2016, Companhia das Letras, Ficção, Infanto-juvenil, Resenha, Séries e trilogias

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3, de Lemony Snicket

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“Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire cuja história está aqui contada.” (Mau começo, p. 9)

Mal podia esperar para escrever sobre esta série. Tanto que não aguentei esperar ler mais do que três livros desta série de treze; acho que a leitura vale a pena, mesmo que eu ainda não saiba o final da série toda. Ao longo dela, acompanhamos três irmãos: Violet, de 14 anos, é conhecida por sua grande criatividade. Ela é uma verdadeira engenheira e adora inventar coisas; quando está exercendo seu talento, é possível ver sobre sua cabeça engrenagens, alavancas e roldanas em funcionamento. Klaus, o irmão do meio, tem 12 anos e é um rato de biblioteca; lê todos os livros que encontra pela frente e tem uma boa memória. A caçulinha, Sunny, ainda é um bebê, mas é espertíssima! Sua habilidade especial consiste em morder as coisas (ela prefere os objetos mais duros) com seus quatro dentinhos afiados.

Certo dia, os três são tomados de surpresa pela pior notícia possível: seus pais, o sr. e a sra. Baudelaire, faleceram num incêndio arrasador. Além do amor dos pais, o fogo também tomou dos irmãos sua casa (uma mansão, que ficou em cinzas) e seu conforto. A família Baudelaire possuía uma grande fortuna, porém, Violet, Klaus e Sunny só poderão ter acesso à herança quando a irmã mais velha completar 18 anos. Enquanto isso, eles ficarão à mercê de algum tutor legal, um parente a ser designado pelo sr. Poe, um burocrata com boa intenção mas, aparentemente, poucos miolos.

Digo isto porque ele os colocará sob a tutoria de um parente distante da família, o conde Olaf. Olaf é uma pessoa detestável, que explora as crianças (às quais ele chama de “órfãos”) obrigando-as a realizar tarefas desnecessárias e passar por verdadeiras situações de violência física e psicológica, tudo para tentar botar as mãos na herança.

Este é o mote geral do primeiro livro, Mau começo, e os próximos seguem uma linha similar. Sempre o conde Olaf bola um plano mirabolante para tentar tomar conta da fortuna dos Baudelaire, é frustrado, e foge para retornar no livro seguinte. Como só li esses três primeiros volumes, não posso falar sobre os próximos. Mas é bem possível que a trama geral se repita e torne-se mais entediante para alguns leitores. Entretanto, lendo apenas os três primeiros, confesso que gostei muito!

Grande parte do meu encantamento pela obra vem da linguagem utilizada pelo autor Lemony Snicket. Ele inova ao conversar com o leitor e ser totalmente sincero (por exemplo, no início dos livros, ele sempre alerta que é melhor que o leitor desista logo da leitura, pois trata-se de uma história que só contém desgraças sofridas pelos irmãos – veja o trecho inicial do post). Snicket também explica palavras e expressões, mostrando o que elas significam naquele contexto (“[…] vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” — até a praia” [Mau começo, p. 10]). Há também a “tradução” das falas de Sunny, que é sempre muito engraçada. A irmã pequenina tem uma linguagem própria dos bebês, mas o narrador faz questão de explicar sempre o que ela quer dizer.

Além de todas essas “inovações” narrativas, o texto é muito objetivo e dinâmico. O bom humor está presente o tempo todo na maneira que a história é contada, e o mundo mundo em que vivem os Baudelaire inventado (os nomes combinam com os lugares, o que dá um ar fantasioso) também exerce certo fascínio e torna tudo ainda mais divertido.

Apesar do alerta constante de Snicket, a história dos Baudelaire não mostra apenas desgraças e infelicidades. Ela conta com momentos de respiro, ternura, compreensão, saudade, e até mesmo de alegria. As desgraças são apenas os motores da ação. Talvez o ponto principal da história é que juntos, os irmãos Baudelaire são incríveis. Diferentes entre si, cada um com sua personalidade, eles formam um time coeso e ativo. A série é infanto-juvenil, mas eu estrou amando, mesmo sendo adulta!

Ah! Haverá uma série da Netflix, a ser lançada em janeiro de 2017. O conde Olaf será interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, e eu achei este trailer o máximo! Captou muito bem a atmosfera fantasiosa e bem-humorada dos livros. Mal posso esperar! 🙂

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+ info:
Mau começo / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
152 páginas.

