2016, Companhia das Letras, Ficção, Infanto-juvenil, Resenha, Séries e trilogias

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3, de Lemony Snicket

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“Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire cuja história está aqui contada.” (Mau começo, p. 9)

Mal podia esperar para escrever sobre esta série. Tanto que não aguentei esperar ler mais do que três livros desta série de treze; acho que a leitura vale a pena, mesmo que eu ainda não saiba o final da série toda. Ao longo dela, acompanhamos três irmãos: Violet, de 14 anos, é conhecida por sua grande criatividade. Ela é uma verdadeira engenheira e adora inventar coisas; quando está exercendo seu talento, é possível ver sobre sua cabeça engrenagens, alavancas e roldanas em funcionamento. Klaus, o irmão do meio, tem 12 anos e é um rato de biblioteca; lê todos os livros que encontra pela frente e tem uma boa memória. A caçulinha, Sunny, ainda é um bebê, mas é espertíssima! Sua habilidade especial consiste em morder as coisas (ela prefere os objetos mais duros) com seus quatro dentinhos afiados.

Certo dia, os três são tomados de surpresa pela pior notícia possível: seus pais, o sr. e a sra. Baudelaire, faleceram num incêndio arrasador. Além do amor dos pais, o fogo também tomou dos irmãos sua casa (uma mansão, que ficou em cinzas) e seu conforto. A família Baudelaire possuía uma grande fortuna, porém, Violet, Klaus e Sunny só poderão ter acesso à herança quando a irmã mais velha completar 18 anos. Enquanto isso, eles ficarão à mercê de algum tutor legal, um parente a ser designado pelo sr. Poe, um burocrata com boa intenção mas, aparentemente, poucos miolos.

Digo isto porque ele os colocará sob a tutoria de um parente distante da família, o conde Olaf. Olaf é uma pessoa detestável, que explora as crianças (às quais ele chama de “órfãos”) obrigando-as a realizar tarefas desnecessárias e passar por verdadeiras situações de violência física e psicológica, tudo para tentar botar as mãos na herança.

Este é o mote geral do primeiro livro, Mau começo, e os próximos seguem uma linha similar. Sempre o conde Olaf bola um plano mirabolante para tentar tomar conta da fortuna dos Baudelaire, é frustrado, e foge para retornar no livro seguinte. Como só li esses três primeiros volumes, não posso falar sobre os próximos. Mas é bem possível que a trama geral se repita e torne-se mais entediante para alguns leitores. Entretanto, lendo apenas os três primeiros, confesso que gostei muito!

Grande parte do meu encantamento pela obra vem da linguagem utilizada pelo autor Lemony Snicket. Ele inova ao conversar com o leitor e ser totalmente sincero (por exemplo, no início dos livros, ele sempre alerta que é melhor que o leitor desista logo da leitura, pois trata-se de uma história que só contém desgraças sofridas pelos irmãos – veja o trecho inicial do post). Snicket também explica palavras e expressões, mostrando o que elas significam naquele contexto (“[…] vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” — até a praia” [Mau começo, p. 10]). Há também a “tradução” das falas de Sunny, que é sempre muito engraçada. A irmã pequenina tem uma linguagem própria dos bebês, mas o narrador faz questão de explicar sempre o que ela quer dizer.

Além de todas essas “inovações” narrativas, o texto é muito objetivo e dinâmico. O bom humor está presente o tempo todo na maneira que a história é contada, e o mundo mundo em que vivem os Baudelaire inventado (os nomes combinam com os lugares, o que dá um ar fantasioso) também exerce certo fascínio e torna tudo ainda mais divertido.

Apesar do alerta constante de Snicket, a história dos Baudelaire não mostra apenas desgraças e infelicidades. Ela conta com momentos de respiro, ternura, compreensão, saudade, e até mesmo de alegria. As desgraças são apenas os motores da ação. Talvez o ponto principal da história é que juntos, os irmãos Baudelaire são incríveis. Diferentes entre si, cada um com sua personalidade, eles formam um time coeso e ativo. A série é infanto-juvenil, mas eu estrou amando, mesmo sendo adulta!

