2016, Ficção, Rádio Londres, Resenha

Butcher’s Crossing

Butcher’s Crossing, de John Williams

Butchers Crossing

“Contemplando a terra plana e vazia junto com a qual ele parecia fluir e com a qual parecia fundir-se, mesmo ficando imóvel em pé, ele se deu conta de que a caçada para a qual contratara Miller era apenas um estratagema, um truque para enganar a si mesmo, uma forma de enfraquecer seus hábitos mais arraigados. Não fora nenhum negócio que o atraíra até ali, ou até o lugar aonde estava prestes a ir; viera por livre e espontânea vontade. Ele estava livre sobre a planície, no horizonte ocidental, que parecia estender-se sem interrupção até o sol poente, e não podia acreditar que ali existiam cidades e vilas grandes o bastante para distraí-lo de seu objetivo. Sentia que, a essa altura, onde quer que morasse, tanto agora quanto no futuro, se afastaria cada vez mais da cidade para se retrair na natureza selvagem.” (p. 59)

Butcher’s Crossing foi uma leitura que se entranhou na minha lista de leituras. Chegou de repente, sem aviso. Já tinha ouvido falar de John Williams (principalmente do romance Stoner), mas não tinha a intenção de lê-lo – pelo menos não por agora. Mas Butcher´s Crossing foi o livro escolhido para a discussão dO Espanador do mês de agosto, e resolvi encarar. Fui sem saber praticamente nada sobre o livro.

O livro se passa nos Estados Unidos no século XIX. O protagonista, Will Andrews, é um homem de 23 anos que larga sua graduação em Direito em Harvard, sua família e sua vida confortável, para ir em busca de sabe-se lá o quê. Aventura, natureza, significado. Chega a Butcher’s Crossing, um vilarejo no Kansas. Cenas de “velho oeste” norte-americano: na cidadezinha só existe um hotel para os forasteiros, um saloon, uma barbearia, e muita poeira. Este povoado sobrevive principalmente graças ao comércio de peles de búfalo, e Andrews decide arriscar-se numa caçada perigosa. Ele contrata outros três homens: Miller, que será o chefe da empreitada por sua larga experiência em caçadas de búfalos; Charley Hoge, que será o principal responsável por conduzir a carroça com os bois e por cuidar da parte “doméstica” (mantimentos, abrigo, etc.); e Schneider, especialista em esfolamento dos búfalos.

Cada um dos quatro tem um motivo diferente para ir à caçada: Miller quer realizar o sonho de conduzir uma grande caçada; Hoge vai por amizade e lealdade; Schneider, por dinheiro; e Andrews busca entendimento e sua própria identidade. O ideal de Will Andrews empresta ao texto um ar mais existencial no meio de tantas descrições de coisas externas, o que dá um belo equilíbrio ao texto.

A caçada se realiza em uma verdadeira marcha para o Oeste: os quatro vão até as inóspitas montanhas Rochosas do Colorado em busca das enormes manadas de búfalos ainda intocadas. O grupo passa por agruras que são verdadeiros testes de sobrevivência e de humanidade: calor, sede, frio, cansaço extremo, isolamento. Em determinados momentos, sentimos que os personagens quase se fundem ao ambiente, começam a fazer parte intrínseca dele – especialmente Miller. Chegamos ao ponto de enxergar a animalização do grupo de seres humanos.

A narrativa tem um ritmo perfeito para o período em que se passa, o que é uma das características que mais admiro num livro. Ou seja, as coisas não se sucedem rapidamente, ou com pressa. Isso não significa que a história fica chata; no meu caso, foi importante poder saborear cada momento. Foi um livro que li aos pouquinhos; toda noite, degustava um capítulo ou menos, e isso me deu muito prazer.

Apesar de possuir um estilo mais direto e objetivo, como costuma acontecer com literaturas de língua inglesa, Williams é descritivo – principalmente com relação a ambientes. Tal habilidade, juntamente com os diálogos entre personagens, me fizeram sentir assistindo a um filme do estilo western. É impossível não imaginar as cenas descritas com muita precisão, dá para dizer que a escrita do autor é cinematográfica.

No final, o livro dá uma guinada no ritmo e no destino das coisas – li as últimas 70 páginas de uma tacada só. Ainda não decidi se gostei muito dessa mudança; mas o que é certo é que o livro é altamente recomendável, e uma experiência de leitura sensacional!

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+ info:

Butcher´s Crossing / John Williams; tradução de Alexandre Barbosa de Souza.
Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2016.
332 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “Butcher’s Crossing

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