a vida em outro lugar. Vivem por ali, isolados e em situação de solidão.

Em se tratando de uma história oral do desastre nuclear, o que há em profusão são lembranças, ou memórias. Discursos de testemunhas do evento. Por vezes, os depoimentos são fragmentários e os acontecimentos, narrados ao sabor da memória, sem ordem cronológica ou de qualquer outro tipo. Isso passa a impressão de uma conversa informal com essas pessoas, e muito sensível. A autora divide o livro em três partes, e cada uma dessas partes em monólogos, feitos pelas pessoas entrevistadas (são os depoimentos em si). Temos desde a fala da esposa de um bombeiro que foi ao reator imediatamente após a explosão (obviamente, ele tomou doses letais de radiação), até um deputado bielorrusso que foi visitar a área após o desastre; passando por cientistas, pais, crianças e soldados que tiveram um grande envolvimento emocional e físico com a cidade de Tchernóbil no decorrer dos acontecimentos.

Além do tema principal, tocam-se em assuntos que se repetem com frequência nas falas: guerra (guerras civis, Segunda Guerra Mundial, guerra do Afeganistão), questões de identidade e alteridade, nacionalidade, etnia, humanidade, política (é possível apreender um pouco da realidade soviética na segunda metade do século XX). Impressiona nos relatos a consciência que se tem da fragilidade da vida humana e a impotência em relação a situações dessa dimensão. É revoltante também os usos políticos do desastre, ao invés de proteger o máximo possível as vidas ali presentes.

Quando ouvi falar pela primeira vez neste livro (logo que a autora venceu o Nobel), fiquei imaginando como deveria ser. A leitura foi exatamente o que eu esperava. Pela variedade de depoimentos, pelo formato, e principalmente pela importância de dar voz a essas pessoas, em geral tão discriminadas, a obra de Svetlana é, de fato, fundamental. Recomendo muito a leitura – mas prepare-se, pois as falas são muito intensas. Trata-se de um exercício em que refletimos sobre o que nos faz humanos; quais são os limites para nossas ambições; e como lidamos com a morte e o sofrimento.

Clique aqui para comprar Vozes de Tchernóbil pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Vozes de Tchernóbil / Svetlana Aleksiévitch; tradução Sonia Branco.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
383 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Padrão
2016, Contos, Ficção, Leia Mulheres, Parceria, Resenha

Filhas de Eva

Filhas de Eva, de Martha Mendonça

Filhas de Eva (2)

Eva
Nunca me tornei mulher. Já nasci assim: seios fartos, cintura fina, quadris largos, um milagre de carne saído do osso de uma costela. Nunca brinquei de boneca, não joguei amarelinha, jamais coloquei o dente debaixo do travesseiro esperando que a fada realizasse um desejo.
Nasci suja de sangue, mas de outro tipo. O vermelho da urgência da criação do mundo, da reprodução da espécie, da dor de ser a segunda, a coadjuvante, a frágil – e, ainda assim, ser o espaço humano desse repetido milagre que, depois de mim, não vai mais parar de acontecer, todos os dias, todas as horas e minutos, para sempre.
Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era a culpada. Pelo que houve e pelo que não houve: pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo.
Ele – de letra maiúscula – e ele – de letra minúscula – esperam que eu seja, pela eternidade, um instrumento de sua ordem. Que eu obedeça, que eu aceite, que eu recue, que eu tema, que eu ceda, que eu entenda, que eu me dobre, triplique, multiplique… Mas há a árvore, a maçã e a serpente.
Amanhã termina a Criação. Mas, enquanto o novo dia não nasce, eu durmo. E sonho com o futuro de minhas filhas. Hoje elas ainda são vozes. Diferentes vozes, às vezes em uníssono, às vezes dissonantes. Mas, um dia, serão carne e osso.” (pp. 5-6)

Eva sempre foi uma personagem sobre quem fui extremamente curiosa. Na realidade, me sentia muito incomodada pelo fato de ela ser considerada a culpada de todo o Mal, e sobre quem recaía grande parte da punição divina. Ainda pior, que a perpetuação dessa punição atingisse a todas as suas filhas -nós, mulheres. Por isso, ao abrir o livro de Martha Mendonça e dar de cara com este conto (fiz questão de colocá-lo inteiro no início do post), soube que o livro seria para mim, mesmo não sendo um tratado sobre religião, nem uma análise psicológica.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro foi o título; e em seguida, a capa. Solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, que me enviasse o livro.

Filhas de Eva é uma reunião de contos escritos por Martha Mendonça, jornalista e uma das cabeças por trás do site Sensacionalista. Eles falam do ponto de vista feminino sobre diversas situações, muitas das quais são relacionamentos. Mas não de maneira clichê. Martha consegue buscar detalhes muito sutis da relação da mulher com seu corpo, da compulsão por gordices, da ansiedade e da expectativa por grandes acontecimentos – os quais, por vezes, não chegam nunca a se realizar -, do fim da paixão, de dilemas profissionais, de sonhos e oportunidades.

Os títulos dos contos revelam características marcantes de cada uma das protagonistas: AmanteCompulsivaApressadaIndecisaPombagiraAnsiosaNamoradaDecidida. E vale ressaltar que o livro tem claramente um início e um fim, apesar de os contos em si não possuírem uma continuidade cronológica: o primeiro chama-se Eva; e o último, Morta.

