2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Parceria, Resenha

A música do universo

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos, de Janna Levin

“Em algum lugar do universo, dois buracos negros colidem – pesados como estrelas, pequenos como cidades, literalmente buracos (espaços vazios) negros (com total ausência de luz). Presos pela gravidade, nos últimos segundos que passam juntos eles se deslocam em milhares de revoluções em torno de seu futuro ponto de contato, revolvendo-se no espaço e no tempo até colidir e se fundir num buraco negro maior, num evento mais poderoso do que qualquer outro desde a origem do universo, produzindo uma energia que é mais de 1 trilhão de vezes a de 1 bilhão de sóis. Buracos negros colidem em escuridão total. Nada de energia que irrompe disso se apresenta em forma de luz. Telescópio algum jamais mostrará o evento.
Essa profusão de energia emana de buracos que se coalescem numa forma puramente gravitacional, como ondas na forma de espaço-tempo, como ondas gravitacionais. Uma astronauta flutuando nas proximidades não enxergaria nada. Mas o espaço que ela estivesse ocupando ressoaria, deformando-a, apertando-a e depois a esticando. Se estivesse perto o bastante, seus sistema auditivo poderia vibrar em resposta. Ela
 ouviria a onda.” (pp. 11-12)

Primeira coisa: não sei nada de Física. Só tive aula de Física no Ensino Médio (e lá se vão mais de 10 anos!), e olhe que mesmo nesse período, não absorvi muita coisa. Portanto, alguns (muitos!) conceitos de Física são absolutamente misteriosos para mim: “buraco negro” é um deles. Acho difícil conceber algo escuro e vazio, mas que ao mesmo tempo é muito pesado e poderoso. Porém, a curiosidade é sempre maior que a ignorância. Em fevereiro de 2016, assisti a notícias de que cientistas haviam finalmente conseguido captar o som das ondas gravitacionais. Quando a Companhia das Letras, editora parceira do canal Redemunhando, me apresentou este lançamento de livro, não resisti e o pedi.

Janna Levin, a autora do livro, é norte-americana e professora de Física e Astronomia na Universidade de Columbia, além de escritora. Ela possui outros livros, incluindo um sobre Alan Turing. No livro A música do universo, a autora nos leva por uma viagem científica, tratando de conceitos de Física, e também dos caminhos percorridos por cientistas do nosso século para comprovar a teoria de Einstein das ondas gravitacionais, formulada há cem anos. Basicamente, o livro nos conta a história da montagem de experimentos para a captação dessas ondas – em especial a concepção e montagem do LIGO, Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser. Tais ondas, pensaram os cientistas, por não liberarem energia luminosa (ou seja, não podem ser vistas), deveriam ser captadas por meio de sons.

Como traduzir sons em palavras? Mais ainda, como comunicar ao leitor a grandiosidade da captura dos sons das ondas gravitacionais e colocá-las em letras impressas? Mas afinal de contas, o que são ondas gravitacionais?

Eu obviamente não sou a melhor pessoa para explicar o conceito. No meu parco entendimento, tratam-se de pequenas deformações no espaço-tempo, em forma de ondas, que se propagam pelo universo a partir de uma colisão entre buracos negros. Mais ou menos como mostra a imagem a seguir:

O fascinante sobre isso é que esse acontecimento não propagaria luz, de maneira que não seria observável por nós nem por telescópios. Entretanto, considerou-se que seria possível desenvolver um dispositivo altamente detalhado e específico (e caro!) que captasse os sons produzidos a partir dessa colisão. [Para saber mais sobre o assunto, separei alguns vídeos de divulgação científica sobre isso disponíveis no Youtube: Nerdologia, Primata falante.]

Albert Einstein previu este fenômeno nos primeiros decênios do século XX, e até o final deste século, havia dúvidas sobre se tal experimento de captação de evidências das ondas gravitacionais seria possível ou viável. O livro de Levin documenta o processo de aprovação e construção do LIGO, dirigido pelos físicos Kip Thorne e Ronald Drever do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e Rainer Weiss da Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É importante ressaltar que este foi um empreendimento realizado com a colaboração de centenas de cientistas, e não apenas dos três supracitados.

A narrativa mescla dados, os bastidores da montagem do LIGO e de protótipos e experimentos. Tais descrições por diversas vezes são muito detalhadas, de maneira que interessarão mais a leitores especializados que aos leigos e que buscam uma leitura mais panorâmica (como eu). Além disso, a autora também conta sobre a trajetória de físicos envolvidos no empreendimento, relatando parte de suas vidas pessoais e entrevistas com os próprios.

A linguagem da obra é tranquila e informal, apesar de apresentar alguns conceitos físicos mais complicados. E, pelo fato de a autora ser especialista da área de Astronomia, é confiável e precisa nas informações científicas.

Um dos aspectos mais interessantes do livro foi perpassar diversos momentos históricos desde meados do século XX – notadamente no Estados Unidos, espaço onde se encontra o LIGO e se concentra a pesquisa sobre este tema. O nazismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial, a criação da bomba atômica, o Projeto Manhattan e a Guerra Fria servem como panos de fundo para o desenvolvimento da pesquisa sobre ondas gravitacionais.

Outro ponto notável é a desproporção entre homens e mulheres no livro, o que obviamente reflete a desproporção entre homens e mulheres na academia, em especial na área de Física. Faz pensar no grande potencial que podemos estar ignorando ou perdendo simplesmente por motivos de preconceito.

