2016, Companhia das Letras, Contos, Fantasia, Favoritos, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Infanto-juvenil, Resenha, Seguinte, Vídeo

Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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2016, Ficção, Galera Júnior, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Parceria, Resenha

George

George, de Alex Gino

George (1)

“George pegou uma edição de abril que já tinha visto incontáveis vezes. Folheou pelas páginas com um flip-flip-flip seco que fez o papel soltar um leve aroma.
Ela parou em uma foto de quatro garotas na praia. Elas estavam em fila, vestidas com roupas de banho, cada uma fazendo uma pose. Um guia na lateral direita da página recomendava os vários estilos baseados no tipo de corpo. Aos olhos de George, todos os corpos pareciam iguais. Eram corpos de garotas.
Na página seguinte, duas meninas estavam sentadas em uma toalha, rindo, com os braços nos ombros uma da outra. Uma estava usando um biquíni listrado; a outra, um maiô de bolinhas, cavado nos quadris.
Se George estivesse lá, ela se encaixaria na cena, rindo e juntando os braços com os delas. Usaria um biquíni rosa-choque e teria cabelo comprido, no qual as novas amigas adorariam fazer tranças. Elas perguntariam o nome dela, e ela diria: 
meu nome é Melissa. Melissa era como ela se chamava no espelho, quando ninguém estava olhando e ela podia pentear o cabelo castanho liso para a frente, como se tivesse uma franja.” (pp. 8-9)

George é um livro infanto-juvenil que tem uma protagonista diferente das comuns: ela é uma menina que tem corpo de menino. Vivendo sua pré-adolescência sem ter consciência exata do que se passa com seu corpo e seus sentimentos – como qualquer adolescente -, ela ainda tem que lidar com a esmagadora sensação de não se encaixar no padrão esperado, de não se adequar às expectativas da sociedade à sua volta (inclusive de família e amigos, que não sabem pelo que ela está passando). Certo dia, a turma deve encenar uma peça na escola. George resolve tentar interpretar um papel considerado feminino, o da aranha Charlotte.

O livro é claramente direcionado ao público juvenil, o que é perceptível pela sua linguagem mais simples e direta, e pela maneira como a narrativa é contada. É interessante ver como Alex Gino trata George desde o início pelo pronome “ela”, o que já direciona a leitura para tornar mais clara a maneira como a personagem se enxerga. É um belo exercício de empatia proposto ao leitor. (Aliás, a título de curiosidade, @ autor@ gosta de ser chamad@ pelo pronome “they”, em inglês, que não indica gênero. Inclusive, em seu website, pede para que não se utilize pronome masculino ou feminino para se referir a el@. Peço desculpas pelos @, mas foi a única maneira que encontrei – em português – de respeitar o pedido.)

O que mais chama atenção no livro é, de fato, a protagonista, muito delicada em suas percepções. Mas os personagens que mais me cativaram foram Kelly, a melhor amiga de George, e Scott, irmão mais velho da protagonista. Eles ajudam o leitor a compreender a importância da família e dos amigos em momentos de crise, como eles podem funcionar como uma espécie de âncora emocional, um apoio mesmo, sem o qual a pessoa se desestabilizaria.

Gostaria de ressaltar apenas um ponto que achei exagerado ao longo da narrativa. Me pareceu que alguns estereótipos de gênero – notadamente o feminino – foram reforçados. Como se todas as coisas de que George gostasse fossem consideradas necessariamente femininas: jogo de amarelinha e pular corda, a ideia de que meninas quando querem se arrumar usam saias, etc. Sei que não é a tônica do livro – e provavelmente, nem a intenção de Gino -, mas achei que valia a pena mencionar este aspecto.

É uma obra que traz os temas de gênero, relações pessoais (amizades, familiares), conflitos internos e questões identitárias. Da forma mais suave possível, a questão dos transgêneros é tratada como deve ser: algo normal e digno de respeito. Certamente é uma história que revela o quanto a diversidade humana pode ser rica para a convivência de todos. Recomendado para todos, mas acho que um público pré-adolescente vá gostar mais.

