2016, Ciência, Contexto, História, Não ficção, Resenha

A história da humanidade contada pelos vírus

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…, de Stefan Cunha Ujvari

“Microorganismos percorreram a corrente sanguínea dos combatentes. Alastraram-se pelo corpo dos soldados debilitados e comprometeram órgãos vitais. A fome e o frio prejudicaram suas defesas, que não impuseram restrições para o avanço da infecção. Seus corpos foram lançados na vala coletiva e decompostos pelo tempo. Os microorganismos responsáveis pelas epidemias sumiram com os pulmões, fígado, coração, rins e outros tantos órgãos. Uma região, contudo, preservou-se para nos contar a história. Este local, ricamente vascularizado, recebeu afluxo de sangue contendo os microorganismos que se alojaram nessa estrutura. Foram os dentes. A polpa dentária recebe o nervo responsável pela dor de dente, mas também recebe uma quantidade de sangue. Vestígios do DNA do ou dos microorganismos envolvidos nas epidemias estariam nas entranhas dos dentes daqueles esqueletos?.” (p. 50)

Este livro aborda a história humana a partir do protagonismo dos vírus, bactérias e microorganismos causadores de doenças. Aqui já coloco minha primeira crítica: antes de abrir o livro, o leitor pode ficar confuso com o título. A história da humanidade contada pelos vírus pode dar a ideia de que a narrativa só abarcará doenças virais – pelo menos, foi o que pensei inicialmente. Porém, já na folha de rosto, isso fica esclarecido pelo título completo: A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…. Agora, será que alguém consegue me explicar a escolha de não colocar o título completo na capa do livro?

Partindo da chamada Pré-História no continente africano (parte 1: África: estação de origem), Ujvari procura remontar, por meio de estudos genéticos, a história do nascimento de infecções humanas, tão antigas quanto o próprio nascimento do Homo sapiens. Este surgimento e suas evoluções podem ser rastreados graças a fragmentos genéticos de retrovírus em nosso DNA. Existem doenças que acompanham a história evolucionária dos hominídeos, tais como a herpes, a teníase e a tuberculose.

Em seguida, na parte 2, o autor nos leva por rotas migratórias traçadas a partir de pegadas genéticas deixadas por microorganismos, ou seja, é possível rastrear os caminhos feitos pelos seres humanos para se espalharem pelo mundo a partir da análise da evolução de alguns vírus, bactérias, e microorganismos – como é o caso da gastrite e da úlcera bacterianas, por exemplo, ou dos piolhos, que demarcam a época em que os seres humanos começaram a usar roupas, entre diversos outros exemplos.

Na terceira parte do livro, Chegada à América, apresenta-se como alguns parasitas intestinais podem ajudar a esclarecer ou apontar mais seguramente para uma das teorias sobre como o ser humano povoou o continente americano (se por terra, a partir do estreito de Behring, ou por via marítima). Aqui, também apresenta-se uma polêmica interessante sobre se a sífilis é uma doença trazida pelos europeus na época da colonização ou se era uma doença tipicamente americana. No final, uma discussão sobre eugenia e a utilização de cobaias humanas (na Alemanha nazista e nos Estados Unidos, com negros sifilíticos) enriquece muito o texto.

As partes 4 e 5 tratam do surgimento da agricultura e da domesticação de animais, o que permite um espalhamento muito maior de doenças, uma vez que possibilitam maiores aglomerações humanas, armazenamento de água e comida e, assim, a disseminação não apenas de microorganismos, mas também de vetores de doenças, tais como ratos e mosquitos.

Na parte 6, chamada O ataque continua, o autor trata de tempos mais atuais, principalmente das descobertas de combate e cura de algumas doenças (vacinas, antibióticos, etc.).

Além dessas seis partes, o livro conta com uma pequena apresentação, notas de final com referências bibliográficas e algumas imagens em preto e branco. As páginas são brancas e encontrei um ou outro erro de revisão.

Provavelmente o mais interessante que achei no livro foi ter percebido como guerras, violência, pobreza, urbanização desordenada e não planejada, falta de educação e de saneamento básico, além de serem problemas sociais, acabam por se tornar gigantescos problemas de saúde pública, por facilitarem o alastramento de diversos tipos de doenças. Outro ponto positivo foi a apresentação de métodos de pesquisas feitas em parceria da Biologia (áreas de Genética e Infectologia) e História (notadamente a Arqueologia) para esclarecer diversos episódios e processos históricos, como por exemplo, as “pegadas” de DNA que revelam muito sobre a migração humana.