Impressiona o alto nível de incerteza do experimento, já que ele depende da colaboração da natureza. Mesmo frente a tantas dúvidas e improbabilidades da detecção das ondas gravitacionais, o projeto foi em frente e cumpriu sua missão. O livro mostra diversos obstáculos científicos que foram enfrentados por esses pesquisadores, o que é um processo natural (embora difícil) na ciência: guerra de egos, experiências que falham, falta de financiamento, resistência nos meios acadêmicos.

É um ótimo livro, mas pode ser detalhado demais para um público leigo e simplesmente curioso pelo assunto. Acredito que um leitor mais especializado desfrutará muito mais da obra.

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+ info:

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos / Janna Levin; tradução Paulo Geiger.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
257 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Ciência, Contexto, História, Não ficção, Resenha

A história da humanidade contada pelos vírus

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…, de Stefan Cunha Ujvari

“Microorganismos percorreram a corrente sanguínea dos combatentes. Alastraram-se pelo corpo dos soldados debilitados e comprometeram órgãos vitais. A fome e o frio prejudicaram suas defesas, que não impuseram restrições para o avanço da infecção. Seus corpos foram lançados na vala coletiva e decompostos pelo tempo. Os microorganismos responsáveis pelas epidemias sumiram com os pulmões, fígado, coração, rins e outros tantos órgãos. Uma região, contudo, preservou-se para nos contar a história. Este local, ricamente vascularizado, recebeu afluxo de sangue contendo os microorganismos que se alojaram nessa estrutura. Foram os dentes. A polpa dentária recebe o nervo responsável pela dor de dente, mas também recebe uma quantidade de sangue. Vestígios do DNA do ou dos microorganismos envolvidos nas epidemias estariam nas entranhas dos dentes daqueles esqueletos?.” (p. 50)

Este livro aborda a história humana a partir do protagonismo dos vírus, bactérias e microorganismos causadores de doenças. Aqui já coloco minha primeira crítica: antes de abrir o livro, o leitor pode ficar confuso com o título. A história da humanidade contada pelos vírus pode dar a ideia de que a narrativa só abarcará doenças virais – pelo menos, foi o que pensei inicialmente. Porém, já na folha de rosto, isso fica esclarecido pelo título completo: A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…. Agora, será que alguém consegue me explicar a escolha de não colocar o título completo na capa do livro?

Partindo da chamada Pré-História no continente africano (parte 1: África: estação de origem), Ujvari procura remontar, por meio de estudos genéticos, a história do nascimento de infecções humanas, tão antigas quanto o próprio nascimento do Homo sapiens. Este surgimento e suas evoluções podem ser rastreados graças a fragmentos genéticos de retrovírus em nosso DNA. Existem doenças que acompanham a história evolucionária dos hominídeos, tais como a herpes, a teníase e a tuberculose.

Em seguida, na parte 2, o autor nos leva por rotas migratórias traçadas a partir de pegadas genéticas deixadas por microorganismos, ou seja, é possível rastrear os caminhos feitos pelos seres humanos para se espalharem pelo mundo a partir da análise da evolução de alguns vírus, bactérias, e microorganismos – como é o caso da gastrite e da úlcera bacterianas, por exemplo, ou dos piolhos, que demarcam a época em que os seres humanos começaram a usar roupas, entre diversos outros exemplos.

Na terceira parte do livro, Chegada à América, apresenta-se como alguns parasitas intestinais podem ajudar a esclarecer ou apontar mais seguramente para uma das teorias sobre como o ser humano povoou o continente americano (se por terra, a partir do estreito de Behring, ou por via marítima). Aqui, também apresenta-se uma polêmica interessante sobre se a sífilis é uma doença trazida pelos europeus na época da colonização ou se era uma doença tipicamente americana. No final, uma discussão sobre eugenia e a utilização de cobaias humanas (na Alemanha nazista e nos Estados Unidos, com negros sifilíticos) enriquece muito o texto.

As partes 4 e 5 tratam do surgimento da agricultura e da domesticação de animais, o que permite um espalhamento muito maior de doenças, uma vez que possibilitam maiores aglomerações humanas, armazenamento de água e comida e, assim, a disseminação não apenas de microorganismos, mas também de vetores de doenças, tais como ratos e mosquitos.

Na parte 6, chamada O ataque continua, o autor trata de tempos mais atuais, principalmente das descobertas de combate e cura de algumas doenças (vacinas, antibióticos, etc.).

Além dessas seis partes, o livro conta com uma pequena apresentação, notas de final com referências bibliográficas e algumas imagens em preto e branco. As páginas são brancas e encontrei um ou outro erro de revisão.

Provavelmente o mais interessante que achei no livro foi ter percebido como guerras, violência, pobreza, urbanização desordenada e não planejada, falta de educação e de saneamento básico, além de serem problemas sociais, acabam por se tornar gigantescos problemas de saúde pública, por facilitarem o alastramento de diversos tipos de doenças. Outro ponto positivo foi a apresentação de métodos de pesquisas feitas em parceria da Biologia (áreas de Genética e Infectologia) e História (notadamente a Arqueologia) para esclarecer diversos episódios e processos históricos, como por exemplo, as “pegadas” de DNA que revelam muito sobre a migração humana.