A sala dos répteis / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
184 páginas.

O lago das sanguessugas / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
192 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público de qualquer idade!)

Obrigada pela leitura!
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Dom Quixote

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

“Enfim, acabado seu juízo, foi dar no mais estranho pensamento em que jamais caiu louco algum: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito de sua pátria, se fazer cavaleiro andante e ir pelo mundo com suas armas e cavalo em busca de aventuras e para se exercitar em tudo aquilo que havia lido que os cavaleiros andantes se exercitavam, desfazendo todo tipo de afrontas e se pondo em situações de perigos pelos quais, superando-os, ganhasse nome eterno e fama.” (p. 64)

Um dos maiores cânones da Literatura ocidental, Dom Quixote de la Mancha, do autor espanhol Miguel de Cervantes, tem uma influência gigantesca na cultura ibérica e em seus “filhotes” da América Latina. Afinal, quem nunca viu uma referência ao engenhoso fidalgo, seja em livros, filmes, personagens, ilustrações…?

Quixote é um homem apaixonado por livros de cavalaria. Devorou-os todos e os conhece de cor. Certo dia, decide que é sua missão andar pelo mundo a procura de ajudar os humildes e oprimidos, como é dever de qualquer cavaleiro andante. Inicia seu projeto anacrônico vestindo uma armadura obsoleta e enferrujada, encilhando seu magro e tísico cavalo Rocinante, e partindo em busca de quem lhe nomeie cavaleiro. Mais tarde, junta-se a ele seu fiel – e ingênuo – escudeiro, Sancho Pança.

A obra Dom Quixote é a narração das diversas aventuras vividas pelo Cavaleiro da Triste Figura e Rocinante, Sancho Pança e seu burro. Tudo em nome da formosa (e imaginária) donzela Dulcineia del Toboso, a musa inspiradora de Quixote. Essas aventuras envolvem sempre confusões em que o cavaleiro se mete por querer defender algo que não quer ou não pode ser defendido; seus discursos rebuscados levam a brigas com outras pessoas que viajam pela estrada ou se hospedam na estalagem. São brigas de verdade, com socos, pontapés, dentes arrancados, ombros moídos e cabeças arrebentadas. Apesar de toda essa violência, o livro nos faz rir. O tempo todo.

O volume 2 segue exatamente o mesmo tom cômico-aventuresco, o que é bastante impressionante, considerando que foi publicado dez anos depois do primeiro volume. Uma diferença entre os dois é que, no segundo tomo, os personagens reconhecem Dom Quixote de la Mancha e seus feitos, pois já leram sobre suas façanhas no volume 1 – assim como nós, leitores. Isso talvez torne tudo ainda mais leve, pois as pessoas o tratam de maneira respeitosa, ainda que com a intenção de se divertir às suas custas.

Me surpreendi imensamente com o humor de Dom Quixote; ninguém nunca tinha me dito que o livro seria tão engraçado. Os disparates do protagonista e a inocência de Sancho são hilárias. Outro aspecto que me causou admiração foi o tom informal da obra, o quanto é possível compreender seu espírito, mesmo que sua primeira publicação, de estrondoso sucesso, tenha sido na Espanha no ano de 1605! Acredito que grande parte deste mérito seja do tradutor da edição que li, do selo Penguin Classics (Companhia das Letras). Ernani Ssó esclarece pontos interessantíssimos no início do primeiro tomo, e fala sobre suas escolhas como tradutor. Diz que escolheu manter esse ar zombeteiro em detrimento da absoluta fidedignidade às palavras e expressões. Optou por manter o sentido das piadas e ditados, o que em minha opinião, funcionou muito bem e me aproximou da história e dos personagens.

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

Um ponto curioso é que Cervantes escreveu este livro despretensiosamente, e fez muito sucesso à época de sua publicação, no início do século XVII. Foi pensada para ser uma leitura de entretenimento, e acabou por se tornar um clássico absoluto. No próprio livro (final do tomo 1), existe um debate entre um cônego e um padre sobre qual é a função da Literatura, ou seja, para quê ela serve. Afinal de contas, o próprio Quixote enlouquece graças a ela – pelo menos assim pensa sua comunidade. Esta é uma discussão que continua atual: a Literatura deve ensinar além de divertir? Toda Literatura de entretenimento é ruim?