Confesso que ter uma alta expectativa em relação a este livro prejudicou minha experiência de leitura. Achei que o autor passaria ao longo da História humana (Oriente Próximo Antigo, Grécia e Roma, Idade Média na Europa, Mundo Árabe, China, América, Idade Moderna, Imperialismos, Guerras Mundiais, Globalização, etc.) perpassando grandes epidemias que assolaram as populações. Mas não é este o tom do livro: o autor Ujvari é brasileiro e médico especialista em infectologia. Portanto, traz um olhar mais biológico que histórico para os microorganismos. É quase como se o livro tratasse da História dos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos contada pela humanidade, e não o contrário. Senti falta de uma história mais aprofundada da peste negra na Europa do século XIV, ou da tuberculose no Egito antigo, ou das epidemias de piolhos durante guerras. Tudo isso é citado, mas tão rapidamente, que não satisfez minha curiosidade.

Achei a “linha condutora” do livro um pouco confusa – talvez a intenção fosse tornar o texto mais dinâmico -, com algumas idas e vindas no tempo. Outro ponto que me incomodou bastante foi o fato de o livro não possuir uma “conclusão”, ou seja, uma síntese ou uma reflexão claramente proposta pelo autor ao final. Isso obviamente não é necessário em qualquer obra, mas penso que seria muito interessante nesta.

Realmente acredito que o maior problema do livro não foi o livro em si, mas sim minha expectativa em relação a ele. Tem alguns (poucos) defeitos que enxerguei, mas no geral, é uma pesquisa rica e uma abordagem interessante. Penso que com alguns pequenos ajustes, ficaria mais a meu gosto. Recomenda-se esta leitura para um público mais adulto, por conta da densidade do texto e das explicações científicas, e para um público que se interessa pelos temas de Genética, Evolução e Arqueologia.

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+ info:

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos… / Stefan Cunha Ujvari.
São Paulo: Contexto, 2014.
205 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Padrão
2014, Contexto, História, Não ficção, Resenha

1964: História do Regime Militar Brasileiro

1964: História do Regime Militar Brasileiro, de Marcos Napolitano

1964

“Hoje em dia, nenhum historiador, não importa suas simpatias ideológicas, duvida que o regime militar foi um regime conservador de direita. Mas o teor conservadorismo pode até ser discutido, pois ele se combinou com a tradição do reformismo autoritário da história republicana brasileira. Em linhas gerais, essa tradição de pensamento tinha uma vocação modernizadora que nem sempre se conciliava com outros grupos historicamente conservadores, como os católicos e as oligarquias liberais. Os militares de 1964 eram anticomunistas e contra o reformismo democratizante da esquerda trabalhista, mas tinham uma leitura própria do que deveriam ser as reformas modernizantes da sociedade brasileira, na direção de um capitalismo industrial desenvolvido e de uma democracia institucionalizada e sem conflitos, com as classes populares sob tutela. Os militares golpistas se apresentaram como ‘revolucionários’ ao mesmo tempo em que defendiam a ordem, pois pretendiam modernizar o capitalismo no país sem alterar sua estrutura social. Eram antirreformistas, mas falavam em reformas. Falavam na defesa da pátria, mas criticavam o nacionalismo econômico das esquerdas. Prometiam democracia, enquanto construíam uma ditadura. O viés conservador anticomunista era o único cimento da coalizão golpista de 1964 liderada pelos militares, que reunia desde grandes liberais hesitantes até reacionários assumidos, golpistas históricos e golpistas de ocasião, anticomunistas fanáticos e ‘antipopulistas’ pragmáticos, empresários modernizantes e latifundiários conservadores.” (p. 314)

politizado

O historiador Marcos Napolitano é professor de História do Brasil Independente no departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Tive o prazer de tê-lo como professor durante a graduação e por pouco não fui pedir para ser orientanda dele. Faltou coragem. Especialista em cultura na época da ditadura militar no Brasil, Napolitano tem um jeito muito calmo de dar aula, e tenho boas lembranças de seu curso. Confesso que História do Brasil nunca foi meu assunto preferido (quanto mais República!!!), até começar a efetivamente a dar aula sobre o assunto. Foi quando atentei para detalhes que não dei importância antes e que fazem toda a diferença na análise presente do nosso país. Agora, passei a adorar História do Brasil República, e procuro passar esse entusiasmo para meus alunos.

