2016, Companhia das Letras, Ficção, Infanto-juvenil, Resenha, Séries e trilogias

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3

Desventuras em série: livros 1, 2 e 3, de Lemony Snicket

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“Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos. E isso porque momentos felizes não são o que mais encontramos na vida dos três jovens Baudelaire cuja história está aqui contada.” (Mau começo, p. 9)

Mal podia esperar para escrever sobre esta série. Tanto que não aguentei esperar ler mais do que três livros desta série de treze; acho que a leitura vale a pena, mesmo que eu ainda não saiba o final da série toda. Ao longo dela, acompanhamos três irmãos: Violet, de 14 anos, é conhecida por sua grande criatividade. Ela é uma verdadeira engenheira e adora inventar coisas; quando está exercendo seu talento, é possível ver sobre sua cabeça engrenagens, alavancas e roldanas em funcionamento. Klaus, o irmão do meio, tem 12 anos e é um rato de biblioteca; lê todos os livros que encontra pela frente e tem uma boa memória. A caçulinha, Sunny, ainda é um bebê, mas é espertíssima! Sua habilidade especial consiste em morder as coisas (ela prefere os objetos mais duros) com seus quatro dentinhos afiados.

Certo dia, os três são tomados de surpresa pela pior notícia possível: seus pais, o sr. e a sra. Baudelaire, faleceram num incêndio arrasador. Além do amor dos pais, o fogo também tomou dos irmãos sua casa (uma mansão, que ficou em cinzas) e seu conforto. A família Baudelaire possuía uma grande fortuna, porém, Violet, Klaus e Sunny só poderão ter acesso à herança quando a irmã mais velha completar 18 anos. Enquanto isso, eles ficarão à mercê de algum tutor legal, um parente a ser designado pelo sr. Poe, um burocrata com boa intenção mas, aparentemente, poucos miolos.

Digo isto porque ele os colocará sob a tutoria de um parente distante da família, o conde Olaf. Olaf é uma pessoa detestável, que explora as crianças (às quais ele chama de “órfãos”) obrigando-as a realizar tarefas desnecessárias e passar por verdadeiras situações de violência física e psicológica, tudo para tentar botar as mãos na herança.

Este é o mote geral do primeiro livro, Mau começo, e os próximos seguem uma linha similar. Sempre o conde Olaf bola um plano mirabolante para tentar tomar conta da fortuna dos Baudelaire, é frustrado, e foge para retornar no livro seguinte. Como só li esses três primeiros volumes, não posso falar sobre os próximos. Mas é bem possível que a trama geral se repita e torne-se mais entediante para alguns leitores. Entretanto, lendo apenas os três primeiros, confesso que gostei muito!

Grande parte do meu encantamento pela obra vem da linguagem utilizada pelo autor Lemony Snicket. Ele inova ao conversar com o leitor e ser totalmente sincero (por exemplo, no início dos livros, ele sempre alerta que é melhor que o leitor desista logo da leitura, pois trata-se de uma história que só contém desgraças sofridas pelos irmãos – veja o trecho inicial do post). Snicket também explica palavras e expressões, mostrando o que elas significam naquele contexto (“[…] vez por outra os pais permitiam que pegassem sozinhos um bonde um tanto precário — a palavra precário, que vocês provavelmente conhecem, está sendo usada aqui com o sentido de “inseguro” — até a praia” [Mau começo, p. 10]). Há também a “tradução” das falas de Sunny, que é sempre muito engraçada. A irmã pequenina tem uma linguagem própria dos bebês, mas o narrador faz questão de explicar sempre o que ela quer dizer.

Além de todas essas “inovações” narrativas, o texto é muito objetivo e dinâmico. O bom humor está presente o tempo todo na maneira que a história é contada, e o mundo mundo em que vivem os Baudelaire inventado (os nomes combinam com os lugares, o que dá um ar fantasioso) também exerce certo fascínio e torna tudo ainda mais divertido.

Apesar do alerta constante de Snicket, a história dos Baudelaire não mostra apenas desgraças e infelicidades. Ela conta com momentos de respiro, ternura, compreensão, saudade, e até mesmo de alegria. As desgraças são apenas os motores da ação. Talvez o ponto principal da história é que juntos, os irmãos Baudelaire são incríveis. Diferentes entre si, cada um com sua personalidade, eles formam um time coeso e ativo. A série é infanto-juvenil, mas eu estrou amando, mesmo sendo adulta!

Ah! Haverá uma série da Netflix, a ser lançada em janeiro de 2017. O conde Olaf será interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, e eu achei este trailer o máximo! Captou muito bem a atmosfera fantasiosa e bem-humorada dos livros. Mal posso esperar! 🙂

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+ info:
Mau começo / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
152 páginas.

