2016, Ciência, Contexto, História, Não ficção, Resenha

A história da humanidade contada pelos vírus

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…, de Stefan Cunha Ujvari

“Microorganismos percorreram a corrente sanguínea dos combatentes. Alastraram-se pelo corpo dos soldados debilitados e comprometeram órgãos vitais. A fome e o frio prejudicaram suas defesas, que não impuseram restrições para o avanço da infecção. Seus corpos foram lançados na vala coletiva e decompostos pelo tempo. Os microorganismos responsáveis pelas epidemias sumiram com os pulmões, fígado, coração, rins e outros tantos órgãos. Uma região, contudo, preservou-se para nos contar a história. Este local, ricamente vascularizado, recebeu afluxo de sangue contendo os microorganismos que se alojaram nessa estrutura. Foram os dentes. A polpa dentária recebe o nervo responsável pela dor de dente, mas também recebe uma quantidade de sangue. Vestígios do DNA do ou dos microorganismos envolvidos nas epidemias estariam nas entranhas dos dentes daqueles esqueletos?.” (p. 50)

Este livro aborda a história humana a partir do protagonismo dos vírus, bactérias e microorganismos causadores de doenças. Aqui já coloco minha primeira crítica: antes de abrir o livro, o leitor pode ficar confuso com o título. A história da humanidade contada pelos vírus pode dar a ideia de que a narrativa só abarcará doenças virais – pelo menos, foi o que pensei inicialmente. Porém, já na folha de rosto, isso fica esclarecido pelo título completo: A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…. Agora, será que alguém consegue me explicar a escolha de não colocar o título completo na capa do livro?

Partindo da chamada Pré-História no continente africano (parte 1: África: estação de origem), Ujvari procura remontar, por meio de estudos genéticos, a história do nascimento de infecções humanas, tão antigas quanto o próprio nascimento do Homo sapiens. Este surgimento e suas evoluções podem ser rastreados graças a fragmentos genéticos de retrovírus em nosso DNA. Existem doenças que acompanham a história evolucionária dos hominídeos, tais como a herpes, a teníase e a tuberculose.

Em seguida, na parte 2, o autor nos leva por rotas migratórias traçadas a partir de pegadas genéticas deixadas por microorganismos, ou seja, é possível rastrear os caminhos feitos pelos seres humanos para se espalharem pelo mundo a partir da análise da evolução de alguns vírus, bactérias, e microorganismos – como é o caso da gastrite e da úlcera bacterianas, por exemplo, ou dos piolhos, que demarcam a época em que os seres humanos começaram a usar roupas, entre diversos outros exemplos.

Na terceira parte do livro, Chegada à América, apresenta-se como alguns parasitas intestinais podem ajudar a esclarecer ou apontar mais seguramente para uma das teorias sobre como o ser humano povoou o continente americano (se por terra, a partir do estreito de Behring, ou por via marítima). Aqui, também apresenta-se uma polêmica interessante sobre se a sífilis é uma doença trazida pelos europeus na época da colonização ou se era uma doença tipicamente americana. No final, uma discussão sobre eugenia e a utilização de cobaias humanas (na Alemanha nazista e nos Estados Unidos, com negros sifilíticos) enriquece muito o texto.

As partes 4 e 5 tratam do surgimento da agricultura e da domesticação de animais, o que permite um espalhamento muito maior de doenças, uma vez que possibilitam maiores aglomerações humanas, armazenamento de água e comida e, assim, a disseminação não apenas de microorganismos, mas também de vetores de doenças, tais como ratos e mosquitos.

Na parte 6, chamada O ataque continua, o autor trata de tempos mais atuais, principalmente das descobertas de combate e cura de algumas doenças (vacinas, antibióticos, etc.).

Além dessas seis partes, o livro conta com uma pequena apresentação, notas de final com referências bibliográficas e algumas imagens em preto e branco. As páginas são brancas e encontrei um ou outro erro de revisão.

Provavelmente o mais interessante que achei no livro foi ter percebido como guerras, violência, pobreza, urbanização desordenada e não planejada, falta de educação e de saneamento básico, além de serem problemas sociais, acabam por se tornar gigantescos problemas de saúde pública, por facilitarem o alastramento de diversos tipos de doenças. Outro ponto positivo foi a apresentação de métodos de pesquisas feitas em parceria da Biologia (áreas de Genética e Infectologia) e História (notadamente a Arqueologia) para esclarecer diversos episódios e processos históricos, como por exemplo, as “pegadas” de DNA que revelam muito sobre a migração humana.

Confesso que ter uma alta expectativa em relação a este livro prejudicou minha experiência de leitura. Achei que o autor passaria ao longo da História humana (Oriente Próximo Antigo, Grécia e Roma, Idade Média na Europa, Mundo Árabe, China, América, Idade Moderna, Imperialismos, Guerras Mundiais, Globalização, etc.) perpassando grandes epidemias que assolaram as populações. Mas não é este o tom do livro: o autor Ujvari é brasileiro e médico especialista em infectologia. Portanto, traz um olhar mais biológico que histórico para os microorganismos. É quase como se o livro tratasse da História dos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos contada pela humanidade, e não o contrário. Senti falta de uma história mais aprofundada da peste negra na Europa do século XIV, ou da tuberculose no Egito antigo, ou das epidemias de piolhos durante guerras. Tudo isso é citado, mas tão rapidamente, que não satisfez minha curiosidade.