Além do tema da loucura, percebe-se no fundo da obra – embora esta não seja obviamente o propósito primordial – uma crítica a autoridades e normas sociais, e reflexões sobre solidão, coragem, amizade e fidelidade. Quixote é um sonhador, tem pensamentos idealistas. Ele tem a intenção boa de reduzir as injustiças e maldades; mas faz isso por caminhos que são incompreensíveis para os personagens que estão ao seu redor.

Dom Quixote e os moinhos, por Salvador Dali (1945)

Existem alguns outros aspectos dignos de menção: mecanismos que Cervantes utiliza para criticar as autoridades ou bajulá-las (por exemplo, coloca na fala do padre elogios aos censores de livros, uma forma sutil de tentar agradá-los para que não censurem o próprio Dom Quixote; para em seguida colocar um questionamento na fala de Quixote), algumas visões sobre mulheres (por um lado, há personagens masculinos as condenam ou as julgam de maneira machista, como era corrente na época; por outro, dá voz a algumas dessas mulheres, para que elas questionem essas percepções).

Visions of Quixote, de Octavio Ocampo (1989)

O único aspecto que desanima no livro, a meu ver, é seu enorme volume. É realmente uma obra bem grande, mas lendo-a aos poucos, saboreando e aproveitando seus momentos, será de ótima diversão! É absolutamente compreensível o porquê de esta obra monumental ter se tornado um dos primeiros exemplos de Literatura moderna do mundo. E, principalmente, o porquê de o protagonista ter se tornado um personagem tão icônico. É impossível ficar indiferente ao valente e sonhador cavaleiro da triste figura, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.

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+ info:

Dom Quixote de la Mancha / Miguel de Cervantes; tradução e notas Ernani Ssó; introdução John Rutherford; posfácios Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia.
São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.
650 páginas (vol. 1).
668 páginas (vol. 2).

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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Outros cantos

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende


“No cenário descortinado da frente da casa, podia-se ver o silêncio sólido do fim de tarde de um domingo num mundo sem nada, ninguém, mundo sem criador, parecia. Só eu estava lá, mergulhada na ausência, incrustada e imobilizada na quentura espessa, como um fóssil na rocha. Teria chegado ao fim do mundo, onde tudo para, não há mais lugar para lutas? A razão nada me dizia e meu corpo entregava-se à imobilidade de um calango sobre a pedra, uma quase desistência de qualquer mudança. De dentro de mim não vinha mais nenhum esboço de movimento. Já me via naufragando em lágrimas e na decepção de nada encontrar ao fim de tão longa e arriscada viagem, não fosse, de repente, a irrupção de um longínquo canto, outra voz, inteiramente outra, mas que eu reconhecia, atravessando o susto, voz humana. Ôôôôôôôôô êêêêêêê ôôôôôôôôôôôô. Pareceu que aquele canto fazia uma tinta encarnada surgir do chão, no horizonte, e elevar-se, encher o céu e chegar aonde eu estava, até então, sozinha e tornada em mineral, tingindo-me e tudo ao meu redor.” (p. 12)

Em Outros cantos, conhecemos uma história que se desdobra inicialmente em duas frentes. Na primeira, a narradora Maria faz, no presente, uma viagem de ônibus. Cada detalhe de sua viagem (os faróis do ônibus, os buracos na estrada, as luzes dos postes na estrada, o cheiro da comida de algum outro passageiro, etc.) acende em sua memória uma viagem mais antiga, na década de 1970, que ela fez para o sertão brasileiro. Essa rememoração do trecho de sua vida no sertão é a segunda frente do texto.

Aparentemente simples, a escrita de Rezende torna esta uma história extraordinária pela sua delicadeza e força. O título ambíguo pela utilização da palavra “cantos” traduz bem a veia poética de Maria Valéria Rezende: ao mesmo tempo, ela está falando sobre outros lugares e sobre outras vozes. De um lirismo comparável a, arrisco dizer, João Guimarães Rosa – um dos meus autores favoritos! -, o texto da autora me fez sentir um acalento no coração. Não quero dizer que eles são escritores com estilos parecidos. O ambiente sertanejo e a sensibilidade ao descrevê-lo foi o que me fez estabelecer uma comparação, mas a linguagem, os pontos de vista, as épocas, são totalmente diversas.