A sala dos répteis / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
184 páginas.

O lago das sanguessugas / Lemony Snicket, ilustrações de Brett Helquist, trad de Carlos Sussekind.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
192 páginas.

classificação:  5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para público de qualquer idade!)

Obrigada pela leitura!
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2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Parceria, Resenha

A música do universo

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos, de Janna Levin

“Em algum lugar do universo, dois buracos negros colidem – pesados como estrelas, pequenos como cidades, literalmente buracos (espaços vazios) negros (com total ausência de luz). Presos pela gravidade, nos últimos segundos que passam juntos eles se deslocam em milhares de revoluções em torno de seu futuro ponto de contato, revolvendo-se no espaço e no tempo até colidir e se fundir num buraco negro maior, num evento mais poderoso do que qualquer outro desde a origem do universo, produzindo uma energia que é mais de 1 trilhão de vezes a de 1 bilhão de sóis. Buracos negros colidem em escuridão total. Nada de energia que irrompe disso se apresenta em forma de luz. Telescópio algum jamais mostrará o evento.
Essa profusão de energia emana de buracos que se coalescem numa forma puramente gravitacional, como ondas na forma de espaço-tempo, como ondas gravitacionais. Uma astronauta flutuando nas proximidades não enxergaria nada. Mas o espaço que ela estivesse ocupando ressoaria, deformando-a, apertando-a e depois a esticando. Se estivesse perto o bastante, seus sistema auditivo poderia vibrar em resposta. Ela
 ouviria a onda.” (pp. 11-12)

Primeira coisa: não sei nada de Física. Só tive aula de Física no Ensino Médio (e lá se vão mais de 10 anos!), e olhe que mesmo nesse período, não absorvi muita coisa. Portanto, alguns (muitos!) conceitos de Física são absolutamente misteriosos para mim: “buraco negro” é um deles. Acho difícil conceber algo escuro e vazio, mas que ao mesmo tempo é muito pesado e poderoso. Porém, a curiosidade é sempre maior que a ignorância. Em fevereiro de 2016, assisti a notícias de que cientistas haviam finalmente conseguido captar o som das ondas gravitacionais. Quando a Companhia das Letras, editora parceira do canal Redemunhando, me apresentou este lançamento de livro, não resisti e o pedi.

Janna Levin, a autora do livro, é norte-americana e professora de Física e Astronomia na Universidade de Columbia, além de escritora. Ela possui outros livros, incluindo um sobre Alan Turing. No livro A música do universo, a autora nos leva por uma viagem científica, tratando de conceitos de Física, e também dos caminhos percorridos por cientistas do nosso século para comprovar a teoria de Einstein das ondas gravitacionais, formulada há cem anos. Basicamente, o livro nos conta a história da montagem de experimentos para a captação dessas ondas – em especial a concepção e montagem do LIGO, Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser. Tais ondas, pensaram os cientistas, por não liberarem energia luminosa (ou seja, não podem ser vistas), deveriam ser captadas por meio de sons.

Como traduzir sons em palavras? Mais ainda, como comunicar ao leitor a grandiosidade da captura dos sons das ondas gravitacionais e colocá-las em letras impressas? Mas afinal de contas, o que são ondas gravitacionais?

Eu obviamente não sou a melhor pessoa para explicar o conceito. No meu parco entendimento, tratam-se de pequenas deformações no espaço-tempo, em forma de ondas, que se propagam pelo universo a partir de uma colisão entre buracos negros. Mais ou menos como mostra a imagem a seguir:

O fascinante sobre isso é que esse acontecimento não propagaria luz, de maneira que não seria observável por nós nem por telescópios. Entretanto, considerou-se que seria possível desenvolver um dispositivo altamente detalhado e específico (e caro!) que captasse os sons produzidos a partir dessa colisão. [Para saber mais sobre o assunto, separei alguns vídeos de divulgação científica sobre isso disponíveis no Youtube: Nerdologia, Primata falante.]

Albert Einstein previu este fenômeno nos primeiros decênios do século XX, e até o final deste século, havia dúvidas sobre se tal experimento de captação de evidências das ondas gravitacionais seria possível ou viável. O livro de Levin documenta o processo de aprovação e construção do LIGO, dirigido pelos físicos Kip Thorne e Ronald Drever do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e Rainer Weiss da Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É importante ressaltar que este foi um empreendimento realizado com a colaboração de centenas de cientistas, e não apenas dos três supracitados.