Pedi o livro para o Grupo Editorial Record de parceria, já que precisava ler um livro com temática LGBT para O Grande Desafio do Culto Booktuber deste mês.

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+ info:

George / Alex Gino; tradução Regiane Winarski.
Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016.
142 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Favoritos, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Língua Geral, Resenha

Os malaquias

Os Malaquias, de Andrea Del Fuego


“Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
” (pp. 19-20)

Os Malaquias foi lido para um dos desafios do mês de maio dO Grande Desafio do Culto Booktuber. A Gabi, do canal Frases Perdidas, propôs que lêssemos um livro premiado. Escolhi este livro pois o havia comprado já há tempos e ele estava me esperando na estante. Sempre tive muita vontade de lê-lo (meu amigo Lucas já me havia recomendado que lesse algo escrito pela Andrea Del Fuego), mas nunca peguei para ler efetivamente. A oportunidade surgiu, e eu agarrei.

Os Malaquias foi o livro vencedor do Prêmio José Saramago 2011 e finalista do Prêmio Jabuti. O Prêmio José Saramago acontece a cada dois anos desde 1999, e “distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país da lusofonia, excluindo obras póstumas”, segundo o próprio regulamento. Por enquanto, Andrea Del Fuego é a segunda brasileira a levar o prêmio, sendo a primeira Adriana Lisboa em 2003, com Sinfonia em branco.

O trecho reproduzido no início do post está na segunda e na terceira páginas da história. Ele dá o tom para o livro. A família Malaquias é inicialmente formada por cinco pessoas: Donana e Adolfo, os pais; Nico (9 anos), Antônio (6 anos) e Júlia (4 anos). Durante uma noite tempestuosa, um relâmpago cai na casa dos Malaquias a mata os pais. As três crianças são resgatadas no dia seguinte e, a partir daí, cada uma segue um rumo diferente. Trata-se de uma história de encontros e desencontros, rumos e decisões.

Passada em Serra Morena, um ambiente rural – algo relativamente raro na literatura brasileira atual -, o lugar dos Malaquias também não é um lugar real. Parece um lugar de transição, um limiar entre a vida e a morte. Muitas vezes, temos a impressão de estar lendo um sonho, um lendo ou um mito, trazida pelo realismo mágico entranhado na obra.

A linguagem de Del Fuego é absolutamente impressionante. De prosa ágil e qualidade até um pouco crua, ainda que lírica, as frases curtas e capítulos pequenos permitem uma leitura rápida e intensa. Nos personagens, percebemos qualidades ásperas ou secas, graças ao ritmo da linguagem.

A narração em terceira pessoa – mas não onisciente – dá muitos saltos, deixando lacunas e vazios que só enriquecem a experiência de leitura.

Não posso deixar de falar da edição publicada pela editora Língua Geral. Diagramação, projeto gráfico, qualidade do material, revisão, tudo impecável. O corte do livro é de um tom amarelo escuro, e cada capítulo é separado dos outros por uma página preta. Este título faz parte de uma coleção chamada Ponta de lança, que visa divulgar autores atuais que escrevem em língua portuguesa. Já quero todos os títulos, foram todos para a wishlist.

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Livro recomendadíssimo, ainda mais para quem gosta de Cem anos de solidão do Gabriel García Márquez, e de A cabeça do santo de Socorro Acioli, e para quem quer ouvir novas vozes, e de altíssima qualidade, da literatura brasileira.