Confesso que ter uma alta expectativa em relação a este livro prejudicou minha experiência de leitura. Achei que o autor passaria ao longo da História humana (Oriente Próximo Antigo, Grécia e Roma, Idade Média na Europa, Mundo Árabe, China, América, Idade Moderna, Imperialismos, Guerras Mundiais, Globalização, etc.) perpassando grandes epidemias que assolaram as populações. Mas não é este o tom do livro: o autor Ujvari é brasileiro e médico especialista em infectologia. Portanto, traz um olhar mais biológico que histórico para os microorganismos. É quase como se o livro tratasse da História dos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos contada pela humanidade, e não o contrário. Senti falta de uma história mais aprofundada da peste negra na Europa do século XIV, ou da tuberculose no Egito antigo, ou das epidemias de piolhos durante guerras. Tudo isso é citado, mas tão rapidamente, que não satisfez minha curiosidade.

Achei a “linha condutora” do livro um pouco confusa – talvez a intenção fosse tornar o texto mais dinâmico -, com algumas idas e vindas no tempo. Outro ponto que me incomodou bastante foi o fato de o livro não possuir uma “conclusão”, ou seja, uma síntese ou uma reflexão claramente proposta pelo autor ao final. Isso obviamente não é necessário em qualquer obra, mas penso que seria muito interessante nesta.

Realmente acredito que o maior problema do livro não foi o livro em si, mas sim minha expectativa em relação a ele. Tem alguns (poucos) defeitos que enxerguei, mas no geral, é uma pesquisa rica e uma abordagem interessante. Penso que com alguns pequenos ajustes, ficaria mais a meu gosto. Recomenda-se esta leitura para um público mais adulto, por conta da densidade do texto e das explicações científicas, e para um público que se interessa pelos temas de Genética, Evolução e Arqueologia.

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+ info:

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos… / Stefan Cunha Ujvari.
São Paulo: Contexto, 2014.
205 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Ciência, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Os reis do sol

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington, de Stuart Clark

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“A maior parte do mundo havia sentido os efeitos elétricos das auroras e, exceto pelo vendaval enfrentado pelo Southern Cross, havia assistido a tudo como uma manifestação silenciosa no céu inteiro, que inspirara espanto e terror em igual medida. Ninguém se recordava de ter visto antes algo naquela escalam nem qualquer livro de história registrava uma ocorrência de tão amplo alcance como aquela. A Terra tivera uma experiência singular. Mas o que fora aquilo?
A resposta estava a meio mundo de distância, onde um abastado cavalheiro vitoriano, cujo maior prazer era entregar-se a sua avassaladora paixão pela astronomia, estava às voltas com seu próprio quebra-cabeça científico. Ele estava no lugar certo, na hora certa, e havia visto algo sem precedente. E agora tentava entender.” (pp. 23-24)

Sou uma grande nerd, esta é a verdade. Cursei História e não me entendo com Matemática, mas sou super curiosa em relação a outras disciplinas, como Biologia e Física (tirando os cálculos, por favor!). Quando vi entre a lista dos livros disponíveis para parceria do Grupo Editorial Record, não resisti e pedi Os reis do sol, uma verdadeira viagem pelos primórdios da Astronomia moderna.

O prólogo nos descreve as erupções solares que ocorreram em 2003 e atingiram a Terra, causando interferência em alguns equipamentos eletrônicos e danificando satélites e espaçonaves – nem preciso falar do enorme prejuízo causado por tudo isso. Houve a ocorrência de auroras em alguns pontos do globo, verdadeiros espetáculos luminosos resultantes da colisão das partículas solares com nossa atmosfera.

 

A partir deste fenômeno tão recente, Clark nos leva para uma viagem pela História da Ciência moderna, retomando nomes importantes para a Astronomia. Além de Richard Carrington, astrônomo britânico e amador, conta também sobre William Herschel, Alexander von Humboldt, Henrich Schwab e outros grandes nomes da ciência, que estudaram planetas e estrelas, campos magnéticos, relações – confesso que a partir de certo momento comecei a ficar meio perdida entre a quantidade de cientistas e seus nomes. Todos eles tiveram que lidar com observação de fenômenos, registro, busca por testemunhas e provas sobre suas hipóteses. Um dos aspectos mais interessantes do livro é esse passeio pelo método científico moderno: o autor descreve inclusive os obstáculos, fracassos e decepções pelas quais passaram esses cientistas – instrumentos deficientes, inveja acadêmica, resistência a mudança de paradigmas, erros.

O autor Stuart Clark é britânico, jornalista, e escreve textos para publicações especializadas em Astronomia: Astronomy nowNew ScientistBBC Focus. É colaborador da Agência Espacial Europeia e tem mais livros publicados (em inglês) sobre assuntos ligados ao tema, como o telescópio Hubble, por exemplo.

De linguagem precisa e ainda assim acessível, o livro Os reis do sol é um ótimo livro de divulgação científica. Clark utiliza de vez em quando transcrições de documentos (textos de cientistas), além de apresentar observações explicativas e relevantes no rodapé sobre alguns assuntos. A bibliografia ao final do livro é vasta e está dividida por capítulo.

Eu obviamente sei que o Sol é importante, mas vocês já pararam para pensar no quanto? E no quão pouco sabemos sobre ele? Pesquisas científicas sobre o Sol são relativamente recentes – datam do século XIX -, e um astrônomo depende dos dados coletados anteriormente a ele para formular novas ideias e hipóteses. Este livro me deu uma nova visão sobre Ciência, saber e, é claro, nosso Astro-Rei. É maravilhoso ver o quanto os conhecimentos que consideramos diferentes disciplinas se interligam, ou seja, não são separados: Física, Matemática, Artes (desenho, fotografia), História, Biologia, Economia, Química. Este é um daqueles livros de não-ficção que acabam sendo mais fantásticos que muita história de ficção científica por aí!

