2016, Companhia das Letras, Ficção, Infanto-juvenil, Resenha, Séries e trilogias

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3, de Lemony Snicket

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“Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire cuja história está aqui contada.” (Mau começo, p. 9)

Mal podia esperar para escrever sobre esta série. Tanto que não aguentei esperar ler mais do que três livros desta série de treze; acho que a leitura vale a pena, mesmo que eu ainda não saiba o final da série toda. Ao longo dela, acompanhamos três irmãos: Violet, de 14 anos, é conhecida por sua grande criatividade. Ela é uma verdadeira engenheira e adora inventar coisas; quando está exercendo seu talento, é possível ver sobre sua cabeça engrenagens, alavancas e roldanas em funcionamento. Klaus, o irmão do meio, tem 12 anos e é um rato de biblioteca; lê todos os livros que encontra pela frente e tem uma boa memória. A caçulinha, Sunny, ainda é um bebê, mas é espertíssima! Sua habilidade especial consiste em morder as coisas (ela prefere os objetos mais duros) com seus quatro dentinhos afiados.

Certo dia, os três são tomados de surpresa pela pior notícia possível: seus pais, o sr. e a sra. Baudelaire, faleceram num incêndio arrasador. Além do amor dos pais, o fogo também tomou dos irmãos sua casa (uma mansão, que ficou em cinzas) e seu conforto. A família Baudelaire possuía uma grande fortuna, porém, Violet, Klaus e Sunny só poderão ter acesso à herança quando a irmã mais velha completar 18 anos. Enquanto isso, eles ficarão à mercê de algum tutor legal, um parente a ser designado pelo sr. Poe, um burocrata com boa intenção mas, aparentemente, poucos miolos.

Digo isto porque ele os colocará sob a tutoria de um parente distante da família, o conde Olaf. Olaf é uma pessoa detestável, que explora as crianças (às quais ele chama de “órfãos”) obrigando-as a realizar tarefas desnecessárias e passar por verdadeiras situações de violência física e psicológica, tudo para tentar botar as mãos na herança.

Este é o mote geral do primeiro livro, Mau começo, e os próximos seguem uma linha similar. Sempre o conde Olaf bola um plano mirabolante para tentar tomar conta da fortuna dos Baudelaire, é frustrado, e foge para retornar no livro seguinte. Como só li esses três primeiros volumes, não posso falar sobre os próximos. Mas é bem possível que a trama geral se repita e torne-se mais entediante para alguns leitores. Entretanto, lendo apenas os três primeiros, confesso que gostei muito!

Grande parte do meu encantamento pela obra vem da linguagem utilizada pelo autor Lemony Snicket. Ele inova ao conversar com o leitor e ser totalmente sincero (por exemplo, no início dos livros, ele sempre alerta que é melhor que o leitor desista logo da leitura, pois trata-se de uma história que só contém desgraças sofridas pelos irmãos – veja o trecho inicial do post). Snicket também explica palavras e expressões, mostrando o que elas significam naquele contexto (“[…] vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” — até a praia” [Mau começo, p. 10]). Há também a “tradução” das falas de Sunny, que é sempre muito engraçada. A irmã pequenina tem uma linguagem própria dos bebês, mas o narrador faz questão de explicar sempre o que ela quer dizer.

Além de todas essas “inovações” narrativas, o texto é muito objetivo e dinâmico. O bom humor está presente o tempo todo na maneira que a história é contada, e o mundo mundo em que vivem os Baudelaire inventado (os nomes combinam com os lugares, o que dá um ar fantasioso) também exerce certo fascínio e torna tudo ainda mais divertido.

Apesar do alerta constante de Snicket, a história dos Baudelaire não mostra apenas desgraças e infelicidades. Ela conta com momentos de respiro, ternura, compreensão, saudade, e até mesmo de alegria. As desgraças são apenas os motores da ação. Talvez o ponto principal da história é que juntos, os irmãos Baudelaire são incríveis. Diferentes entre si, cada um com sua personalidade, eles formam um time coeso e ativo. A série é infanto-juvenil, mas eu estrou amando, mesmo sendo adulta!

