2016, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Penguin, Resenha

Dom Quixote

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

“Enfim, acabado seu juízo, foi dar no mais estranho pensamento em que jamais caiu louco algum: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito de sua pátria, se fazer cavaleiro andante e ir pelo mundo com suas armas e cavalo em busca de aventuras e para se exercitar em tudo aquilo que havia lido que os cavaleiros andantes se exercitavam, desfazendo todo tipo de afrontas e se pondo em situações de perigos pelos quais, superando-os, ganhasse nome eterno e fama.” (p. 64)

Um dos maiores cânones da Literatura ocidental, Dom Quixote de la Mancha, do autor espanhol Miguel de Cervantes, tem uma influência gigantesca na cultura ibérica e em seus “filhotes” da América Latina. Afinal, quem nunca viu uma referência ao engenhoso fidalgo, seja em livros, filmes, personagens, ilustrações…?

Quixote é um homem apaixonado por livros de cavalaria. Devorou-os todos e os conhece de cor. Certo dia, decide que é sua missão andar pelo mundo a procura de ajudar os humildes e oprimidos, como é dever de qualquer cavaleiro andante. Inicia seu projeto anacrônico vestindo uma armadura obsoleta e enferrujada, encilhando seu magro e tísico cavalo Rocinante, e partindo em busca de quem lhe nomeie cavaleiro. Mais tarde, junta-se a ele seu fiel – e ingênuo – escudeiro, Sancho Pança.

A obra Dom Quixote é a narração das diversas aventuras vividas pelo Cavaleiro da Triste Figura e Rocinante, Sancho Pança e seu burro. Tudo em nome da formosa (e imaginária) donzela Dulcineia del Toboso, a musa inspiradora de Quixote. Essas aventuras envolvem sempre confusões em que o cavaleiro se mete por querer defender algo que não quer ou não pode ser defendido; seus discursos rebuscados levam a brigas com outras pessoas que viajam pela estrada ou se hospedam na estalagem. São brigas de verdade, com socos, pontapés, dentes arrancados, ombros moídos e cabeças arrebentadas. Apesar de toda essa violência, o livro nos faz rir. O tempo todo.

O volume 2 segue exatamente o mesmo tom cômico-aventuresco, o que é bastante impressionante, considerando que foi publicado dez anos depois do primeiro volume. Uma diferença entre os dois é que, no segundo tomo, os personagens reconhecem Dom Quixote de la Mancha e seus feitos, pois já leram sobre suas façanhas no volume 1 – assim como nós, leitores. Isso talvez torne tudo ainda mais leve, pois as pessoas o tratam de maneira respeitosa, ainda que com a intenção de se divertir às suas custas.

Me surpreendi imensamente com o humor de Dom Quixote; ninguém nunca tinha me dito que o livro seria tão engraçado. Os disparates do protagonista e a inocência de Sancho são hilárias. Outro aspecto que me causou admiração foi o tom informal da obra, o quanto é possível compreender seu espírito, mesmo que sua primeira publicação, de estrondoso sucesso, tenha sido na Espanha no ano de 1605! Acredito que grande parte deste mérito seja do tradutor da edição que li, do selo Penguin Classics (Companhia das Letras). Ernani Ssó esclarece pontos interessantíssimos no início do primeiro tomo, e fala sobre suas escolhas como tradutor. Diz que escolheu manter esse ar zombeteiro em detrimento da absoluta fidedignidade às palavras e expressões. Optou por manter o sentido das piadas e ditados, o que em minha opinião, funcionou muito bem e me aproximou da história e dos personagens.

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

Um ponto curioso é que Cervantes escreveu este livro despretensiosamente, e fez muito sucesso à época de sua publicação, no início do século XVII. Foi pensada para ser uma leitura de entretenimento, e acabou por se tornar um clássico absoluto. No próprio livro (final do tomo 1), existe um debate entre um cônego e um padre sobre qual é a função da Literatura, ou seja, para quê ela serve. Afinal de contas, o próprio Quixote enlouquece graças a ela – pelo menos assim pensa sua comunidade. Esta é uma discussão que continua atual: a Literatura deve ensinar além de divertir? Toda Literatura de entretenimento é ruim?

Além do tema da loucura, percebe-se no fundo da obra – embora esta não seja obviamente o propósito primordial – uma crítica a autoridades e normas sociais, e reflexões sobre solidão, coragem, amizade e fidelidade. Quixote é um sonhador, tem pensamentos idealistas. Ele tem a intenção boa de reduzir as injustiças e maldades; mas faz isso por caminhos que são incompreensíveis para os personagens que estão ao seu redor.

