2016, Companhia das Letras, Contos, Fantasia, Favoritos, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Infanto-juvenil, Resenha, Seguinte, Vídeo

Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Contos, Ficção, Resenha

Obra completa de Murilo Rubião

Obra completa, de Murilo Rubião

 “[…] Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
(p. 21)

Murilo Rubião (1916-1991) nasceu no interior de Minas Gerais. Funcionário público, jornalista, formado em Direito, e escritor, sua obra literária compõe-se de mais de 30 contos. 33 deles estão reunidos neste volume da Companhia de Bolso. Ele é considerado um dos precursores da literatura fantástica no Brasil.

De fato, seus contos apresentam elementos fantásticos muito acentuados (eu diria absurdos), mas que devem ser considerados “normais” dentro da história. Ou seja, o autor parte de uma situação obviamente irreal, mas que deve ser tratada como verossímil dentro daquele universo – como um coelho que muda seu formato quando quer (canguru, cavalo, pulga); ou dragões falantes; ou uma mulher que engorda indefinidamente à medida que seus desejos intermináveis são satisfeitos. Mas essas situações servem para despertar no leitor reflexões sobre aspectos mais profundos da alma humana, como a busca por identidade, a incompreensão do outro, a empatia, a memória, entre outros. Em comum, verifica-se a impotência dos personagens e, muitas vezes, o abandono por eles sofrido.

Foi uma leitura boa, apesar de incômoda. Fiquei perturbada por não conseguir racionalizar muitos aspectos da obra, e por não obter todas as explicações que esperava em praticamente todos os contos. Ou seja, um dos pontos positivos da leitura foi me conhecer ainda melhor como leitora (meus amigos Edmar e Carmem apontaram que devo ser uma pessoa muito racional. Eu tento, de fato. Mas acho que mais procuro racionalidade e lógica nas coisas do que sou racional). Costumo gostar de finais abertos, mas realmente acredito que a falta de algumas explicações prejudicaram minha impressão final sobre os contos. Se Rubião queria provocar o leitor, atingiu seu objetivo comigo. Em alguns momentos, fiquei até irritada. O autor tem ótimas ideias e sua escrita é muito clara. Porém, na minha opinião, há algumas falhas de execução, que são justamente essa falta de explicações (geralmente, de coisas pequenas, e não do grande problema apresentado pelo conto, mas sem as quais fiquei com uma sensação de incompletude).

Uma das coisas de que mais gostei foram as epígrafes dos contos. A epígrafe serve para resumir o conteúdo de um texto, e isso acontece de maneira límpida e precisa nestes textos. A maioria delas é retirada da Bíblia (e todos os contos reunidos de Rubião têm epígrafes) e tem tudo a ver com a história contada. Foi agradável terminar de ler um conto e voltar para reler a epígrafe, constatando que ela se encaixava perfeitamente.

Os contos do início da edição da Companhia de Bolso apresentam mais acentuadamente o elemento fantástico; do meio para o final, a fantasia fica mais sutil. Gostei mais dos contos do final. Meus favoritos foram: O ex-mágico da Taberna Minhota (um trecho dele está transcrito no início do post), A cidadeOfélia, meu cachimbo e o marA flor de vidroO edifícioMemórias do contabilista Pedro InácioBruma (a estrela vermelha)O homem do boné cinzentoA noiva da casa azulPetúniaOs comensais. Este, o último conto da coletânea, me parece que sintetiza os elementos principais da obra do autor, mas de maneira mais fina e madura que os outros. (Até que tive muitos favoritos para quem não gostou tanto. Porém, ter gostado de alguns não significa que os compreendi completamente. Acho que de nenhum conto entendi 100%.) Mas sem sombra de dúvidas, meu favorito foi Aglaia, sobre um casal que não consegue parar de ter filhos, apesar de tentarem todos os métodos contraceptivos – inclusive não ter contato sexual. Os partos se multiplicam, o número de filhos, idem, e o tempo de gestação se encurta cada vez mais. Um conto agoniante e que trata de uma situação tipicamente feminina (também trazendo a visão masculina), inclusive da problemática do aborto.