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+ info:

Os Malaquias / Andrea Del Fuego.
Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010.
272 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Contos, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Leia Mulheres, Pallas, Resenha

Olhos d´água

Olhos d´água, de Conceição Evaristo


“A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno?” (pp. 104-105)

Li Olhos d´água para o encontro de fevereiro do Leia Mulheres de Belo Horizonte. E acabei encaixando-o também no desafio de fevereiro dO Grande Desafio do Culto Booktuber proposto pela Laíse, do canal Boards e Books. O desafio consistia em ler um autor ainda não lido. Conceição Evaristo é uma escritora natural de Belo Horizonte e que teve uma juventude pobre: foi moradora de favela e conciliou os estudos e o trabalho como empregada doméstica. Formou-se em Letras, e hoje em dia é Mestra e Doutora em Literatura. Começou sua carreira como escritora em 1990.

Olhos d´água é uma reunião de contos de Conceição. Eles têm como protagonistas na maioria dos casos mulheres negras, e em muitos casos, pobres e em baixa condição socioeconômica.

No prefácio e na introdução que há no livro – ambos muito bons, de Heloisa Toller Gomes e Jurema Werneck -, destaca-se muito os diversos papéis desempenhados pela mulher em geral, e pela mulher negra e pobre, em particular. Mas o que mais me atingiu nas narrativas da autora foram duas coisas: o amor e a violência, ambos presentes em todos os contos.

Sou uma pessoa muito enjoada para ler sobre amor. Acho quase tudo que se fala sobre ele um clichê. Tudo brega. Mas Conceição Evaristo tem o dom de tornar tudo bastante real, e ao mesmo tempo, singelo e impactante. E não se trata apenas de amor romântico entre um casal. O primeiro conto, por exemplo, que dá nome ao livro, é narrado por uma mulher que procura lembrar-se de que cor são os olhos de sua mãe. Tão simples, tão complicado! (Este é o melhor conto, na minha opinião.) Existe, é claro, também o amor entre casal; casos muito ternos de amor-próprio e autodescoberta, sexo, traição. E, é claro, a raiva que advém de tudo isso, frustrações, ódios, necessidades, que muitas vezes levam à violência e à morte. As mortes de personagens, inclusive, implicam na denúncia da impossibilidade de viver a realidade – palavras da própria autora.

Conceição Evaristo compareceu ao encontro do Leia Mulheres Belo Horizonte e foi uma surpresa agradabilíssima! Ela ouviu nossos debates sobre os livros e os contos e, ao final, nos brindou com uma fala extremamente consciente de sua condição de mulher negra e de sua literatura. Em ambos ela enxerga poder: suas palavras têm força, e suas histórias refletem sua visão de mundo. Veja algumas fotos do encontro (fotos de André Castro, retiradas do blog da Mari Castro, uma das mediadoras):

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A escrita é magistral. Confesso que os finais foram, aos poucos, tornando-se parecidos e, por isso, previsíveis, mas os inícios e todo o decorrer das narrativas são belamente escritos, fortes, sensíveis. A linguagem mistura fala popular e que contém elementos bantu, o que garante fluidez ao texto.

Trata-se de um livro necessário. Autora negra, protagonistas negros, realidades de pobreza que pouco aparecem na literatura, grande maioria de personagens mulheres. Bem diferente da média que vemos por aí em geral (veja aqui as estatísticas da literatura brasileira, sendo a maioria de autores e protagonistas homens, brancos, heterossexuais, de classe média). É um caso maravilhoso de representatividade na literatura. Fora a escrita deliciosa e impactante ao mesmo tempo, e as narrativas e personagens interessantíssimas. Altamente recomendado!

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+ info:

Olhos d´água / Conceição Evaristo.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2015.
116 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Ciência, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Intrínseca, Não ficção, Resenha

A sexta extinção

A sexta extinção: uma história não natural, de Elizabeth Kolbert


“Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Premiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo.
A extinção em curso tem sua própria causa original – não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas ‘uma espécie daninha’. Como me disse Walter Alvarez, ‘estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres humanos’.” (p. 276)

Extinções em massa são reduções bruscas (em termos geológicos) do número de espécies que habitam o planeta. De acordo com a autora Elizabeth Kolbert, jornalista norte-americana, já houve 5 extinções conhecidas até o momento, com extinções de até 95% das espécies. O livro A sexta extinção trata do momento atual que, como sugere o título, apresenta sinais que apontam para uma nova extinção em massa, desta vez possivelmente causada – e tendo como vítimas – nós mesmos, os seres humanos.

