2016, Ficção, Galera Júnior, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Parceria, Resenha

George

George, de Alex Gino

George (1)

“George pegou uma edição de abril que já tinha visto incontáveis vezes. Folheou pelas páginas com um flip-flip-flip seco que fez o papel soltar um leve aroma.
Ela parou em uma foto de quatro garotas na praia. Elas estavam em fila, vestidas com roupas de banho, cada uma fazendo uma pose. Um guia na lateral direita da página recomendava os vários estilos baseados no tipo de corpo. Aos olhos de George, todos os corpos pareciam iguais. Eram corpos de garotas.
Na página seguinte, duas meninas estavam sentadas em uma toalha, rindo, com os braços nos ombros uma da outra. Uma estava usando um biquíni listrado; a outra, um maiô de bolinhas, cavado nos quadris.
Se George estivesse lá, ela se encaixaria na cena, rindo e juntando os braços com os delas. Usaria um biquíni rosa-choque e teria cabelo comprido, no qual as novas amigas adorariam fazer tranças. Elas perguntariam o nome dela, e ela diria: 
meu nome é Melissa. Melissa era como ela se chamava no espelho, quando ninguém estava olhando e ela podia pentear o cabelo castanho liso para a frente, como se tivesse uma franja.” (pp. 8-9)

George é um livro infanto-juvenil que tem uma protagonista diferente das comuns: ela é uma menina que tem corpo de menino. Vivendo sua pré-adolescência sem ter consciência exata do que se passa com seu corpo e seus sentimentos – como qualquer adolescente -, ela ainda tem que lidar com a esmagadora sensação de não se encaixar no padrão esperado, de não se adequar às expectativas da sociedade à sua volta (inclusive de família e amigos, que não sabem pelo que ela está passando). Certo dia, a turma deve encenar uma peça na escola. George resolve tentar interpretar um papel considerado feminino, o da aranha Charlotte.

O livro é claramente direcionado ao público juvenil, o que é perceptível pela sua linguagem mais simples e direta, e pela maneira como a narrativa é contada. É interessante ver como Alex Gino trata George desde o início pelo pronome “ela”, o que já direciona a leitura para tornar mais clara a maneira como a personagem se enxerga. É um belo exercício de empatia proposto ao leitor. (Aliás, a título de curiosidade, @ autor@ gosta de ser chamad@ pelo pronome “they”, em inglês, que não indica gênero. Inclusive, em seu website, pede para que não se utilize pronome masculino ou feminino para se referir a el@. Peço desculpas pelos @, mas foi a única maneira que encontrei – em português – de respeitar o pedido.)

O que mais chama atenção no livro é, de fato, a protagonista, muito delicada em suas percepções. Mas os personagens que mais me cativaram foram Kelly, a melhor amiga de George, e Scott, irmão mais velho da protagonista. Eles ajudam o leitor a compreender a importância da família e dos amigos em momentos de crise, como eles podem funcionar como uma espécie de âncora emocional, um apoio mesmo, sem o qual a pessoa se desestabilizaria.

Gostaria de ressaltar apenas um ponto que achei exagerado ao longo da narrativa. Me pareceu que alguns estereótipos de gênero – notadamente o feminino – foram reforçados. Como se todas as coisas de que George gostasse fossem consideradas necessariamente femininas: jogo de amarelinha e pular corda, a ideia de que meninas quando querem se arrumar usam saias, etc. Sei que não é a tônica do livro – e provavelmente, nem a intenção de Gino -, mas achei que valia a pena mencionar este aspecto.

É uma obra que traz os temas de gênero, relações pessoais (amizades, familiares), conflitos internos e questões identitárias. Da forma mais suave possível, a questão dos transgêneros é tratada como deve ser: algo normal e digno de respeito. Certamente é uma história que revela o quanto a diversidade humana pode ser rica para a convivência de todos. Recomendado para todos, mas acho que um público pré-adolescente vá gostar mais.

Pedi o livro para o Grupo Editorial Record de parceria, já que precisava ler um livro com temática LGBT para O Grande Desafio do Culto Booktuber deste mês.

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+ info:

George / Alex Gino; tradução Regiane Winarski.
Rio de Janeiro: Galera Júnior, 2016.
142 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2 comentários sobre “George

  1. Nossa, achei muito lega a proposta do livro de mostrar uma criança/pré-adolescente transgênero. Confesso que nunca li nada com essa temática, embora goste muito de livros LGBT. Essa capa me lembra o Google hahahha, tem alguma alusão a isso na história? Agora fiquei bem curiosa, mesmo sendo voltado para um publico mais novo. Amei sua resenha! Muito clara e bem argumentada.
    Beijos!

    • Ô Lívia, muito obrigada pelo comentário, fiquei super feliz! ❤
      Eu adorei também a proposta do livro; a diversidade humana é algo que deve ser mostrado e pensado sempre. Fico pensando em pessoas que querem proibir obras desse tipo. De que adianta "esconder" ou tentar mascarar situações super comuns na sociedade? Tem que botar as crianças (e ainda mais os adultos) para refletirem sim! 🙂
      Hahahahaha agora que vc falou do Google, até que faz sentido! Mas no livro não tem nenhuma referência a isso. Acho que tem mais a ver com o colorido do arco-íris mesmo.
      Beijos!
      Nati

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