2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Contos, Ficção, Resenha

Obra completa de Murilo Rubião

Obra completa, de Murilo Rubião

 “[…] Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
(p. 21)

Murilo Rubião (1916-1991) nasceu no interior de Minas Gerais. Funcionário público, jornalista, formado em Direito, e escritor, sua obra literária compõe-se de mais de 30 contos. 33 deles estão reunidos neste volume da Companhia de Bolso. Ele é considerado um dos precursores da literatura fantástica no Brasil.

De fato, seus contos apresentam elementos fantásticos muito acentuados (eu diria absurdos), mas que devem ser considerados “normais” dentro da história. Ou seja, o autor parte de uma situação obviamente irreal, mas que deve ser tratada como verossímil dentro daquele universo – como um coelho que muda seu formato quando quer (canguru, cavalo, pulga); ou dragões falantes; ou uma mulher que engorda indefinidamente à medida que seus desejos intermináveis são satisfeitos. Mas essas situações servem para despertar no leitor reflexões sobre aspectos mais profundos da alma humana, como a busca por identidade, a incompreensão do outro, a empatia, a memória, entre outros. Em comum, verifica-se a impotência dos personagens e, muitas vezes, o abandono por eles sofrido.

Foi uma leitura boa, apesar de incômoda. Fiquei perturbada por não conseguir racionalizar muitos aspectos da obra, e por não obter todas as explicações que esperava em praticamente todos os contos. Ou seja, um dos pontos positivos da leitura foi me conhecer ainda melhor como leitora (meus amigos Edmar e Carmem apontaram que devo ser uma pessoa muito racional. Eu tento, de fato. Mas acho que mais procuro racionalidade e lógica nas coisas do que sou racional). Costumo gostar de finais abertos, mas realmente acredito que a falta de algumas explicações prejudicaram minha impressão final sobre os contos. Se Rubião queria provocar o leitor, atingiu seu objetivo comigo. Em alguns momentos, fiquei até irritada. O autor tem ótimas ideias e sua escrita é muito clara. Porém, na minha opinião, há algumas falhas de execução, que são justamente essa falta de explicações (geralmente, de coisas pequenas, e não do grande problema apresentado pelo conto, mas sem as quais fiquei com uma sensação de incompletude).

Uma das coisas de que mais gostei foram as epígrafes dos contos. A epígrafe serve para resumir o conteúdo de um texto, e isso acontece de maneira límpida e precisa nestes textos. A maioria delas é retirada da Bíblia (e todos os contos reunidos de Rubião têm epígrafes) e tem tudo a ver com a história contada. Foi agradável terminar de ler um conto e voltar para reler a epígrafe, constatando que ela se encaixava perfeitamente.

Os contos do início da edição da Companhia de Bolso apresentam mais acentuadamente o elemento fantástico; do meio para o final, a fantasia fica mais sutil. Gostei mais dos contos do final. Meus favoritos foram: O ex-mágico da Taberna Minhota (um trecho dele está transcrito no início do post), A cidadeOfélia, meu cachimbo e o marA flor de vidroO edifícioMemórias do contabilista Pedro InácioBruma (a estrela vermelha)O homem do boné cinzentoA noiva da casa azulPetúniaOs comensais. Este, o último conto da coletânea, me parece que sintetiza os elementos principais da obra do autor, mas de maneira mais fina e madura que os outros. (Até que tive muitos favoritos para quem não gostou tanto. Porém, ter gostado de alguns não significa que os compreendi completamente. Acho que de nenhum conto entendi 100%.) Mas sem sombra de dúvidas, meu favorito foi Aglaia, sobre um casal que não consegue parar de ter filhos, apesar de tentarem todos os métodos contraceptivos – inclusive não ter contato sexual. Os partos se multiplicam, o número de filhos, idem, e o tempo de gestação se encurta cada vez mais. Um conto agoniante e que trata de uma situação tipicamente feminina (também trazendo a visão masculina), inclusive da problemática do aborto.

É muito possível traçar paralelos entre a escrita de Rubião e a de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Gabriel García Márquez. Os traços borgianos, em minha visão, foram as questões de eternidade e infinitude (um prédio com número infinito de andares do conto O edifício, por exemplo); os kafkianos, ficam expressos em contos que tratam de burocracias, como A filaA cidadeA diáspora; e a aproximação com García Márquez está no tom fatalista de não se poder escapar do destino, presente em diversos contos.

Esta edição apresenta uma introdução chamada Vida e obra de Murilo Rubião, com informações interessantes; e ao final, tem-se uma cronologia relacionada ao autor e à sua escrita. Senti um pouco de falta de saber em que ano os contos foram escritos e publicados, pois gostaria de ver se percebo algum tipo de amadurecimento na obra, apesar de os aspectos gerais se repetirem. Mas acredito que isso não foi incluído na edição pois o autor costumava reescrever seus contos com muita frequência, dessa forma sendo difícil estabelecer a data certa de criação da história (ou, ao menos, de sua versão final).

Fiz esta leitura conjuntamente com os amigos Giovanni do blog Metacrônica, e Carmem Lúcia, do blog O que vi do mundo. Debatemos bastante os contos, e certamente a maioria das impressões e conclusões aqui apresentadas não teriam acontecido – ou não tão claramente – sem eles. Obrigada!

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+ info:

Obra completa / Murilo Rubião.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
227 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
 FACIL

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