Posso fazer outra confissão? Não gosto de livros técnicos. Acredito que historiadores são muito acadêmicos em sua escrita – são poucos os que escapam desse vício -, o que acaba tornando os livros de História muito maçantes, cheios de dados e análises com palavras difíceis. Por isso é que muito jornalista por aí vende (pra caramba!) livro de História. Eles escrevem de um jeito palatável para o público em geral e, neste sentido, nós historiadores temos muito a aprender. Porém, nada substitui um bom livro de História, com fontes primárias e análises metódicas. O problema desses livros de jornalistas que escrevem sobre História é que, por não terem estudado sobre isso, não possuem um método de análise de fontes, e tendem a ser muito anacrônicos. Ou seja, aplicam conceitos atuais em acontecimentos do passado, coisa que não pode ser feita (já que o conceito não existia, ou era diferente!). Ou então julgam o passado por esses conceitos. Por exemplo, há quem afirme que Hitler e o nazismo eram de esquerda (por conta da alta intervenção estatal e do nome “nacional-socialismo”, entre outras coisas). Mas Hitler queria manter o capitalismo e perseguia sistematicamente comunistas (quem quiser ler mais argumentos contra isso, veja este texto). O anacronismo é o primeiro pecado do historiador. De qualquer maneira, não é sobre isso que vim falar.

[Só mais dois adendos:
1) apontaram em um grupo do facebook e é verdade: a capa de 1964 é muito parecida com a capa de 1889, do jornalista Laurentino Gomes.

1964

Claro que é uma jogada de marketing da editora do livro sobre o regime militar, já que os livros de Gomes vendem muito.

2) Amigos, por favor, se vocês não forem historiadores, não me deem livros de História de presente. É raro alguém acertar. Geralmente pegam livros que estão entre os mais vendidos e que têm um assunto histórico, mas essas tendem a não ser leituras de boa qualidade. Eu amo ganhar livros, podem continuar me presenteando com eles, mas escolham um que vocês gostaram de ler, de preferência algo mais literário. Nada de coisas técnicos. Mesmo assim, agradeço a todos os que já me deram livros de História até hoje, alguns foram bons!]

Pronto. Vamos ao livro?

O título remete ao ano do golpe civil-militar no país, provavelmente porque em 2014 completam-se 50 anos do evento. E ainda tem quem o chame de “contrarrevolução”.

Mas o recorte temporal do livro é do governo João Goulart (1961-64) até a reabertura política (1985, com a entrada de José Sarney na presidência). Por vezes, esse recorte é extrapolado e o autor recorre tanto a tempos prévios (governo Jânio Quadros, Getúlio Vargas) quanto a discussões extremamente atuais.

Como todo bom historiador, Napolitano parte de perguntas sobre o tema. Por exemplo: “Jango foi o responsável pela crise de 1964?”, “O golpe foi puramente militar ou civil-militar?”, “A ditadura para valer só começou com o AI-5, em 1968?”, “A esquerda armada foi a principal responsável pelo acirramento da violência de Estado?”, “As artes e a cultura de esquerda estavam inseridas na indústria cultural ou foram meras concessões episódicas por parte desta?”, “A sociedade, predominantemente, resistiu ou apoiou a ditadura?”, “A abertura do regime foi um movimento consciente dos militares, que preparavam a sua saída do poder sem hesitações?” (p.8-9), etc.

Vamos por capítulos (são doze no total):

Em “Utopia e agonia do governo Jango”, ele analisa rapidamente a figura desse político controverso (às vezes tido como vilão, às vezes como vítima do processo histórico) com grande lucidez, levando em conta o jogo político em que estava inserido e as forças de apoio e oposição a ele. Chama atenção a (des)organização das instituições e movimentos de direita e esquerda, e também o contexto da Guerra Fria, o qual não pode ser desprezado. Mesmo sem julgamento histórico, o autor não tem medo de expor sua visão (claramente de esquerda e com algumas ressalvas) – que é justamente o que me incomoda nos “jornalistas que escrevem sobre História”: eles inserem sua opinião no assunto, sem expô-la explicitamente, e acabam por condenar ou absolver fatos e personagens do passado. Para um leitor menos treinado, essa opinião implícita torna-se verdade, e é aí que mora o perigo.