Nos anos 1970, quando Maria chega ao sertão nordestino, seu objetivo é trabalhar como alfabetizadora num recanto do mundo onde tudo é difícil: a água é o bem mais essencial; o trabalho é árduo e mal pago; as moradias, simples e sem luxos. A própria escrita é um conhecimento superficial (inútil!) neste ambiente. E no meio de tudo isso, Maria descobre arte, humanidade e a si mesma.

É uma memória muito localizada na região árida do Nordeste brasileiro, mas é ao mesmo tempo bastante universal. A própria protagonista tece relações entre as pessoas e os costumes do sertão com outras viagens que ela fez, para a Argélia e para o México, por exemplo. Somos todos humanos, afinal de contas, com problemas existenciais parecidos.

Além de tudo isso, é uma história que se passa em áreas rurais do país durante a época da ditadura militar brasileira. Essas são regiões praticamente esquecidas em nossos estudos e na literatura atual, predominantemente urbana e centrada no Centro-Sul.

O romance, classificado como obra de ficção, é inspirado na experiência real que Maria Valéria Rezende teve na década de 1970, trabalhando como educadora no sertão pernambucano durante os chamados anos de chumbo. A autora, nascida em Santos (SP), venceu o prêmio Jabuti em 2015 nas categorias romance e melhor livro de ficção, pelo livro Quarenta dias. Pelo que vi em Outros cantos, o prêmio foi absolutamente merecido. Amei muito a escrita da autora e suas abordagens, já é candidata a autora favorita.

O período militar é citado mais ao final do livro, e vemos que a protagonista está inserida num contexto de resistência, mas de maneira muito mais sutil que as resistências que costumamos estudar na escola (guerrilhas, movimentos populares, textos de artistas), tanto pelas condições do local e da população tratados, quanto pela natureza do oficio exercido por Maria. É mais um tipo de experiência e olhar a que temos acesso através da Literatura.

Livro excelente, leitura recomendadíssima!

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+ info:

Outros cantos / Maria Valéria Rezende.
Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
146 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Obra completa de Murilo Rubião

Obra completa, de Murilo Rubião

 “[…] Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
(p. 21)

Murilo Rubião (1916-1991) nasceu no interior de Minas Gerais. Funcionário público, jornalista, formado em Direito, e escritor, sua obra literária compõe-se de mais de 30 contos. 33 deles estão reunidos neste volume da Companhia de Bolso. Ele é considerado um dos precursores da literatura fantástica no Brasil.

De fato, seus contos apresentam elementos fantásticos muito acentuados (eu diria absurdos), mas que devem ser considerados “normais” dentro da história. Ou seja, o autor parte de uma situação obviamente irreal, mas que deve ser tratada como verossímil dentro daquele universo – como um coelho que muda seu formato quando quer (canguru, cavalo, pulga); ou dragões falantes; ou uma mulher que engorda indefinidamente à medida que seus desejos intermináveis são satisfeitos. Mas essas situações servem para despertar no leitor reflexões sobre aspectos mais profundos da alma humana, como a busca por identidade, a incompreensão do outro, a empatia, a memória, entre outros. Em comum, verifica-se a impotência dos personagens e, muitas vezes, o abandono por eles sofrido.

Foi uma leitura boa, apesar de incômoda. Fiquei perturbada por não conseguir racionalizar muitos aspectos da obra, e por não obter todas as explicações que esperava em praticamente todos os contos. Ou seja, um dos pontos positivos da leitura foi me conhecer ainda melhor como leitora (meus amigos Edmar e Carmem apontaram que devo ser uma pessoa muito racional. Eu tento, de fato. Mas acho que mais procuro racionalidade e lógica nas coisas do que sou racional). Costumo gostar de finais abertos, mas realmente acredito que a falta de algumas explicações prejudicaram minha impressão final sobre os contos. Se Rubião queria provocar o leitor, atingiu seu objetivo comigo. Em alguns momentos, fiquei até irritada. O autor tem ótimas ideias e sua escrita é muito clara. Porém, na minha opinião, há algumas falhas de execução, que são justamente essa falta de explicações (geralmente, de coisas pequenas, e não do grande problema apresentado pelo conto, mas sem as quais fiquei com uma sensação de incompletude).