A narrativa mescla dados, os bastidores da montagem do LIGO e de protótipos e experimentos. Tais descrições por diversas vezes são muito detalhadas, de maneira que interessarão mais a leitores especializados que aos leigos e que buscam uma leitura mais panorâmica (como eu). Além disso, a autora também conta sobre a trajetória de físicos envolvidos no empreendimento, relatando parte de suas vidas pessoais e entrevistas com os próprios.

A linguagem da obra é tranquila e informal, apesar de apresentar alguns conceitos físicos mais complicados. E, pelo fato de a autora ser especialista da área de Astronomia, é confiável e precisa nas informações científicas.

Um dos aspectos mais interessantes do livro foi perpassar diversos momentos históricos desde meados do século XX – notadamente no Estados Unidos, espaço onde se encontra o LIGO e se concentra a pesquisa sobre este tema. O nazismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial, a criação da bomba atômica, o Projeto Manhattan e a Guerra Fria servem como panos de fundo para o desenvolvimento da pesquisa sobre ondas gravitacionais.

Outro ponto notável é a desproporção entre homens e mulheres no livro, o que obviamente reflete a desproporção entre homens e mulheres na academia, em especial na área de Física. Faz pensar no grande potencial que podemos estar ignorando ou perdendo simplesmente por motivos de preconceito.

Impressiona o alto nível de incerteza do experimento, já que ele depende da colaboração da natureza. Mesmo frente a tantas dúvidas e improbabilidades da detecção das ondas gravitacionais, o projeto foi em frente e cumpriu sua missão. O livro mostra diversos obstáculos científicos que foram enfrentados por esses pesquisadores, o que é um processo natural (embora difícil) na ciência: guerra de egos, experiências que falham, falta de financiamento, resistência nos meios acadêmicos.

É um ótimo livro, mas pode ser detalhado demais para um público leigo e simplesmente curioso pelo assunto. Acredito que um leitor mais especializado desfrutará muito mais da obra.

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+ info:

A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos / Janna Levin; tradução Paulo Geiger.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
257 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Dom Quixote

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

“Enfim, acabado seu juízo, foi dar no mais estranho pensamento em que jamais caiu louco algum: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito de sua pátria, se fazer cavaleiro andante e ir pelo mundo com suas armas e cavalo em busca de aventuras e para se exercitar em tudo aquilo que havia lido que os cavaleiros andantes se exercitavam, desfazendo todo tipo de afrontas e se pondo em situações de perigos pelos quais, superando-os, ganhasse nome eterno e fama.” (p. 64)

Um dos maiores cânones da Literatura ocidental, Dom Quixote de la Mancha, do autor espanhol Miguel de Cervantes, tem uma influência gigantesca na cultura ibérica e em seus “filhotes” da América Latina. Afinal, quem nunca viu uma referência ao engenhoso fidalgo, seja em livros, filmes, personagens, ilustrações…?

Quixote é um homem apaixonado por livros de cavalaria. Devorou-os todos e os conhece de cor. Certo dia, decide que é sua missão andar pelo mundo a procura de ajudar os humildes e oprimidos, como é dever de qualquer cavaleiro andante. Inicia seu projeto anacrônico vestindo uma armadura obsoleta e enferrujada, encilhando seu magro e tísico cavalo Rocinante, e partindo em busca de quem lhe nomeie cavaleiro. Mais tarde, junta-se a ele seu fiel – e ingênuo – escudeiro, Sancho Pança.

A obra Dom Quixote é a narração das diversas aventuras vividas pelo Cavaleiro da Triste Figura e Rocinante, Sancho Pança e seu burro. Tudo em nome da formosa (e imaginária) donzela Dulcineia del Toboso, a musa inspiradora de Quixote. Essas aventuras envolvem sempre confusões em que o cavaleiro se mete por querer defender algo que não quer ou não pode ser defendido; seus discursos rebuscados levam a brigas com outras pessoas que viajam pela estrada ou se hospedam na estalagem. São brigas de verdade, com socos, pontapés, dentes arrancados, ombros moídos e cabeças arrebentadas. Apesar de toda essa violência, o livro nos faz rir. O tempo todo.

O volume 2 segue exatamente o mesmo tom cômico-aventuresco, o que é bastante impressionante, considerando que foi publicado dez anos depois do primeiro volume. Uma diferença entre os dois é que, no segundo tomo, os personagens reconhecem Dom Quixote de la Mancha e seus feitos, pois já leram sobre suas façanhas no volume 1 – assim como nós, leitores. Isso talvez torne tudo ainda mais leve, pois as pessoas o tratam de maneira respeitosa, ainda que com a intenção de se divertir às suas custas.