Ah! Haverá uma série da Netflix, a ser lançada em janeiro de 2017. O conde Olaf será interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, e eu achei este trailer o máximo! Captou muito bem a atmosfera fantasiosa e bem-humorada dos livros. Mal posso esperar! 🙂

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+ info:
Mau começo / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
152 páginas.

A sala dos répteis / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
184 páginas.

O lago das sanguessugas / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
192 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público de qualquer idade!)

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

Obrigada pela leitura!

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2016, Ciência, Infantil, Infanto-juvenil, Não ficção, Resenha

Sugadores de sangue

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue, de Humberto Conzo Jr.

“A saliva dos morcegos-vampiros contém um anestésico que evita que a presa sinta a mordida – um corte rápido com os dentes incisivos. Ela também contém uma substância anticoagulante que impede o estancamento da ferida enquanto o morcego estiver se alimentando, o que pode durar cerca de 20 minutos. Essa substância anticoagulante vem sendo estudada para o desenvolvimento de remédios para o coração, formação de coágulos e derrames nos seres humanos.
[…]
Já na cidade de Coimbra, em Portugal, a Biblioteca Joanina tem uma história nada lendária. […]. Mas o que realmente chama a atenção são as colônias de morcegos nos vãos entre as paredes e as estantes. Durante o dia, eles permanecem lá escondidos, não atrapalhando a rotina dos visitantes. No final do expediente, os móveis são cobertos por mantas de couro, e a biblioteca passa a ser território dos morcegos, que se encarregam de manter o local livre de traças, baratas e outros insetos muito comuns e danosos em bibliotecas, evitando assim a utilização de inseticidas.” (p. 10 e 15)

Conheci o autor Humberto Conzo Jr. pelo seu excelente canal no Youtube, o Primeira Prateleira. Lá, ele fala sobre diversos tipos de livros, inclusive infantis. Além de escritor de livros para crianças, Humberto ainda é formado em Biologia e História, e isso se reflete no livro Sugadores de sangue.

O livro trata de animais que se alimentam de sangue, sejam eles morcegos, pulgas, piolhos, sanguessugas, moscas ou mosquitos. Intercalando informações sobre as diferentes espécies, seus hábitos e habitats, características e curiosidades, quando possível, Humberto ainda nos fala sobre mitos e lendas envolvendo aquelas criaturas, além de contextualizar historicamente determinadas situações. Essas foram, é claro, as partes de que mais gostei: ao falar de morcegos, já pensamos imediatamente em vampiros e no conde Drácula. Além disso, conhecemos a lenda indígena amazônica do surgimento do guaraná, a situação inusitada da biblioteca joanina, além da menção a lendas do rock (Ozzy Osbourne) e personagens pop (Batman). No caso das pulgas, ficamos sabendo que a peste, ocorrida na Idade Média, tem nas pulgas seus principais “meios de transporte”, e que no século XIX, se costumava fazer “mercados de pulgas”. E assim por diante…

Doenças transmitidas por esses bichos sugadores de sangue tem um destaque especial no livro, já que o autor trabalha com controle de pragas. Além dos sintomas, as formas de prevenção são descritas (malária, febre amarela, bicho-de-pé, dengue, doença de Chagas, etc.). Ah, o caso das sanguessugas que foram – e ainda são – utilizadas como tratamento médico também é bastante interessante (o ponto negativo é que algumas pessoas podem se sentir hipocondríacas, procurando os sintomas descritos. Eu mesma, na parte dos piolhos, não parava de coçar a cabeça!).

De linguagem clara e direta, o livro traz informações relevantes e precisas; não subestima a inteligência das crianças, pois usa vocabulário variado e termos tecnicamente corretos. É temático e interdisciplinar, e traz um bom humor em momentos escolhidos.

As xilogravuras de Eduardo Ver complementam bem o texto, e a edição da WMF Martins Fontes está impecável.