Achei a “linha condutora” do livro um pouco confusa – talvez a intenção fosse tornar o texto mais dinâmico -, com algumas idas e vindas no tempo. Outro ponto que me incomodou bastante foi o fato de o livro não possuir uma “conclusão”, ou seja, uma síntese ou uma reflexão claramente proposta pelo autor ao final. Isso obviamente não é necessário em qualquer obra, mas penso que seria muito interessante nesta.

Realmente acredito que o maior problema do livro não foi o livro em si, mas sim minha expectativa em relação a ele. Tem alguns (poucos) defeitos que enxerguei, mas no geral, é uma pesquisa rica e uma abordagem interessante. Penso que com alguns pequenos ajustes, ficaria mais a meu gosto. Recomenda-se esta leitura para um público mais adulto, por conta da densidade do texto e das explicações científicas, e para um público que se interessa pelos temas de Genética, Evolução e Arqueologia.

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+ info:

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos… / Stefan Cunha Ujvari.
São Paulo: Contexto, 2014.
205 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Descobrindo o Islã no Brasil

Descobrindo o Islã no Brasil, de Karla Lima

 “As derradeiras revelações chegaram à humanidade em um ambiente populoso, barulhento e empoeirado. A Arábia Saudita ainda não se chamava assim e mal passava de uma conjunção de rotas comerciais rodeada de tribos inimigas por todos os lados quando, em Hijaz, no ano 570, nasceu o homem que, atualmente, dá nome a mais meninos do que qualquer outro no mundo. Muhammad e derivações como Mohamed, Ahmad e Mahmud não são campeões de popularidade apenas nos países de maioria muçulmana: ocupam o terceiro lugar na Inglaterra e são os mais comuns em recém-nascidos em Bruxelas e Amsterdã. Maomé, versão brasileira, é ‘errado e inaceitável’, ensina um folheto do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina. O profeta é Muhammad – Muhammad bin Abdullah. A vida não foi fácil para o pequeno Muhammad.” (p. 26)

A autora Karla Lima entrou em contato comigo pelo Instagram do Redemunhando ( @redemunhando ) e perguntou se eu gostaria de recebê-lo para resenhar. Como o tema me interessa muito, e já tinha ouvido falar bem do livro, aceitei a proposta. E não me arrependi.

Lima é jornalista e se propôs a desvendar as culturas islâmicas presentes na cidade de São Paulo e seus arredores. Ela até fez uma experiência de vestir o véu por uma semana e realizar seus afazeres comuns, tais como ir fazer compras, abastecer o carro, trabalhar. O objetivo era sentir na pele como uma muçulmana era tratada na cidade, perceber as reações das pessoas a esse hábito feminino muçulmano, experiência que ela relata rapidamente na introdução do livro.

Além da introdução e de uma bibliografia no final, que inclui livros, filmes e websites, o livro se divide em seis partes: Nascimento, onde a autora trata do surgimento do Islã; Infância, que fala sobre a difusão do Islã e como vivem as crianças que são criadas dentro da religião muçulmana; Adolescência, sobre a difusão do Islã e o estabelecimento de algumas doutrinas, além de mostrar as mudanças na cobrança com relação às regras religiosas por que passam os muçulmanos e as muçulmanas a partir da puberdade; Maioridade, sobre os pilares da religião; Morte, parte interessante que discute a associação comum, porém normalmente equivocada, do Islã com a violência; e Renascimento, um balanço crítico de méritos e falhas dos muçulmanos na visão da autora.

Como se pode ver, o livro mescla a história do Islã e suas regras gerais (doutrinas, hábitos) a histórias individuais. Ou seja, assim como a religião, o livro traz aspectos públicos e privados que são tratados pelo Islã. O que está no Alcorão, e como as pessoas e alguns países interpretam isso. Por exemplo, após explicar o significado do uso obrigatório do véu para mulheres e a necessidade do jejum durante um mês por ano dentro das regras da religião, por meio de entrevistas, temos acesso a diversas visões sobre o Islã: mulheres que usam o véu ou hijab e mulheres que escolhem não usá-lo (e não se sentem menos religiosas por isso); pessoas que realizam o jejum no mês do Ramadã, e pessoas que não o fazem.

As entrevistas revelam muitos pontos de vista diferentes sobre o Islã, justamente porque são feitas com pessoas extremamente diferentes: homens, mulheres, adolescentes; xeiques, seguidores e convertidos (ou “revertidos”) à religião; sunitas e xiitas; brasileiros, sírios, libaneses, egípcios, sauditas, palestinos.

As questões ligadas ao feminino me chamaram muito a atenção: a vestimenta como uma proteção contra a lascívia masculina, afinal de contas, representa submissão ou liberdade? O estudo e a profissão, trabalhar fora de casa, casamento… que tipo de atitudes são consideradas “adequadas” ou “desejáveis” dentro da religião? Para essas questões também existe uma variação de opiniões entre os fiéis. Aspectos ligados à propriedade pertencer a mulheres, à satisfação sexual feminina, ao divórcio, e à utilização de métodos contraceptivos são aceitos e garantidos pela religião, que são pontos que valorizam as mulheres.

