2016, Alfaguara, Ficção, Leia Mulheres, Resenha

Outros cantos

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende


“No cenário descortinado da frente da casa, podia-se ver o silêncio sólido do fim de tarde de um domingo num mundo sem nada, ninguém, mundo sem criador, parecia. Só eu estava lá, mergulhada na ausência, incrustada e imobilizada na quentura espessa, como um fóssil na rocha. Teria chegado ao fim do mundo, onde tudo para, não há mais lugar para lutas? A razão nada me dizia e meu corpo entregava-se à imobilidade de um calango sobre a pedra, uma quase desistência de qualquer mudança. De dentro de mim não vinha mais nenhum esboço de movimento. Já me via naufragando em lágrimas e na decepção de nada encontrar ao fim de tão longa e arriscada viagem, não fosse, de repente, a irrupção de um longínquo canto, outra voz, inteiramente outra, mas que eu reconhecia, atravessando o susto, voz humana. Ôôôôôôôôô êêêêêêê ôôôôôôôôôôôô. Pareceu que aquele canto fazia uma tinta encarnada surgir do chão, no horizonte, e elevar-se, encher o céu e chegar aonde eu estava, até então, sozinha e tornada em mineral, tingindo-me e tudo ao meu redor.” (p. 12)

Em Outros cantos, conhecemos uma história que se desdobra inicialmente em duas frentes. Na primeira, a narradora Maria faz, no presente, uma viagem de ônibus. Cada detalhe de sua viagem (os faróis do ônibus, os buracos na estrada, as luzes dos postes na estrada, o cheiro da comida de algum outro passageiro, etc.) acende em sua memória uma viagem mais antiga, na década de 1970, que ela fez para o sertão brasileiro. Essa rememoração do trecho de sua vida no sertão é a segunda frente do texto.

Aparentemente simples, a escrita de Rezende torna esta uma história extraordinária pela sua delicadeza e força. O título ambíguo pela utilização da palavra “cantos” traduz bem a veia poética de Maria Valéria Rezende: ao mesmo tempo, ela está falando sobre outros lugares e sobre outras vozes. De um lirismo comparável a, arrisco dizer, João Guimarães Rosa – um dos meus autores favoritos! -, o texto da autora me fez sentir um acalento no coração. Não quero dizer que eles são escritores com estilos parecidos. O ambiente sertanejo e a sensibilidade ao descrevê-lo foi o que me fez estabelecer uma comparação, mas a linguagem, os pontos de vista, as épocas, são totalmente diversas.

Nos anos 1970, quando Maria chega ao sertão nordestino, seu objetivo é trabalhar como alfabetizadora num recanto do mundo onde tudo é difícil: a água é o bem mais essencial; o trabalho é árduo e mal pago; as moradias, simples e sem luxos. A própria escrita é um conhecimento superficial (inútil!) neste ambiente. E no meio de tudo isso, Maria descobre arte, humanidade e a si mesma.

É uma memória muito localizada na região árida do Nordeste brasileiro, mas é ao mesmo tempo bastante universal. A própria protagonista tece relações entre as pessoas e os costumes do sertão com outras viagens que ela fez, para a Argélia e para o México, por exemplo. Somos todos humanos, afinal de contas, com problemas existenciais parecidos.

Além de tudo isso, é uma história que se passa em áreas rurais do país durante a época da ditadura militar brasileira. Essas são regiões praticamente esquecidas em nossos estudos e na literatura atual, predominantemente urbana e centrada no Centro-Sul.

O romance, classificado como obra de ficção, é inspirado na experiência real que Maria Valéria Rezende teve na década de 1970, trabalhando como educadora no sertão pernambucano durante os chamados anos de chumbo. A autora, nascida em Santos (SP), venceu o prêmio Jabuti em 2015 nas categorias romance e melhor livro de ficção, pelo livro Quarenta dias. Pelo que vi em Outros cantos, o prêmio foi absolutamente merecido. Amei muito a escrita da autora e suas abordagens, já é candidata a autora favorita.

O período militar é citado mais ao final do livro, e vemos que a protagonista está inserida num contexto de resistência, mas de maneira muito mais sutil que as resistências que costumamos estudar na escola (guerrilhas, movimentos populares, textos de artistas), tanto pelas condições do local e da população tratados, quanto pela natureza do oficio exercido por Maria. É mais um tipo de experiência e olhar a que temos acesso através da Literatura.