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Recomendo demais (Dia das Crianças tá aí!); só atentem para a idade da criança. Por ser um livro com muita escrita e informações científicas, deve ser mais adequado a crianças mais velhas, de 7 ou 8 anos em diante. O livro serve para crianças grandes também, assim como eu!


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+ info:

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue / Humberto Conzo Jr.; gravuras Eduardo Ver.
São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.
48 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Fantasia, Independente, Infanto-juvenil, Parceria, Resenha

Lobo de rua

Lobo de rua, de Jana P. Bianchi

“E, desde o princípio, havia a dor. De intensidade sempre crescente, ela já embaçava quase todos os seus sentidos e faculdades – porém não era suficiente para fazer desvanecer aquela sensação de ter cada molécula de líquido de seu corpo marulhando dentro de si, avançando e retrocedendo dentro das veias como as marés.
Daquele jeito, logo seu corpo iria se romper. A coisa dentro dele estaria livre mais uma vez, e, com ela, voltaria o terror. Já se sentira daquele jeito no mês anterior, e nem mesmo a dor era capaz de fazê-lo esquecer do que acontecera em seguida.
” (p. 13)

Conheci Jana por intermédio de um grande amigo da escola, Pedro Menchik. Ambos frequentaram o mesmo curso na Unicamp, o de Engenharia de Alimentos. Nos adicionamos no Facebook e, aos poucos, surgiu uma grande empatia entre Jana e eu: por alguns gostos em comum (como a leitura e a escrita), por posições políticas parecidas, etc. Certo dia, Jana me deu um presente lindo: me enviou seu livro Lobo de rua. Junto com ele, chegaram marcadores combinando com o livro ( ❤ ) e uma dedicatória que é puro carinho!

Já no primeiro capítulo, conhecemos Raul, um garoto de rua que está sofrendo uma dor excruciante. Esta noite, seu corpo está passando por modificações, da mesma maneira que no mês passado – e não são apenas as modificações da puberdade. Logo, com a ajuda de Tito, um homem mais velho que o leva para um abrigo, descobre que é um lobisomem. Tito vai guiar o garoto Raul por sua transformação e tentar ajudá-lo nos momentos de dor e insegurança, inclusive garantindo que ele não ataque ninguém. Faz isso conduzindo o garoto a um lugar seguro e escondido na metrópole paulistana: a Galeria Creta, local misteriosamente comandado pelo Minotauro, e que se estende pelos subterrâneos da cidade.

O livro de Jana é curto (tem cerca de 110 páginas, contando alguns conteúdos extras) e ótimo. Para quem gosta de fantasia urbana, é um prato cheio. Estava um pouco intrigada por ver que a história era tão curtinha (a maneira como a história é contada é deliciosa, não dá vontade que acabe), mas o final é redondinho e deixa gancho para uma próxima história. Talvez a melhor definição para o livro que encontrei tenha sido na resenha de Thiago d´Evecque no Skoob: trata-se de um prólogo a ser degustado, uma introdução ao universo fantástico da Galeria Creta.

Os pontos altos do livro são, para mim, as boas explicações dadas pela autora para a licantropia (o porquê de só ser transmitida a alguns homens, como eles se escondem, como ocorrem as transformações em noite de lua cheia, etc.), o fato de se passar em São Paulo, e de o protagonista ser um garoto de rua. Acho que são elementos complexos e que foram muito bem executados! O final só eleva a história toda, o que garantiu ao livro a quinta estrela na minha avaliação.

A linguagem é clara e muito tranquila, fluida; e os diálogos têm alguns palavrões bem localizados (são colocados exatamente nos momentos certos!). É recomendado a qualquer tipo de público, inclusive “pré-adolescente”, já que traz fantasia e uma boa dose de realidade (pobreza, invisibilidade, empatia) que não faz mal a ninguém. O menino Raul – aliás, seu nome me dá vontade de ler como um uivo: “Rauuuuuuuuuuuuul” – é um personagem nada simples: enfrenta mazelas da vida desde que se conhece por gente e possui grandes defeitos e grandes qualidades. Em tempo, já que falei do nome de Raul, ele tem um significado especial, foi escolhido a dedo pela autora; assim como o nome de Tito Agnelli, seu mentor. Até esse cuidado é digno de menção.