Ah! Haverá uma série da Netflix, a ser lançada em janeiro de 2017. O conde Olaf será interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, e eu achei este trailer o máximo! Captou muito bem a atmosfera fantasiosa e bem-humorada dos livros. Mal posso esperar! 🙂

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+ info:
Mau começo / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
152 páginas.

A sala dos répteis / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
184 páginas.

O lago das sanguessugas / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
192 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público de qualquer idade!)

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

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2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Parceria, Resenha

A música do universo

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos, de Janna Levin

“Em algum lugar do universo, dois buracos negros colidem – pesados como estrelas, pequenos como cidades, literalmente buracos (espaços vazios) negros (com total ausência de luz). Presos pela gravidade, nos últimos segundos que passam juntos eles se deslocam em milhares de revoluções em torno de seu futuro ponto de contato, revolvendo-se no espaço e no tempo até colidir e se fundir num buraco negro maior, num evento mais poderoso do que qualquer outro desde a origem do universo, produzindo uma energia que é mais de 1 trilhão de vezes a de 1 bilhão de sóis. Buracos negros colidem em escuridão total. Nada de energia que irrompe disso se apresenta em forma de luz. Telescópio algum jamais mostrará o evento.
Essa profusão de energia emana de buracos que se coalescem numa forma puramente gravitacional, como ondas na forma de espaço-tempo, como ondas gravitacionais. Uma astronauta flutuando nas proximidades não enxergaria nada. Mas o espaço que ela estivesse ocupando ressoaria, deformando-a, apertando-a e depois a esticando. Se estivesse perto o bastante, seus sistema auditivo poderia vibrar em resposta. Ela
 ouviria a onda.” (pp. 11-12)

Primeira coisa: não sei nada de Física. Só tive aula de Física no Ensino Médio (e lá se vão mais de 10 anos!), e olhe que mesmo nesse período, não absorvi muita coisa. Portanto, alguns (muitos!) conceitos de Física são absolutamente misteriosos para mim: “buraco negro” é um deles. Acho difícil conceber algo escuro e vazio, mas que ao mesmo tempo é muito pesado e poderoso. Porém, a curiosidade é sempre maior que a ignorância. Em fevereiro de 2016, assisti a notícias de que cientistas haviam finalmente conseguido captar o som das ondas gravitacionais. Quando a Companhia das Letras, editora parceira do canal Redemunhando, me apresentou este lançamento de livro, não resisti e o pedi.

Janna Levin, a autora do livro, é norte-americana e professora de Física e Astronomia na Universidade de Columbia, além de escritora. Ela possui outros livros, incluindo um sobre Alan Turing. No livro A música do universo, a autora nos leva por uma viagem científica, tratando de conceitos de Física, e também dos caminhos percorridos por cientistas do nosso século para comprovar a teoria de Einstein das ondas gravitacionais, formulada há cem anos. Basicamente, o livro nos conta a história da montagem de experimentos para a captação dessas ondas – em especial a concepção e montagem do LIGO, Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser. Tais ondas, pensaram os cientistas, por não liberarem energia luminosa (ou seja, não podem ser vistas), deveriam ser captadas por meio de sons.

Como traduzir sons em palavras? Mais ainda, como comunicar ao leitor a grandiosidade da captura dos sons das ondas gravitacionais e colocá-las em letras impressas? Mas afinal de contas, o que são ondas gravitacionais?