Dom Quixote e os moinhos, por Salvador Dali (1945)

Existem alguns outros aspectos dignos de menção: mecanismos que Cervantes utiliza para criticar as autoridades ou bajulá-las (por exemplo, coloca na fala do padre elogios aos censores de livros, uma forma sutil de tentar agradá-los para que não censurem o próprio Dom Quixote; para em seguida colocar um questionamento na fala de Quixote), algumas visões sobre mulheres (por um lado, há personagens masculinos as condenam ou as julgam de maneira machista, como era corrente na época; por outro, dá voz a algumas dessas mulheres, para que elas questionem essas percepções).

Visions of Quixote, de Octavio Ocampo (1989)

O único aspecto que desanima no livro, a meu ver, é seu enorme volume. É realmente uma obra bem grande, mas lendo-a aos poucos, saboreando e aproveitando seus momentos, será de ótima diversão! É absolutamente compreensível o porquê de esta obra monumental ter se tornado um dos primeiros exemplos de Literatura moderna do mundo. E, principalmente, o porquê de o protagonista ter se tornado um personagem tão icônico. É impossível ficar indiferente ao valente e sonhador cavaleiro da triste figura, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.

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+ info:

Dom Quixote de la Mancha / Miguel de Cervantes; tradução e notas Ernani Ssó; introdução John Rutherford; posfácios Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia.
São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.
650 páginas (vol. 1).
668 páginas (vol. 2).

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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Os malaquias

Os Malaquias, de Andrea Del Fuego


“Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
” (pp. 19-20)

Os Malaquias foi lido para um dos desafios do mês de maio dO Grande Desafio do Culto Booktuber. A Gabi, do canal Frases Perdidas, propôs que lêssemos um livro premiado. Escolhi este livro pois o havia comprado já há tempos e ele estava me esperando na estante. Sempre tive muita vontade de lê-lo (meu amigo Lucas já me havia recomendado que lesse algo escrito pela Andrea Del Fuego), mas nunca peguei para ler efetivamente. A oportunidade surgiu, e eu agarrei.

Os Malaquias foi o livro vencedor do Prêmio José Saramago 2011 e finalista do Prêmio Jabuti. O Prêmio José Saramago acontece a cada dois anos desde 1999, e “distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país da lusofonia, excluindo obras póstumas”, segundo o próprio regulamento. Por enquanto, Andrea Del Fuego é a segunda brasileira a levar o prêmio, sendo a primeira Adriana Lisboa em 2003, com Sinfonia em branco.

O trecho reproduzido no início do post está na segunda e na terceira páginas da história. Ele dá o tom para o livro. A família Malaquias é inicialmente formada por cinco pessoas: Donana e Adolfo, os pais; Nico (9 anos), Antônio (6 anos) e Júlia (4 anos). Durante uma noite tempestuosa, um relâmpago cai na casa dos Malaquias a mata os pais. As três crianças são resgatadas no dia seguinte e, a partir daí, cada uma segue um rumo diferente. Trata-se de uma história de encontros e desencontros, rumos e decisões.

Passada em Serra Morena, um ambiente rural – algo relativamente raro na literatura brasileira atual -, o lugar dos Malaquias também não é um lugar real. Parece um lugar de transição, um limiar entre a vida e a morte. Muitas vezes, temos a impressão de estar lendo um sonho, um lendo ou um mito, trazida pelo realismo mágico entranhado na obra.

A linguagem de Del Fuego é absolutamente impressionante. De prosa ágil e qualidade até um pouco crua, ainda que lírica, as frases curtas e capítulos pequenos permitem uma leitura rápida e intensa. Nos personagens, percebemos qualidades ásperas ou secas, graças ao ritmo da linguagem.

A narração em terceira pessoa – mas não onisciente – dá muitos saltos, deixando lacunas e vazios que só enriquecem a experiência de leitura.

Não posso deixar de falar da edição publicada pela editora Língua Geral. Diagramação, projeto gráfico, qualidade do material, revisão, tudo impecável. O corte do livro é de um tom amarelo escuro, e cada capítulo é separado dos outros por uma página preta. Este título faz parte de uma coleção chamada Ponta de lança, que visa divulgar autores atuais que escrevem em língua portuguesa. Já quero todos os títulos, foram todos para a wishlist.

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Livro recomendadíssimo, ainda mais para quem gosta de Cem anos de solidão do Gabriel García Márquez, e de A cabeça do santo de Socorro Acioli, e para quem quer ouvir novas vozes, e de altíssima qualidade, da literatura brasileira.

