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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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2016, Fantasia, Independente, Infanto-juvenil, Parceria, Resenha

Lobo de rua

Lobo de rua, de Jana P. Bianchi

“E, desde o princípio, havia a dor. De intensidade sempre crescente, ela já embaçava quase todos os seus sentidos e faculdades – porém não era suficiente para fazer desvanecer aquela sensação de ter cada molécula de líquido de seu corpo marulhando dentro de si, avançando e retrocedendo dentro das veias como as marés.
Daquele jeito, logo seu corpo iria se romper. A coisa dentro dele estaria livre mais uma vez, e, com ela, voltaria o terror. Já se sentira daquele jeito no mês anterior, e nem mesmo a dor era capaz de fazê-lo esquecer do que acontecera em seguida.
” (p. 13)

Conheci Jana por intermédio de um grande amigo da escola, Pedro Menchik. Ambos frequentaram o mesmo curso na Unicamp, o de Engenharia de Alimentos. Nos adicionamos no Facebook e, aos poucos, surgiu uma grande empatia entre Jana e eu: por alguns gostos em comum (como a leitura e a escrita), por posições políticas parecidas, etc. Certo dia, Jana me deu um presente lindo: me enviou seu livro Lobo de rua. Junto com ele, chegaram marcadores combinando com o livro ( ❤ ) e uma dedicatória que é puro carinho!

Já no primeiro capítulo, conhecemos Raul, um garoto de rua que está sofrendo uma dor excruciante. Esta noite, seu corpo está passando por modificações, da mesma maneira que no mês passado – e não são apenas as modificações da puberdade. Logo, com a ajuda de Tito, um homem mais velho que o leva para um abrigo, descobre que é um lobisomem. Tito vai guiar o garoto Raul por sua transformação e tentar ajudá-lo nos momentos de dor e insegurança, inclusive garantindo que ele não ataque ninguém. Faz isso conduzindo o garoto a um lugar seguro e escondido na metrópole paulistana: a Galeria Creta, local misteriosamente comandado pelo Minotauro, e que se estende pelos subterrâneos da cidade.

O livro de Jana é curto (tem cerca de 110 páginas, contando alguns conteúdos extras) e ótimo. Para quem gosta de fantasia urbana, é um prato cheio. Estava um pouco intrigada por ver que a história era tão curtinha (a maneira como a história é contada é deliciosa, não dá vontade que acabe), mas o final é redondinho e deixa gancho para uma próxima história. Talvez a melhor definição para o livro que encontrei tenha sido na resenha de Thiago d´Evecque no Skoob: trata-se de um prólogo a ser degustado, uma introdução ao universo fantástico da Galeria Creta.

Os pontos altos do livro são, para mim, as boas explicações dadas pela autora para a licantropia (o porquê de só ser transmitida a alguns homens, como eles se escondem, como ocorrem as transformações em noite de lua cheia, etc.), o fato de se passar em São Paulo, e de o protagonista ser um garoto de rua. Acho que são elementos complexos e que foram muito bem executados! O final só eleva a história toda, o que garantiu ao livro a quinta estrela na minha avaliação.

A linguagem é clara e muito tranquila, fluida; e os diálogos têm alguns palavrões bem localizados (são colocados exatamente nos momentos certos!). É recomendado a qualquer tipo de público, inclusive “pré-adolescente”, já que traz fantasia e uma boa dose de realidade (pobreza, invisibilidade, empatia) que não faz mal a ninguém. O menino Raul – aliás, seu nome me dá vontade de ler como um uivo: “Rauuuuuuuuuuuuul” – é um personagem nada simples: enfrenta mazelas da vida desde que se conhece por gente e possui grandes defeitos e grandes qualidades. Em tempo, já que falei do nome de Raul, ele tem um significado especial, foi escolhido a dedo pela autora; assim como o nome de Tito Agnelli, seu mentor. Até esse cuidado é digno de menção.

Jana tem um carimbo da Galeria Creta, com o qual ela marca o livro e o envelope na hora de mandar. Detalhes que fazem toda diferença! A edição é independente, ou seja, foi bancada pela própria autora. Justamente por isso, é visível que Jana fez o livro exatamente da maneira como queria: as páginas são amareladas e o papel, de ótima qualidade; o livro tem ilustrações e um projeto gráfico bem-feito, inclusive com orelhas na capa e na contracapa. Vale muito a pena adquirir para ler e dar de presente!

(Para quem já gosta da Galeria Creta: Jana está escrevendo outro livro! Não se trata de uma continuação propriamente dita, mas de uma história que se passa no mesmo universo, e inclusive protagonizada por um personagem que aparece em Lobo de rua! Aguardamos ansiosos!)

Clique aqui para acessar a página da Galeria Creta no Facebook e encomendar o livro.

+ info:

Lobo de rua / Jana P. Bianchi; ilustrações de Renato Quirino.
Paulínia: Edição da autora, 2015.
112 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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