2016, Companhia de Bolso, História, Leia Mulheres, Não ficção, Resenha

Vozes de Tchernóbil

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

“Você vive como uma pessoa normal. Uma pessoa comum. Assim, como todo mundo à sua volta: vai ao trabalho e volta para casa. Recebe um salário médio. Uma vez por ano, você sai de férias. Você tem mulher. Filhos. É uma pessoa normal! E de repente, de um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. Um animal raro! Uma coisa que interessa a todo mundo, mas que ninguém conhece. Você quer ser como todas as pessoas, mas isso não é mais possível. Não há como voltar ao mundo anterior. Você passa a ser olhado de forma diferente. As pessoas lhe perguntam: ‘Lá foi tão terrível assim? Como foi o incêndio da central? O que você viu?’. Ou, por exemplo: ‘Você pode ter filhos? A sua mulher o abandonou?’. Nos primeiros tempos, todos nós nos tornamos raridades em exposição. A própria expressão ‘homem de Tchernóbil’  até hoje funciona como sinal acústico. Todos giram a cabeça na sua direção. ‘Você é de lá!'” (Monólogo sobre toda uma vida escrita nas portas, depoimento de Nikolai Fomítch Kalúguin, um pai, pp. 65-66)

Svetlana Aeksiévitch é uma escritora nascida em 1948 na Ucrânia e criada na Bielorrússia. Ela foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2015, que é dado pelo conjunto da obra, e lhe foi concedido “pela sua escrita polifônica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”. Ela é uma das únicas vencedoras do Nobel de Literatura a escreverem não-ficção (junto com outros 4 escritores), o que reflete sua formação jornalística. Segundo a Wikipedia, o escritor bielorrusso Ales Adamovich costuma dizer que ela alavancou um novo gênero literário, que ele chamou de  “novela coletiva”, “novela-oratório”, “novela-evidência”, “gente dançando com lobos” ou “coro épico”.

O livro em questão, Vozes de Tchernóbil, é o primeiro da autora traduzido e publicado no Brasil, e trata justamente do desastre nuclear ocorrido na cidade de Tchernóbil (ou Chernobyl) em 1986, pela voz de diversos depoimentos – daí os termos que evocam coletividade em sua obra. É realmente um coro, uma compilação de vozes de pessoas que, de alguma maneira, foram vítimas do acidente nuclear de Tchernóbil. No dia 26 de abril de 1986, houve uma explosão e um grande incêndio na Usina Nuclear de Tchernóbil, que lançaram uma enorme quantidade de radioatividade nas regiões ao redor. A Rússia teve 0,5% de seu território contaminado; a Ucrânia, 4,8%; a Bielorrússia sofreu contaminação de 70% de seu território pelas partículas radioativas – todos esses países eram parte da União Soviética. Mais de 400 aldeias da Bielorrússia (quase 500) foram abandonadas e até enterradas. Apesar disso, 20% da população desse país vive em território contaminado. Todas essas informações são fornecidas no início do livro.

Aleksiévitch pouco escreve textos próprios ao longo do livro, por isso é difícil falar de seu estilo como escritora lendo apenas esta obra. É claro que o estilo transparece nas transcrições, na seleção de depoimentos e na escolha da ordem em que eles são apresentados, mas não da mesma maneira que o estilo de um autor de ficção. Ressalta-se seu brilhante trabalho de coleta e transcrição de todos esses depoimentos; as pessoas de Tchernóbil, apesar de se sentirem o centro das atenções em diversas ocasiões (como fica claro no trecho inicial do post), também se sentem invisibilizadas, negligenciadas e rejeitadas. A autora enxergou além e realmente deu voz a esses seres, que em muitos casos vivem de maneira isolada em suas antigas aldeias radioativas.

Mas existem, sim, momentos do livro que foram escritos por ela: A título de epílogo, que traz o discurso de Aleksiévitch na ocasião do recebimento do Nobel (e ali, há trechos belamente escritos do seu diário) e a Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo. Nesse texto, ela defende a ideia de que o desastre nuclear em questão foi uma verdadeira quebra no tempo, um ponto de inflexão, e um enigma incompreensível. Para a autora, Tchernóbil foi o marco de uma nova era, no sentido de nos apresentar uma nova dimensão de catástrofe, nos levar a repensar os limites de conceitos como civilização e progresso; é o passado que interfere diretamente no futuro. Trata-se de uma visão muito lúcida e consciente da enormidade da situação. Transcrevo mais um trecho, que deixa claras algumas intenções de Aleksiévitch ao escrever:

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária de pessoas comuns. Aqui, no entanto, nada é ordinário: nem as circunstâncias nem as pessoas que, obrigada pelas circunstâncias, colonizaram esse novo espaço, vindo a assumir uma nova condição. Tchernóbil para elas não é uma metáfora ou um símbolo, mas a sua casa. Quantas vezes a arte ensaiou o Apocalipse, experimentou diversas versões tecnológicas do fim do mundo, mas agora sabemos com certeza que a vida é mais fantástica ainda.” (p. 40)

O foco de Svetlana é nas pessoas, em oposição a grande parte dos documentários e matérias já realizados sobre o tema, que têm seu enfoque principal da natureza não-humana, altamente contaminada pelos próximos (milhares de) anos.