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+ info:

Os Malaquias / Andrea Del Fuego.
Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010.
272 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

O tempo e o vento, de Erico Verissimo

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Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
[…]
Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo modo ele ainda governa Santa Fé! Maragato algum jamais botará o pé no Sobrado nem como inimigo nem como amigo: nem agora nem nunca!
Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a à maneira de cigarro, acende-lhe a ponta e leva-a aos lábios. Como não há mais nenhum pedaço de fumo em casa, para aliviar a vontade de fumar ele pita apenas a palha.
Ruído de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue o vulto da cunhada.
— Acho que a criança vai nascer esta madrugada — murmura Maria Valéria.
Fica ali imóvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as mãos trançadas sobre o estômago. Por alguns instantes Licurgo permanece calado. Nada mais pode dizer senão repetir o que vem dizendo há quase uma semana com uma obstinação que às vezes se transforma em fúria: aconteça o que acontecer, não pedirá trégua.” (pp. 17-26)

O tempo e o vento é uma saga que conta a história da família Terra Cambará desde suas origens, em 1745, até o momento em que a obra foi escrita, 1945. Passeamos através das gerações dessa família totalmente imersa na história do Rio Grande do Sul – e, portanto, do Brasil – e de suas tradições, mudanças, guerras, disputas políticas.

A série conta com três obras (O continenteO retratoO arquipélago) geralmente divididas em 7 volumes, conforme mostrado na imagem do início do post.

Esta foi uma das melhores experiências de leitura que tive em 2015. Já tinha o box com os sete livros, que haviam sido indicados por minha mãe, porém, a preguiça sempre falava mais alto e fui deixando para lá. Até que a Tati Feltrin iniciou o projeto #LendoOTempoEOVento, e eu resolvi embarcar junto, aproveitar o embalo.

Os sete livros contam a história da família Terra-Cambará; nos dois volumes de O continente, temos contato com diversos personagens que remontam ao passado distante da família e viram figuras icônicas. São os fundadores da família: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, etc. Intercalados com os capítulos desses personagens, visualizamos o “presente”, ou seja, o início do século XX, em que o Sobrado da família Terra-Cambará está em guerra: cercado por inimigos políticos (ver o trecho inicial do post). Aos poucos, magistralmente, Verissimo vai costurando uma narrativa dinâmica, viva e interessante. Vai se delineando a história da família Terra-Cambará.

A partir dos dois volumes de O retrato – e isso inclui também os três volumes de O arquipélago -, o foco será o personagem dr. Rodrigo Terra Cambará e sua família nuclear: filhos, esposa, irmão, tios. Ele condensa muitas das características do lado Cambará (carisma, intrepidez,

Não se preocupe com a quantidade de personagens, pois todos os livros (ao menos os da edição da Companhia das Letras) vêm com a devida árvore genealógica, e Erico Veríssimo é habilidoso em introduzir personagens aos poucos e lhes dar características muito marcantes. Por isso, eles se tornam quase que pessoas reais, graças a suas contradições, qualidades e defeitos – inclusive, Verissimo coloca personagens históricos misturados com os ficcionais (como Getúlio Vargas, por exemplo), e uns não deixam nada a dever aos outros.

A saga está repleta de dualidades e circularidades, o que aumenta ainda mais o mérito do autor.

As dualidades são opostas, mas ao mesmo tempo complementares, uma precisa da outra para atingir um equilíbrio. O simbolismo de tempovento é muito forte, estando o tempo representando as permanências, enquanto que o vento (o minuano) representa as mudanças bruscas. No caso das permanências, basta perceber que, apesar de as gerações passarem na família, muitos personagens “se repetem”: é o caso das mulheres que comandam a família – e, posteriormente, o Sobrado -: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria. Elas são a mesma personagem em tempos diferentes: as rochas da família, mulheres que enxergam além dos seus próprios olhos (quando velhas, inclusive ficam cegas), e organizam a vida familiar. Quanto às transformações, são marcadas principalmente pelas guerras na região, mortes na família, conflitos.

Outro caso das dualidades complementares são os polos homem-mulher. As personagens femininas da família, como já foi dito, são, em geral, fortes e estáveis. Apesar de estarem conformadas à vida doméstica (como era comum à época), ali exercem seu poder de decisão e de resistência. Elas são, assim como o tempo, a permanência, a continuidade. São essas mulheres que esperam as mudanças e as atitudes dos personagens masculinos – os quais são mais intempestivos, volúveis, e, por isso, efêmeros. Eles representam as mudanças bruscas, como o vento.

Os Terras e os Cambarás também formam uma dualidade que encontra seu equilíbrio dentro da dinâmica familiar: os Terras são fixos, teimosos, resistentes, enraizados. Já os Cambarás, tendem a ser aventureiros, apaixonados, correm riscos.

