2016, Hedra, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Descobrindo o Islã no Brasil

Descobrindo o Islã no Brasil, de Karla Lima

 “As derradeiras revelações chegaram à humanidade em um ambiente populoso, barulhento e empoeirado. A Arábia Saudita ainda não se chamava assim e mal passava de uma conjunção de rotas comerciais rodeada de tribos inimigas por todos os lados quando, em Hijaz, no ano 570, nasceu o homem que, atualmente, dá nome a mais meninos do que qualquer outro no mundo. Muhammad e derivações como Mohamed, Ahmad e Mahmud não são campeões de popularidade apenas nos países de maioria muçulmana: ocupam o terceiro lugar na Inglaterra e são os mais comuns em recém-nascidos em Bruxelas e Amsterdã. Maomé, versão brasileira, é ‘errado e inaceitável’, ensina um folheto do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina. O profeta é Muhammad – Muhammad bin Abdullah. A vida não foi fácil para o pequeno Muhammad.” (p. 26)

A autora Karla Lima entrou em contato comigo pelo Instagram do Redemunhando ( @redemunhando ) e perguntou se eu gostaria de recebê-lo para resenhar. Como o tema me interessa muito, e já tinha ouvido falar bem do livro, aceitei a proposta. E não me arrependi.

Lima é jornalista e se propôs a desvendar as culturas islâmicas presentes na cidade de São Paulo e seus arredores. Ela até fez uma experiência de vestir o véu por uma semana e realizar seus afazeres comuns, tais como ir fazer compras, abastecer o carro, trabalhar. O objetivo era sentir na pele como uma muçulmana era tratada na cidade, perceber as reações das pessoas a esse hábito feminino muçulmano, experiência que ela relata rapidamente na introdução do livro.

Além da introdução e de uma bibliografia no final, que inclui livros, filmes e websites, o livro se divide em seis partes: Nascimento, onde a autora trata do surgimento do Islã; Infância, que fala sobre a difusão do Islã e como vivem as crianças que são criadas dentro da religião muçulmana; Adolescência, sobre a difusão do Islã e o estabelecimento de algumas doutrinas, além de mostrar as mudanças na cobrança com relação às regras religiosas por que passam os muçulmanos e as muçulmanas a partir da puberdade; Maioridade, sobre os pilares da religião; Morte, parte interessante que discute a associação comum, porém normalmente equivocada, do Islã com a violência; e Renascimento, um balanço crítico de méritos e falhas dos muçulmanos na visão da autora.

Como se pode ver, o livro mescla a história do Islã e suas regras gerais (doutrinas, hábitos) a histórias individuais. Ou seja, assim como a religião, o livro traz aspectos públicos e privados que são tratados pelo Islã. O que está no Alcorão, e como as pessoas e alguns países interpretam isso. Por exemplo, após explicar o significado do uso obrigatório do véu para mulheres e a necessidade do jejum durante um mês por ano dentro das regras da religião, por meio de entrevistas, temos acesso a diversas visões sobre o Islã: mulheres que usam o véu ou hijab e mulheres que escolhem não usá-lo (e não se sentem menos religiosas por isso); pessoas que realizam o jejum no mês do Ramadã, e pessoas que não o fazem.

As entrevistas revelam muitos pontos de vista diferentes sobre o Islã, justamente porque são feitas com pessoas extremamente diferentes: homens, mulheres, adolescentes; xeiques, seguidores e convertidos (ou “revertidos”) à religião; sunitas e xiitas; brasileiros, sírios, libaneses, egípcios, sauditas, palestinos.

As questões ligadas ao feminino me chamaram muito a atenção: a vestimenta como uma proteção contra a lascívia masculina, afinal de contas, representa submissão ou liberdade? O estudo e a profissão, trabalhar fora de casa, casamento… que tipo de atitudes são consideradas “adequadas” ou “desejáveis” dentro da religião? Para essas questões também existe uma variação de opiniões entre os fiéis. Aspectos ligados à propriedade pertencer a mulheres, à satisfação sexual feminina, ao divórcio, e à utilização de métodos contraceptivos são aceitos e garantidos pela religião, que são pontos que valorizam as mulheres.

Como acompanhamos o processo de pesquisa, a autora apresenta seus pontos de vista o tempo todo, em primeira pessoa, criticando posições, questionando os entrevistados, e de vez em quando, se entrevê uma ponta de ironia. Na última parte do livro, ela tece uma crítica contundente e bastante pessoal sobre a atitude dos muçulmanos frente à unilateralidade midiática (o problema de a mídia só apresentar os muçulmanos como violentos). Para mim, o tom irônico às vezes era bem-vindo, e às vezes soou como um pouco incisivo.

A escrita do livro, bastante acessível, pode parecer um pouco desorganizada para alguns leitores, embora não tenha me incomodado – aliás, achei uma maneira interessante e dinâmica de apresentar o tema. Essa mescla entre público e privado está entremeada pelo relato do processo de pesquisa e montagem do livro: é como se acompanhássemos Karla Lima em suas visitas, impressões, entrevistas, nas estatísticas e processos históricos que ela nos apresenta, e em análises de preceitos e leis islâmicos.

Livro altamente recomendado para quem quer aprender mais sobre o Islã, sobre diversos pontos de vista dentro da religião, ou simplesmente para quem é curioso em relação ao tema.


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 + info:
Descobrindo o Islã no Brasil / Karla Lima.
– São Paulo: Hedra, 2016.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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