Já há algum tempo venho procurando conscientemente ler mais autoras, inspirada pelo projeto #LeiaMulheres , e especialmente pelos debates desse grupo que acontecem em Belo Horizonte. Tenho me deparado com textos incríveis, e tão diversos entre si quanto as pessoas podem ser – ao contrário do que muita gente pensa, de que mulher só pode (ou só sabe) escrever romances românticos, e apenas para um público feminino. Cada uma tem uma maneira de lidar com as situações, descrevê-las, destacar uma ou outra visão.

(Veja mais algumas resenhas de bons livros escritos por mulheres aqui, aqui, aqui e aqui. Se quiser ainda mais indicações, peça nos comentários, que as darei com o maior prazer.)

Martha é uma dessas vozes fortes e encantadoras. Seus textos transmitem emoção e certa suavidade – mas não resvalam para um tom frágil. Os assuntos cotidianos aproximam ainda mais o texto de seus leitores. Os contos se alternam, mostrando ora um tom mais dramático, ora mais leve ou melancólico, e alguns são bem-humorados.

Livro fácil, rápido e de linguagem muito clara e fluida, recomendo bastante para praticamente qualquer tipo de público (exceto talvez o infantil)! Foi um presente poder ler estes contos.

Clique aqui para comprar Filhas de Eva pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Filhas de Eva / Martha Mendonça.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
127 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Padrão
2016, Contos, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Leia Mulheres, Pallas, Resenha

Olhos d´água

Olhos d´água, de Conceição Evaristo


“A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno?” (pp. 104-105)

Li Olhos d´água para o encontro de fevereiro do Leia Mulheres de Belo Horizonte. E acabei encaixando-o também no desafio de fevereiro dO Grande Desafio do Culto Booktuber proposto pela Laíse, do canal Boards e Books. O desafio consistia em ler um autor ainda não lido. Conceição Evaristo é uma escritora natural de Belo Horizonte e que teve uma juventude pobre: foi moradora de favela e conciliou os estudos e o trabalho como empregada doméstica. Formou-se em Letras, e hoje em dia é Mestra e Doutora em Literatura. Começou sua carreira como escritora em 1990.

Olhos d´água é uma reunião de contos de Conceição. Eles têm como protagonistas na maioria dos casos mulheres negras, e em muitos casos, pobres e em baixa condição socioeconômica.

No prefácio e na introdução que há no livro – ambos muito bons, de Heloisa Toller Gomes e Jurema Werneck -, destaca-se muito os diversos papéis desempenhados pela mulher em geral, e pela mulher negra e pobre, em particular. Mas o que mais me atingiu nas narrativas da autora foram duas coisas: o amor e a violência, ambos presentes em todos os contos.

Sou uma pessoa muito enjoada para ler sobre amor. Acho quase tudo que se fala sobre ele um clichê. Tudo brega. Mas Conceição Evaristo tem o dom de tornar tudo bastante real, e ao mesmo tempo, singelo e impactante. E não se trata apenas de amor romântico entre um casal. O primeiro conto, por exemplo, que dá nome ao livro, é narrado por uma mulher que procura lembrar-se de que cor são os olhos de sua mãe. Tão simples, tão complicado! (Este é o melhor conto, na minha opinião.) Existe, é claro, também o amor entre casal; casos muito ternos de amor-próprio e autodescoberta, sexo, traição. E, é claro, a raiva que advém de tudo isso, frustrações, ódios, necessidades, que muitas vezes levam à violência e à morte. As mortes de personagens, inclusive, implicam na denúncia da impossibilidade de viver a realidade – palavras da própria autora.

Conceição Evaristo compareceu ao encontro do Leia Mulheres Belo Horizonte e foi uma surpresa agradabilíssima! Ela ouviu nossos debates sobre os livros e os contos e, ao final, nos brindou com uma fala extremamente consciente de sua condição de mulher negra e de sua literatura. Em ambos ela enxerga poder: suas palavras têm força, e suas histórias refletem sua visão de mundo. Veja algumas fotos do encontro (fotos de André Castro, retiradas do blog da Mari Castro, uma das mediadoras):

2016-02-17 - 271_Leia Mulheres BH

2016-02-17 - 304_Leia Mulheres BH

2016-02-17 - 390_Leia Mulheres BH

A escrita é magistral. Confesso que os finais foram, aos poucos, tornando-se parecidos e, por isso, previsíveis, mas os inícios e todo o decorrer das narrativas são belamente escritos, fortes, sensíveis. A linguagem mistura fala popular e que contém elementos bantu, o que garante fluidez ao texto.

Trata-se de um livro necessário. Autora negra, protagonistas negros, realidades de pobreza que pouco aparecem na literatura, grande maioria de personagens mulheres. Bem diferente da média que vemos por aí em geral (veja aqui as estatísticas da literatura brasileira, sendo a maioria de autores e protagonistas homens, brancos, heterossexuais, de classe média). É um caso maravilhoso de representatividade na literatura. Fora a escrita deliciosa e impactante ao mesmo tempo, e as narrativas e personagens interessantíssimas. Altamente recomendado!

Clique aqui para comprar Olhos d´água pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Olhos d´água / Conceição Evaristo.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2015.
116 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Padrão
2016, Leia Mulheres, Vídeo

Dia Internacional da Mulher 2016 – Lygia Fagundes Telles

Bom dia!!!

Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é dia de reafirmar a luta contra o machismo e pelos direitos equitativos! 🙂

Junto com outros amigos booktubers, resolvi fazer um vídeo em homenagem a uma das minhas escritora favoritas: a Lygia Fagundes Telles! ❤

Aproveitei a ocasião para, além de recomendar a leitura dessa grande escritora, bater um papo sobre como funciona o Prêmio Nobel de Literatura (para o qual Lygia foi indicada este ano!) e representatividade nesse tipo de prêmio.

Padrão