Outra virtude da saga é mesclar acontecimentos históricos com a ficção; guerras por fronteiras no sul do país, fraudes eleitorais durante o período oligárquico, reviravoltas políticas que culminam na Revolução de 1930, etc. Os contextos são muito bem apresentados, e o autor habilmente coloca nas falas dos personagens opiniões diversas sobre política, religião, economia, ideologias, etc. Ou seja, temos acesso a muitos argumentos e pontos de vista diferentes através dos personagens. É importante ler livros que tragam o diálogo, ainda que ficcional, em tempos – como o nosso – de ameaça à democracia.

Se você tem medo de ler clássicos ou literatura brasileira, procure O continente em alguma biblioteca. Tenho certeza de que não vai achar a linguagem difícil nem a história chata. Verissimo nos brinda com uma escrita maravilhosa, descritiva na medida certa para nos fazer ter sensações e nos situarmos no ambiente da narrativa, mas não excessiva. E a linguagem dele permanece atual e simples, muito fluida e acessível ao leitor brasileiro. Recomendadíssimo!

No canal, fiz uma playlist com todo o diário de leitura de O tempo e o vento: são 11 vídeos em que falo separadamente sobre cada livro (no caso de O continente, falo de cada capítulo).

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton


“Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam – como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção. […]
Mas uma coisa parece clara a todos os que voltam do trabalho de campo: os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença. […]
Quando não conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza de que encontramos algo. Analisando o documento em que ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e maravilhosa visão de mundo.
Este livro tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares. Seu procedimento é examinar as surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos; uma versão primitiva de ‘Chapeuzinho Vermelho’ (‘Little Red Hiding Hood’), a narrativa de um massacre de gatos, uma bizarra descrição de uma cidade, um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia – documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele.” (pp. 13-15)

 

A leitura deste livro faz parte do projeto Papo de Historiadoras, proposto pela Lari (blog Papo de Historiadora). Nos conhecemos via internet graças a esse mesmo projeto, e junto conosco, as amigas Kelly (blog e canal Aventuras na Leitura) e Cris (blog Pedras em Bolsos) também embarcaram. Foi um prazer conhecê-las, e espero que este projeto ajude a espalhar um pouquinho de conhecimento historiográfico para o público que nos lê/assiste. Para mim, serviu como uma retomada dos estudos e da leitura de obras consideradas clássicas para a historiografia.

Conforme explicitado pelo trecho inicial do texto, o intuito do livro de Darnton é analisar alguns documentos inusitados, geralmente desprezados por historiadores que utilizam metodologias mais tradicionais, para nos abrir uma janela para o pensamento popular da França do Antigo Regime (séculos XV a XVIII). Em cada um dos seis capítulos, ele analisa um tipo de documento diferente, escrito por um “tipo” social (trabalhadores da zona rural, burguesia, intelectuais, etc.), e tais documentos, aparentemente “esquisitos” nos dias de hoje, revelam detalhes interessantíssimos da época, além de nos lembrarem da distância temporal que nos separa daquelas populações.

Um dos pecados dos historiadores – talvez o maior – é cometer anacronismos, que nada mais são do que “utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico”. Este livro definitivamente não os comete. Darnton analisa cada aspecto descrito com o maior cuidado em investigar qual teria sido o provável significado daqueles fatos na época, sua importância e suas simbologias. Uma palavra, uma maneira de descrever, uma referência; tudo isso serve de material ao historiador para vislumbrar as maneiras de pensar.

A linguagem do autor é deliciosa e acessível – ainda mais vinda de um historiador, de quem esperamos grande pompa! -; apesar de em alguns momentos a leitura poder ficar mais lenta, vale muito a pena para quem se interessa por História e por seus detalhes que revelam muito (aqui reside parte da mágica da História, ao meu ver!).

No meu canal no Youtube, fiz um diário de leitura, uma espécie de resumo e impressões de leitura para cada capítulo do livro.

Apresentação

É a porção mais curta da obra, e de importância crucial. Aqui, o autor revela suas intenções, objetivos e métodos de maneira muito clara, além de situar o leitor a respeito da História das Mentalidades. O trecho inicial do post é retirado dessa parte.

Capítulo 1 – Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso

O primeiro capítulo baseia-se nos contos de fadas camponeses do Antigo Regime. Parte de uma história do que hoje chamamos de Chapeuzinho Vermelho para contextualizar, questionar a análise psicanalítica dos contos de fadas, perceber as transformações e permanências nesses textos – no tempo e no espaço. É um estudo extremamente perspicaz por parte de Darnton, além de ser sobre um tema que todo mundo adora: os misteriosos contos de fadas.