É muito possível traçar paralelos entre a escrita de Rubião e a de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Gabriel García Márquez. Os traços borgianos, em minha visão, foram as questões de eternidade e infinitude (um prédio com número infinito de andares do conto O edifício, por exemplo); os kafkianos, ficam expressos em contos que tratam de burocracias, como A filaA cidadeA diáspora; e a aproximação com García Márquez está no tom fatalista de não se poder escapar do destino, presente em diversos contos.

Esta edição apresenta uma introdução chamada Vida e obra de Murilo Rubião, com informações interessantes; e ao final, tem-se uma cronologia relacionada ao autor e à sua escrita. Senti um pouco de falta de saber em que ano os contos foram escritos e publicados, pois gostaria de ver se percebo algum tipo de amadurecimento na obra, apesar de os aspectos gerais se repetirem. Mas acredito que isso não foi incluído na edição pois o autor costumava reescrever seus contos com muita frequência, dessa forma sendo difícil estabelecer a data certa de criação da história (ou, ao menos, de sua versão final).

Fiz esta leitura conjuntamente com os amigos Giovanni do blog Metacrônica, e Carmem Lúcia, do blog O que vi do mundo. Debatemos bastante os contos, e certamente a maioria das impressões e conclusões aqui apresentadas não teriam acontecido – ou não tão claramente – sem eles. Obrigada!

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+ info:

Obra completa / Murilo Rubião.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
227 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
 FACIL

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2016, Contos, Ficção, Leia Mulheres, Parceria, Resenha

Filhas de Eva

Filhas de Eva, de Martha Mendonça

Filhas de Eva (2)

Eva
Nunca me tornei mulher. Já nasci assim: seios fartos, cintura fina, quadris largos, um milagre de carne saído do osso de uma costela. Nunca brinquei de boneca, não joguei amarelinha, jamais coloquei o dente debaixo do travesseiro esperando que a fada realizasse um desejo.
Nasci suja de sangue, mas de outro tipo. O vermelho da urgência da criação do mundo, da reprodução da espécie, da dor de ser a segunda, a coadjuvante, a frágil – e, ainda assim, ser o espaço humano desse repetido milagre que, depois de mim, não vai mais parar de acontecer, todos os dias, todas as horas e minutos, para sempre.
Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era a culpada. Pelo que houve e pelo que não houve: pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo.
Ele – de letra maiúscula – e ele – de letra minúscula – esperam que eu seja, pela eternidade, um instrumento de sua ordem. Que eu obedeça, que eu aceite, que eu recue, que eu tema, que eu ceda, que eu entenda, que eu me dobre, triplique, multiplique… Mas há a árvore, a maçã e a serpente.
Amanhã termina a Criação. Mas, enquanto o novo dia não nasce, eu durmo. E sonho com o futuro de minhas filhas. Hoje elas ainda são vozes. Diferentes vozes, às vezes em uníssono, às vezes dissonantes. Mas, um dia, serão carne e osso.” (pp. 5-6)

Eva sempre foi uma personagem sobre quem fui extremamente curiosa. Na realidade, me sentia muito incomodada pelo fato de ela ser considerada a culpada de todo o Mal, e sobre quem recaía grande parte da punição divina. Ainda pior, que a perpetuação dessa punição atingisse a todas as suas filhas -nós, mulheres. Por isso, ao abrir o livro de Martha Mendonça e dar de cara com este conto (fiz questão de colocá-lo inteiro no início do post), soube que o livro seria para mim, mesmo não sendo um tratado sobre religião, nem uma análise psicológica.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro foi o título; e em seguida, a capa. Solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, que me enviasse o livro.

Filhas de Eva é uma reunião de contos escritos por Martha Mendonça, jornalista e uma das cabeças por trás do site Sensacionalista. Eles falam do ponto de vista feminino sobre diversas situações, muitas das quais são relacionamentos. Mas não de maneira clichê. Martha consegue buscar detalhes muito sutis da relação da mulher com seu corpo, da compulsão por gordices, da ansiedade e da expectativa por grandes acontecimentos – os quais, por vezes, não chegam nunca a se realizar -, do fim da paixão, de dilemas profissionais, de sonhos e oportunidades.

Os títulos dos contos revelam características marcantes de cada uma das protagonistas: AmanteCompulsivaApressadaIndecisaPombagiraAnsiosaNamoradaDecidida. E vale ressaltar que o livro tem claramente um início e um fim, apesar de os contos em si não possuírem uma continuidade cronológica: o primeiro chama-se Eva; e o último, Morta.