Eu obviamente não sou a melhor pessoa para explicar o conceito. No meu parco entendimento, tratam-se de pequenas deformações no espaço-tempo, em forma de ondas, que se propagam pelo universo a partir de uma colisão entre buracos negros. Mais ou menos como mostra a imagem a seguir:

O fascinante sobre isso é que esse acontecimento não propagaria luz, de maneira que não seria observável por nós nem por telescópios. Entretanto, considerou-se que seria possível desenvolver um dispositivo altamente detalhado e específico (e caro!) que captasse os sons produzidos a partir dessa colisão. [Para saber mais sobre o assunto, separei alguns vídeos de divulgação científica sobre isso disponíveis no Youtube: Nerdologia, Primata falante.]

Albert Einstein previu este fenômeno nos primeiros decênios do século XX, e até o final deste século, havia dúvidas sobre se tal experimento de captação de evidências das ondas gravitacionais seria possível ou viável. O livro de Levin documenta o processo de aprovação e construção do LIGO, dirigido pelos físicos Kip Thorne e Ronald Drever do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e Rainer Weiss da Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É importante ressaltar que este foi um empreendimento realizado com a colaboração de centenas de cientistas, e não apenas dos três supracitados.

A narrativa mescla dados, os bastidores da montagem do LIGO e de protótipos e experimentos. Tais descrições por diversas vezes são muito detalhadas, de maneira que interessarão mais a leitores especializados que aos leigos e que buscam uma leitura mais panorâmica (como eu). Além disso, a autora também conta sobre a trajetória de físicos envolvidos no empreendimento, relatando parte de suas vidas pessoais e entrevistas com os próprios.

A linguagem da obra é tranquila e informal, apesar de apresentar alguns conceitos físicos mais complicados. E, pelo fato de a autora ser especialista da área de Astronomia, é confiável e precisa nas informações científicas.

Um dos aspectos mais interessantes do livro foi perpassar diversos momentos históricos desde meados do século XX – notadamente no Estados Unidos, espaço onde se encontra o LIGO e se concentra a pesquisa sobre este tema. O nazismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial, a criação da bomba atômica, o Projeto Manhattan e a Guerra Fria servem como panos de fundo para o desenvolvimento da pesquisa sobre ondas gravitacionais.

Outro ponto notável é a desproporção entre homens e mulheres no livro, o que obviamente reflete a desproporção entre homens e mulheres na academia, em especial na área de Física. Faz pensar no grande potencial que podemos estar ignorando ou perdendo simplesmente por motivos de preconceito.

Impressiona o alto nível de incerteza do experimento, já que ele depende da colaboração da natureza. Mesmo frente a tantas dúvidas e improbabilidades da detecção das ondas gravitacionais, o projeto foi em frente e cumpriu sua missão. O livro mostra diversos obstáculos científicos que foram enfrentados por esses pesquisadores, o que é um processo natural (embora difícil) na ciência: guerra de egos, experiências que falham, falta de financiamento, resistência nos meios acadêmicos.

É um ótimo livro, mas pode ser detalhado demais para um público leigo e simplesmente curioso pelo assunto. Acredito que um leitor mais especializado desfrutará muito mais da obra.

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+ info:

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos / Janna Levin; tradução Paulo Geiger.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
257 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Dom Quixote

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

“Enfim, acabado seu juízo, foi dar no mais estranho pensamento em que jamais caiu louco algum: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito de sua pátria, se fazer cavaleiro andante e ir pelo mundo com suas armas e cavalo em busca de aventuras e para se exercitar em tudo aquilo que havia lido que os cavaleiros andantes se exercitavam, desfazendo todo tipo de afrontas e se pondo em situações de perigos pelos quais, superando-os, ganhasse nome eterno e fama.” (p. 64)

Um dos maiores cânones da Literatura ocidental, Dom Quixote de la Mancha, do autor espanhol Miguel de Cervantes, tem uma influência gigantesca na cultura ibérica e em seus “filhotes” da América Latina. Afinal, quem nunca viu uma referência ao engenhoso fidalgo, seja em livros, filmes, personagens, ilustrações…?