O livro conta, de maneira leve (o tema é bem pesado, mas o estilo, não), viagens que Kolbert fez em busca de informações sobre o meio ambiente – ela era colunista de ecologia da revista The New Yorker. Já no primeiro capítulo, ela nos conta sobre uma expedição que fez ao Panamá. Lá, viu o caso da extinção de diversas espécies de anfíbios (ela dá destaque à rã dourada), que tem preocupado muitos biólogos e ambientalistas. Este é o pontapé inicial para toda a discussão do livro. Em cada capítulo, ela fala sobre alguma espécie (extinta, viva ou ameaçada) e, a partir deste microuniverso, trata de algum tema maior, introduz conceitos biológicos, como aquecimento global, introdução de espécies estrangeiras (invasoras) em determinados territórios, as especificidades das zonas intertropicais, etc.

Um dos capítulos de que mais gostei está no início, e fala sobre como surge essa ideia de extinção no meio científico. Eu nunca havia pensado sobre isso, e acho que a maioria das pessoas tende a pensar que alguns conceitos já nascem prontos. Mas demorou para que alguém pensasse na possibilidade de que alguma espécie já tivesse sumido, desaparecido da face da Terra. Devemos lembrar que, antigamente, a ideia de que o mundo havia nascido do jeito que é (pelas mãos de um ou vários deuses) era o que imperava, e raramente era questionada. Kolbert nos situa nessa discussão, em que o naturalista francês Couvier, na década de 1790, propõe que existiu um mundo anterior ao nosso, com formas de vida finitas, não eternas. Tudo isso foi proposto com base em observações geológicas, anatômicas e paleontológicas. Imaginem o alvoroço que isso não causou na comunidade leiga e científica da época!

Outro aspecto interessante que ela traz é que, a partir da aceitação da ideia de extinção, surgem então duas correntes: o catastrofismo, que defendia que essas extinções aconteciam de forma rápida, e o uniformitarismo, segundo o qual as extinções eram graduais – assim como a própria evolução das espécies. Esses conflitos entre ideias revelam o processo de construção de novas teorias e paradigmas científicos, e são importantes para esclarecer que a ciência é uma prática, é modificável de acordo com as evidências que vão surgindo e, portanto, diferem substancialmente de doutrinas religiosas nesse ponto. Não se trata de mágica ou vontade divina inexplicável, mas sim de teorias baseadas em evidências, e que podem ser questionadas e revistas.

Intercalando com o contexto histórico das teorias científicas, alguns capítulos tratam de descrever prováveis causas das extinções em massa anteriores, como por exemplo, um meteorito ou aumento da concentração de oxigênio ou do dióxido de carbono na atmosfera e nos oceanos.

No início da leitura, me pareceu que os exemplos dados (o caso das rãs douradas, por exemplo) se sobrepunham ao assunto principal (as extinções em massa), mas aos poucos, essa impressão se diluiu. Ainda assim, seria interessante uma organização mais cronológica (para ser justa, existe uma linha do tempo ao final da obra) e sistemática; talvez uma simples mudança nos títulos dos capítulos conseguisse esse efeito.