Já há algum tempo venho procurando conscientemente ler mais autoras, inspirada pelo projeto #LeiaMulheres , e especialmente pelos debates desse grupo que acontecem em Belo Horizonte. Tenho me deparado com textos incríveis, e tão diversos entre si quanto as pessoas podem ser – ao contrário do que muita gente pensa, de que mulher só pode (ou só sabe) escrever romances românticos, e apenas para um público feminino. Cada uma tem uma maneira de lidar com as situações, descrevê-las, destacar uma ou outra visão.

(Veja mais algumas resenhas de bons livros escritos por mulheres aqui, aqui, aqui e aqui. Se quiser ainda mais indicações, peça nos comentários, que as darei com o maior prazer.)

Martha é uma dessas vozes fortes e encantadoras. Seus textos transmitem emoção e certa suavidade – mas não resvalam para um tom frágil. Os assuntos cotidianos aproximam ainda mais o texto de seus leitores. Os contos se alternam, mostrando ora um tom mais dramático, ora mais leve ou melancólico, e alguns são bem-humorados.

Livro fácil, rápido e de linguagem muito clara e fluida, recomendo bastante para praticamente qualquer tipo de público (exceto talvez o infantil)! Foi um presente poder ler estes contos.

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+ info:

Filhas de Eva / Martha Mendonça.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
127 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Contos, Ficção, Parceria, Record, Resenha

Os contos completos de Alberto Mussa

Os contos completos, de Alberto Mussa

Os Contos Completos (2)

“Estamos em 1531, ano em que Martim Afonso de Souza, donatário da capitania de São Vicente, entrou com suas naus e quatrocentos homens na baía do Rio de Janeiro, para fazer aguarda, ancorando próximo à foz do rio Carioca, na atual praia do Flamengo. […]
O intento real do donatário é denunciado por seu próprio irmão e capitão menor da frota, Pero Lopes de Souza, no diário de bordo em que registrou os passos da viagem. Num conhecido trecho, informa este que o capitão-mor mandou entrar pelo sertão quatro homens; que andaram, os homens, cento e quinze léguas e voltaram dois meses depois, com cristais de quartzo e novas de que no rio Paraguai havia prata e ouro.
Martim Afonso, é claro, partiu logo, rumo sul. Não se sabe se achou alguma coisa no Prata. O certo é que, por ordem sua, parte da armada retornou a Portugal. Pero Lopes comandou essa viagem, em missão que se deduz fosse secreta, fazendo escala, outra vez, no Rio de Janeiro.
O que fizeram na Guanabara, entre 24 de maio e 2 de julho, o diário não conta. Mas é aí que entra a minha parte, para reparar esse terrível lapso: porque eu sei, exatamente, o que sucedeu.” (pp. 125-126)

Uma das melhores coisas que a parceria com o Grupo Editorial Record, é a possibilidade que tenho de entrar em contato e de experimentar livros sobre os quais nem tinha ouvido falar. Foi este o caso com o livro de Alberto Mussa. Sem saber nada sobre o autor, dei uma lida na sinopse e, gostadora de contos como sou, resolvi arriscar.

Mussa nasceu no Rio de Janeiro em 1961 e tem vasta obra publicada, premiada e traduzida para dezessete países. Ele tem uma série de cinco livros policiais, um para cada século da história carioca, chamada Compêndio mítico do Rio de Janeiro. Quero muito, achei a ideia ótima!

Como o próprio título diz, o livro traz uma reunião dos contos de Mussa, não apenas reeditados, mas também reescritos e revisados. Na nota de abertura do livro, escrita pelo próprio autor, ele explica melhor do que ninguém do que se trata a obra:

“Este livro não é a compilação dos meus contos completos, no sentido estrito do termo. Não é também a reunião dos meus contos preferidos. E muito menos a seleta dos meus ‘melhores contos’. Não segue, da mesma forma, nenhum critério temático; nem representa uma unidade estilística, como vem sendo a moda.
É apenas a coleção de todas as minhas narrativas curtas que podem ser lidas de maneira autônoma, livres de qualquer contexto.” (p. 7)

No início de cada conto, Mussa localiza o leitor sobre a circunstância em que aquele texto foi escrito e publicado, quais foram as suas inspirações, a quem o conto é dedicado. Gostei demais deste tipo de contextualização, que permite ao leitor, inclusive, procurar outras obras indicadas.