Quixote é um homem apaixonado por livros de cavalaria. Devorou-os todos e os conhece de cor. Certo dia, decide que é sua missão andar pelo mundo a procura de ajudar os humildes e oprimidos, como é dever de qualquer cavaleiro andante. Inicia seu projeto anacrônico vestindo uma armadura obsoleta e enferrujada, encilhando seu magro e tísico cavalo Rocinante, e partindo em busca de quem lhe nomeie cavaleiro. Mais tarde, junta-se a ele seu fiel – e ingênuo – escudeiro, Sancho Pança.

A obra Dom Quixote é a narração das diversas aventuras vividas pelo Cavaleiro da Triste Figura e Rocinante, Sancho Pança e seu burro. Tudo em nome da formosa (e imaginária) donzela Dulcineia del Toboso, a musa inspiradora de Quixote. Essas aventuras envolvem sempre confusões em que o cavaleiro se mete por querer defender algo que não quer ou não pode ser defendido; seus discursos rebuscados levam a brigas com outras pessoas que viajam pela estrada ou se hospedam na estalagem. São brigas de verdade, com socos, pontapés, dentes arrancados, ombros moídos e cabeças arrebentadas. Apesar de toda essa violência, o livro nos faz rir. O tempo todo.

O volume 2 segue exatamente o mesmo tom cômico-aventuresco, o que é bastante impressionante, considerando que foi publicado dez anos depois do primeiro volume. Uma diferença entre os dois é que, no segundo tomo, os personagens reconhecem Dom Quixote de la Mancha e seus feitos, pois já leram sobre suas façanhas no volume 1 – assim como nós, leitores. Isso talvez torne tudo ainda mais leve, pois as pessoas o tratam de maneira respeitosa, ainda que com a intenção de se divertir às suas custas.

Me surpreendi imensamente com o humor de Dom Quixote; ninguém nunca tinha me dito que o livro seria tão engraçado. Os disparates do protagonista e a inocência de Sancho são hilárias. Outro aspecto que me causou admiração foi o tom informal da obra, o quanto é possível compreender seu espírito, mesmo que sua primeira publicação, de estrondoso sucesso, tenha sido na Espanha no ano de 1605! Acredito que grande parte deste mérito seja do tradutor da edição que li, do selo Penguin Classics (Companhia das Letras). Ernani Ssó esclarece pontos interessantíssimos no início do primeiro tomo, e fala sobre suas escolhas como tradutor. Diz que escolheu manter esse ar zombeteiro em detrimento da absoluta fidedignidade às palavras e expressões. Optou por manter o sentido das piadas e ditados, o que em minha opinião, funcionou muito bem e me aproximou da história e dos personagens.

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

Um ponto curioso é que Cervantes escreveu este livro despretensiosamente, e fez muito sucesso à época de sua publicação, no início do século XVII. Foi pensada para ser uma leitura de entretenimento, e acabou por se tornar um clássico absoluto. No próprio livro (final do tomo 1), existe um debate entre um cônego e um padre sobre qual é a função da Literatura, ou seja, para quê ela serve. Afinal de contas, o próprio Quixote enlouquece graças a ela – pelo menos assim pensa sua comunidade. Esta é uma discussão que continua atual: a Literatura deve ensinar além de divertir? Toda Literatura de entretenimento é ruim?

Além do tema da loucura, percebe-se no fundo da obra – embora esta não seja obviamente o propósito primordial – uma crítica a autoridades e normas sociais, e reflexões sobre solidão, coragem, amizade e fidelidade. Quixote é um sonhador, tem pensamentos idealistas. Ele tem a intenção boa de reduzir as injustiças e maldades; mas faz isso por caminhos que são incompreensíveis para os personagens que estão ao seu redor.