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+ info:

Os reis do sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington / Stuart Clark; tradução Laura Rumchinsky.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
250 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Ciência, Infantil, Infanto-juvenil, Não ficção, Resenha

Sugadores de sangue

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue, de Humberto Conzo Jr.

“A saliva dos morcegos-vampiros contém um anestésico que evita que a presa sinta a mordida – um corte rápido com os dentes incisivos. Ela também contém uma substância anticoagulante que impede o estancamento da ferida enquanto o morcego estiver se alimentando, o que pode durar cerca de 20 minutos. Essa substância anticoagulante vem sendo estudada para o desenvolvimento de remédios para o coração, formação de coágulos e derrames nos seres humanos.
[…]
Já na cidade de Coimbra, em Portugal, a Biblioteca Joanina tem uma história nada lendária. […]. Mas o que realmente chama a atenção são as colônias de morcegos nos vãos entre as paredes e as estantes. Durante o dia, eles permanecem lá escondidos, não atrapalhando a rotina dos visitantes. No final do expediente, os móveis são cobertos por mantas de couro, e a biblioteca passa a ser território dos morcegos, que se encarregam de manter o local livre de traças, baratas e outros insetos muito comuns e danosos em bibliotecas, evitando assim a utilização de inseticidas.” (p. 10 e 15)

Conheci o autor Humberto Conzo Jr. pelo seu excelente canal no Youtube, o Primeira Prateleira. Lá, ele fala sobre diversos tipos de livros, inclusive infantis. Além de escritor de livros para crianças, Humberto ainda é formado em Biologia e História, e isso se reflete no livro Sugadores de sangue.

O livro trata de animais que se alimentam de sangue, sejam eles morcegos, pulgas, piolhos, sanguessugas, moscas ou mosquitos. Intercalando informações sobre as diferentes espécies, seus hábitos e habitats, características e curiosidades, quando possível, Humberto ainda nos fala sobre mitos e lendas envolvendo aquelas criaturas, além de contextualizar historicamente determinadas situações. Essas foram, é claro, as partes de que mais gostei: ao falar de morcegos, já pensamos imediatamente em vampiros e no conde Drácula. Além disso, conhecemos a lenda indígena amazônica do surgimento do guaraná, a situação inusitada da biblioteca joanina, além da menção a lendas do rock (Ozzy Osbourne) e personagens pop (Batman). No caso das pulgas, ficamos sabendo que a peste, ocorrida na Idade Média, tem nas pulgas seus principais “meios de transporte”, e que no século XIX, se costumava fazer “mercados de pulgas”. E assim por diante…

Doenças transmitidas por esses bichos sugadores de sangue tem um destaque especial no livro, já que o autor trabalha com controle de pragas. Além dos sintomas, as formas de prevenção são descritas (malária, febre amarela, bicho-de-pé, dengue, doença de Chagas, etc.). Ah, o caso das sanguessugas que foram – e ainda são – utilizadas como tratamento médico também é bastante interessante (o ponto negativo é que algumas pessoas podem se sentir hipocondríacas, procurando os sintomas descritos. Eu mesma, na parte dos piolhos, não parava de coçar a cabeça!).

De linguagem clara e direta, o livro traz informações relevantes e precisas; não subestima a inteligência das crianças, pois usa vocabulário variado e termos tecnicamente corretos. É temático e interdisciplinar, e traz um bom humor em momentos escolhidos.

As xilogravuras de Eduardo Ver complementam bem o texto, e a edição da WMF Martins Fontes está impecável.

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Recomendo demais (Dia das Crianças tá aí!); só atentem para a idade da criança. Por ser um livro com muita escrita e informações científicas, deve ser mais adequado a crianças mais velhas, de 7 ou 8 anos em diante. O livro serve para crianças grandes também, assim como eu!


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+ info:

Morcegos, pernilongos, pulgas e outros sugadores de sangue / Humberto Conzo Jr.; gravuras Eduardo Ver.
São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.
48 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Anatomias

Anatomias: uma história cultural do corpo humano, de Hugh Aldersey-Williams

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“Nos anos entre a publicação do tratado de Versálio sobre a anatomia humana, em 1543, e a pintura de Rembrandt, em 1632, o tópico [corpo, anatomia] tornou-se uma espécie de febre. A queda de Constantinopla em 1453 diante dos otomanos permitiu que a Europa fosse invadida por um influxo de conhecimentos médicos baseados em fontes árabes e da Grécia Antiga. Restrições à abertura do corpo humano, vigentes quando os médicos também eram homens do clero, já não se aplicavam. Decretos reais e papais liberavam para a dissecação corpos de criminosos executados. De repente, tudo podia ser ‘anatomizado’, se não em termos físicos, pelo menos em termos filosóficos. John Donne proclamou em suas Devoções: ‘Retalhei minha própria Anatomia.’ William Shakespeare fez o rei Lear exclamar em sua aflição: ‘Que anatomizem Regan; a ver o que se engendra em seu coração.’” (p. 18)

O livro Anatomias me chamou a atenção pelo título, pela capa e pelo subtítulo. Me interesso muito por ciência e Biologia (e nem preciso mencionar a História, né?!), então não resisti. Solicitei que o Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, me enviasse o livro.