Livro excelente, leitura recomendadíssima!

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+ info:

Outros cantos / Maria Valéria Rezende.
Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
146 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2014, Alfaguara, Ficção, Resenha

A casa verde

A casa verde, de Mario Vargas Llosa

 “Foi assim que a Casa Verde nasceu. A construção levou muitas semanas; as tábuas, as vigas e os tijolos precisavam ser arrastados da outra ponta da cidade, e as mulas alugadas por don Anselmo avançavam com dificuldade pelo areal. O trabalho começava de manhã, quando a chuva seca parava, e terminava quando o vento aumentava. De tarde, o deserto engolia os alicerces e enterrava as paredes, as iguanas roíam as madeiras, os abutres faziam seus ninhos na incipiente construção, e toda manhã era preciso refazer o que tinha sido começado, corrigir os planos, repor os materiais, num combate surdo que foi galvanizando a cidade. ‘Quando o forasteiro vai se dar por vencido?‘, perguntavam-se os vizinhos. Mas os dias transcorriam e, sem se abater com os percalços nem se contagiar pelo pessimismo dos conhecidos e amigos, don Anselmo continuava desenvolvendo uma assombrosa atividade. (…)
Quando a casa ficou pronta, don Anselmo determinou que fosse totalmente pintada de verde. Até as crianças caíam na gargalhada quando viam aquelas paredes cobertas por uma pele cor de esmeralda que emitia reflexos escamosos quando o sol batia. (…)
(…)
Era como se o ar estivesse envenenado – diziam as velhas da avenida do porto. – A música entrava em todos os lugares, mesmo que fechássemos as portas e janelas, nós a escutávamos enquanto comíamos, enquanto rezávamos e enquanto dormíamos.
E imagine as caras dos homens quando ouviam – diziam as beatas sufocadas em seus véus. – E imagine como aquilo os tirava dos lares, como os atraía para a rua e empurrava para a Ponte Velha.
E não adiantava rezar – diziam as madres, as esposas, as namoradas -, de nada serviam os nossos prantos, as nossas súplicas, nem os sermões dos padres, as novenas, nem sequer os triságios.
Estamos com o inferno nas nossas portas – trovejava o padre García –, qualquer um veria, mas vocês estão cegos. Piura é Sodoma e Gomorra.
Talvez seja mesmo verdade que a Casa Verde nos trouxe azar – diziam os velhos, lambendo os beiços. – Mas como aproveitamos na maldita.” (p. 94-97)

Mario Vargas Llosa é um escritor peruano nascido em 1936 e vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2010.

Se não me engano, na disciplina de América Independente durante a faculdade, tínhamos que escolher uma obra (dentre várias de uma lista) para ler e resenhar. Vargas Llosa estava na lista com A festa do bode, mas eu acabei escolhendo Pedro Páramo e Chão em chamas, de Juan Rulfo (excelente, aliás. Gostaria de reler). Desta vez, me deparei na internet com uma promoção da Livraria da Travessa (descontos nos livros de autores latino-americanos!) e aproveitei para encomendar três de Vargas Llosa. A sinopse de A casa verde me chamou a atenção e ele ficou durante semanas “me chamando” na estante, então comecei por ele.

O livro conta com diferentes cenários – há basicamente dois (ambos no Peru, porém separados por muitos quilômetros de distância): uma cidadezinha chamada Piura, que sofre com tempestades de areia por se situar numa região desértica do país; e um povoado chamado Santa María de Nieva, sede de uma missão espanhola (freiras que catequizam meninas indígenas) e também de um posto da Guarda Civil, no meio da floresta Amazônica peruana.

Este foi meu primeiro contato com Vargas Llosa. Confesso que demorei muito (sério, umas 70 páginas) para me acostumar com a alternância de linguagens que o autor faz dependendo do núcleo de personagens de que trata: ora usa discurso direto, ora constrói os diálogos apenas com vírgulas – ou sem elas. Ele também intercala diálogos que acontecem no presente com flashbacks (o tempo todo!), o que não torna a leitura mais fácil.