Dom Quixote e os moinhos, por Salvador Dali (1945)

Existem alguns outros aspectos dignos de menção: mecanismos que Cervantes utiliza para criticar as autoridades ou bajulá-las (por exemplo, coloca na fala do padre elogios aos censores de livros, uma forma sutil de tentar agradá-los para que não censurem o próprio Dom Quixote; para em seguida colocar um questionamento na fala de Quixote), algumas visões sobre mulheres (por um lado, há personagens masculinos as condenam ou as julgam de maneira machista, como era corrente na época; por outro, dá voz a algumas dessas mulheres, para que elas questionem essas percepções).

Visions of Quixote, de Octavio Ocampo (1989)

O único aspecto que desanima no livro, a meu ver, é seu enorme volume. É realmente uma obra bem grande, mas lendo-a aos poucos, saboreando e aproveitando seus momentos, será de ótima diversão! É absolutamente compreensível o porquê de esta obra monumental ter se tornado um dos primeiros exemplos de Literatura moderna do mundo. E, principalmente, o porquê de o protagonista ter se tornado um personagem tão icônico. É impossível ficar indiferente ao valente e sonhador cavaleiro da triste figura, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.

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+ info:

Dom Quixote de la Mancha / Miguel de Cervantes; tradução e notas Ernani Ssó; introdução John Rutherford; posfácios Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia.
São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.
650 páginas (vol. 1).
668 páginas (vol. 2).

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Contos, Ficção, Resenha

Obra completa de Murilo Rubião

Obra completa, de Murilo Rubião

 “[…] Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
(p. 21)

Murilo Rubião (1916-1991) nasceu no interior de Minas Gerais. Funcionário público, jornalista, formado em Direito, e escritor, sua obra literária compõe-se de mais de 30 contos. 33 deles estão reunidos neste volume da Companhia de Bolso. Ele é considerado um dos precursores da literatura fantástica no Brasil.

De fato, seus contos apresentam elementos fantásticos muito acentuados (eu diria absurdos), mas que devem ser considerados “normais” dentro da história. Ou seja, o autor parte de uma situação obviamente irreal, mas que deve ser tratada como verossímil dentro daquele universo – como um coelho que muda seu formato quando quer (canguru, cavalo, pulga); ou dragões falantes; ou uma mulher que engorda indefinidamente à medida que seus desejos intermináveis são satisfeitos. Mas essas situações servem para despertar no leitor reflexões sobre aspectos mais profundos da alma humana, como a busca por identidade, a incompreensão do outro, a empatia, a memória, entre outros. Em comum, verifica-se a impotência dos personagens e, muitas vezes, o abandono por eles sofrido.

Foi uma leitura boa, apesar de incômoda. Fiquei perturbada por não conseguir racionalizar muitos aspectos da obra, e por não obter todas as explicações que esperava em praticamente todos os contos. Ou seja, um dos pontos positivos da leitura foi me conhecer ainda melhor como leitora (meus amigos Edmar e Carmem apontaram que devo ser uma pessoa muito racional. Eu tento, de fato. Mas acho que mais procuro racionalidade e lógica nas coisas do que sou racional). Costumo gostar de finais abertos, mas realmente acredito que a falta de algumas explicações prejudicaram minha impressão final sobre os contos. Se Rubião queria provocar o leitor, atingiu seu objetivo comigo. Em alguns momentos, fiquei até irritada. O autor tem ótimas ideias e sua escrita é muito clara. Porém, na minha opinião, há algumas falhas de execução, que são justamente essa falta de explicações (geralmente, de coisas pequenas, e não do grande problema apresentado pelo conto, mas sem as quais fiquei com uma sensação de incompletude).

Uma das coisas de que mais gostei foram as epígrafes dos contos. A epígrafe serve para resumir o conteúdo de um texto, e isso acontece de maneira límpida e precisa nestes textos. A maioria delas é retirada da Bíblia (e todos os contos reunidos de Rubião têm epígrafes) e tem tudo a ver com a história contada. Foi agradável terminar de ler um conto e voltar para reler a epígrafe, constatando que ela se encaixava perfeitamente.