Capítulo 2 – Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin

O massacre de gatos que dá nome ao livro aqui toma forma; através de um documento escrito por um dos participantes deste massacre, um trabalhador urbano de uma gráfica parisiense, somos levados a uma “viagem” para compreender o contexto, a simbologia, os significados e os motivos que levaram à matança de tantos felinos certo dia no fim do século XVIII.

Capítulo 3 – Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto

Neste capítulo, o autor parte de uma descrição da cidade de Montpellier feita por um autor anônimo (e burguês) e não se sabe com qual objetivo. A ideia principal é descobrir, através da maneira como esse burguês descreve a cidade, qual é a sua visão de mundo, com que categorias ele organiza a sociedade e como enxerga as relações entre os habitantes de Montpellier.

Capítulo 4 – Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras

A partir de um arquivo de polícia, Darnton nos apresenta um panorama da intelectualidade de Paris em meados do século XVIII. Um policial que organizou as fichas de seus investigados nos oferece a oportunidade de compreender como funcionava a vida dos escritores dessa época, qual ideia a sociedade fazia deles, porquê eram suspeitos ou perigosos a ponto de ser necessário que fossem investigados.

Capítulo 5 – Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie

No quinto capítulo, Darnton analisa o porquê de a Enciclopédia organizada por Diderot e D´Alambert ser considerada tão revolucionária, se ela trazia temas tão banais em seu conteúdo. Tratou-se de uma verdadeira crítica à visão de conhecimento que se tinha anteriormente.

Capítulo 6 – Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica

Aqui, veremos através de cartas a enorme influência de Rousseau teve sobre seus leitores e a construção de uma nova forma de leitura, de relacionamento entre escritor e leitor.

Fiz ainda um vídeo de conclusão, usando as críticas que o próprio Darnton faz ao seu trabalho. Só gostaria de dizer que este foi um dos melhores livros lidos em 2015, e recomenda-se tanto para um público especializado, quanto para um público leigo.

 

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+ info:

O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução Sonia Coutinho.
São Paulo: Paz e Terra, 2014.
379 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Harry Potter – livros 4, 5, 6 e 7

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 2: livros 4, 5, 6 e 7)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Continuando minhas impressões da releitura da série Harry Potter (para ver a PARTE 1, clique aqui!):

Harry Potter e o Cálice de Fogo

O Cálice de fogo talvez seja um dos volumes com mais ação da saga; o Torneio Tribruxo e a ascensão de Voldemort são os motores de toda a aventura e tensão do livro. Acho que gostei mais dele na releitura do que na primeira vez que o li!

Não me lembrava de quanto o Rony está rabugento na primeira metade deste livro! Quase todos os seus comentários são negativos, ou xingando, ou virando o nariz para alguma coisa; me irritou um pouco. Ah! E é neste volume que aparece a odiável repórter/mentirosa Rita Skeeter.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

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Esse era o livro de que menos gostava na saga na primeira vez que a li. Isso mudou. Mas a irritação com o livro veio porque Harry está num momento de muita tensão: com 15 anos (hormônios!), Lord Voldemort acaba de retornar com força (mas com cautela, escondido, o que faz com que pouca gente acredite no relato de Harry a respeito de seu retorno), e Harry parece uma pilha de nervos. Conversar com ele durante esse ano equivale a pisar em ovos: é necessário extremo cuidado com o que se diz e como se diz, senão ele “explode” e tem um chilique.

Agora, aos pontos positivos: gosto de acompanhar os alunos se preparando para os N.O.M.s – ou seja, a “vida normal” transcorrendo na escola -, e principalmente a criação do cargo de Alta Inquisidora de Hogwarts, dado à detestável Dolores Umbridge. Esse aspecto do livro é muito sombrio, pois muito real. Ele fala a respeito de censura, manipulação política e midiática, tortura, leis autoritárias. Ou seja, Umbridge e o Ministério da Magia implantam uma verdadeira ditadura em Hogwarts, para impedir que Harry Potter alerte a todos a respeito do perigo iminente do retorno de Voldemort. O objetivo ali é calá-lo à força.

Reparei que Gina Weasley tem realmente um papel crescente nos livros. Da primeira vez que li, pensava que ela era muito apagada, apenas a irmãzinha de Rony e que de repente, torna-se importante. Mas não: sua personalidade forte sempre esteve ali, a conta-gotas.

E é incrível como não lembrava de quase nada deste livro. Me espantei especialmente com a visita de Harry & amigos a Saint Mungus, o hospital bruxo (sério, isso tinha sido simplesmente apagado da minha mente!), entre outras coisas.