Como acompanhamos o processo de pesquisa, a autora apresenta seus pontos de vista o tempo todo, em primeira pessoa, criticando posições, questionando os entrevistados, e de vez em quando, se entrevê uma ponta de ironia. Na última parte do livro, ela tece uma crítica contundente e bastante pessoal sobre a atitude dos muçulmanos frente à unilateralidade midiática (o problema de a mídia só apresentar os muçulmanos como violentos). Para mim, o tom irônico às vezes era bem-vindo, e às vezes soou como um pouco incisivo.

A escrita do livro, bastante acessível, pode parecer um pouco desorganizada para alguns leitores, embora não tenha me incomodado – aliás, achei uma maneira interessante e dinâmica de apresentar o tema. Essa mescla entre público e privado está entremeada pelo relato do processo de pesquisa e montagem do livro: é como se acompanhássemos Karla Lima em suas visitas, impressões, entrevistas, nas estatísticas e processos históricos que ela nos apresenta, e em análises de preceitos e leis islâmicos.

Livro altamente recomendado para quem quer aprender mais sobre o Islã, sobre diversos pontos de vista dentro da religião, ou simplesmente para quem é curioso em relação ao tema.


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 + info:
Descobrindo o Islã no Brasil / Karla Lima.
– São Paulo: Hedra, 2016.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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A era dos mortos-vivos

A era dos mortos-vivos: zumbis, mito, modernidade, de Eliel Barberino

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“Alteridade é o conceito que melhor define a análise que faremos dos mortos-vivos. Ao buscar entendê-los, na verdade estaremos numa busca de nós mesmos. Ao fazermos um exame dos temas que os zumbis nos apresentam, creio que você perceberá que os zumbis somos nós, eu e você. Que o medo que temos dessas criaturas é um medo sublimado de nós mesmos e dessa civilização que criamos. Que o levante dos mortos-vivos contra toda a ordem social é apenas a sublimação inconsciente de nossa revolta contra um mundo que perdeu a graça.” (p. 10)

O autor Eliel Barberino entrou em contato comigo pela página do Redemunhando no Facebook. No princípio, fiquei um pouco receosa por ser um livro de zumbis (sou covarde para temas de terror), mas quando vi que tratava-se de uma história dos zumbis, ou seja, da origem desses personagens, definitivamente fiquei interessada.

Barberino é um entusiasta dos zumbis e estudou Filosofia. Resolveu unir as duas atividades neste livro de não-ficção, que está dividido em introdução, duas partes teóricas, epílogo, agradecimentos e bibliografia. As partes I e II do livro são bastante diferentes: a primeira, chamada O surgimento do fenômeno, trata das origens do zumbi como monstro; e a segunda, O zumbi como crítica da modernidade, analisa alguns aspectos da contemporaneidade para conectá-las com a mitologia dos mortos-vivos.

A parte I pende mais para uma análise histórica, e contextualiza toda a epidemia – com o perdão do trocadilho – de popularidade dos zumbis: jogos, filmes, séries, livros. Esta parte é deliciosa de ler. Certamente um dos momentos que mais gostei foi o exame sobre os monstros “típicos” de cada tempo (bruxas, vampiros, Frankenstein, etc.), pois cada um deles reflete os medos mais intrínsecos com os quais cada uma das comunidades lida naquele momento. O zumbi representa o nosso medo da morte, mas também da decadência e da impotência. Por ser um monstro secularizado (corporificado, e não sobrenatural), possui um grande apelo à realidade atual.

Quanto às origens das lendas de mortos-vivos, Barberino as busca na cultura pop, na história europeia, haitiana e também nas obras do cineasta George Romero, que criou o zumbi (e também o apocalipse zumbi!) da maneira como conhecemos hoje. Preciso ressaltar que achei geniais as relações da crença vodu no morto-vivo com a escravidão colonial nas Américas.

Na segunda parte, mais filosófica, o texto muda de tom. Aí, o autor propõe reflexões sobre as representações e simbologias que o zumbi evoca, além de uma forte crítica à modernidade. Apesar de muito interessante, fiquei com a impressão de uma pessoalidade muito grande na argumentação: o autor critica diversas posições filosóficas das quais discorda (por exemplo, posturas materialistas/empiristas/naturalistas “radicais”, relativismos) e, com isso, acaba emitindo julgamentos de valor, pessoais, sobre alguns aspectos da modernidade. Parece que tais posições se tornam o objetivo principal dos capítulos, e os zumbis aparecem só pontualmente. E por se tratar de argumentações filosóficas, o texto fica bem mais teórico, o que pode não agradar a alguns leitores, embora não tenha me incomodado.

De qualquer maneira, foi uma leitura extremamente agradável, e fiquei muito empolgada ao ler a primeira parte – inclusive, me deu algumas ideias para a sala de aula. Encontrei um ou outro erro de revisão, mas o livro é curto (tem 116 páginas) e direto, com uma escrita prazerosa. A fonte é de tamanho relativamente grande, o que facilita ainda mais a fluidez da leitura.