Me surpreendi imensamente com o humor de Dom Quixote; ninguém nunca tinha me dito que o livro seria tão engraçado. Os disparates do protagonista e a inocência de Sancho são hilárias. Outro aspecto que me causou admiração foi o tom informal da obra, o quanto é possível compreender seu espírito, mesmo que sua primeira publicação, de estrondoso sucesso, tenha sido na Espanha no ano de 1605! Acredito que grande parte deste mérito seja do tradutor da edição que li, do selo Penguin Classics (Companhia das Letras). Ernani Ssó esclarece pontos interessantíssimos no início do primeiro tomo, e fala sobre suas escolhas como tradutor. Diz que escolheu manter esse ar zombeteiro em detrimento da absoluta fidedignidade às palavras e expressões. Optou por manter o sentido das piadas e ditados, o que em minha opinião, funcionou muito bem e me aproximou da história e dos personagens.

Dom Quixote, por Pablo Picasso (1955)

Um ponto curioso é que Cervantes escreveu este livro despretensiosamente, e fez muito sucesso à época de sua publicação, no início do século XVII. Foi pensada para ser uma leitura de entretenimento, e acabou por se tornar um clássico absoluto. No próprio livro (final do tomo 1), existe um debate entre um cônego e um padre sobre qual é a função da Literatura, ou seja, para quê ela serve. Afinal de contas, o próprio Quixote enlouquece graças a ela – pelo menos assim pensa sua comunidade. Esta é uma discussão que continua atual: a Literatura deve ensinar além de divertir? Toda Literatura de entretenimento é ruim?

Além do tema da loucura, percebe-se no fundo da obra – embora esta não seja obviamente o propósito primordial – uma crítica a autoridades e normas sociais, e reflexões sobre solidão, coragem, amizade e fidelidade. Quixote é um sonhador, tem pensamentos idealistas. Ele tem a intenção boa de reduzir as injustiças e maldades; mas faz isso por caminhos que são incompreensíveis para os personagens que estão ao seu redor.

Dom Quixote e os moinhos, por Salvador Dali (1945)

Existem alguns outros aspectos dignos de menção: mecanismos que Cervantes utiliza para criticar as autoridades ou bajulá-las (por exemplo, coloca na fala do padre elogios aos censores de livros, uma forma sutil de tentar agradá-los para que não censurem o próprio Dom Quixote; para em seguida colocar um questionamento na fala de Quixote), algumas visões sobre mulheres (por um lado, há personagens masculinos as condenam ou as julgam de maneira machista, como era corrente na época; por outro, dá voz a algumas dessas mulheres, para que elas questionem essas percepções).

Visions of Quixote, de Octavio Ocampo (1989)

O único aspecto que desanima no livro, a meu ver, é seu enorme volume. É realmente uma obra bem grande, mas lendo-a aos poucos, saboreando e aproveitando seus momentos, será de ótima diversão! É absolutamente compreensível o porquê de esta obra monumental ter se tornado um dos primeiros exemplos de Literatura moderna do mundo. E, principalmente, o porquê de o protagonista ter se tornado um personagem tão icônico. É impossível ficar indiferente ao valente e sonhador cavaleiro da triste figura, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.

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+ info:

Dom Quixote de la Mancha / Miguel de Cervantes; tradução e notas Ernani Ssó; introdução John Rutherford; posfácios Jorge Luis Borges, Ricardo Piglia.
São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.
650 páginas (vol. 1).
668 páginas (vol. 2).

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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A história da humanidade contada pelos vírus

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…, de Stefan Cunha Ujvari

“Microorganismos percorreram a corrente sanguínea dos combatentes. Alastraram-se pelo corpo dos soldados debilitados e comprometeram órgãos vitais. A fome e o frio prejudicaram suas defesas, que não impuseram restrições para o avanço da infecção. Seus corpos foram lançados na vala coletiva e decompostos pelo tempo. Os microorganismos responsáveis pelas epidemias sumiram com os pulmões, fígado, coração, rins e outros tantos órgãos. Uma região, contudo, preservou-se para nos contar a história. Este local, ricamente vascularizado, recebeu afluxo de sangue contendo os microorganismos que se alojaram nessa estrutura. Foram os dentes. A polpa dentária recebe o nervo responsável pela dor de dente, mas também recebe uma quantidade de sangue. Vestígios do DNA do ou dos microorganismos envolvidos nas epidemias estariam nas entranhas dos dentes daqueles esqueletos?.” (p. 50)

Este livro aborda a história humana a partir do protagonismo dos vírus, bactérias e microorganismos causadores de doenças. Aqui já coloco minha primeira crítica: antes de abrir o livro, o leitor pode ficar confuso com o título. A história da humanidade contada pelos vírus pode dar a ideia de que a narrativa só abarcará doenças virais – pelo menos, foi o que pensei inicialmente. Porém, já na folha de rosto, isso fica esclarecido pelo título completo: A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos…. Agora, será que alguém consegue me explicar a escolha de não colocar o título completo na capa do livro?