Os contos do início da edição da Companhia de Bolso apresentam mais acentuadamente o elemento fantástico; do meio para o final, a fantasia fica mais sutil. Gostei mais dos contos do final. Meus favoritos foram: O ex-mágico da Taberna Minhota (um trecho dele está transcrito no início do post), A cidadeOfélia, meu cachimbo e o marA flor de vidroO edifícioMemórias do contabilista Pedro InácioBruma (a estrela vermelha)O homem do boné cinzentoA noiva da casa azulPetúniaOs comensais. Este, o último conto da coletânea, me parece que sintetiza os elementos principais da obra do autor, mas de maneira mais fina e madura que os outros. (Até que tive muitos favoritos para quem não gostou tanto. Porém, ter gostado de alguns não significa que os compreendi completamente. Acho que de nenhum conto entendi 100%.) Mas sem sombra de dúvidas, meu favorito foi Aglaia, sobre um casal que não consegue parar de ter filhos, apesar de tentarem todos os métodos contraceptivos – inclusive não ter contato sexual. Os partos se multiplicam, o número de filhos, idem, e o tempo de gestação se encurta cada vez mais. Um conto agoniante e que trata de uma situação tipicamente feminina (também trazendo a visão masculina), inclusive da problemática do aborto.

É muito possível traçar paralelos entre a escrita de Rubião e a de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Gabriel García Márquez. Os traços borgianos, em minha visão, foram as questões de eternidade e infinitude (um prédio com número infinito de andares do conto O edifício, por exemplo); os kafkianos, ficam expressos em contos que tratam de burocracias, como A filaA cidadeA diáspora; e a aproximação com García Márquez está no tom fatalista de não se poder escapar do destino, presente em diversos contos.

Esta edição apresenta uma introdução chamada Vida e obra de Murilo Rubião, com informações interessantes; e ao final, tem-se uma cronologia relacionada ao autor e à sua escrita. Senti um pouco de falta de saber em que ano os contos foram escritos e publicados, pois gostaria de ver se percebo algum tipo de amadurecimento na obra, apesar de os aspectos gerais se repetirem. Mas acredito que isso não foi incluído na edição pois o autor costumava reescrever seus contos com muita frequência, dessa forma sendo difícil estabelecer a data certa de criação da história (ou, ao menos, de sua versão final).

Fiz esta leitura conjuntamente com os amigos Giovanni do blog Metacrônica, e Carmem Lúcia, do blog O que vi do mundo. Debatemos bastante os contos, e certamente a maioria das impressões e conclusões aqui apresentadas não teriam acontecido – ou não tão claramente – sem eles. Obrigada!

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+ info:

Obra completa / Murilo Rubião.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
227 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
 FACIL

Obrigada pela leitura!
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Manual de pintura e caligrafia

Manual de pintura e caligrafia, de José Saramago

 “[…] e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos, em vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (Interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração e o cérebro de S.: as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.” (p. 12)

Este ano, resolvi retomar toda a obra de José Saramago – claro que não TODA A OBRA no mesmo ano -, um dos meus escritores favoritos (sinto-me tentada a escrever meu escritor favorito). Achei que o melhor critério seria cronológico: lê-lo desde as primeiras publicações, em direção às últimas. E também pretendo reler as obras que já li, pois estou com saudade. Pensei na hashtag #TodoSaramago , pode ser? 🙂 Só um problema: o primeiro livro dele, chamado Terra do pecado (1947), não foi publicado no Brasil. Ok, #QuaseTodoSaramago então… Resolvi lê-lo agora por motivos de… ROLETA RUSSA (veja o vídeo abaixo para entender):

Manual de pintura e caligrafia saiu pela primeira vez em Portugal em 1977. É narrado por um pintor, daqueles acadêmicos, que são contratados para pintar retratos a óleo, posados. O livro se inicia quando o pintor entra numa crise e resolve escrever para tentar organizar as ideias tendo por instrumento outra arte, além da pintura. Ele começa incomodado com a figura que está pintando, um homem a quem ele chama de S. Tudo que nosso pintor (que se autodenomina H.) quer é entender S. Tanto que, além do quadro oficial e do exercício de escrita, resolve pintar um segundo retrato de S., um quadro secreto, às escondidas. Uma espécie de traição do pintor ao retratado, segredo mesmo.

