2016, Companhia das Letras, Ficção, Resenha, Todo Saramago

Manual de pintura e caligrafia

Manual de pintura e caligrafia, de José Saramago

 “[…] e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos, em vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (Interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração e o cérebro de S.: as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.” (p. 12)

Este ano, resolvi retomar toda a obra de José Saramago – claro que não TODA A OBRA no mesmo ano -, um dos meus escritores favoritos (sinto-me tentada a escrever meu escritor favorito). Achei que o melhor critério seria cronológico: lê-lo desde as primeiras publicações, em direção às últimas. E também pretendo reler as obras que já li, pois estou com saudade. Pensei na hashtag #TodoSaramago , pode ser? 🙂 Só um problema: o primeiro livro dele, chamado Terra do pecado (1947), não foi publicado no Brasil. Ok, #QuaseTodoSaramago então… Resolvi lê-lo agora por motivos de… ROLETA RUSSA (veja o vídeo abaixo para entender):

Manual de pintura e caligrafia saiu pela primeira vez em Portugal em 1977. É narrado por um pintor, daqueles acadêmicos, que são contratados para pintar retratos a óleo, posados. O livro se inicia quando o pintor entra numa crise e resolve escrever para tentar organizar as ideias tendo por instrumento outra arte, além da pintura. Ele começa incomodado com a figura que está pintando, um homem a quem ele chama de S. Tudo que nosso pintor (que se autodenomina H.) quer é entender S. Tanto que, além do quadro oficial e do exercício de escrita, resolve pintar um segundo retrato de S., um quadro secreto, às escondidas. Uma espécie de traição do pintor ao retratado, segredo mesmo.

Aos poucos, vamos conhecendo também um pouco dos relacionamentos de H., algumas de suas viagens a cidades italianas (que ele conta em capítulos que chama de exercícios de autobiografia em forma de narrativa de viagem), e muitas, muitas reflexões. Aliás, para o autor, “tudo é biografia”. Há quem diga que o livro possui traços de autobiografia do próprio Saramago.

O que mais salta aos olhos neste livro é a metalinguagem: o tempo todo, o narrador se volta para analisar e discorrer sobre o ato da escrita – ou caligrafia. Além disso, não faltam reflexões sobre arte (a quem pertence a obra? Ao autor? Ao público? Ao contratante? A todos eles? A nenhum?). Questões de identidade permeiam todo o texto: dúvidas sobre não saber o que se está fazendo – dúvidas sobre a qualidade de seu próprio trabalho -, desencontros com outros e consigo mesmo, distorções de imagem e autoimagem, vaidade e amizade. Até pinceladas de política e pano de fundo autoritário em Portugal existem.

Tudo muito complexo e profundo.  É um livro excelente, cheio daquelas frases – e parágrafos intermináveis! – impactantes de Saramago (marquei muita coisa ao longo do texto, e costumo ser bem controlada quanto a isto). Porém, não possui uma história empolgante que “puxe” o leitor. Quero dizer que, na minha experiência de leitura, eu realmente me animava com o livro apenas quando já o estava lendo. É um livro mais reflexivo que “aventuresco”, não possui um enredo forte – e nem é esta a intenção, acredito. E, ainda assim, achei o final muito bonito. Não tem como não sair transformado de um texto de Saramago.

O estilo que conhecemos do autor já estava presente nesta sua segunda obra publicada; e suas reflexões características também aparecem com frequência. Eu adoro a escrita do autor, então não tenho do que reclamar. É um livro excelente, mas não necessariamente empolgante. Não recomendo para quem quer começar a ler José Saramago; mas quem se interessa por um texto mais profundo, pode gostar.

Clique aqui para comprar Manual de pintura e caligrafia pela Amazon
Clique aqui para comprar qualquer livro ou dispositivo pela Amazon
(Comprando por estes links, você gera uma comissão para o Redemunhando)

 + info:
Manual de pintura e caligrafia / José Saramago.
– São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
277 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

4 comentários sobre “Manual de pintura e caligrafia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s