Partindo da chamada Pré-História no continente africano (parte 1: África: estação de origem), Ujvari procura remontar, por meio de estudos genéticos, a história do nascimento de infecções humanas, tão antigas quanto o próprio nascimento do Homo sapiens. Este surgimento e suas evoluções podem ser rastreados graças a fragmentos genéticos de retrovírus em nosso DNA. Existem doenças que acompanham a história evolucionária dos hominídeos, tais como a herpes, a teníase e a tuberculose.

Em seguida, na parte 2, o autor nos leva por rotas migratórias traçadas a partir de pegadas genéticas deixadas por microorganismos, ou seja, é possível rastrear os caminhos feitos pelos seres humanos para se espalharem pelo mundo a partir da análise da evolução de alguns vírus, bactérias, e microorganismos – como é o caso da gastrite e da úlcera bacterianas, por exemplo, ou dos piolhos, que demarcam a época em que os seres humanos começaram a usar roupas, entre diversos outros exemplos.

Na terceira parte do livro, Chegada à América, apresenta-se como alguns parasitas intestinais podem ajudar a esclarecer ou apontar mais seguramente para uma das teorias sobre como o ser humano povoou o continente americano (se por terra, a partir do estreito de Behring, ou por via marítima). Aqui, também apresenta-se uma polêmica interessante sobre se a sífilis é uma doença trazida pelos europeus na época da colonização ou se era uma doença tipicamente americana. No final, uma discussão sobre eugenia e a utilização de cobaias humanas (na Alemanha nazista e nos Estados Unidos, com negros sifilíticos) enriquece muito o texto.

As partes 4 e 5 tratam do surgimento da agricultura e da domesticação de animais, o que permite um espalhamento muito maior de doenças, uma vez que possibilitam maiores aglomerações humanas, armazenamento de água e comida e, assim, a disseminação não apenas de microorganismos, mas também de vetores de doenças, tais como ratos e mosquitos.

Na parte 6, chamada O ataque continua, o autor trata de tempos mais atuais, principalmente das descobertas de combate e cura de algumas doenças (vacinas, antibióticos, etc.).

Além dessas seis partes, o livro conta com uma pequena apresentação, notas de final com referências bibliográficas e algumas imagens em preto e branco. As páginas são brancas e encontrei um ou outro erro de revisão.

Provavelmente o mais interessante que achei no livro foi ter percebido como guerras, violência, pobreza, urbanização desordenada e não planejada, falta de educação e de saneamento básico, além de serem problemas sociais, acabam por se tornar gigantescos problemas de saúde pública, por facilitarem o alastramento de diversos tipos de doenças. Outro ponto positivo foi a apresentação de métodos de pesquisas feitas em parceria da Biologia (áreas de Genética e Infectologia) e História (notadamente a Arqueologia) para esclarecer diversos episódios e processos históricos, como por exemplo, as “pegadas” de DNA que revelam muito sobre a migração humana.

Confesso que ter uma alta expectativa em relação a este livro prejudicou minha experiência de leitura. Achei que o autor passaria ao longo da História humana (Oriente Próximo Antigo, Grécia e Roma, Idade Média na Europa, Mundo Árabe, China, América, Idade Moderna, Imperialismos, Guerras Mundiais, Globalização, etc.) perpassando grandes epidemias que assolaram as populações. Mas não é este o tom do livro: o autor Ujvari é brasileiro e médico especialista em infectologia. Portanto, traz um olhar mais biológico que histórico para os microorganismos. É quase como se o livro tratasse da História dos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos contada pela humanidade, e não o contrário. Senti falta de uma história mais aprofundada da peste negra na Europa do século XIV, ou da tuberculose no Egito antigo, ou das epidemias de piolhos durante guerras. Tudo isso é citado, mas tão rapidamente, que não satisfez minha curiosidade.

Achei a “linha condutora” do livro um pouco confusa – talvez a intenção fosse tornar o texto mais dinâmico -, com algumas idas e vindas no tempo. Outro ponto que me incomodou bastante foi o fato de o livro não possuir uma “conclusão”, ou seja, uma síntese ou uma reflexão claramente proposta pelo autor ao final. Isso obviamente não é necessário em qualquer obra, mas penso que seria muito interessante nesta.