No capítulo “O carnaval das direitas: o golpe civil-militar”, o papel da imprensa como veículo de propagação de um alarmismo crescente é bastante destacado, algo extremamente válido e atual. Por aí, podemos questionar a nossa própria grande imprensa, sempre comprometida com alguém (pessoas / países / governos / empresas). Ressalta-se que o golpe de 64 foi contra um projeto de sociedade (aquele calcado nas reformas, algumas de cunho notadamente social), e não apenas contra um homem (Jango) e seu governo.

“O mito da ‘ditabranda'” é um capítulo referente à ideia de que o início da ditadura foi algo “brando” (conforme sugerido por um colunista do jornal Folha de S. Paulo). Realmente, existem linhas que dizem que o governo de Castelo Branco foi “leve” em termos de repressão, ideia que o historiador não hesita em rechaçar. Napolitano mostra com números o autoritarismo no início da ditadura – autoritarismo que “blindou” o Estado e preparou-o para endurecer ainda mais a partir de 1968. Analisa, ainda os principais objetivos políticos dos militares no poder no início da ditadura e cita leis que corroboram suas palavras.

No quarto capítulo, “No entanto é preciso cantar: a cultura entre 1964 e 1968”, tratando ainda sobre o início do período do regime militar, o autor conta como neste começo, a cultura não sofria censura (o que certamente reforça o mito da “ditabranda”) – seja porque reprimir essa cultura questionadora ceifaria grande parte de um mercado lucrativo (produzido e consumido pela classe média brasileira), seja porque as atenções do governo estavam mais voltadas neste momento para a desestruturação de movimentos sociais, sindicais e mais institucionalizados em detrimento de indivíduos (no caso, artistas). O limite desta “tolerância” dos militares foi o encontro da cultura engajada de esquerda com as guerrilhas, as quais não podiam ser ignoradas por seu grau de ameaça para o regime.

“‘O martelo de matar moscas’: os anos de chumbo” é o capítulo que conta a história dos movimentos armados de esquerda e da máquina repressiva montada pelo Estado para acabar com eles, máquina esta baseada num tripé: vigilância, censura e repressão, cada um dos pontos minuciosamente analisado (desaparecimentos, torturas, DOI-CODI). Neste capítulo, algo muito interessante acontece: Napolitano fala sobre as raízes da Polícia Militar de hoje, claramente herança dos tempos ditatoriais, onde qualquer um era (é!) considerado suspeito até que se provasse o contrário.

“Nunca fomos tão felizes: o milagre econômico e seus limites” desmente muitos dos mitos que existem por aí sobre o “milagre econômico”, porque relativiza essas conquistas econômicas (trazendo dados como a explosão da dívida externa, usada para financiar o “milagre”; o agravamento da má distribuição de renda; a inflação decorrente disso, cujos efeitos muitos de nós nos lembramos). É um capítulo que versa muito sobre economia mesmo (tema que não me agrada particularmente, então me ative às linhas gerais). Aqui, é duramente criticada a ideia de que a ditadura foi “civil-militar”, da mesma maneira como foi o golpe de 1964 para o autor; ele defende que, estando sob a tutela militar, a ditadura no Brasil foi qualitativamente “militar”.

“‘A primavera nos dentes’: a vida cultural sob o AI-5” e “Letras em rebeldia: intelectuais, jornalistas e escritores de oposição”, respectivamente o sétimo e o oitavo capítulos do livro, procuram esclarecer as questões cultural e intelectual no auge da repressão (cerca de 1968). Eles perpassam a convivência entre a arte engajada de esquerda e o entretenimento em florescimento (possibilitado pela difusão de produtos como a música popular e a televisão), as várias correntes musicais que faziam sucesso na época (em especial o samba, a MPB e o rock), teatro e cinema. Marcos Napolitano enfatiza a contradição que havia no regime: ao mesmo tempo em que impunha a censura prévia aos meios de comunicação (estabelecido pelo AI-5), também possuía uma política de incentivo à cultura. Quanto aos intelectuais, fala-se mais do jornalismo e da literatura nacionais, e também do papel que esses intelectuais assumiam no regime: tanto como base do regime quanto como diversos matizes de oposição a ele. Ao tratar de temas culturais, especialidade do autor, o texto fica mais detalhado e, por isso, mais lento. Obviamente que os detalhes são importantes, mas a leitura me pareceu menos fluida nesse ponto da obra.