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Um ponto curioso é que, na própria nota de abertura, o autor esclarece que não acredita no conceito de autoria. Para ele, “toda história é, no fundo, uma versão de outra. A literatura inteira pode caber num livro. Em todo livro estão os contos completos” (p. 8). Trata-se de uma declaração maravilhosa, humilde e que, de certa forma, nos tira uma alta expectativa por um texto absolutamente novo e inédito.

A partir dessa declaração, identificamos nos contos de Mussa temas universais mas com roupagens bastante próprias – cenários e personagens cariocas parecem ser uma especialidade do autor. Assim, temos a traição, a fortuna e o destino como temas gerais de um conto que se passa nos morros do Rio de Janeiro, em meio ao jogo do bicho e à disputa de traficantes por poder; o sexo e o sobrenatural se unem numa história que envolve todo o universo das religiões afrobrasileiras; uma lacuna do diário de um navegador português no século XVI serve de pretexto para uma narrativa misteriosa de um caso indígena; a honra é bem retratada num jogo de cartas muito diferente realizado entre ciganos; a verdade, o conhecimento e sua fragilidade – ou sua inconstância – em Tombuctu. Apesar de declarar que faz versões de outras histórias, é inegável a enorme criatividade de Mussa.

Alguns dos contos apresentam características da literatura policial – que eu particularmente adoro! -, como um crime e hipóteses para sua solução, tudo muito bem exposto e analisado. Mas nada disso cai em clichês de detetives, pistas. Trata-se de um formato diferente do habitual, tem uma estrutura explicativa. De vez em quando, o narrador até conversa com o leitor sobre o processo de escrita (metalinguagem).

O livro está dividido em quatro partes: Histórias cariocas, várias delas ambientadas em periferias (temos por exemplo personagens que habitam os morros da cidade do Rio de Janeiro e suas respectivas culturas e hábitos); Narrativas orientais (aqui, ele trata de casos fenícios, árabes, bantos, da invasão cristã a terras muçulmanas durante a Idade Média. Certamente esse conto sobre as Cruzadas foi uma das minhas leituras favoritas, pois despertou reflexões fundamentais a respeito de civilização e barbárie); Relatos brasileiros, centrados em casos da época colonial e anterior a chegada dos portugueses (quilombo dos Palmares e práticas indígenas são alguns dos motes); e Variações machadianas. Nesta última parte, Mussa analisa algumas teorias a respeito do conto A cartomante e, assim, revela a genialidade de Machado; e também conta o Dom Casmurro de outro ponto de vista. Além dessas partes, ainda há uma nota de abertura, já aqui mencionada, um apêndice e uma lista das obras de Alberto Mussa.

O apêndice é digno de menção para os amantes dos livros e da leitura – que é o nosso caso -: um dos textos conta a relação do autor com os livros; outro, apresenta o Decálogo, com “conselhos” de Mussa para quem é leitor.

A edição está muito confortável de se ler. Apesar de ser grossinho, a diagramação, o espaçamento e as páginas amareladas facilitam muito a experiência de leitura – que além de tudo é deliciosa. A linguagem é clara e acessível; Alberto Mussa chega a explicar direitinho algumas coisas que poucos autores de dignam a fazer, por suporem que o leitor está familiarizado com o assunto (por exemplo, como funciona o jogo do bicho).

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Os contos completos / Alberto Mussa.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
398 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Bertrand Brasil, Contos, Crônica, Parceria, Resenha

Histórias de duas cidades

Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, organizado por John Freeman e ilustrado por Molly Crabapple