O autor, Hugh Aldersey-Williams, é britânico, formado em Ciências Naturais e autor de livros que examinam a ciência (fica a dica que ele tem um livro chamado Histórias Periódicas: a curiosa vida dos elementos, e eu quero!). Neste livro, ele escolheu falar sobre o corpo humano e suas anatomizações, ou seja, nossas tentativas de classificá-lo, separar suas partes, mas principalmente de entendê-lo. Surpreso pelo pouco conhecimento que temos a respeito de nossos próprios corpos, Aldersey-Williams resolveu mergulhar nas maneiras como enxergamos o corpo e suas diversas partes ao longo do tempo e do espaço.

O livro é dividido em três seções (o todoas partes, e o futuro), e cada uma dessas divisões, em capítulos, tais como: a carneos ossoso cérebroo sangueo sexo, a pele. Conta também com introdução, prólogo, epílogo, referências, bibliografia selecionada, e índice. Ah, nesta edição também existe uma parte central com imagens em preto e branco que remetem a alguns trechos do texto.

Na primeira parte, o autor começa tratando o corpo como um lugar, retomando a ideia corrente na Antiguidade Clássica de que o corpo é um microcosmos, uma representação diminuta da perfeição do universo. A partir daí, nos mostra algumas tentativas de mapeá-lo e racionalizá-lo, tornando-o muitas vezes bases para medidas (polegada, pé, etc.) e discutindo questões de simetria corporal, proporção e tamanho na literatura, na arquitetura, nas artes plásticas, na criminalística.

Na segunda seção, visualizamos pela escrita do autor o caleidoscópio de nossas “partes” e as metáforas que elas suscitam no imaginário humano, seja no campo da linguagem (já parou para pensar no tanto de expressões – em quase qualquer idioma, ou deveria dizer língua? – que envolvem partes do corpo? Estar com a pulga atrás da orelha, pagar os olhos da cara, estender uma mão a alguém, etc., etc., etc.), seja nas artes, nas ciências e no senso comum. Fala-se de pesquisas científicas e pseudocientíficas – que, inclusive, descambaram para teorias racistas -, questões de transplante, observações e constatações feitas pelo próprio autor ao longo de sua pesquisa para a escrita do livro.

Cabe nos perguntarmos a respeito do título do livro: Anatomias. O plural é curioso e nos diz muito, como fica confirmado pelo subtítulo: o autor buscou os olhares diferentes sobre o corpo, e tem consciência de que o seu olhar é apenas mais um. Ou seja, que as visões que temos de nossas próprias anatomias são extremamente culturais, influenciadas pelo contexto em que vivemos. A estrutura corporal é a mesma (dentro de um grande número de variações, é claro), mas as interpretações são múltiplas.

Trata-se de um livro multidisciplinar e de uma viagem pelo tempo. Passando por livros de anatomia, peças de Shakespeare, quadros de Rembrandt, um quebra-cabeças vai tomando forma em nossas cabeças, e é possível perceber o quão ricas são as possibilidades do nosso corpo – e mais do que isso, de interpretações sobre nosso corpo.

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+ info:

Anatomias: uma história cultural do corpo humano / Hugh Aldersey-Williams; tradução Bruno Casotti.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
363 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton


“Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam – como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção. […]
Mas uma coisa parece clara a todos os que voltam do trabalho de campo: os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença. […]
Quando não conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza de que encontramos algo. Analisando o documento em que ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e maravilhosa visão de mundo.
Este livro tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares. Seu procedimento é examinar as surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos; uma versão primitiva de ‘Chapeuzinho Vermelho’ (‘Little Red Hiding Hood’), a narrativa de um massacre de gatos, uma bizarra descrição de uma cidade, um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia – documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele.” (pp. 13-15)

 

A leitura deste livro faz parte do projeto Papo de Historiadoras, proposto pela Lari (blog Papo de Historiadora). Nos conhecemos via internet graças a esse mesmo projeto, e junto conosco, as amigas Kelly (blog e canal Aventuras na Leitura) e Cris (blog Pedras em Bolsos) também embarcaram. Foi um prazer conhecê-las, e espero que este projeto ajude a espalhar um pouquinho de conhecimento historiográfico para o público que nos lê/assiste. Para mim, serviu como uma retomada dos estudos e da leitura de obras consideradas clássicas para a historiografia.

Conforme explicitado pelo trecho inicial do texto, o intuito do livro de Darnton é analisar alguns documentos inusitados, geralmente desprezados por historiadores que utilizam metodologias mais tradicionais, para nos abrir uma janela para o pensamento popular da França do Antigo Regime (séculos XV a XVIII). Em cada um dos seis capítulos, ele analisa um tipo de documento diferente, escrito por um “tipo” social (trabalhadores da zona rural, burguesia, intelectuais, etc.), e tais documentos, aparentemente “esquisitos” nos dias de hoje, revelam detalhes interessantíssimos da época, além de nos lembrarem da distância temporal que nos separa daquelas populações.

Um dos pecados dos historiadores – talvez o maior – é cometer anacronismos, que nada mais são do que “utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico”. Este livro definitivamente não os comete. Darnton analisa cada aspecto descrito com o maior cuidado em investigar qual teria sido o provável significado daqueles fatos na época, sua importância e suas simbologias. Uma palavra, uma maneira de descrever, uma referência; tudo isso serve de material ao historiador para vislumbrar as maneiras de pensar.