É um livro onde muitas coisas são misteriosas a princípio, e é uma delícia acompanhar o trio por mais um ano em Hogwarts. Várias coisas acontecem em A Ordem da Fênix. Gostei muito mais do livro nesta releitura!

Harry Potter e o enigma do príncipe

Este, reli durante a Maratona Literária de Inveno (#MLI2015). Mas foi uma releitura que mais pareceu “leitura inteira”! Fiquei abismada com o quão pouco me lembrava do livro – com exceção de algumas cenas bem marcantes…

Não lembrava que havia uma cena no início do livro em que Narcisa Malfoy de fato firma o voto perpétuo (lembrava apenas do cumprimento desse voto), nem que Dumbledore ia buscá-lo na casa dos Dursley, nem que Harry passava essas férias de verão nA Toca, nem que eles visitavam o Beco Diagonal e a loja Gemialidades Weasley, etc., etc., etc.!

Gina continua ficando mais e mais interessante (como pude ser #TeamCho por tanto tempo?!), sua personalidade é uma das mais legais e ousadas da série.

Dumbledore está muito presente neste volume (diferentemente do Ordem da Fênix), e de maneira mais humanizada, mais próxima de Harry (não simplesmente como o diretor da escola distanciado). A penseira aparece bastante para nos fazer tomar conhecimento do passado de Voldemort / Tom Riddle, e este é um recurso genial de Rowling para fazer flashbacks!!!

 

Harry Potter e as relíquias da morte

Caramba, que livro bom! Definitivamente, reler a série toda, agora adulta, me deu a possibilidade não só de compreender melhor todas as pistas que Rowling deixou ao longo dos livros, mas também de retomar os últimos livros. Apesar de terem sido, obviamente, os que li por último, não eram eles que mais tinham “ficado” na minha cabeça. É como se as cenas dos três primeiros livros tivessem sido mais marcantes para mim na infância. Agora, percebo que os três últimos constituem o fechamento perfeito para a série.

Neste volume, Lord Voldemort e seus seguidores tomaram o poder de fato, e todos aqueles que apoiam Harry Potter, apoiaram Dumbledore e são contra o Lorde das Trevas, serão perseguidos. Por isso, o trio (e quase toda a Ordem da Fênix) passa a viver na clandestinidade, mudando-se de um ponto remoto da Grã-Bretanha ao outro. A missão deles é identificar objetos que são horcruxes e destruí-los. Mas eles  têm problemas enormes: não sabem por onde começar, muito menos como terminar.

Acontece muita muita muita coisa neste último volume e, em certos momentos, domina um tom melancólico.

Na minha opinião, a maneira como Rowling resolve a história, o final, é perfeita. Pensava que ela iria deixar metade do público leitor de Harry Potter insatisfeita, mas a mulher é um gênio. Não subestimou os leitores nem os personagens, e a história praticamente não teve lacunas ou pontas soltas ao terminar. Antigamente, odiava o último capítulo (o último de todos), mas hoje entendo o porquê de ela ter feito isso, embora ainda não goste dele.

Nem preciso dizer que chorei, né? Mas o mais impressionante foi que chorei lendo a dedicatória e as epígrafes. Ou seja, antes de começar o livro. Vai entender. Coisa de fã.

 

Sobre a série inteira:

É notável a capacidade de J. K. Rowling de manter o nível de tensão alto durante a série inteira; são raros os capítulos em que nada acontece. Ela mostra detalhes aparentemente supérfluos, mas que mais tarde serão explicados (por exemplo, em A Câmara Secreta, Harry escorrega numa poça d´água – algo inútil a princípio -, mas que se revelará uma pista importante sobre o monstro que se esconde por trás das paredes). Isso sem falar de aspectos que não são explicados no próprio livro, mas apenas no fim da série. São elementos que dão um ótimo ritmo de leitura; não é à toa que tantos leitores se formaram com Harry Potter.

Durante a releitura da série inteira, não pude me esquivar de pensar nos personagens como os atores dos filmes (aliás, perfeitamente escolhidos para os papéis, pela aparência, e também pela personalidade), coisa que não me agrada tanto, porque perdi aquele elemento puramente imaginativo da primeira vez que li e os filmes ainda não haviam sido lançados. Mas isso era inevitável que acontecesse, e já era de se esperar.

Aliás, dias antes de começar a reler, conversei com minha amiga Patrícia sobre isso, e ela comentou que não tinha vontade de reler Harry Potter pois não queria perder a sensação que tinha tido da primeira vez que leu. Achei um argumento extremamente válido. Dito isto, respeito a posição de quem pensa assim, mas amei ter relido e não me arrependo nem por um minuto.