Aos poucos, vamos conhecendo também um pouco dos relacionamentos de H., algumas de suas viagens a cidades italianas (que ele conta em capítulos que chama de exercícios de autobiografia em forma de narrativa de viagem), e muitas, muitas reflexões. Aliás, para o autor, “tudo é biografia”. Há quem diga que o livro possui traços de autobiografia do próprio Saramago.

O que mais salta aos olhos neste livro é a metalinguagem: o tempo todo, o narrador se volta para analisar e discorrer sobre o ato da escrita – ou caligrafia. Além disso, não faltam reflexões sobre arte (a quem pertence a obra? Ao autor? Ao público? Ao contratante? A todos eles? A nenhum?). Questões de identidade permeiam todo o texto: dúvidas sobre não saber o que se está fazendo – dúvidas sobre a qualidade de seu próprio trabalho -, desencontros com outros e consigo mesmo, distorções de imagem e autoimagem, vaidade e amizade. Até pinceladas de política e pano de fundo autoritário em Portugal existem.

Tudo muito complexo e profundo.  É um livro excelente, cheio daquelas frases – e parágrafos intermináveis! – impactantes de Saramago (marquei muita coisa ao longo do texto, e costumo ser bem controlada quanto a isto). Porém, não possui uma história empolgante que “puxe” o leitor. Quero dizer que, na minha experiência de leitura, eu realmente me animava com o livro apenas quando já o estava lendo. É um livro mais reflexivo que “aventuresco”, não possui um enredo forte – e nem é esta a intenção, acredito. E, ainda assim, achei o final muito bonito. Não tem como não sair transformado de um texto de Saramago.

O estilo que conhecemos do autor já estava presente nesta sua segunda obra publicada; e suas reflexões características também aparecem com frequência. Eu adoro a escrita do autor, então não tenho do que reclamar. É um livro excelente, mas não necessariamente empolgante. Não recomendo para quem quer começar a ler José Saramago; mas quem se interessa por um texto mais profundo, pode gostar.

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 + info:
Manual de pintura e caligrafia / José Saramago.
– São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
277 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, História, Não ficção, Resenha

Olga

Olga, de Fernando Morais


“- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo duro encostando em sua nuca. Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
– Solte o preso!
[…]
O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala:
– O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. […]
Na hora do almoço, uma edição extra do diário
 Berliner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de ‘ousada cena de faroeste’ ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o ‘assalto comunista’: Olga Benario. (pp. 17-18)

A convite da Lu (Abstração Coletiva) e da Gi (Lendo a Estante), fui participar de um encontro do grupo Leituras Compartilhadas dOs Espanadores, em São Paulo. O livro da vez era Olga, do jornalista Fernando Morais, publicado em 1984.

O livro se pretende uma narrativa fiel de parte da vida da alemã judia e comunista Olga Benario, desde meados dos anos 1920 a meados dos anos 1930. Confesso que a fala inicial do jornalista na apresentação à 1ª edição me deu arrepios como historiadora. Ele diz: “A história que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro: a vida de Olga Benario Prestes […]”. É muito claro que todo documento é discurso – por mais fidedigno que ele se pretenda. Nenhum texto retrata a realidade tal como ela foi, a realidade é irrecuperável. É possível juntar peças de quebra-cabeças, confrontar diferentes testemunhos, tentar reconstituir os fatos de maneira plausível e o mais complexa possível. Mas relatar fatos exatamente como ocorreram é impossível. Mesmo no trecho que selecionei para o início do post, fica evidente a escolha de palavras de maneira a conduzir o leitor para determinado tipo de pensamento: ao qualificar Olga como uma “linda moça”, já se forma uma ideia de surpresa, graças a nossa cultura. Quase que inconscientemente, já nos vem a curiosidade: o que uma moça – e, quem diria, “linda”! – está fazendo com uma arma na mão, voz firme, chefiando uma situação ilegal desse porte? O estranhamento é imediato. E é esse estranhamento que o autor visa produzir quando escolhe precisamente essas palavras.