A rã dourada do panamá, Elizabeth Kolbert, e o arau gigante

A autora – obviamente – tem um estilo jornalístico, no sentido de que descreve os aspectos cotidianos de suas viagens e pesquisas, e também traz dados e informações científicas mais precisas, com as devidas referências em notas de fim. Trata-se de um bom jornalismo de divulgação científica! Recomendo para quem se interessa pelo assunto e para quem quer estar mais informado a respeito das coisas do nosso mundo! 🙂

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+ info:

A sexta extinção: uma história não natural / Elizabeth Kolbert; tradução Mauro Pinheiro.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
334 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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As bruxas de Eastwick

As bruxas de Eastwick, de John Updike


“Alexandra voltou então ao preparo de vidros de molho para espaguete, molho para mais espaguete do que ela e os filhos seriam capazes de consumir mesmo que tivessem sido enfeitiçados e condenados a passar cem anos dentro de um conto de fadas italiano, vidros e mais vidros retirados, fumegantes, do panelão azul sarapintado de branco em cima da grelha de metal redonda trêmula e sibilante. Percebeu vagamente que isso era uma espécie de ridículo tributo ao seu atual amante, um encanador de origem italiana. A receita de Alexandra levava cebola, dois dentes de alho picados e salteados por três minutos em azeite quente (nem mais, nem menos; era essa a magia), bastante açúcar para contrabalançar a acidez, uma única cenoura ralada, mais pimenta do que sal; mas a colher de chá de manjericão picado era o que dava ao molho a sua virilidade, e a pitada de beladona proporcionava a libertação sem a qual a virilidade não passa de uma congestão assassina. Tudo isso devia ser acrescentado aos seus próprios tomates, colhidos e guardados em cada peitoril de janela durante as últimas semanas e agora cortados e levados ao liquidificador – desde que, dois verões antes, Joe Marino havia começado a frequentar sua cama, uma absurda fecundidade tomara conta dos pés de tomate plantados no jardim lateral onde o sol do sudoeste batia enviesado por entre as fileiras de salgueiros durante as longas tardes. Os pequenos galhos retorcidos dos tomates, suculentos e descorados como se feitos de um papel verde barato, se quebravam com o peso de tantos frutos; havia algo de frenético em tamanha fertilidade, uma histeria parecida com a de crianças ansiosas para agradar. Dentre todas as plantas, os tomates pareciam as mais humanas, ansiosas e frágeis, vulneráveis à deterioração. Ao colher as polpudas esferas vermelho-alaranjadas, Alexandra tinha a impressão de estar segurando na mão os testículos de um gigantesco amante. Enquanto se atarefava na cozinha, reconhecia o quê de tristemente menstrual em tudo aquilo, o molho parecido com sangue a ser despejado sobre o branco espaguete. As grossas tiras brancas iriam se transformar em sua própria gordura branca. Sua luta feminina contra o próprio peso: aos trinta e oito anos, ela achava isso cada vez menos natural. Será que para atrair o amor ela precisava negar o próprio corpo, como uma santa neurótica de antigamente? A natureza é o indicador e o contexto de toda saúde e, se temos um apetite, ele está lá para ser saciado, satisfazendo assim a ordem cósmica. Mas apesar disso ela às vezes desprezava a si mesma por ser preguiçosa, por ter arrumado um amante de uma ascendência tão reputadamente tolerante em relação à corpulência.” (pp. 9-11)

Li As bruxas de Eastwick para O Grande Desafio do Culto Booktuber de janeiro (se você não sabe do que estou falando, clique aqui)! Este desafio foi proposto pela Tamirez (do blog e canal Resenhando Sonhos), e eu era obrigada a fazer – já que a outra alternativa era o meu próprio desafio (que acabei fazendo também hihihihi). O desafio dela consistia em ler o livro que menos temos vontade na nossa estante. Fiquei em dúvida entre três, mas acabei escolhendo este por ser menor em tamanho (edição de bolso, assim pude levar na minha viagem).

Já havia tentado ler este livro em 2015, na Maratona Literária de Inverno, mas não passei do primeiro parágrafo. Isso prova que existem momentos para lermos certos livros. Digo isso porque, nessa segunda tentativa, as primeiras cem páginas passaram voando!