Os personagens são incrivelmente bem construídos e complexos, dificilmente vemos apenas um lado de algum dos personagens – mesmo dos vilões. Rowling explora de maneira magnífica todas as nuances deles: momentos de insegurança, dúvida, coragem, fragilidade, força, raciocínio, conflito, arrogância. O destaque é para Snape, na minha opinião um dos melhores personagens da literatura (sim, de todos os tempos).

Sem dúvida a série apresenta um crescente em relação a amadurecimento. Não só os personagens amadurecem, mas também a história como um todo, a qual vai-se tornando mais e mais sinistra ao longo dos livros. Gosto muito de como a autora revela as coisas aos poucos, sem pressa, livro a livro – e, ainda assim, sem enrolação. É descritiva e objetiva na medida certa. Ou: Rowling “não dá ponto sem nó”.

Por isso, recomendo a quem quiser ler Harry Potter que não pare de lê-lo após ler apenas um ou dois livros. A obra toda consiste nos sete, não dá para parar no meio e compreender sua grandeza. Para quem já é adulto, isso pode ser um pouco penoso, já que os primeiros apresentam características mais juvenis. Reafirmo: continue lendo. Pelo menos nos dois volumes derradeiros, você vai se apaixonar.

Por último, não sou a Hermione mas gostaria de deixar meu protesto contra as quebras de regras da escola (e da vida!) que Harry, Rony e a própria Hermione praticam nos primeiros livros. Eles acham que vão ser expulsos de Hogwarts umas dez vezes e, no final das contas, só perdem pontos da Grifinória (e às vezes os ganham!) por isso, e recebem algumas punições do tipo lustrar troféus de quadribol da escola. Vou dizer que Hogwarts foi muito permissiva e eles, imprudentes. (Isso significa que agora sou adulta, eu acho.)

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e o Cálice de Fogo / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
535 páginas.

Harry Potter e a Ordem da Fênix / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
472 páginas.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
704 páginas.

Harry Potter e as Relíquias da Morte / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
551 páginas.

Padrão
Favoritos, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Harry Potter – livros 1, 2 e 3

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 1: livros 1, 2 e 3)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Não vou falar sobre a incrível J. K. Rowling, nem preciso descrever a história de Harry Potter (se você não a conhece, pode ser um E.T., e recomendo que vá logo preencher essa lacuna na sua vida).

O fato é que sou uma daquelas que cresceu com os livros de Harry. Não foram especificamente estas as obras que me fizeram começar a ler (para isso, tive Pedro Bandeira, Maurício de Sousa, entre outros), mas com certeza Harry Potter foi uma série das mais marcantes em minha vida. Comecei a ler o primeiro volume por volta de uns 12 anos (não tenho certeza, talvez aos 11) e por influência do Pedoro, meu amigo de infância, que havia recomendado muito o livro (acho que já contei essa história brevemente). O resto, já sabemos (como aconteceu com milhares de crianças e jovens no mundo inteiro): viciei e fiz minha pobre mãe correr atrás de cada novo lançamento, ano a ano, nas livrarias, até o lançamento do derradeiro sétimo livro, em novembro de 2007 no Brasil – ok, no caso do último volume, comprei por conta própria, pois já estava na faculdade.

Harry Potter foi minha série de livros da adolescência. Quando terminei de ler o último, fiquei altamente melancólica com o fim (definitivo) daquela fase da minha vida.

Passados sete anos da minha última leitura potteriana, me bateu uma vontade de reler a série. Não sei exatamente porquê, talvez por achar que o blog não estaria completo sem um post sobre essa obra que foi fundamental para mim, talvez por saudades, talvez por curiosidade. Quis ler de novo, agora sabendo a história completa; procurando pistas para as respostas de enigmas que anteriormente passaram despercebidas e coisas do tipo. Não costumo reler livros (talvez agora o faça mais, pelo menos para comentar minhas impressões de leitura sobre meus favoritos), mas tomei coragem e valeu muito a pena. Harry Potter não decepciona. 🙂

Nunca tive a coleção completa dos livros; tive sim quase todos os volumes (acho que sempre me faltou o primeiro) naquela capa antiga, que eu amava, aliás. Porém, no início de 2014, quando me mudei para Belo Horizonte, fiz uma grande doação de livros, e nessa, lá se foram meus antigos Harry Potters. Com exceção do Prisioneiro de Azkaban, que guardei por ser meu favorito, e agora dei de presente para meu irmão (detalhe fofo: no verso da capa, estavam escritos meu nome e o da minha irmã, com data do ano 2000. Meu irmão só nasceu em 2003, então acrescentei o nome dele ao nosso, e a data em que presenteei-o a ele). Mas quando fui procurar para repor minha coleção (vocês não achavam que eu viveria sem ter os livros, né?), não encontrei a coleção com as capas antigas e coloridas em português. Acabei comprando uma edição especial, de capa branca.