Realmente acredito que o maior problema do livro não foi o livro em si, mas sim minha expectativa em relação a ele. Tem alguns (poucos) defeitos que enxerguei, mas no geral, é uma pesquisa rica e uma abordagem interessante. Penso que com alguns pequenos ajustes, ficaria mais a meu gosto. Recomenda-se esta leitura para um público mais adulto, por conta da densidade do texto e das explicações científicas, e para um público que se interessa pelos temas de Genética, Evolução e Arqueologia.

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+ info:

A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microorganismos… / Stefan Cunha Ujvari.
São Paulo: Contexto, 2014.
205 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Coração de tinta

Coração de tinta, de Cornelia Funke

“Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. ‘O fogo devora os livros’, ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro – como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.” (pp. 11-12)

Esse trecho faz parte do primeiro capítulo do livro Coração de tinta. Devo dizer que desde esse início, já fui cativada pela escrita da autora alemã Cornelia Funke, pelo amor aos livros demonstrado no texto, pela ternura de Meggie, e pelo mistério apresentado logo de cara.

O livro tem como protagonistas Meggie, de 12 anos, e seu pai, Mo. Ele é restaurador de livros, ou como Meggie prefere chamar, “médico de livros” ( ❤ ). A pessoa que Meggie vê em pé, parada, na chuva, é uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Alguém que seu pai chama de “Dedo Empoeirado”. Ele entra na casa para alertar Mo – a quem ele chama de Língua Encantada – de que eles estão sendo perseguidos pelo maldoso Capricórnio e de que eles devem fugir. Esse vilão está atrás de um livro que está em posse de Mo. Mais do que revelar, esses primeiros capítulos nos plantam diversas dúvidas na cabeça – de Meggie e do leitor: quem é esse tal de Capricórnio exatamente? E Dedo Empoeirado? Quem é e de onde veio? Que espécie de codinome é “Língua Encantada”? Por que um livro colocaria em risco toda a família? Por que eles deveriam fugir ao invés de simplesmente entregar o livro a Capricórnio? Para onde poderiam fugir?

Além de todas essas dúvidas e segredos, que são revelados aos poucos, devagar, ao longo da leitura, o aspecto que mais me encantou foi o fato de a narrativa ser uma verdadeira ode aos livros. Ela transmite muito amor pela leitura: na casa de Meggie e Mo, tropeçam-se em livros; a casa da tia-avó de Mo é uma biblioteca gigantesca; a própria profissão de Mo demonstra todo esse amor aos livros. Ao longo da própria história, os livros são vistos como seres praticamente vivos, únicos e encantados. Eles dormem, observam, ficam calados…

Tal aspecto mágico soma-se ao início excelente (que me fisgou!) e à escrita vívida e de aquecer o coração, de Cornelia Funke – e brilhantemente traduzida por Sonali Bertuol. Trata-se de uma narrativa que contém sensibilidade, delicadeza e imaginação. Os pensamentos de Meggie realmente parecem pensamentos de uma criança, suas reações e sentimentos são plausíveis. Ela passa por uma verdadeira jornada de amadurecimento nesta história.

A edição do selo Seguinte da Companhia das Letras está simplesmente deslumbrante, a começar pela capa. As ilustrações da própria autora são simples mas decoram os finais de capítulos; a diagramação e a fonte, são perfeitas, e as páginas são amareladas, o que costuma cansar menos os olhos na hora da leitura. A autora teve o cuidado de colocar epígrafes bem variadas para iniciar cada capítulo (inscrições em bibliotecas, trechos de livros infantis), e absolutamente adequadas para o assunto do capítulo.

Coração de tinta é um livro infanto-juvenil e que faz parte da trilogia Mundo de tinta. Mal posso esperar para ler os próximos volumes! É uma obra que desperta fantasia, mas sem abrir mão de ternura e inclusive de momentos mais sombrios, mistério e cenas de ação. Pode ser que tenha sido “apenas” o livro certo no momento certo. Mas me fez sentir encantada como há tempos não me sentia.

 

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+ info:

Coração de tinta / Cornelia Funke; ilustrações da autora; tradução Sonali Bertuol.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
455 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

FAVORITO

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Outros cantos

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende


“No cenário descortinado da frente da casa, podia-se ver o silêncio sólido do fim de tarde de um domingo num mundo sem nada, ninguém, mundo sem criador, parecia. Só eu estava lá, mergulhada na ausência, incrustada e imobilizada na quentura espessa, como um fóssil na rocha. Teria chegado ao fim do mundo, onde tudo para, não há mais lugar para lutas? A razão nada me dizia e meu corpo entregava-se à imobilidade de um calango sobre a pedra, uma quase desistência de qualquer mudança. De dentro de mim não vinha mais nenhum esboço de movimento. Já me via naufragando em lágrimas e na decepção de nada encontrar ao fim de tão longa e arriscada viagem, não fosse, de repente, a irrupção de um longínquo canto, outra voz, inteiramente outra, mas que eu reconhecia, atravessando o susto, voz humana. Ôôôôôôôôô êêêêêêê ôôôôôôôôôôôô. Pareceu que aquele canto fazia uma tinta encarnada surgir do chão, no horizonte, e elevar-se, encher o céu e chegar aonde eu estava, até então, sozinha e tornada em mineral, tingindo-me e tudo ao meu redor.” (p. 12)