A análise dos zumbis e de toda a sua cosmologia como fenômeno cultural e desses personagens como metáforas do século XXI enriquece demais a percepção que temos sobre a realidade e a “moda” dos zumbis em todas as mídias. Além disso, ao propor um exercício de identidade e alteridade, Barberino nos provoca a pensarmos também sobre nós mesmos, a morte e nossos medos. Recomendadíssimo para quem se interessa pelo tema!

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+ info:

A era dos mortos vivos / Eliel Barberino.
Rio de Janeiro: Cultura em Letras Edições, 2016.
116 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Vozes de Tchernóbil

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

“Você vive como uma pessoa normal. Uma pessoa comum. Assim, como todo mundo à sua volta: vai ao trabalho e volta para casa. Recebe um salário médio. Uma vez por ano, você sai de férias. Você tem mulher. Filhos. É uma pessoa normal! E de repente, de um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. Um animal raro! Uma coisa que interessa a todo mundo, mas que ninguém conhece. Você quer ser como todas as pessoas, mas isso não é mais possível. Não há como voltar ao mundo anterior. Você passa a ser olhado de forma diferente. As pessoas lhe perguntam: ‘Lá foi tão terrível assim? Como foi o incêndio da central? O que você viu?’. Ou, por exemplo: ‘Você pode ter filhos? A sua mulher o abandonou?’. Nos primeiros tempos, todos nós nos tornamos raridades em exposição. A própria expressão ‘homem de Tchernóbil’  até hoje funciona como sinal acústico. Todos giram a cabeça na sua direção. ‘Você é de lá!'” (Monólogo sobre toda uma vida escrita nas portas, depoimento de Nikolai Fomítch Kalúguin, um pai, pp. 65-66)

Svetlana Aeksiévitch é uma escritora nascida em 1948 na Ucrânia e criada na Bielorrússia. Ela foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2015, que é dado pelo conjunto da obra, e lhe foi concedido “pela sua escrita polifônica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”. Ela é uma das únicas vencedoras do Nobel de Literatura a escreverem não-ficção (junto com outros 4 escritores), o que reflete sua formação jornalística. Segundo a Wikipedia, o escritor bielorrusso Ales Adamovich costuma dizer que ela alavancou um novo gênero literário, que ele chamou de  “novela coletiva”, “novela-oratório”, “novela-evidência”, “gente dançando com lobos” ou “coro épico”.

O livro em questão, Vozes de Tchernóbil, é o primeiro da autora traduzido e publicado no Brasil, e trata justamente do desastre nuclear ocorrido na cidade de Tchernóbil (ou Chernobyl) em 1986, pela voz de diversos depoimentos – daí os termos que evocam coletividade em sua obra. É realmente um coro, uma compilação de vozes de pessoas que, de alguma maneira, foram vítimas do acidente nuclear de Tchernóbil. No dia 26 de abril de 1986, houve uma explosão e um grande incêndio na Usina Nuclear de Tchernóbil, que lançaram uma enorme quantidade de radioatividade nas regiões ao redor. A Rússia teve 0,5% de seu território contaminado; a Ucrânia, 4,8%; a Bielorrússia sofreu contaminação de 70% de seu território pelas partículas radioativas – todos esses países eram parte da União Soviética. Mais de 400 aldeias da Bielorrússia (quase 500) foram abandonadas e até enterradas. Apesar disso, 20% da população desse país vive em território contaminado. Todas essas informações são fornecidas no início do livro.

Aleksiévitch pouco escreve textos próprios ao longo do livro, por isso é difícil falar de seu estilo como escritora lendo apenas esta obra. É claro que o estilo transparece nas transcrições, na seleção de depoimentos e na escolha da ordem em que eles são apresentados, mas não da mesma maneira que o estilo de um autor de ficção. Ressalta-se seu brilhante trabalho de coleta e transcrição de todos esses depoimentos; as pessoas de Tchernóbil, apesar de se sentirem o centro das atenções em diversas ocasiões (como fica claro no trecho inicial do post), também se sentem invisibilizadas, negligenciadas e rejeitadas. A autora enxergou além e realmente deu voz a esses seres, que em muitos casos vivem de maneira isolada em suas antigas aldeias radioativas.

Mas existem, sim, momentos do livro que foram escritos por ela: A título de epílogo, que traz o discurso de Aleksiévitch na ocasião do recebimento do Nobel (e ali, há trechos belamente escritos do seu diário) e a Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo. Nesse texto, ela defende a ideia de que o desastre nuclear em questão foi uma verdadeira quebra no tempo, um ponto de inflexão, e um enigma incompreensível. Para a autora, Tchernóbil foi o marco de uma nova era, no sentido de nos apresentar uma nova dimensão de catástrofe, nos levar a repensar os limites de conceitos como civilização e progresso; é o passado que interfere diretamente no futuro. Trata-se de uma visão muito lúcida e consciente da enormidade da situação. Transcrevo mais um trecho, que deixa claras algumas intenções de Aleksiévitch ao escrever:

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária de pessoas comuns. Aqui, no entanto, nada é ordinário: nem as circunstâncias nem as pessoas que, obrigada pelas circunstâncias, colonizaram esse novo espaço, vindo a assumir uma nova condição. Tchernóbil para elas não é uma metáfora ou um símbolo, mas a sua casa. Quantas vezes a arte ensaiou o Apocalipse, experimentou diversas versões tecnológicas do fim do mundo, mas agora sabemos com certeza que a vida é mais fantástica ainda.” (p. 40)

O foco de Svetlana é nas pessoas, em oposição a grande parte dos documentários e matérias já realizados sobre o tema, que têm seu enfoque principal da natureza não-humana, altamente contaminada pelos próximos (milhares de) anos.