Neste livro, conhecemos a história de três mulheres bastante independentes, mães solteiras, que vivem na pequena cidade estadunidense de Eastwick. Alexandra, Jane e Sukie, cada qual com sua personalidade e aparência física. Não demora muito para sabermos que elas são, literalmente, bruxas (achei melhor deixar isso claro, porque eu própria não sabia se o título era apenas uma metáfora). Com poderes mágicos e tudo. E provavelmente foi isto que mais gostei em toda a obra: as três mulheres concentram uma força enorme em si mesmas, sem deixarem de ser humanas. Ou seja, são mulheres (com problemas e questões como depressão, culpa, sexualidade, etc.), mas extremamente empoderadas.

A trama se inicia quando um forasteiro misterioso se muda para uma mansão isolada na cidade. As três amigas, Jane, Sukie e Alexandra, acabam se interessando por sua figura um tanto excêntrica e se envolvendo com ele. Nas partes 2 e 3 do livro, acompanhamos a evolução desse relacionamento a quatro e com outras pessoas da comunidade da pequena Eastwick.

Tenho algumas ressalvas em relação ao livro: o fato de o fio narrativo girar em torno dos casos amorosos dessas mulheres tão fascinantes me parece que empobreceu a obra. Gostaria de que o foco fossem elas, e não seus relacionamentos sexuais. Sinto quase como se o protagonismo das bruxas fosse deslocado e puxado um pouco para o lado dos personagens masculinos, propositalmente desinteressantes no livro. A maioria das cenas não passaria no Teste de Bechdel [outra explicação sobre o teste aqui], o que é terrível.

As descrições de sensações e desejos sexuais das três bruxas por vezes me soaram como as que um homem imagina que uma mulher sinta – o que, de fato, deve ser o que ocorreu, já que o autor do livro é homem -; mas não posso afirmar com 100% de certeza, pois é possível que algumas mulheres se identifiquem. Em todo caso, não destacaria isso como um ponto forte da obra.

O final também, infelizmente, não me agradou por motivos similares, e por isso, tirei uma estrela da minha avaliação.

Como pontos positivos, destaco principalmente a escrita de Updike. Em determinados momentos, o autor tem um olhar muito acurado e cuidadoso do universo feminino, e algumas partes mais místicas e mágicas são muito encantadoras, apesar de sutis. Escolhi o trecho inicial do post tendo isso em mente: quis mostrar para vocês o primeiro momento que me encantou no livro: Alexandra preparando um caldeirão de molho de tomate como se fosse uma poção, e essa mistura perfeita de realidade e magia que às vezes perdemos em nosso cotidiano. 

De maneira geral, gostei da experiência, mesmo tendo as críticas que destaquei. A minha leitura teve momentos mais rápidos e empolgantes, e outros, mais lentos. É uma obra um pouco contraditória na maneira de tratar as personagens mulheres, mas ainda assim, acho que vale a pena como literatura de entretenimento!

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As bruxas de Eastwick / John Updike; tradução Fernanda Abreu.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
355 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO
(Contém temas adultos, especialmente sexo. Não é recomendado para crianças.)

Obrigada pela leitura!

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O Grande Desafio do Culto Booktuber!

Feliz Ano Novo a todos!!! Que tal sair da sua zona de conforto literária em 2016? Esta é a proposta do Grande Desafio do Culto Booktuber.

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Em primeiro lugar, o Culto Booktuber é um grupo de amigos que têm blogs e canais literários (quem fala sobre livros no Youtube é chamado de booktuber – veja no final do post a lista com os canais de quem faz parte). Formamos este grupo para realizarmos o amigo secreto do Natal de 2015 (se você não viu e quer ver, clique aqui!), e acabamos nos tornando muito amigos e nos empolgando para criarmos projetos juntos. O primeiro deles foi O Grande Desafio do Culto Booktuber, que consiste em uma lista de temas de leitura para serem cumpridos por quem quiser.