Histórias de Duas Cidades 2

“Há alguns anos comprei um apartamento em Manhattan, fruto de uma herança que recebi de minha avó, que era filha de um antigo advogado da Standard Oil. Ela sobreviveu a três maridos, administrou bem seu dinheiro e, de uma só tacada, desfechada de além-túmulo, me içou de uma classe social para outra.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, meu irmão mais novo vivia num abrigo para sem-tetos.
[…]
Tal situação [de desigualdade] é insustentável. E mais: a distância entre o que Nova York afirma ser – em seus mitos, em sua cultura popular, em sua literatura, nas imagens que guardamos na lembrança quando visitamos a cidade – e a realidade é insustentável também. Eu gostaria que esta antologia desse sua contribuição para fechar a lacuna entre os que têm e os que não têm em Nova York. Talvez seja possível fazer isso corrigindo essa lacuna, pensando e sonhando; e descrevendo como as coisas são na Nova York de hoje. Qual a sensação que transmite, o que se vê, que histórias contamos sobre nós mesmos e como a desigualdade mudou a cidade.” (pp. 1 e 15)

O livro História de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, é uma coletânea de 29 textos de diferentes autores sobre a cidade de Nova  York e seus enormes contrastes socioeconômicos. Pedi-o ao Grupo Editorial Record, parceiro do blog, e eles gentilmente me enviaram. (Não é por nada não, mas os livros que o Grupo Editorial Record tem me mandado de parceria estão salvando minhas leituras!)

O organizador da coletânea, John Freeman, é escritor e crítico literário. Em 2014, escreveu a diversos autores contando sua ideia de reunir textos sobre as desigualdades da cidade de Nova York. Obteve três dezenas de respostas, que culminaram neste livro (a edição brasileira, por razões de motivos autorais, não conta com três dos textos originalmente reunidos).

É sempre difícil resenhar livros que não têm uma história só – ou seja, que não tenham o formato de romances ou novelas, mas sim livros de contos, crônicas, poesias. Em geral, esse tipo de livro traz textos de que gostamos mais ou menos, não tem um narrador único ou os mesmos personagens que podemos esmiuçar, etc. Mas esse tipo de livro também tem grandes vantagens. A primeira, é a de trazer “capítulos” mais curtos e, portanto, uma tendência maior à fluidez da leitura e a possibilidade de parar a leitura e retomar no futuro. A segunda, é a riqueza de temas e formatos. Neste caso específico, existe uma terceira qualidade enorme: por reunir textos de diferentes pessoas, é possível tomar contato com autores novos e seus respectivos estilos de escrita. Não fica um livro cansativo por sua dinâmica de trocar de autor, estilo e assunto com muita frequência.

Um passeio por dois bairros de Nova York revela os grandes contrastes não só entre pobreza e riqueza material, mas também a enorme diferença de interação entre as pessoas nas ruas e em seu entorno; o caso do sumiço de um garoto autista de uma escola é pretexto para a discussão de sistemas de saúde e educação para pessoas especiais; um emprego no turno da noite revela personagens inusitados; uma visita aos túneis de NY leva a pensar sobre a questão da dignidade das pessoas; para citar apenas algumas das “viagens” que é possível fazer durante a leitura.

Certamente o tema mais recorrente de todos é o do alto preço dos aluguéis na cidade e as dificuldades no sistema habitacional para pessoas de baixa renda e a gentrificação dos bairros novaiorquinos, seguido pela efervescência social e cultural derivada do grande número de imigrantes de outros países. Meus textos favoritos foram Estrangeiros extremamente capazes, de Taiye Selasi, sobre os imigrantes e algumas de suas estratégias de sobrevivência, e Pequenos destinos 1912, de Teju Cole. Este é uma compilação de pequenas notas que apareciam em 1912 nos jornais de Nova York contando notícias “curiosas” – em geral, casos de morte. Não pude deixar de comparar com os atuais microcontos, reavivados por conta do sucesso do Twitter (até 140 caracteres!). Este era um gênero que aparecia em periódicos de outros locais também, especialmente os francófonos, mas o livro é sobre Nova York, por isso a seleção. São microtextos absolutamente geniais. Para dar um gostinho, aí vão três deles:

“O engenheiro John Griffiths é um homem de família. Tem uma no Queens, com Sadie, e outra em Long Island, com Rose.”

“Em Williamsburg, o inspetor da companhia de gás George Hill, enlouquecido pela insônia, abriu o gás e finalmente dormiu.”

“Immekus, um pintor, deixou cair sua carteira no Erie Canal. Mergulhou rapidamente para buscá-la e não voltou.”