Jana tem um carimbo da Galeria Creta, com o qual ela marca o livro e o envelope na hora de mandar. Detalhes que fazem toda diferença! A edição é independente, ou seja, foi bancada pela própria autora. Justamente por isso, é visível que Jana fez o livro exatamente da maneira como queria: as páginas são amareladas e o papel, de ótima qualidade; o livro tem ilustrações e um projeto gráfico bem-feito, inclusive com orelhas na capa e na contracapa. Vale muito a pena adquirir para ler e dar de presente!

(Para quem já gosta da Galeria Creta: Jana está escrevendo outro livro! Não se trata de uma continuação propriamente dita, mas de uma história que se passa no mesmo universo, e inclusive protagonizada por um personagem que aparece em Lobo de rua! Aguardamos ansiosos!)

Clique aqui para acessar a página da Galeria Creta no Facebook e encomendar o livro.

+ info:

Lobo de rua / Jana P. Bianchi; ilustrações de Renato Quirino.
Paulínia: Edição da autora, 2015.
112 páginas.

classificação: 5 estrelas

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2016, Ficção, Galera Record, Infantil, Infanto-juvenil, Parceria, Record, Resenha

Yakuba

Yakuba, de Thierry Dedieu

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“Sob um sol escaldante, caminhar, atravessar os vales, contornar as colinas, sentir-se pedra obrigatoriamente, capim naturalmente, vento certamente, água muito pouco.
[…]
Yakuba depara-se com o olhar do leão. Um olhar tão profundo que é possível ler em suas retinas.
‘Como pode ver, estou ferido. Lutei a noite inteira contra um inimigo feroz. Portanto, não terá qualquer dificuldade para me liquidar.
Ou você me mata sem glória e passa por homem aos olhos dos seus irmãos, ou me poupa a vida e, a seus próprios olhos, sai engrandecido, porém desprezado pelos seus pares. Você tem a noite para refletir.” (pp. 14-24)

Yakuba, traduzido do francês, é um livro considerado infantil. Com poucas páginas, formato grande, muitas ilustrações e pouco texto, pode parecer assim. Mas o fato é que Yakuba pertence a qualquer público que quiser lê-lo, pois é um livro completo e profundo em sua simplicidade.

Trata-se da história de um rito de passagem: Yakuba, um garoto do “coração da África” (nenhum país ou povo são especificados) deve matar um leão para provar que não é mais uma criança, e sim um homem. Após algumas provações, depara-se com um dilema muito adulto. A maneira como o livro é composto traz um ar lendário à narrativa, com um “quê” de moral da história, um ensinamento (mas sem ser moralista).

É uma história simples e forte; sem grandes descrições, mas objetiva e lírica ao mesmo tempo, como se pode ver pelo trecho inicial do texto.

O protagonista negro e proveniente de uma cultura diversa da nossa acrescenta riqueza ao livro; mas ainda assim, é uma história universal sobre identidade e alteridade, honra, aceitação social, crescimento, ética. Quanta coisa em tão poucas páginas (e tão pouco texto)!

A edição é maravilhosa: além do tamanho grande e capa dura já mencionados, as folhas são recicladas, e as ilustrações em preto trazem um belíssimo trabalho de luz e sombra. Fiquei curiosa para saber qual foi a técnica utilizada pelo autor. Pela textura que parece ficar das marcas de pinceladas, imagino que tenha sido tinta em tela, mas não tenho certeza. Deem uma olhada em algumas das paginas:

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Pedi este livro ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro. Obrigada por mais essa leitura maravilhosa!