Uma das coisas de que mais gostei foram as epígrafes dos contos. A epígrafe serve para resumir o conteúdo de um texto, e isso acontece de maneira límpida e precisa nestes textos. A maioria delas é retirada da Bíblia (e todos os contos reunidos de Rubião têm epígrafes) e tem tudo a ver com a história contada. Foi agradável terminar de ler um conto e voltar para reler a epígrafe, constatando que ela se encaixava perfeitamente.

Os contos do início da edição da Companhia de Bolso apresentam mais acentuadamente o elemento fantástico; do meio para o final, a fantasia fica mais sutil. Gostei mais dos contos do final. Meus favoritos foram: O ex-mágico da Taberna Minhota (um trecho dele está transcrito no início do post), A cidadeOfélia, meu cachimbo e o marA flor de vidroO edifícioMemórias do contabilista Pedro InácioBruma (a estrela vermelha)O homem do boné cinzentoA noiva da casa azulPetúniaOs comensais. Este, o último conto da coletânea, me parece que sintetiza os elementos principais da obra do autor, mas de maneira mais fina e madura que os outros. (Até que tive muitos favoritos para quem não gostou tanto. Porém, ter gostado de alguns não significa que os compreendi completamente. Acho que de nenhum conto entendi 100%.) Mas sem sombra de dúvidas, meu favorito foi Aglaia, sobre um casal que não consegue parar de ter filhos, apesar de tentarem todos os métodos contraceptivos – inclusive não ter contato sexual. Os partos se multiplicam, o número de filhos, idem, e o tempo de gestação se encurta cada vez mais. Um conto agoniante e que trata de uma situação tipicamente feminina (também trazendo a visão masculina), inclusive da problemática do aborto.

É muito possível traçar paralelos entre a escrita de Rubião e a de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Gabriel García Márquez. Os traços borgianos, em minha visão, foram as questões de eternidade e infinitude (um prédio com número infinito de andares do conto O edifício, por exemplo); os kafkianos, ficam expressos em contos que tratam de burocracias, como A filaA cidadeA diáspora; e a aproximação com García Márquez está no tom fatalista de não se poder escapar do destino, presente em diversos contos.

Esta edição apresenta uma introdução chamada Vida e obra de Murilo Rubião, com informações interessantes; e ao final, tem-se uma cronologia relacionada ao autor e à sua escrita. Senti um pouco de falta de saber em que ano os contos foram escritos e publicados, pois gostaria de ver se percebo algum tipo de amadurecimento na obra, apesar de os aspectos gerais se repetirem. Mas acredito que isso não foi incluído na edição pois o autor costumava reescrever seus contos com muita frequência, dessa forma sendo difícil estabelecer a data certa de criação da história (ou, ao menos, de sua versão final).

Fiz esta leitura conjuntamente com os amigos Giovanni do blog Metacrônica, e Carmem Lúcia, do blog O que vi do mundo. Debatemos bastante os contos, e certamente a maioria das impressões e conclusões aqui apresentadas não teriam acontecido – ou não tão claramente – sem eles. Obrigada!

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+ info:

Obra completa / Murilo Rubião.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
227 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
 FACIL

Obrigada pela leitura!
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Neuromancer

Neuromancer, de William Gibson

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“O céu sobre o porto tinha cor de televisão num canal fora do ar.
Não é que eu esteja usando – Case ouviu alguém dizer ao abrir caminho na multidão aglomerada na porta do Chat. – Meu corpo é que desenvolveu uma deficiência maciça de drogas. – Era uma voz do Sprawl e uma piada do Sprawl. O Chatsubo era um bar de expatriados profissionais; você podia beber ali todos os dias durante uma semana e nunca ouvir duas palavras em japonês.
Quem estava cuidando do bar era o Ratz, que enchia uma bandeja de copos com cerveja Kirin draft, com uma prótese de braço que se movia aos trancos. Ele viu Case e deu um sorriso; seus dentes eram uma teia composta de aço do leste europeu e decomposição marrom. Case achou um lugar no bar, entre o bronzeado improvável de uma das putas do Lonny Zone e o uniforme naval perfeitamente engomado de um africano alto com as faces vincadas com fileiras precisas de cicatrizes tribais.
– Wage esteve aqui mais cedo, com dois ajudantes – disse Ratz, servindo-lhe uma cerveja com a mão boa. – Será que é algum negócio com você, Case?
Case deu de ombros. A garota à sua direita deu uma risadinha e um cutucão.
O sorriso do bartender ficou ainda maior. Sua feiúra era legendária. Numa época em que ser bonito saía barato, havia alguma coisa de heráldica na ausência de beleza que exibia. O braço antigo gemeu quando ele o estendeu para pegar outra caneca. Era uma prótese militar russa, um manipulador com force-feedback de sete funções, revestido com plástico rosa encardido.” (p. 31)