Farei um apanhado de coisas que me chamaram atenção nesta segunda leitura.

Harry Potter e a Pedra Filosofal

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O primeiro volume é obviamente o que eu me lembrava menos, e não sei porquê me surpreendi (novamente!) com o que eu já sabia: a ótima escrita de Rowling, descritiva na medida certa, objetiva quando necessário. E também não me recordava da enorme quantidade de informação dada no início do livro: os quatro primeiros capítulos já delineiam a história de toda a série: a morte dos pais de Harry e sua sobrevivência, sua convivência irritante com os Dursley na rua dos Alfeneiros, a presença de bruxos misturados no mundo trouxa, a existência da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Nos capítulos seguintes, temos mais descobertas: o funcionamento do mundo bruxo, a apresentação aos amigos Rony Weasley e Hermione Granger (a Hermione só vira amiga deles após a metade do livro!!! Antes disso, os meninos a consideram chata e esnobe), as novidades de Hogwarts, quadribol e, é claro, a aventura final: o resgate da Pedra Filosofal das mãos de um fraco Voldemort que renasce como ameaça. Esse enfrentamento só acontece no penúltimo capítulo, e é bem rápido. Na época em que li pela primeira vez, achei tudo mais extenso, prolongado.

Ainda é uma história mais ingênua (muitos a classificam como “infantil”), pois também é um período em que o protagonista é criança e tem apenas onze anos. Além disso, é o tomo de construção do cenário e dos personagens principais, então descreve alguns detalhes do mundo bruxo para situar o leitor, o que não me incomodou nem um pouco.

Alguns personagens que aparecem bastante no primeiro volume vão sumindo ao longo dos livros, embora não desapareçam por completo: os fantasmas das casas (especialmente o poltergeist Pirraça), Filch e sua gata madame Nor-r-ra. Ainda falando sobre personagens, Dumbledore é um senhor absolutamente maluco neste primeiro volume!

Os antagonistas de A pedra filosofal são Filch, Snape e Draco Malfoy (os três extremamente odiados por Potter), além do próprio Voldemort, aqui apenas uma “sombra” dependente e escondida na nuca do professor Quirrell, sob seu turbante púrpura.

Harry Potter e a Câmara Secreta

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O forte de A câmara secreta é mesmo a trama e como as peças do quebra-cabeças vão se encaixando para que descubramos o que diabos está acontecendo em Hogwarts. É muito interessante esse caráter de suspense do livro, de resolução de mistério. Provavelmente por isso é um dos meus preferidos da série. Essa leitura foi muito parecida com a que fiz pela primeira vez, me surpreendi (de novo!) em vários momentos.

Neste livro, novamente Filch, Madame Nor-r-ra e os fantasmas têm papéis importantes que serão diluídos nos próximos livros. Já é neste volume que Harry conhece A Toca, casa dos Weasley (pelo que me recordava, isso só acontecia depois, no terceiro livro), e é inacreditável o quão irritante é o professor Lockhart!

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

O terceiro é, sem dúvidas, meu livro preferido da saga. O que o Câmara Secreta faz num nível mais simples em relação a pistas e revelações, o Prisioneiro de Azkaban o faz com maestria. Relendo agora e já sabendo de toda a história, é incrível como Rowling espalha as pistas pelos mais diversos capítulos, como se fossem detalhes irrelevantes, mas que no final, farão todo o sentido!

O que mais gosto aqui é justamente o grande volume de informações sobre o passado de Harry e de sua história (a morte de seus pais e circunstâncias desconhecidas deste episódio); fora que a presença (na verdade, uma presença invisível e incerta) de Sirius Black, foragido de Azkaban, torna a narrativa mais tensa e interessante. Também simpatizo muito com o personagem Remo Lupin, professor de Defesa Contra As Artes Das Trevas deste volume.

O final é frenético e fantástico, dá aquela sensação de friozinho na barriga e vontadezinha de chorar. Maravilhoso.

(Para que o post não ficasse mais longo que já está, preparei uma PARTE 2, com as impressões de leitura dos livros 4, 5, 6 e 7, e também o sentimento sobre a saga como um todo! Clique aqui para ver a PARTE 2!)

 

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e a Pedra Filosofal / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
223 páginas.

Harry Potter e a Câmara Secreta / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
252 páginas.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
318 páginas.

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