Em “‘A democracia relativa’: os anos Geisel”, mais um mito é duramente questionado: o de que Geisel era um “liberal”, alguém que retomou o caminho da “linha branda” da ditadura (quase como se ele fosse “bondoso”). Essa imagem é muito comum de se ver, assim como a de que Castelo Branco seguia também esta linha. O historiador mostra-nos como o jogo de “abertura” e “distensão” do regime foi altamente estratégico, procurando não isolar o governo de sua cada vez mais frágil base de apoio “popular” (setores da classe média e empresariado, entre outros). Tal base estava frágil por conta do fim do “milagre econômico”, insustentável por um longo período de tempo, que levou os setores anteriormente coniventes com o regime a criticá-lo cada vez mais. Em suma, a estratégia de “distensão” política do governo Geisel é descrita:

“[…] abrindo espaços institucionais e canais de diálogo com vozes seletivas e autorizadas, sem necessariamente abrandar a repressão à esquerda e aos movimentos sociais como um todo.” (p. 251-252)

(Calma, está acabando!!!)

O décimo capítulo chama-se “A sociedade contra o Estado”, e trata do aumento da mobilização pública da sociedade civil, dando destaque à reorganização do movimento estudantil e seu retorno às ruas (além de outras organizações, como CNBB, ABI, OAB, MDB, movimento operário, Movimento do Custo de Vida, pequenos movimentos iniciados nas periferias das grandes cidades, etc.).

“Tempos de caos e esperança” é o momento final do recorte temporal do livro: fala das greves no ABC paulista (emergência de Lula como líder sindical), da fragmentação das esquerdas no momento em que perdem a “bandeira única” da democracia (novamente, a fragmentação das esquerdas, bastante falada ao longo do livro), a campanha das Diretas Já! e, finalmente, a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República em 1985.

O último capítulo, “A ditadura entre a memória e a História” retoma alguns pontos importantes, resumindo-os (como o trecho no início da resenha), em especial as contradições maiores do regime. Além disso, discute a questão da memória e da verdade, da solução para desaparecimentos políticos e da escrita de uma história oficial para a ditadura, temas extremamente atuais, ainda mais se levarmos em consideração o momento de lembrança dos 50 anos do golpe.

Acho que deu para perceber o quão embasada a pesquisa deste historiador é. Com uma linguagem muito tranquila, Napolitano trata de analisar conjunturas e expor dados para ratificar suas posições, sempre claras. Trata-se de um manual sobre a ditadura militar – o qual sublinhei exaustivamente para futuras consultas para elaboração de aulas – altamente recomendável, em especial para quem se interessa pelo tema e para quem dá aula sobre isso. E conta com interessantíssimas discussões sobre o cenário atual do Brasil, o que, afinal de contas, é uma das funções da História. O livro é muito bom em apontar nuances difíceis de serem enxergadas, tais como as diferenças dentro de um pensamento de direita ou de esquerda, e também contradições e ambiguidades inerentes a esse período histórico (tanto do regime militar quanto das oposições).

Em tempos de refundação da Arena e reencenação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, quem tem um mínimo de consciência histórica e espírito crítico sai na frente. A ignorância não pode vencer a memória. Espero que tenhamos aprendido alguma coisa com a tragédia que o país enfrentou nesses 21 anos de ditadura militar. Tudo bem que a política atual está loooooooooooooooonge de ser maravilhosa, ninguém está satisfeito com a impunidade e a corrupção geral, mas NADA justifica um pedido de intervenção armada nos moldes de 1964. Sejamos inteligentes e proponhamos uma solução inovadora, e não voltemos às trevas medievais para repetirmos um erro que, já sabemos, provou-se cruel e infrutífero.

OBS.: Aproveitando o assunto, deixo um link para a reportagem “Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto“, apenas mais um exemplo de barbárie, para que ninguém se esqueça do absurdo que foi.

+ info:
1964: História do Regime Militar Brasileiro / Marcos Napolitano.
– São Paulo: Contexto, 2014.
365 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade: MEDIO
(É interessante ter algum conhecimento prévio sobre história da ditadura militar no Brasil para ler a obra, por isso a classificação de dificuldade “média”.)

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