Porém, existem pessoas que residem nas redondezas, recebendo as doses de radioatividade da região, e absorvendo ainda mais ao beber água, comer alimentos ali cultivados, beber leite de animais de Tchernóbil. O que leva alguém a ficar numa zona nuclearmente perigosa? As respostas são muito humanas: a maioria daquelas pessoas não quer sair do seu lugar. O sentimento de pertencimento é fortíssimo ao longo das falas dos entrevistados, e também a sensação de que não se encaixam em nenhum outro lugar. Essas pessoas tendem a ser idosas, que viveram ali durante muitos anos e não querem abrir mão de seu modo de vida. A Bielorrússia é um país essencialmente agrário, e muitas dessas pessoas são camponesas. A radiação, invisível e inodora – e onipresente -, parece uma ficção, uma invenção das autoridades, para quem ali vive. Embora eles reconheçam que há mortes em decorrência disso, não concebem recomeçar a vida em outro lugar. Vivem por ali, isolados e em situação de solidão.

Em se tratando de uma história oral do desastre nuclear, o que há em profusão são lembranças, ou memórias. Discursos de testemunhas do evento. Por vezes, os depoimentos são fragmentários e os acontecimentos, narrados ao sabor da memória, sem ordem cronológica ou de qualquer outro tipo. Isso passa a impressão de uma conversa informal com essas pessoas, e muito sensível. A autora divide o livro em três partes, e cada uma dessas partes em monólogos, feitos pelas pessoas entrevistadas (são os depoimentos em si). Temos desde a fala da esposa de um bombeiro que foi ao reator imediatamente após a explosão (obviamente, ele tomou doses letais de radiação), até um deputado bielorrusso que foi visitar a área após o desastre; passando por cientistas, pais, crianças e soldados que tiveram um grande envolvimento emocional e físico com a cidade de Tchernóbil no decorrer dos acontecimentos.

Além do tema principal, tocam-se em assuntos que se repetem com frequência nas falas: guerra (guerras civis, Segunda Guerra Mundial, guerra do Afeganistão), questões de identidade e alteridade, nacionalidade, etnia, humanidade, política (é possível apreender um pouco da realidade soviética na segunda metade do século XX). Impressiona nos relatos a consciência que se tem da fragilidade da vida humana e a impotência em relação a situações dessa dimensão. É revoltante também os usos políticos do desastre, ao invés de proteger o máximo possível as vidas ali presentes.

Quando ouvi falar pela primeira vez neste livro (logo que a autora venceu o Nobel), fiquei imaginando como deveria ser. A leitura foi exatamente o que eu esperava. Pela variedade de depoimentos, pelo formato, e principalmente pela importância de dar voz a essas pessoas, em geral tão discriminadas, a obra de Svetlana é, de fato, fundamental. Recomendo muito a leitura – mas prepare-se, pois as falas são muito intensas. Trata-se de um exercício em que refletimos sobre o que nos faz humanos; quais são os limites para nossas ambições; e como lidamos com a morte e o sofrimento.

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+ info:

Vozes de Tchernóbil / Svetlana Aleksiévitch; tradução Sonia Branco.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
383 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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A tortura como arma de guerra

A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado, de Leneide Duarte-Plon

Tortura Como Arte de Guerra (1)

“Foi a doutrina francesa que serviu de alicerce ao edifício teórico que elaborou a tese do inimigo interno e redesenhou a Doutrina de Segurança Nacional. Segundo essa teoria militar, o adversário a ser combatido é o inimigo interno, representado por comunistas, intelectuais, operários, camponeses, líderes sindicais, estudantes e artistas, simpatizantes de ideias consideradas subversivas. Para lutar contra o inimigo interno, os militares criaram a Lei de Segurança Nacional (LSN).
[…]
As principais vítimas das ditaduras que foram se implantando na América do Sul eram, pois, membros do Partido Comunista (PC), de partidos de esquerda e até mesmo teólogos da Libertação. […]
O primado dos serviços de informação, o controle das populações civis, os interrogatórios ‘coercitivos’ em centros clandestinos, o uso do soro da verdade, os desaparecimentos forçados de opositores, os esquadrões da morte, as execuções sumárias e a prática de jogar de um avião os ‘subversivos’ ou ‘terroristas’ são elementos da prática da doutrina francesa de ‘guerra contrarrevolucionária’, o antídoto para a ‘guerra revolucionária’.” (pp. 37-38)

Conforme expliquei no post sobre o livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, em julho escolhi esses dois livros porque me parecem temas extremamente relevantes, e também interessantes para a reflexão e, inclusive, para serem levados para a sala de aula. São temas que me interessam profissionalmente falando, e é importante que os professores se mantenham (nos mantenhamos) atualizados a respeito das novidades – não só em termos de notícias, mas também no que se refere a trabalhos acadêmicos mais recentes. Requisitei ao Grupo Editorial Record o livro A tortura como arma de guerra justamente com este intuito.