A linguagem do autor é deliciosa e acessível – ainda mais vinda de um historiador, de quem esperamos grande pompa! -; apesar de em alguns momentos a leitura poder ficar mais lenta, vale muito a pena para quem se interessa por História e por seus detalhes que revelam muito (aqui reside parte da mágica da História, ao meu ver!).

No meu canal no Youtube, fiz um diário de leitura, uma espécie de resumo e impressões de leitura para cada capítulo do livro.

Apresentação

É a porção mais curta da obra, e de importância crucial. Aqui, o autor revela suas intenções, objetivos e métodos de maneira muito clara, além de situar o leitor a respeito da História das Mentalidades. O trecho inicial do post é retirado dessa parte.

Capítulo 1 – Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso

O primeiro capítulo baseia-se nos contos de fadas camponeses do Antigo Regime. Parte de uma história do que hoje chamamos de Chapeuzinho Vermelho para contextualizar, questionar a análise psicanalítica dos contos de fadas, perceber as transformações e permanências nesses textos – no tempo e no espaço. É um estudo extremamente perspicaz por parte de Darnton, além de ser sobre um tema que todo mundo adora: os misteriosos contos de fadas.

Capítulo 2 – Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin

O massacre de gatos que dá nome ao livro aqui toma forma; através de um documento escrito por um dos participantes deste massacre, um trabalhador urbano de uma gráfica parisiense, somos levados a uma “viagem” para compreender o contexto, a simbologia, os significados e os motivos que levaram à matança de tantos felinos certo dia no fim do século XVIII.

Capítulo 3 – Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto

Neste capítulo, o autor parte de uma descrição da cidade de Montpellier feita por um autor anônimo (e burguês) e não se sabe com qual objetivo. A ideia principal é descobrir, através da maneira como esse burguês descreve a cidade, qual é a sua visão de mundo, com que categorias ele organiza a sociedade e como enxerga as relações entre os habitantes de Montpellier.

Capítulo 4 – Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras

A partir de um arquivo de polícia, Darnton nos apresenta um panorama da intelectualidade de Paris em meados do século XVIII. Um policial que organizou as fichas de seus investigados nos oferece a oportunidade de compreender como funcionava a vida dos escritores dessa época, qual ideia a sociedade fazia deles, porquê eram suspeitos ou perigosos a ponto de ser necessário que fossem investigados.

Capítulo 5 – Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie

No quinto capítulo, Darnton analisa o porquê de a Enciclopédia organizada por Diderot e D´Alambert ser considerada tão revolucionária, se ela trazia temas tão banais em seu conteúdo. Tratou-se de uma verdadeira crítica à visão de conhecimento que se tinha anteriormente.

Capítulo 6 – Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica

Aqui, veremos através de cartas a enorme influência de Rousseau teve sobre seus leitores e a construção de uma nova forma de leitura, de relacionamento entre escritor e leitor.

Fiz ainda um vídeo de conclusão, usando as críticas que o próprio Darnton faz ao seu trabalho. Só gostaria de dizer que este foi um dos melhores livros lidos em 2015, e recomenda-se tanto para um público especializado, quanto para um público leigo.

 

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+ info:

O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução Sonia Coutinho.
São Paulo: Paz e Terra, 2014.
379 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Padrão
2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha, Vídeo

Um antropólogo em Marte

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks


“Nessa perspectiva, deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal, revelando poderes latentes, desenvolvimentos, evoluções, formas de vida que talvez nunca fossem vistos, ou mesmo imaginados, na ausência desses males. Nesse sentido, é o paradoxo da doença, seu potencial ‘criativo’, que forma o tema central deste livro.
Assim como é possível ficar horrorizado com a devastação causada por doenças ou distúrbios de desenvolvimento, por vezes também podemos vê-los como criativos – já que, se por um lado destroem caminhos precisos, certas maneiras de executarmos coisas, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar caminhos e maneiras diferentes, forçá-lo a um inesperado crescimento e evolução. Esse outro lado do desenvolvimento ou da doença é o que vejo, potencialmente, em quase todo paciente; e é isso que me interessa especialmente descrever aqui.” (p. 16)

Oliver Sacks (1933-2015) foi um médico neurologista britânico e que escreveu vários best-sellers ao longo de sua carreira. Seus livros falam principalmente sobre casos interessantes que acompanhou, junto com preciosas e humanas reflexões.

Um antropólogo em Marte se encaixa justamente no modelo: neste livro, Sacks relata sete casos de pacientes que desenvolveram doenças (ou já nasceram com elas) que os levaram a reconstruir toda a sua existência e sua identidade. São pessoas que se adaptaram, apesar de (ou talvez por causa de) suas doenças. Nesse sentido, os paradoxos de que falam o subtítulo referem-se justamente ao potencial criativo decorrente das doenças nesses casos, de um certo poder de renovação e ressignificação diante de tais adversidades.

Um dos primeiros pontos que me chamou a atenção, já na Apresentação do livro, escrita pelo próprio Sacks, foi que ele se questiona o que é chamado de “doença”. Ele se questiona se tudo aquilo que consideramos doenças o são de fato, ou se podem ser simplesmente novas adaptações ao mundo. Muitas vezes, “deficiências” geram caminhos diferentes para um mesmo aprendizado, desenvolvimento, interpretação (inclusive, ao falar sobre isso, o autor cita Vygotsky, um grande pensador da educação e da cognição infantil). (O livro foi publicado em 1995, portanto, deve ter havido avanços relacionados à definição de certas doenças, tratamentos, etc.)