Neuromancer é um romance de ficção científica originalmente lançado em 1984 nos Estados Unidos. Ganhou três dos mais importantes prêmios de ficção científica:  Nebula, Hugo e Philip K. Dick. Este foi o primeiro romance do autor William Gibson e é o primeiro da trilogia Sprawl.

Este livro insere-se num sub-gênero da ficção científica chamado cyberpunk, cuja premissa é high tech, low life, ou seja, “alta tecnologia, baixo nível de vida”. Trata-se de um futuro comandado por altíssima tecnologia, mas que enfrenta grandes problemas socioeconômicos.

De acordo com Lawrence Person, “os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros distópicos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano” (fonte: Wikipedia). Case, o protagonista, definitivamente se encaixa nesta definição. Ele é um ex-hacker que foi destituído de sua função e marginalizado (desculpem, precisei repetir a palavra, pois ela é muito precisa neste caso) do ciberespaço. Até que recebe um “chamado” para realizar uma missão perigosa e, de certa forma, vingar-se.

Neuromancer é importante por ter trazido grandes inovações: seja na inserção de elementos antes pouco tratados na literatura (próteses biônicas e inteligência artificial), seja na criação de conceitos. O que me atraiu para ler este livro foi uma pesquisa acadêmica. Ao me deparar com o conceito de ciberespaço, a referência à obra de Gibson foi quase inevitável. Ele criou este universo onde as pessoas estão mergulhadas num mar de tecnologia e hiperconectividade, antes da popularização da Internet. Hoje, o ciberespaço é utilizado para descrever em parte a nossa própria sociedade, cheia de redes wi-fi.

A capacidade de descrição de Gibson é fora do comum, e ele estabelece com maestria o ambiente que quer criar. Se não pela história, o livro vale a pena pela criação intensa e precisa de um universo – que na verdade é a própria Terra num futuro próximo, diferente de outros autores de ficção científica como Asimov e Bradbury, que focam muitas de suas obras em um futuro mais distante e em outros planetas. Gibson também constrói uma trama toda cheia de colagens, com referências a expressões e gírias utilizadas por diversos grupos e áreas do conhecimento que, de tão específicas, podem nos escapar.

Como bem colocou Tati Dantas, do blog No país das entrelinhas, o livro é mais megalomaníaco do que complicado – o que não significa que não seja complicado. Existem termos muito específicos o que torna a leitura confusa. O livro é, sim, ambicioso. Confesso que me perdi na história em diversos momentos (é mais fácil contar as partes que eu entendi do que as que eu não entendi), e fiquei irritada com isso, mas fiz questão de terminar o livro.

A intersecção com obras de distopia clássicas, notadamente Admirável mundo novo de Aldous Huxley, é visível. Não só pela questão do domínio pela tecnologia, mas também pelas drogas como meio de controle mental. O filme Matrix recebe influências diretas deste livro, tanto por sua concepção quanto por seu protagonista, é possível lembrar do filme em diversos pontos.

Na edição especial de 30 anos da editora Aleph, além de um trabalho gráfico preciso e que complementa o conteúdo do livro, existem ainda uma introdução escrita pelo próprio autor especialmente para a edição brasileira; três contos publicados antes de Neuromancer, mas que já antecipam muito das tendências e do estilo do autor (Johnny MnemônicoQueimando cromoHotel New Rose); e uma entrevista muito esclarecedora de William Gibson. Pela entrevista, podemos entrever muitas das intenções, inspirações, referências utilizadas pelo autor em sua obra.

É um livro que desafia o leitor. É possível entender as linhas gerais da história e captar intensamente a atmosfera criada pelo autor, mas não cada detalhe (pelo menos, eu não consegui). Valeu a pena pela experiência, mas dificilmente será um livro que relerei.