Leneide Duarte-Plon é uma jornalista brasileira que reside atualmente na França. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2015 com o livro Um homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar (Civilização Brasileira), que escreveu em coautoria com Clarisse Meireles.

No livro A tortura como arma de guerra, Duarte-Plon parte de entrevistas com o general francês Paul Aussaresses, responsável pela utilização de tortura como arma de combate contra os independentistas na Argélia (país que, até o ano de 1962 era colônia francesa). Tais entrevistas lhe forneceram material para analisar como a tortura é admitida e até considerada um método aceitável de “manutenção da ordem” ou “combate ao terrorismo” em determinados momentos da História, e inclusive por Estados considerados desenvolvidos, como a França.

Obviamente, não se pretende dizer que o exército francês inventou a tortura, já praticada há tempos por diversas pessoas e instituições. O mais impressionante é imaginar que o Estado francês, considerado o baluarte dos direitos humanos, tenha praticado tortura como arma de guerra, como método de guerra recomendado e aprovado pelas autoridades. Mais do que isso, esse tipo de informação só veio à tona no ano de 2001, quando o general Aussaresses publicou um livro detalhando os métodos cruéis de combate dos militares franceses na Argélia nas décadas de 1950 e 1960. Até então, a França acreditava já ter resolvido o assunto do que eles chamavam de “acontecimentos da Argélia” – que nada mais eram que a Guerra de Independência (1964-1962).

O livro desperta reflexões sobre o fazer historiográfico e a memória oficial. Considerando, por exemplo, que o próprio reconhecimento de que os “acontecimentos” foram, em realidade, uma guerra contra a independência argelina, é possível refletirmos sobre o porquê de se tratar uma guerra como simples acontecimentos. O que muda quando mudamos essas (aparentemente) simples palavras? Percebemos que os aspectos simbólicos da memória são fundamentais para a política de uma nação, para entender como e porquê as coisas estão como estão. Um passado autoritário que não é bem resolvido cria rachaduras profundas no presente “democrático”.

Além de todos esses pontos importantíssimos, Duarte-Plon ainda revela, através de pesquisas documentais, que o general Aussaresses participou ativamente do treinamento de militares norte-americanos e latinoamericanos – inclusive brasileiros – na “escola francesa” ou “doutrina francesa”, que nada mais são que os métodos de tortura utilizados na Argélia com fins de repressão a guerrilhas rurais e urbanas. O general chamava isso de “guerra contrarrevolucionária”. Tais métodos, nas ditaduras militares latino-americanas, foram utilizados também na “caça” ao “inimigo interno”: pessoas de esquerda, como professores, artistas, políticos, operários, estudantes. Ele esteve no Brasil entre 1973 e 1975 e possuía estreitos laços de amizade com João Batista Figueiredo (entre outros figurões militares brasileiros), general presidente durante a ditadura.

O livro está dividido em duas partes, sendo que a primeira trata de como a “doutrina francesa” foi ensinada para militares de toda a América na década de 1960 e influenciou nas ditaduras militares latinoamericanas; e a segunda, mostra as entrevistas da autora com o general Aussaresses, realizadas em 2008 (ele faleceu em 2013), e entrevistas e depoimentos de outras pessoas interessantes ao caso. O livro conta com um prefácio extremamente lúcido de Vladimir Safatle, que fala sobre a importância de um país encarar seu passado violento de forma aberta e clara, a fim de realmente resolver tais situações. O paralelo o Brasil é evidente, já que, a tendência de “varrer para baixo do tapete” aspectos de um passado que nos envergonha parece ser a mais forte. A falta de elaboração dessas incômodas questões históricas no nível simbólico leva à emergência de situações reais, tais como pedidos pela volta da ditadura nas ruas, e manifestações pela “caça aos comunistas” num momento em que o Comunismo não é mais um horizonte possível.

Definitivamente, minhas partes favoritas foram o prefácio e a primeira parte, em que Duarte-Plon tece um panorama da ditadura brasileira em particular, e das latinoamericanas em geral, cruzando as informações dadas pelo general Ausseresses com relatórios militares da época e outras entrevistas. Existem, ao final, notas que esclarecem as fontes das informações. Depois de verificar tudo isso, fica impossível negar que houve, sim, torturas durante o regime militar.

Livro importante para se entender mais um aspecto da ditadura militar brasileira, e para se refletir sobre questões de direitos humanos. Recomendo demais!