Outra dificuldade que tive foi em compreender exatamente quem eram os personagens dentro da narrativa. Isso porque não existe um narrador propriamente dito (ou melhor, é sempre em terceira pessoa, mas muda de “formato” dependendo do parágrafo), o livro é em grande parte construído com base nas conversas. Portanto, temos acesso ao presente dos personagens sem conhecê-los exatamente (por exemplo, só temos noção da aparência física de um personagem quando algum amigo dele conta como ela é, ou pelo seu apelido, como “Pesado”, “Louro”, “Pequeno”), e também ao passado, mas apenas aquele que eles contam para quem quer que esteja conversando com eles. Ou seja, vamos acompanhando diálogos sem entender completamente quem fala, a quem fala e sobre o quê fala.

Há também diversos “núcleos” de personagens: uma moça indígena chamada Bonifacia que foi levada para a missão espanhola de freiras e ali se “civilizou” (aprendeu o idioma espanhol, foi catequizada); don Anselmo, um homem misterioso que chega à cidade de Piura e passa a morar lá, fundando um prostíbulo (a Casa Verde do título e do trecho inicial do post); Fushía, um brasileiro descendente de japoneses foragido, e que agora sobrevive de contrabandos e roubos de mercadorias para revenda; Lituma, sargento, tem um grupo de amigos (“os inconquistáveis”) na cidade de Piura e frequentam a Casa Verde. Aos poucos percebi que suas histórias eram paralelas no tempo e no espaço; às vezes se entrecruzavam, outras vezes, não. Por exemplo, Bonifacia, após ser expulsa da missão, vira esposa de Lituma e tem que prostituir-se na Casa Verde. Mas a história não é apresentada de maneira cronológica, então ora vemos Bonifácia morando no prostíbulo, ora na Missão, ora numa casa em Santa Maria de Nieva, sem saber exatamente o que veio antes ou depois e qual a conexão entre os fatos. Fiquei nessa confusão durante 75% do livro. Ao final (especialmente no posfácio), as peças do quebra-cabeças se encaixam e os núcleos se entrelaçam, o que me fez gostar bastante do final do livro.

Um dos núcleos de que mais gostei foi o da menina Antonia, que ficou cega e muda por conta de urubus que comeram seus olhos e língua, e a lavadeira que a adotou, Juana Baura. Infelizmente foi um núcleo pouquíssimo explorado, quase acessório. Mas me fez sentir extremamente curiosa – exatamente da mesma maneira que Ayesha, a menina das borboletas de Os versos satânicos! Sinceramente, acho que os autores deveriam ter escrito livros só sobre elas. Minhas sensações ao ler A casa verde foram muito semelhantes às de ler Os versos satânicos; em ambos, se eu reler já sabendo melhor da história, com certeza será uma leitura mais fluida e prazerosa (menos truncada).

Foi uma leitura confusa; demorei para terminar o livro (dava pausas gigantescas, quase desisti – após assistir ao vídeo abaixo, do Cabine Literária, percebi que precisava continuar).

Bem, em resumo, então: me perdi na cronologia da narrativa, que obviamente não é linear (não sei muito bem o que aconteceu antes ou depois, pipocam flashbacks na obra); senti falta de conhecer os personagens a fundo (achei difícil de situar quem era quem, já que a descrição das pessoas era mínima), e isso me deixou confusa a história inteira, pois desta maneira, não conseguia me lembrar o que tal personagem tinha dito ou feito anteriormente. Por outro lado, os lugares são ricamente descritos – não de uma maneira enfadonha! – e este é definitivamente um ponto positivo da obra. Outro é que o final é bom, esclarece alguns pontos de conexão entre os personagens e os tempos (foi o final que garantiu a quarta estrela para A casa verde).

Apesar disso, é um livro cheio de contrastes, pois às vezes é meio entediante, às vezes desperta completamente nossa curiosidade. Entrar em contato com diferentes personagens de locais diversos do Peru foi interessantíssimo, não posso negar. É uma leitura pesada, mas também uma viagem.

Não é qualquer tipo de público que irá gostar da obra, recomenda-se para adultos que gostem de desafios.

 

 + info:
A casa verde / Mario Vargas Llosa; tradução Ari Roitman e Paulina Wacht.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
406 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
DIFICIL

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