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+ info:
Neuromancer / William Gibson; tradução de Fábio Fernandes
São Paulo: Aleph, 2014.
416 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2016, Ficção, Galera Júnior, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Parceria, Resenha

George

George, de Alex Gino

George (1)

“George pegou uma edição de abril que já tinha visto incontáveis vezes. Folheou pelas páginas com um flip-flip-flip seco que fez o papel soltar um leve aroma.
Ela parou em uma foto de quatro garotas na praia. Elas estavam em fila, vestidas com roupas de banho, cada uma fazendo uma pose. Um guia na lateral direita da página recomendava os vários estilos baseados no tipo de corpo. Aos olhos de George, todos os corpos pareciam iguais. Eram corpos de garotas.
Na página seguinte, duas meninas estavam sentadas em uma toalha, rindo, com os braços nos ombros uma da outra. Uma estava usando um biquíni listrado; a outra, um maiô de bolinhas, cavado nos quadris.
Se George estivesse lá, ela se encaixaria na cena, rindo e juntando os braços com os delas. Usaria um biquíni rosa-choque e teria cabelo comprido, no qual as novas amigas adorariam fazer tranças. Elas perguntariam o nome dela, e ela diria: 
meu nome é Melissa. Melissa era como ela se chamava no espelho, quando ninguém estava olhando e ela podia pentear o cabelo castanho liso para a frente, como se tivesse uma franja.” (pp. 8-9)

George é um livro infanto-juvenil que tem uma protagonista diferente das comuns: ela é uma menina que tem corpo de menino. Vivendo sua pré-adolescência sem ter consciência exata do que se passa com seu corpo e seus sentimentos – como qualquer adolescente -, ela ainda tem que lidar com a esmagadora sensação de não se encaixar no padrão esperado, de não se adequar às expectativas da sociedade à sua volta (inclusive de família e amigos, que não sabem pelo que ela está passando). Certo dia, a turma deve encenar uma peça na escola. George resolve tentar interpretar um papel considerado feminino, o da aranha Charlotte.

O livro é claramente direcionado ao público juvenil, o que é perceptível pela sua linguagem mais simples e direta, e pela maneira como a narrativa é contada. É interessante ver como Alex Gino trata George desde o início pelo pronome “ela”, o que já direciona a leitura para tornar mais clara a maneira como a personagem se enxerga. É um belo exercício de empatia proposto ao leitor. (Aliás, a título de curiosidade, @ autor@ gosta de ser chamad@ pelo pronome “they”, em inglês, que não indica gênero. Inclusive, em seu website, pede para que não se utilize pronome masculino ou feminino para se referir a el@. Peço desculpas pelos @, mas foi a única maneira que encontrei – em português – de respeitar o pedido.)

O que mais chama atenção no livro é, de fato, a protagonista, muito delicada em suas percepções. Mas os personagens que mais me cativaram foram Kelly, a melhor amiga de George, e Scott, irmão mais velho da protagonista. Eles ajudam o leitor a compreender a importância da família e dos amigos em momentos de crise, como eles podem funcionar como uma espécie de âncora emocional, um apoio mesmo, sem o qual a pessoa se desestabilizaria.

Gostaria de ressaltar apenas um ponto que achei exagerado ao longo da narrativa. Me pareceu que alguns estereótipos de gênero – notadamente o feminino – foram reforçados. Como se todas as coisas de que George gostasse fossem consideradas necessariamente femininas: jogo de amarelinha e pular corda, a ideia de que meninas quando querem se arrumar usam saias, etc. Sei que não é a tônica do livro – e provavelmente, nem a intenção de Gino -, mas achei que valia a pena mencionar este aspecto.

É uma obra que traz os temas de gênero, relações pessoais (amizades, familiares), conflitos internos e questões identitárias. Da forma mais suave possível, a questão dos transgêneros é tratada como deve ser: algo normal e digno de respeito. Certamente é uma história que revela o quanto a diversidade humana pode ser rica para a convivência de todos. Recomendado para todos, mas acho que um público pré-adolescente vá gostar mais.

Pedi o livro para o Grupo Editorial Record de parceria, já que precisava ler um livro com temática LGBT para O Grande Desafio do Culto Booktuber deste mês.

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+ info:

George / Alex Gino; tradução Regiane Winarski.
Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016.
142 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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