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+ info:

A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado / Leneide Duarte-Plon.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
294 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Civilização Brasileira, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, de Mario Luis Grangeia

Brasil (1)

No mês de julho, tive uma enorme meta literária, já que participei da Maratona Literária de Inverno #MLI2016 . Sabendo que além de todas essas leituras, ainda viajaria, apresentaria o TCC, e precisaria voltar para minha cidade a tempo de preparar aulas, resolvi pedir livros de tamanho menor, mas que ainda assim, me fossem de grande interesse. Entre os disponibilizados para parceiros do Grupo Editorial Record, acabei escolhendo dois de não-ficção, e que certamente me acrescentaram demais em termos de reflexão e bagagem cultural.

Os professores de História sabem que os temas mais sangrentos são alguns dos favoritos de serem estudados pelos alunos (como Holocausto e ditadura militar). E, à medida em que a História vai ficando mais próxima de nós, ainda mais instigadora fica, pois nos diz respeito diretamente. Já fiz a experiência de levar músicas para a sala de aula, e Cazuza e Renato Russo fizeram parte dela. Foi um sucesso! Levando em conta essa experiência, achei que esta obra de Mario Luis Grangeia poderia ser de grande apoio teórico para aproximar ainda mais os alunos do conteúdo do final da ditadura militar no país, o período da chamada “transição democrática”.

O Brasil atravessou um período de regime militar, em que os principais cargos do poder Executivo da União eram exercidos por militares. Do golpe, em 1964, até a eleição do primeiro presidente civil, em 1985, foram 21 anos de ditadura, em que direitos políticos foram cerceados da população. A censura aos meios de comunicação é um dos mais conhecidos, o qual atingiu a muitos artistas e programas de rádio, jornais e televisão. Além da censura oficial, havia também a perseguição de opositores ao regime, os quais eram chamados de “subversivos” e perseguidos, presos, torturados, exilados, “desaparecidos”.

Nos anos 1980, o regime já não se sustentava, em decorrência de crise econômica (índices de inflação crescentes) e aumento da pressão por uma abertura política por parte da sociedade civil. Nessa década, vivemos o período chamado de “transição democrática” no Brasil, anos de idas e vindas em direção à democracia e de retorno a atitudes autoritárias. Diferentemente dos países vizinhos da América Latina, a passagem de um governo autoritário para um governo democrático no nosso país foi mais contínuo, sem rupturas bruscas. Tratou-se de um processo gradual e lento, daí a adoção de medidas democráticas, mas pontuadas pela manutenção ou pelo recrudescimento de medidas autoritárias.

O livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática trata justamente desse período conturbado e de como esses dois artistas perceberam todas as mudanças e continuidades que o país vinha sofrendo. A via oposta também é verdadeira: Cazuza e Renato não só foram influenciados pelo contexto, como também influenciaram significativamente toda uma geração (não só uma!) de jovens com suas canções a respeito de autoritarismo, vida íntima, liberdade, revolta, questionamento e reflexão.

Além de uma apresentação, em que o autor explica a origem do livro e do que ele trata, e o primeiro capítulo introdutório, o texto ainda está dividido em 5 partes temáticas: Autoritarismo: aversão ao regime militarPatriotismo: exaltação e indignação convivemIdeologia: oscilação da esperança ao desencantoDesigualdades: renda concentrada e outras disparidades; e Orientação sexual: homossexualidade sem tabu. A obra também conta com um capítulo final chamado Crônicas do Brasil de ontem e hoje, posfácio, agradecimentos, uma linha do tempo com acontecimentos selecionados das vidas de Cazuza e Renato Russo, bibliografia e discografia.

Trabalho muito bem feito, Grangeia conseguiu transformar um texto acadêmico em obra acessível ao público leigo. De linguagem fluida, o autor parte das letras de Cazuza e Renato Russo para analisá-las à luz do momento político e social vivido à época. Um dos aspectos mais bacanas do livro é o entrelaçamento das letras com entrevistas que os cantores deram a jornais, revistas e televisão. Fugindo um pouco das especulações sobre o significado de cada verso, Grangeia consegue ir buscar quais foram as interpretações dos próprios autores das músicas.

É curioso que algumas músicas tratadas no livro tenham demorado quase 10 anos para serem gravadas e divulgadas, e ainda assim, continuavam fazendo sentido no contexto brasileiro (caso de Que país é este, escrita em 1978, mas que só estourou nas rádios em 1987). Era de se esperar que a situação melhorasse, mas é o tipo de letra que se encaixa como uma luva à nossa realidade ainda hoje. Nota-se não só nas músicas tratadas, mas também nas décadas de 1980 e início de 1990 como um todo, essa oscilação entre extremo desânimo pela situação e otimismo esperançoso pelas mudanças tão aguardadas – que nem sempre vieram, ou vieram, mas não com tantos benefícios.

Realmente, não me enganei quanto ao propósito do livro. É um material interessantíssimo para se pensar o contexto político dos anos 1980 no Brasil, muito possível de ser utilizado em sala de aula – muito atrativo também! -, e confiável em termos de pesquisa. Também recomendado para fãs de Cazuza, Barão Vermelho, Renato Russo, Aborto Elétrico e Legião Urbana!