Cada escritor relatando suas próprias experiências criam uma colcha de retalhos desta que é uma das mais importantes e dinâmicas cidades do mundo. Nunca fui a Nova York, mas após a leitura, sinto que conheço muito mais de sua realidade cotidiana, para além das luzes brilhantes da Times Square. É curioso pensar que as coisas em grandes cidades podem ser tão parecidas, e ao mesmo tempo, tão diversas. Em Nova York, nos deparamos com um sistema jurídico diferente, relações interpessoais diferentes, debates étnico-raciais diferentes, mas ao mesmo tempo, tudo tão próximo de nossas próprias estruturas. Vale a pena pensarmos, a partir dessa leitura, questões de empatia, comparações entre “modelos” de cidades, diversidades e similaridades culturais.

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Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje / organização John Freeman; tradução Paulo Afonso.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2016.
319 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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Olhos d´água

Olhos d´água, de Conceição Evaristo


“A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno?” (pp. 104-105)

Li Olhos d´água para o encontro de fevereiro do Leia Mulheres de Belo Horizonte. E acabei encaixando-o também no desafio de fevereiro dO Grande Desafio do Culto Booktuber proposto pela Laíse, do canal Boards e Books. O desafio consistia em ler um autor ainda não lido. Conceição Evaristo é uma escritora natural de Belo Horizonte e que teve uma juventude pobre: foi moradora de favela e conciliou os estudos e o trabalho como empregada doméstica. Formou-se em Letras, e hoje em dia é Mestra e Doutora em Literatura. Começou sua carreira como escritora em 1990.

Olhos d´água é uma reunião de contos de Conceição. Eles têm como protagonistas na maioria dos casos mulheres negras, e em muitos casos, pobres e em baixa condição socioeconômica.

No prefácio e na introdução que há no livro – ambos muito bons, de Heloisa Toller Gomes e Jurema Werneck -, destaca-se muito os diversos papéis desempenhados pela mulher em geral, e pela mulher negra e pobre, em particular. Mas o que mais me atingiu nas narrativas da autora foram duas coisas: o amor e a violência, ambos presentes em todos os contos.

Sou uma pessoa muito enjoada para ler sobre amor. Acho quase tudo que se fala sobre ele um clichê. Tudo brega. Mas Conceição Evaristo tem o dom de tornar tudo bastante real, e ao mesmo tempo, singelo e impactante. E não se trata apenas de amor romântico entre um casal. O primeiro conto, por exemplo, que dá nome ao livro, é narrado por uma mulher que procura lembrar-se de que cor são os olhos de sua mãe. Tão simples, tão complicado! (Este é o melhor conto, na minha opinião.) Existe, é claro, também o amor entre casal; casos muito ternos de amor-próprio e autodescoberta, sexo, traição. E, é claro, a raiva que advém de tudo isso, frustrações, ódios, necessidades, que muitas vezes levam à violência e à morte. As mortes de personagens, inclusive, implicam na denúncia da impossibilidade de viver a realidade – palavras da própria autora.

Conceição Evaristo compareceu ao encontro do Leia Mulheres Belo Horizonte e foi uma surpresa agradabilíssima! Ela ouviu nossos debates sobre os livros e os contos e, ao final, nos brindou com uma fala extremamente consciente de sua condição de mulher negra e de sua literatura. Em ambos ela enxerga poder: suas palavras têm força, e suas histórias refletem sua visão de mundo. Veja algumas fotos do encontro (fotos de André Castro, retiradas do blog da Mari Castro, uma das mediadoras):

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A escrita é magistral. Confesso que os finais foram, aos poucos, tornando-se parecidos e, por isso, previsíveis, mas os inícios e todo o decorrer das narrativas são belamente escritos, fortes, sensíveis. A linguagem mistura fala popular e que contém elementos bantu, o que garante fluidez ao texto.

Trata-se de um livro necessário. Autora negra, protagonistas negros, realidades de pobreza que pouco aparecem na literatura, grande maioria de personagens mulheres. Bem diferente da média que vemos por aí em geral (veja aqui as estatísticas da literatura brasileira, sendo a maioria de autores e protagonistas homens, brancos, heterossexuais, de classe média). É um caso maravilhoso de representatividade na literatura. Fora a escrita deliciosa e impactante ao mesmo tempo, e as narrativas e personagens interessantíssimas. Altamente recomendado!