O autor acompanha, nos sete pacientes, a recriação de processos e a reconstrução de identidades, através de duas abordagens: uma médico-científica – mais objetiva -, e uma inter-subjetiva – ele procura ficar junto com esses pacientes nos seus ambientes domésticos, na vida cotidiana, a fim de obter uma visão mais completa de suas vidas.

Vamos aos casos:

  • O caso do pintor daltônico foi um dos mais intrigantes para mim. Trata-se de um homem, Sr. I., que, aos 65 anos de idade, perdeu a visão das cores após um acidente (pequeno) de carro. Parecia que nada havia acontecido, até que este homem, que era pintor e vivia de sua arte, percebeu que estava enxergando tudo em preto, branco e tons de cinza. Inicialmente, seu desespero é total, ao descobrir que não existe possibilidade de voltar a enxergar em cores, ele entra numa depressão profunda. O autor nos apresenta um histórico do conhecimento sobre a capacidade de representar as cores, e nos conta a evolução/adaptação do pintor à sua nova realidade.
sr. I

Duas pinturas feitas pelo sr. I., logo antes do acidente em que perdeu a visão das cores

  • O último hippie fala de Greg, um adolescente rebelde da década de 1960 que, após se envolver com drogas e brigar com os pais, foi para um centro Hare Krishna e lá encontra seu foco. Identificou-se com a filosofia e as práticas da organização. No início da década de 1970, começou a queixar-se de ter a visão ofuscada, o que foi interpretado como iluminação espiritual. Os pais, que não tiveram comunicação direta com ele por anos, acabaram conseguindo permissão para visitá-lo em 1975, e se depararam com uma pessoa completamente diferente de seu filho: agora gordo, careca com um sorriso permanente e “estúpido” no rosto, e comentários “idiotas”. Levado ao médico, foi constatado um tumor no cérebro. O tumor foi retirado, mas Greg permaneceu com as sequelas: ficou completamente cego e seriamente incapacitado neurológica e mentalmente. Tudo isso aos 25 anos. Porém, Greg não tinha consciência de sua cegueira (ele achava que enxergava), de suas capacidades mentais perdidas, do passado nem do futuro – havia um único ponto que o despertava: as bandas dos anos 60 que ele amava. Ao fim das contas, o ex-adolescente rebelde passou a viver serenamente nas condições que se apresentaram a ele. Sua personalidade tornou-se dócil e solar, e sua vida resumia-se ao presente.
  • Uma vida de cirurgião é sobre um homemcom síndrome de Tourette. Trata-se de um distúrbio em que a pessoa pode apresentar, entre outras características, tiques, grunhidos, blasfêmias, xingamentos, obscenidades, comportamento impulsivo, agitação, etc. Tudo isso está fora do controle da pessoa. Ou seja, ela pode estar conversando normalmente e, de repente, estala os dedos, ou toca seu próprio pé, ou fala uma palavra esquisita. (Obviamente que essa descrição está superficial e incompleta. No vídeo abaixo (em inglês), as crianças que têm essa síndrome explicam infinitamente melhor do que eu.) Este caso é curioso pois o paciente que sofre com a síndrome de Tourette (tem todos esses tiques nervosos, comportamentos considerados estranhos e que se manifestam em horas inapropriadas, etc.) é um cirurgião. Entretanto, quando está na sala de cirurgia, concentrado, operando, misteriosamente, perde suas características de Tourette.

  • Ver e não ver conta sobre Virgil, um homem que perdeu sua visão aos 6 anos. Portanto, havia aprendido 100% como ser cego. Tinha o tato, o olfato e a audição muito apurados. Aos 50 anos de idade, descobriu-se que sua cegueira era operável e ele poderia recuperar parte de sua visão. Sua esposa insistiu muito na cirurgia, porém, sua reação imediata ao recuperar a visão não foi a de maravilhamento que todos estavam esperando; foi a de incompreensão. Virgil não sabia mais ver. Ele enxergava formas, movimentos e cores, mas não sabia dar sentido àquilo. Seus olhos sequer se fixavam em um objeto. Virgil precisava aprender a ser vidente, da mesma maneira que, quando criança, aprendeu a ser cego. O mais interessante desse caso é perceber que os significados que damos às coisas são resultado da correlação entre sentidos. Nós, que nascemos com todos eles, conectamos som, imagem, sensação tátil, olfativa, etc. Mas alguém que nasce sem um sentido (a visão, por exemplo) ou o perde na infância, faz tais conexões sem precisar dele, que nos faria tanta falta.
  • A paisagem dos seus sonhos é a respeito de Franco Magnani, um homem que nasceu no vilarejo de Pontito, na Itália. Ele pinta quadros que reproduzem as construções e ruas de Pontito de maneira muito precisa, mesmo tendo ido embora de lá definitivamente há quase 30 anos. Ao ir visitar o paciente em sua casa, Sacks se depara com todas as paredes, gavetas, etc., repletas de quadros de Pontito, e o artista só fala sobre suas lembranças de infância no vilarejo, obsessivamente. Ele tinha visões e sonhos com Pontito, tudo emocionalmente muito avassalador e minuciosamente detalhado. As aparições que Magnani presenciava envolviam um aspecto visual tridimensional (ele podia se mover entre as ruas de Pontito e enxergar de vários ângulos), um auditivo (ele ouvia os sinos da igreja de Pontito), um tátil, um olfativo. Pontito se materializava para Franco, mesmo após anos sem visitá-la, e Sacks tenta desvendar isso.