Em Outros cantos, conhecemos uma história que se desdobra inicialmente em duas frentes. Na primeira, a narradora Maria faz, no presente, uma viagem de ônibus. Cada detalhe de sua viagem (os faróis do ônibus, os buracos na estrada, as luzes dos postes na estrada, o cheiro da comida de algum outro passageiro, etc.) acende em sua memória uma viagem mais antiga, na década de 1970, que ela fez para o sertão brasileiro. Essa rememoração do trecho de sua vida no sertão é a segunda frente do texto.

Aparentemente simples, a escrita de Rezende torna esta uma história extraordinária pela sua delicadeza e força. O título ambíguo pela utilização da palavra “cantos” traduz bem a veia poética de Maria Valéria Rezende: ao mesmo tempo, ela está falando sobre outros lugares e sobre outras vozes. De um lirismo comparável a, arrisco dizer, João Guimarães Rosa – um dos meus autores favoritos! -, o texto da autora me fez sentir um acalento no coração. Não quero dizer que eles são escritores com estilos parecidos. O ambiente sertanejo e a sensibilidade ao descrevê-lo foi o que me fez estabelecer uma comparação, mas a linguagem, os pontos de vista, as épocas, são totalmente diversas.

Nos anos 1970, quando Maria chega ao sertão nordestino, seu objetivo é trabalhar como alfabetizadora num recanto do mundo onde tudo é difícil: a água é o bem mais essencial; o trabalho é árduo e mal pago; as moradias, simples e sem luxos. A própria escrita é um conhecimento superficial (inútil!) neste ambiente. E no meio de tudo isso, Maria descobre arte, humanidade e a si mesma.

É uma memória muito localizada na região árida do Nordeste brasileiro, mas é ao mesmo tempo bastante universal. A própria protagonista tece relações entre as pessoas e os costumes do sertão com outras viagens que ela fez, para a Argélia e para o México, por exemplo. Somos todos humanos, afinal de contas, com problemas existenciais parecidos.

Além de tudo isso, é uma história que se passa em áreas rurais do país durante a época da ditadura militar brasileira. Essas são regiões praticamente esquecidas em nossos estudos e na literatura atual, predominantemente urbana e centrada no Centro-Sul.

O romance, classificado como obra de ficção, é inspirado na experiência real que Maria Valéria Rezende teve na década de 1970, trabalhando como educadora no sertão pernambucano durante os chamados anos de chumbo. A autora, nascida em Santos (SP), venceu o prêmio Jabuti em 2015 nas categorias romance e melhor livro de ficção, pelo livro Quarenta dias. Pelo que vi em Outros cantos, o prêmio foi absolutamente merecido. Amei muito a escrita da autora e suas abordagens, já é candidata a autora favorita.

O período militar é citado mais ao final do livro, e vemos que a protagonista está inserida num contexto de resistência, mas de maneira muito mais sutil que as resistências que costumamos estudar na escola (guerrilhas, movimentos populares, textos de artistas), tanto pelas condições do local e da população tratados, quanto pela natureza do oficio exercido por Maria. É mais um tipo de experiência e olhar a que temos acesso através da Literatura.

Livro excelente, leitura recomendadíssima!

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+ info:

Outros cantos / Maria Valéria Rezende.
Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
146 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Padrão
2016, Hedra, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Descobrindo o Islã no Brasil

Descobrindo o Islã no Brasil, de Karla Lima

 “As derradeiras revelações chegaram à humanidade em um ambiente populoso, barulhento e empoeirado. A Arábia Saudita ainda não se chamava assim e mal passava de uma conjunção de rotas comerciais rodeada de tribos inimigas por todos os lados quando, em Hijaz, no ano 570, nasceu o homem que, atualmente, dá nome a mais meninos do que qualquer outro no mundo. Muhammad e derivações como Mohamed, Ahmad e Mahmud não são campeões de popularidade apenas nos países de maioria muçulmana: ocupam o terceiro lugar na Inglaterra e são os mais comuns em recém-nascidos em Bruxelas e Amsterdã. Maomé, versão brasileira, é ‘errado e inaceitável’, ensina um folheto do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina. O profeta é Muhammad – Muhammad bin Abdullah. A vida não foi fácil para o pequeno Muhammad.” (p. 26)

A autora Karla Lima entrou em contato comigo pelo Instagram do Redemunhando ( @redemunhando ) e perguntou se eu gostaria de recebê-lo para resenhar. Como o tema me interessa muito, e já tinha ouvido falar bem do livro, aceitei a proposta. E não me arrependi.