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+ info:

Olhos d´água / Conceição Evaristo.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2015.
116 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2016, Contos, Parceria, Record, Resenha

Antes que seque

Antes que seque, de Marta Barcellos

Antes

“As gêmeas são louríssimas, cachos balançantes, bochechas rosadas, teriam saído de uma pintura renascentista não fossem o short e a camiseta, tudo da GAP. Uma babá para cada filha, uniforme destacando os braços fortes, e mesmo assim a mãe tem o olhar cansado. Quando ia ficar orgulhosa da saúde transbordante das meninas, que afinal ficaram gordinhas – que aflição, a fase da incubadora! -, uma delas desanda a falar como nordestina. O desconforto é atropelado pela agitação na sala, a conversa quase interrompida se apruma novamente, e ficamos sentadas enquanto as babás decidem se voltarão ao playground depois do lanche.
Um suspiro, e Milena parece lembrar que sou eu a visita; decide falar a verdade. Quando uma babá tira folga, mesmo revezando, é um inferno. Elas sentem falta, uma pirraça atrás da outra, o fim de semana parece que nunca vai acabar. Filho é a melhor coisa do mundo, claro, mas ela tem pensado muito no dia em que o médico avisou que dois embriões tinham se fixado, que atualmente é comum a redução, uma gravidez mais segura, para a mãe e para o filho. Penso nisso e choro, ela me diz, porque é um pensamento horrível. Milena tenta ler minha reprovação em algum gesto ou olhar, mas sabe que no fundo também sou uma mulher prática. Passamos juntas por algo assim na juventude, uma acompanhando a outra na clínica. Nunca mais tocamos no assunto.” (pp. 48-49)

Antes que seque foi um livro que solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro. Algumas coisas me chamaram a atenção: em primeiro lugar, essa capa maravilhosa (quando abrimos a orelha do livro, é possível ver o útero por inteiro!), o título, o fato de a autora ter sido vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015 na categoria contos e a temática.

O fio condutor de muitas das narrativas (não de todas) é justamente a maternidade e as expectativas que vêm com tal decisão. Em algumas, isso não é tão explícito assim, o que vemos são mulheres comuns que passam por situações inusitadas, bizarras, tristes, e tais situações envolvem seus filhos ou seu papel de mãe. Os contos abordam de maneira sutil assuntos como: aborto, convenções sociais, morte, dificuldade de engravidar, memórias, planos, regras e aparências da classe média.

A autora parte sempre de uma situação bem cotidiana (como escrever num blog, visitar um apartamento para comprar, sair para dançar) para desenvolver o mote principal. A linguagem é coloquial e bem compreensível, e alguns contos trazem um tipo de surpresa (gostei muito de Planta circularHe or sheReduçãoÀ revelia, ContradançaQueima de arquivo, À moda antiga Copacabana).

O assunto da maternidade, tratado em alguns dos contos de maneira direta ou indireta, abrange diversos aspectos e é extremamente relevante ainda hoje, num momento de tomada de consciência de grande parte da população sobre o feminismo. Os aspectos vão desde a escolha de não ser mãe e ainda assim ser uma mulher “completa”, até o papel social que espera-se de uma mãe, e o “equilíbrio” entre ser mãe, ser mulher, ser profissional, tudo ao mesmo tempo, etc. Existe todo um mito a respeito de que uma mulher só é completa se ela engravidar e tiver filhos (assim como as solteiras são frequentemente vistas como “fracassadas”; as que priorizam suas carreiras, como “desnaturadas”; as que são mães e trabalham em casa como “relaxadas”, etc. – ou seja, nenhuma escolha é suficientemente boa). Nesse sentido, os contos de Marta Barcellos despertam a reflexão, seja por criarmos empatia com as personagens, seja porque não nos identificamos com a situação relatada e pensamos nos porquês de tudo isso – outros contos são mais despretensiosos.

A mulher atual merece ser tratada com a diversidade trazida por Barcellos, e são poucos os livros de ficção que se atêm ao assunto da maternidade e o discutem com clareza e sinceridade. Me parece que é justamente o que faz Antes que seque.

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+ info:

Antes que seque / Marta Barcellos.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
190 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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