Para cada mês do ano, dois canais propuseram dois temas diferentes. A ideia é justamente estimular a leitura de coisas (gêneros, autores, obras) diferentes e desafiadoras, pois é também através desse tipo de leituras que descobrimos ótimas coisas! Você pode fazer um dos desafios ou ambos.

Temos um grupo no Facebook, e todos são bem-vindos para entrar, mesmo quem não tem canal ou blog! Aliás, os membros mais ativos do grupo poderão escolher um tema para os dois últimos meses do ano! 😀 A lista ficou assim:

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Aproveitarei este post para registrar os livros que escolhi para ler em cada um dos desafios de janeiro.

DESAFIOS DE JANEIRO:

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  • Adivinhem qual eu propus?! O meu é o livro de não-ficção, logo em janeiro! 😀 Percebi que a maioria dos booktubers não lê muita coisa de não-ficção, e existe tanta, mas tanta, mas taaaaaaanta coisa boa no gênero que acho que vale a pena tentar! Eu amo livros principalmente de História e Evolução (Biologia), mas tem muitos livros jornalísticos, de crônicas, memórias, etc., que são INCRÍVEIS!!! A realidade pode ser tão surpreendente (ou às vezes mais!) quanto à ficção! Para este desafio, vou ler A sexta extinção: uma história não natural, de Elizabeth Colbert (Intrínseca). Vencedor do Pulitzer 2015 (estou animada!).

Se você não está acostumado com não-ficção e quer algumas sugestões, aí vão (no blog tem mais mas estes que selecionei são bem variados, e para todos eles dei 5 estrelas! Também não citei os do Dawkins que já li e resenhei por serem muito grandes, e o de Danowski e Viveiros de Castro por ser mais denso):

  • 1964: história do regime militar brasileiro (de História, sobre a Ditadura Militar brasileira. E foi escrita por um historiador especialista no período!)
  • Bilhões e bilhões (livro maravilhoso – e curto! – de artigos sobre temas variados de ciência do magnífico astrofísico Carl Sagan!)
  • Cartas extraordinárias (cartas reais e notáveis de famosos e anônimos, algumas sensíveis, outras fortes, outras engraçadas, etc.)
  • Meus desacontecimentos (um livro de memórias da sensacional jornalista Eliane Brum)
  • O humano mais humano (uma discussão filosófica sobre o que nos faz humanos e o teste de Turing, que testa a “humanidade” de programas de computador)
  • O professor e o louco (a história romanceada, porém real, da elaboração do dicionário de Oxford, que contou com a colaboração de um assassino internado em um manicômio!)
  • Só garotos (livro de memórias de Patti Smith, ícone do rock e precursora do punk, na Nova Iorque dos anos 1960. Apenas maravilhoso e favorito da vida!)

 

  • Quanto ao livro que tenho menos vontade de ler na estante, fiquei em dúvida entre três: Facundo de Sarmiento (Cosac Naify), livro argentino sobre o qual li alguma coisa durante a graduação, mas comprei meio que por impulso, e agora está parado na estante; A festa do bode de Vargas Llosa (Alfaguara), que desanimei com o autor depois de ler A casa verde – achei muito confusa a leitura! -; e As bruxas de Eastwick de John Updike (Companhia de Bolso). Este último estava desanimada para ler pois um amigo meu em quem confio no gosto literário, Dan, do blog e canal Folhetim Felino, comentou que não tinha gostado do início do livro. Havia colocado ele na TBR da Maratona Literária de Inverno 2015, e nada. Pois é exatamente este livro que lerei em janeiro para o desafio da Tamirez (Resenhando Sonhos)! Escolhi este por dois motivos: primeiro, por ser um livro de bolso (como viajei, era mais fácil de carregar, apesar de não ser tão pequeno assim – tem 355 páginas), e segundo, porque foi o que a Tamirez falou pra eu ler! 😀

E aí, aceita o desafio?! Estamos super animados! Entre no grupo!

Canais que fazem parte do Grande Desafio do Culto Booktuber:

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