Franco Magnani, pintando uma imagem “futurista” de Pontito

Comparações entre fotografias de Pontito e quadros de Magnani, pintados de memória

  • Prodígios é sobre pessoas autistas que desenvolvem (descobrem) um talento muito pronunciado, intenso e extraordinário. O paradoxo está justamente no fato de que os autistas são pessoas que possuem uma deficiência no entendimento das regras sociais e no desenvolvimento de habilidades sociais. Poderia-se pensar, portanto, que seus cérebros seriam fragilizados – até o momento em que você se depara com um autista com habilidades incríveis, como Stephen Wiltshire. Stephen tinha uma memória fora do comum para construções, prédios e carros; bastava uma olhadela, que absorvia a paisagem. Além disso, Stephen descobriu que sabia desenhar essas coisas extremamente bem (a BBC fez um documentário que conta a história de Stephen. O vídeo abaixo é de uma visita que ele fez a Istambul, mostra Stephen desenhando a paisagem panorâmica que viu em um helicóptero). O que intriga Oliver Sacks (e a nós, leitores), é que o autista não tem uma consciência do “eu”, de uma identidade. Porém, como é possível que um artista não tenha subjetividade? Stephen, mesmo reproduzindo grande parte do que via e captando a essência das coisas, acrescentava detalhes que não estavam originalmente lá.

Um dos desenhos de Stephen Wiltshire

  • O último caso, Um antropólogo em Marte, também fala de uma autista: Temple Grandin, bióloga e engenheira bem-sucedida. Escreve artigos científicos (também é professora universitária), escreveu uma autobiografia e é especialista em comportamento animal. Temple tinha uma vida profissional agitadíssima, e nenhuma vida social. O paradoxo é que a paciente tinha uma capacidade tão grande de compreender os animais (principalmente animais de fazenda, tanto que se especializou em tornar abatedouros de vacas e bois menos cruéis, para que os animais não sofressem tanto), apesar de não ter a menor compreensão do comportamento humano.

 

Ao descrever os casos, parece que contei muita coisa sobre cada um deles, mas o livro é riquíssimo! São histórias muito inspiradoras.

Nos sete capítulos, Sacks descreve  o histórico e as sensações do paciente, discute alguns pontos (sobre “normalidade”, questiona o sentido que as coisas têm para nós porque estamos acostumados a determinadas percepções e interpretações do mundo) e, em geral, apresenta um histórico do conhecimento que se tem a respeito de determinada “doença” – por exemplo, como as cores foram percebidas e teorizadas ao longo do tempo, como descobriu-se que o cérebro interpreta as cores e dá sentido a elas, como desenvolveu-se o conceito de autismo, a evolução e as contradições dos estudos sobre a memória humana, etc. Além de tudo isso, ele apresenta a visão médica do caso, e conta como foi a adaptação à nova (ou antiga) condição. Sem dúvida, os momentos em que ele conta a respeito do personagem (paciente) e suas reflexões são mais literários, ao passo que os panoramas da construção dos conhecimentos necessários a analisar o caso, e também as descrições médicas, são mais técnicas, científicas e, portanto, mais áridas.

O presente e o passado, as memórias e lembranças que se perdem ou não desaparecem nunca, permeiam todo o texto; são aspectos que levam a uma reorganização da realidade do indivíduo e da construção de sua identidade.

O autor é cuidadoso ao falar de doenças, e desconfia de ações como atribuir a genialidade criativa de diversas personalidades (como Sócrates, Einstein, as irmãs Bronte, Baudelaire, Dostoievski, Van Gogh, Proust, entre muitos outros) apenas a uma doença ou condição psíquica. Isso é apenas parte de como essas pessoas são, e obviamente podem contribuir para suas obras, mas será que explicam tudo?

Sacks cita pensadores de diversas áreas ao longo do texto: física, filosofia, educação, literatura, artes plásticas. Isso dá ao seu texto um caráter muito interdisciplinar, e tira o “peso” que teria uma obra técnica sobre um assunto puramente médico. Além disso, as notas de rodapé são absolutamente pertinentes e explicativas, e não simples referências a outras obras. Isso também facilita o entendimento do leitor leigo e torna a obra mais compreensível e menos acadêmica.

As descrições vívidas que o autor faz das situações dos pacientes-protagonistas nos levam a uma empatia muito grande (como não ficar desesperado, ou ao menos incomodado, ao ler que o pintor entrou em seu ateliê multicolorido pelas telas e viu tudo em preto e branco? Ao perceber que sua arte e, portanto, sua vida, haviam perdido o sentido?). A busca pela pessoa do paciente, por sua vida cotidiana, social, seus pensamentos e impressões, torna esta obra única e muito especial, além de reforçar a já mencionada empatia. Embora os dados médicos e explicações técnicas sejam interessantes, os casos dos pacientes são definitivamente o ponto mais fascinante do livro, ao menos para um leitor leigo como eu.

Deu pra perceber que recomendo o livro?!

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+ info:

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais / Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
333 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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