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+ info:

Yakuba / Thierry Dedieu; tradução André Telles.
Rio de Janeiro: Galera Record, 2016.
39 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2015, Cosac Naify, Infantil, Infanto-juvenil, Resenha

Lampião e Lancelote

Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela


“Do meio da esfera branca, Lampião viu surgir a imagem de um cavaleiro em galope acelerado. E o cavaleiro veio serpeando em sua direção. Quando chegou bem perto, Lampião vislumbrou que a armadura e o cavalo eram de tal clareza que pareciam assombração. Mas o valente Lampião não sabia o que era o medo, cabra que cai nessa vida dorme nunca e acorda cedo, daquilo que não se sabe a sorte faz arremedo, da sombra de um cavaleiro nunca se teme o segredo, saiu montado no jegue e foi apontando o dedo, sua voz rasgou o ar e fez tremer o arvoredo:
‘Pois pare já eu lhe ordeno
Ó fantasma de metal
Encarnação do demônio
Grande embaixador do Mal
Logo se vê que fugiu
De um século medieval’
Lancelote, desperto da estranheza daquele mundo pela voz áspera de Lampião, arribou súbito as rédeas e freou seu cavalo com todas as forças, para não atropelar o cangaceiro, parado a pouco mais de um golpe de espada.” (pp. 22-25)

Este foi mais um dos livros comprados “por impulso” – mas este, já faz tempo que comprei.

Sou apaixonada por histórias do sertão brasileiro, e o cangaço não foge à regra. Lampião, Maria Bonita e seu bando têm o poder de fascinar até hoje por sua coragem, mas principalmente por sua ambiguidade heróis / vilões. Já Lancelote, cavaleiro lendário da Távola Redonda arturiana, também é um ícone (da literatura de cavalaria, da honra) pelo qual tenho admiração (e um pouquinho de raiva, graças à série As brumas de Avalon, mas isso fica pra outro post).

Este é um livro considerado infantil por seu formato (ele é grande!), sua quantidade de ilustrações – muitas – e de texto – pouco. Mas só. A história é absolutamente deliciosa para qualquer idade, trata-se do improvável encontro entre essas duas grandes personagens. Lancelote, graças a um feitiço de Morgana, adentra uma bruma e sai na caatinga brasileira, onde está Lampião. O encontro descamba para uma luta entre o bando de cangaceiros e os cavaleiros da Távola Redonda (que, graças a Merlin, conseguem aparecer nesse exato lugar e exato tempo), e em seguida, para uma batalha. Absolutamente brilhante.

Com o perdão do trocadilho, o livro é brilhante não só pela história e pelo texto, mas também pelas ilustrações magníficas. As fotografias aqui colocadas não dão conta da grandeza das imagens ao vivo, tanto por conta do tamanho, quanto pelo material e pelas cores. As páginas e motivos dedicados a Lancelote são desenhados em tons de branco, preto e prateado. Prateado mesmo. Já os de Lampião, seguindo a estética do cangaço, apresenta as cores branca, preta e cobre. Cobre mesmo. Ou seja, as páginas do livro literalmente brilham (na verdade, assim que escrevi isso, fui verificar e elas não brilham de fato. Mas a impressão que fica é que brilham, então vou deixar assim mesmo o texto. Só para constar, a capa, sim, literalmente brilha, pois apresenta uma espécie de verniz localizado). A ambientação do espaço de Lancelote foi feita baseada nas iluminuras medievais, enquanto que a de Lampião, muito conectada às técnicas de xilogravura da literatura de cordel.

 

O texto intercala entre as linguagens típicas de novelas de cavalaria e  de cordel. As rimas e o ritmo do texto tornam impossível que leiamos em voz baixa (ao ler, eu incorporei os dois personagens, inclusive, com sotaque e tudo, e dei muita risada). Isso torna o livro divertido e muito adequado ao público mais infantil. As falas de Lampião seguem a estrutura e a métrica mais tradicional do cordel (veja a fala do cangaceiro no trecho inicial do post).

Não por acaso, este livro ganhou diversos prêmios, como o Prêmio Jabuti 2007 (duas vezes! 2º lugar pela capa e 1º lugar nas categorias Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil e Livro Infantil), quatro FNLIJ (Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil) e menção honrosa na Feira de Bolonha. Merecidos. Recomendo para qualquer idade!

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+ info:

Lampião e Lancelote / Fernando Vilela. Ilustrações do autor.
São Paulo: Cosac Naify, 2006.
55 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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