Fora esse questionamento inicial, considerei o livro uma leitura bastante agradável por sua linguagem, mas não pense que é leve. As temáticas abordadas são pesadíssimas: tortura e perseguição (cheguei a sonhar que estava sendo perseguida!), prisão política, nazismo, ditadura. Devo dizer também que o final não é feliz, para os que não gostam muito desse tipo de história. Olga é comunista, e precisa fugir do governo alemão. Vai para a União Soviética, onde é reconhecida como uma grande agente. Lá, recebe a missão de acompanhar Luis Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, até o Brasil e aqui organizar uma revolução comunista através da tomada de poder.

Narrado em terceira pessoa, Morais buscou uma gama variada de documentos para montar este trecho da biografia de Olga (a infância e sua relação com os pais é citada, mas não aprofundada), tais como: entrevistas, notícias de jornais, fotografias, relatórios policiais – inclusive, segundo ele, muitos somente foram encontrados em território internacional. De linguagem acessível, visualizamos a tensão e o embate direto entre regimes capitalistas, como o governo de Getúlio Vargas no Brasil, e grupos comunistas, como a Aliança Nacional Libertadora – ANL. O grande problema com relação à pesquisa foi a exposição dos fatos e documentos, já que não fica claro de onde o autor retirou várias informações. O livro é romanceado, então é muito comum encontrarmos falas atribuídas a alguns personagens (Olga, principalmente) e que não sabemos de onde Morais tirou. A falta de notas de rodapé indicando de que fonte é alguma citação ou informação é uma falha enorme do livro.

A narrativa destaca uma mulher extremamente forte e determinada. Olga aparece como uma personagem destemida e independente, sempre pronta a lutar pelos seus ideais. É uma verdadeira heroína, o que acaba por torná-la uma personagem plana, sem defeitos, como bem lembrou a Luana Werb durante nossa discussão sobre o livro. Há momentos em que questiona a instituição do casamento, proposto a ela por um ex-namorado também comunista – por outro lado, também colocam-se falas machistas na boca dela (mas sem a devida referência). Segundo o livro, ela era ousada e corria riscos se isso significasse algum tipo de benefício ou vitória para a causa em que acreditava. Outras mulheres também se destacam na narrativa: Lígia e dona Leocádia, respectivamente irmã e mãe de Luís Carlos Prestes, que realizam intensa mobilização e campanha na Europa para libertar Olga; as colegas comunistas de Olga e Prestes – a maioria das quais também é presa e torturada e, ainda assim, resiste.

Uma das cenas que achei mais emocionantes foi quando a polícia de Getúlio Vargas vai buscar Olga, grávida, na prisão a fim de deportá-la para a Alemanha nazista. As presas e os presos resistem de maneira impressionante e muito solidária.

Em suma, como historiadora, não recomendo o livro por falta de rigor no tratamento com a documentação e na exposição das informações. Ou seja, o livro traz muito mais características do gênero ficção do que de biografia, como ele se pretende. Por outro lado, uma vez que consegui fechar os olhos para essas falhas, achei uma leitura agradável.

O filme Olga (2004), dirigido por Jayme Monjardim e estrelado por Camila Morgado no papel principal, foi baseado no livro de Fernando Morais.

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+ info:

Olga / Fernando Morais.
São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
321 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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