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+ info:

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática / Mario Luis Grangeia.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
175 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, História, Não ficção, Resenha

Olga

Olga, de Fernando Morais


“- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo duro encostando em sua nuca. Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
– Solte o preso!
[…]
O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala:
– O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. […]
Na hora do almoço, uma edição extra do diário
 Berliner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de ‘ousada cena de faroeste’ ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o ‘assalto comunista’: Olga Benario. (pp. 17-18)

A convite da Lu (Abstração Coletiva) e da Gi (Lendo a Estante), fui participar de um encontro do grupo Leituras Compartilhadas dOs Espanadores, em São Paulo. O livro da vez era Olga, do jornalista Fernando Morais, publicado em 1984.

O livro se pretende uma narrativa fiel de parte da vida da alemã judia e comunista Olga Benario, desde meados dos anos 1920 a meados dos anos 1930. Confesso que a fala inicial do jornalista na apresentação à 1ª edição me deu arrepios como historiadora. Ele diz: “A história que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro: a vida de Olga Benario Prestes […]”. É muito claro que todo documento é discurso – por mais fidedigno que ele se pretenda. Nenhum texto retrata a realidade tal como ela foi, a realidade é irrecuperável. É possível juntar peças de quebra-cabeças, confrontar diferentes testemunhos, tentar reconstituir os fatos de maneira plausível e o mais complexa possível. Mas relatar fatos exatamente como ocorreram é impossível. Mesmo no trecho que selecionei para o início do post, fica evidente a escolha de palavras de maneira a conduzir o leitor para determinado tipo de pensamento: ao qualificar Olga como uma “linda moça”, já se forma uma ideia de surpresa, graças a nossa cultura. Quase que inconscientemente, já nos vem a curiosidade: o que uma moça – e, quem diria, “linda”! – está fazendo com uma arma na mão, voz firme, chefiando uma situação ilegal desse porte? O estranhamento é imediato. E é esse estranhamento que o autor visa produzir quando escolhe precisamente essas palavras.

Fora esse questionamento inicial, considerei o livro uma leitura bastante agradável por sua linguagem, mas não pense que é leve. As temáticas abordadas são pesadíssimas: tortura e perseguição (cheguei a sonhar que estava sendo perseguida!), prisão política, nazismo, ditadura. Devo dizer também que o final não é feliz, para os que não gostam muito desse tipo de história. Olga é comunista, e precisa fugir do governo alemão. Vai para a União Soviética, onde é reconhecida como uma grande agente. Lá, recebe a missão de acompanhar Luis Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, até o Brasil e aqui organizar uma revolução comunista através da tomada de poder.

Narrado em terceira pessoa, Morais buscou uma gama variada de documentos para montar este trecho da biografia de Olga (a infância e sua relação com os pais é citada, mas não aprofundada), tais como: entrevistas, notícias de jornais, fotografias, relatórios policiais – inclusive, segundo ele, muitos somente foram encontrados em território internacional. De linguagem acessível, visualizamos a tensão e o embate direto entre regimes capitalistas, como o governo de Getúlio Vargas no Brasil, e grupos comunistas, como a Aliança Nacional Libertadora – ANL. O grande problema com relação à pesquisa foi a exposição dos fatos e documentos, já que não fica claro de onde o autor retirou várias informações. O livro é romanceado, então é muito comum encontrarmos falas atribuídas a alguns personagens (Olga, principalmente) e que não sabemos de onde Morais tirou. A falta de notas de rodapé indicando de que fonte é alguma citação ou informação é uma falha enorme do livro.

A narrativa destaca uma mulher extremamente forte e determinada. Olga aparece como uma personagem destemida e independente, sempre pronta a lutar pelos seus ideais. É uma verdadeira heroína, o que acaba por torná-la uma personagem plana, sem defeitos, como bem lembrou a Luana Werb durante nossa discussão sobre o livro. Há momentos em que questiona a instituição do casamento, proposto a ela por um ex-namorado também comunista – por outro lado, também colocam-se falas machistas na boca dela (mas sem a devida referência). Segundo o livro, ela era ousada e corria riscos se isso significasse algum tipo de benefício ou vitória para a causa em que acreditava. Outras mulheres também se destacam na narrativa: Lígia e dona Leocádia, respectivamente irmã e mãe de Luís Carlos Prestes, que realizam intensa mobilização e campanha na Europa para libertar Olga; as colegas comunistas de Olga e Prestes – a maioria das quais também é presa e torturada e, ainda assim, resiste.

Uma das cenas que achei mais emocionantes foi quando a polícia de Getúlio Vargas vai buscar Olga, grávida, na prisão a fim de deportá-la para a Alemanha nazista. As presas e os presos resistem de maneira impressionante e muito solidária.

Em suma, como historiadora, não recomendo o livro por falta de rigor no tratamento com a documentação e na exposição das informações. Ou seja, o livro traz muito mais características do gênero ficção do que de biografia, como ele se pretende. Por outro lado, uma vez que consegui fechar os olhos para essas falhas, achei uma leitura agradável.

O filme Olga (2004), dirigido por Jayme Monjardim e estrelado por Camila Morgado no papel principal, foi baseado no livro de Fernando Morais.

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+ info:

Olga / Fernando Morais.
São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
321 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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