Lima é jornalista e se propôs a desvendar as culturas islâmicas presentes na cidade de São Paulo e seus arredores. Ela até fez uma experiência de vestir o véu por uma semana e realizar seus afazeres comuns, tais como ir fazer compras, abastecer o carro, trabalhar. O objetivo era sentir na pele como uma muçulmana era tratada na cidade, perceber as reações das pessoas a esse hábito feminino muçulmano, experiência que ela relata rapidamente na introdução do livro.

Além da introdução e de uma bibliografia no final, que inclui livros, filmes e websites, o livro se divide em seis partes: Nascimento, onde a autora trata do surgimento do Islã; Infância, que fala sobre a difusão do Islã e como vivem as crianças que são criadas dentro da religião muçulmana; Adolescência, sobre a difusão do Islã e o estabelecimento de algumas doutrinas, além de mostrar as mudanças na cobrança com relação às regras religiosas por que passam os muçulmanos e as muçulmanas a partir da puberdade; Maioridade, sobre os pilares da religião; Morte, parte interessante que discute a associação comum, porém normalmente equivocada, do Islã com a violência; e Renascimento, um balanço crítico de méritos e falhas dos muçulmanos na visão da autora.

Como se pode ver, o livro mescla a história do Islã e suas regras gerais (doutrinas, hábitos) a histórias individuais. Ou seja, assim como a religião, o livro traz aspectos públicos e privados que são tratados pelo Islã. O que está no Alcorão, e como as pessoas e alguns países interpretam isso. Por exemplo, após explicar o significado do uso obrigatório do véu para mulheres e a necessidade do jejum durante um mês por ano dentro das regras da religião, por meio de entrevistas, temos acesso a diversas visões sobre o Islã: mulheres que usam o véu ou hijab e mulheres que escolhem não usá-lo (e não se sentem menos religiosas por isso); pessoas que realizam o jejum no mês do Ramadã, e pessoas que não o fazem.

As entrevistas revelam muitos pontos de vista diferentes sobre o Islã, justamente porque são feitas com pessoas extremamente diferentes: homens, mulheres, adolescentes; xeiques, seguidores e convertidos (ou “revertidos”) à religião; sunitas e xiitas; brasileiros, sírios, libaneses, egípcios, sauditas, palestinos.

As questões ligadas ao feminino me chamaram muito a atenção: a vestimenta como uma proteção contra a lascívia masculina, afinal de contas, representa submissão ou liberdade? O estudo e a profissão, trabalhar fora de casa, casamento… que tipo de atitudes são consideradas “adequadas” ou “desejáveis” dentro da religião? Para essas questões também existe uma variação de opiniões entre os fiéis. Aspectos ligados à propriedade pertencer a mulheres, à satisfação sexual feminina, ao divórcio, e à utilização de métodos contraceptivos são aceitos e garantidos pela religião, que são pontos que valorizam as mulheres.

Como acompanhamos o processo de pesquisa, a autora apresenta seus pontos de vista o tempo todo, em primeira pessoa, criticando posições, questionando os entrevistados, e de vez em quando, se entrevê uma ponta de ironia. Na última parte do livro, ela tece uma crítica contundente e bastante pessoal sobre a atitude dos muçulmanos frente à unilateralidade midiática (o problema de a mídia só apresentar os muçulmanos como violentos). Para mim, o tom irônico às vezes era bem-vindo, e às vezes soou como um pouco incisivo.

A escrita do livro, bastante acessível, pode parecer um pouco desorganizada para alguns leitores, embora não tenha me incomodado – aliás, achei uma maneira interessante e dinâmica de apresentar o tema. Essa mescla entre público e privado está entremeada pelo relato do processo de pesquisa e montagem do livro: é como se acompanhássemos Karla Lima em suas visitas, impressões, entrevistas, nas estatísticas e processos históricos que ela nos apresenta, e em análises de preceitos e leis islâmicos.

Livro altamente recomendado para quem quer aprender mais sobre o Islã, sobre diversos pontos de vista dentro da religião, ou simplesmente para quem é curioso em relação ao tema.


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 + info:
Descobrindo o Islã no Brasil / Karla Lima.
– São Paulo: Hedra, 2016.
189 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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