Porém, existem pessoas que residem nas redondezas, recebendo as doses de radioatividade da região, e absorvendo ainda mais ao beber água, comer alimentos ali cultivados, beber leite de animais de Tchernóbil. O que leva alguém a ficar numa zona nuclearmente perigosa? As respostas são muito humanas: a maioria daquelas pessoas não quer sair do seu lugar. O sentimento de pertencimento é fortíssimo ao longo das falas dos entrevistados, e também a sensação de que não se encaixam em nenhum outro lugar. Essas pessoas tendem a ser idosas, que viveram ali durante muitos anos e não querem abrir mão de seu modo de vida. A Bielorrússia é um país essencialmente agrário, e muitas dessas pessoas são camponesas. A radiação, invisível e inodora – e onipresente -, parece uma ficção, uma invenção das autoridades, para quem ali vive. Embora eles reconheçam que há mortes em decorrência disso, não concebem recomeçar a vida em outro lugar. Vivem por ali, isolados e em situação de solidão.

Em se tratando de uma história oral do desastre nuclear, o que há em profusão são lembranças, ou memórias. Discursos de testemunhas do evento. Por vezes, os depoimentos são fragmentários e os acontecimentos, narrados ao sabor da memória, sem ordem cronológica ou de qualquer outro tipo. Isso passa a impressão de uma conversa informal com essas pessoas, e muito sensível. A autora divide o livro em três partes, e cada uma dessas partes em monólogos, feitos pelas pessoas entrevistadas (são os depoimentos em si). Temos desde a fala da esposa de um bombeiro que foi ao reator imediatamente após a explosão (obviamente, ele tomou doses letais de radiação), até um deputado bielorrusso que foi visitar a área após o desastre; passando por cientistas, pais, crianças e soldados que tiveram um grande envolvimento emocional e físico com a cidade de Tchernóbil no decorrer dos acontecimentos.

Além do tema principal, tocam-se em assuntos que se repetem com frequência nas falas: guerra (guerras civis, Segunda Guerra Mundial, guerra do Afeganistão), questões de identidade e alteridade, nacionalidade, etnia, humanidade, política (é possível apreender um pouco da realidade soviética na segunda metade do século XX). Impressiona nos relatos a consciência que se tem da fragilidade da vida humana e a impotência em relação a situações dessa dimensão. É revoltante também os usos políticos do desastre, ao invés de proteger o máximo possível as vidas ali presentes.

Quando ouvi falar pela primeira vez neste livro (logo que a autora venceu o Nobel), fiquei imaginando como deveria ser. A leitura foi exatamente o que eu esperava. Pela variedade de depoimentos, pelo formato, e principalmente pela importância de dar voz a essas pessoas, em geral tão discriminadas, a obra de Svetlana é, de fato, fundamental. Recomendo muito a leitura – mas prepare-se, pois as falas são muito intensas. Trata-se de um exercício em que refletimos sobre o que nos faz humanos; quais são os limites para nossas ambições; e como lidamos com a morte e o sofrimento.

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+ info:

Vozes de Tchernóbil / Svetlana Aleksiévitch; tradução Sonia Branco.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
383 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “Vozes de Tchernóbil

    • Obrigadaaa, Menchikos!!!
      Fiquei orgulhosa dela também! 😀
      Olha, o combo descontínuo não foi proposital, mas aconteceu… hahahahaha! Achei que ficaria meio confuso, mas até que funcionou! 🙂
      Beijooo, obrigada pela presença de sempre! ❤
      Nati

  1. Andréa Karla Menezes Pires disse:

    Nati, parabéns mesmo pela resenha. Você conseguiu passar parte das emoções que você, enquanto leitora atenta, sentiu. O título já apresenta o que se propõe, mas nem de longe sabemos que a sensibilidade da autora, jornalista, e que poderia friamente relatar estas vozes, seja tão intensa. Ela foi muito além, como você pontuou. Por meio das falas, ela transcedeu às letras e deu vozes de gritos à essas pessoas. Sofridas pelo”sensasionalismo” de alguns escritores, jornalistas ou curiosos; pelo descaso do governo (já que tem outros interesses) e pela própria exposição da tragédia em si.
    Nas entrelinhas, muito provavelmente por fazer parte da sua história, viu nestas vozes a manifestação da sua própria. Foi o inconformismo que a levou a mostrar ao mundo o ainda escondido lado humano deste caos. O mais importante, inclusive. Sua contribuição foi notável e espero muito que reflexões sejam realizadas além dos discursos. Tornar-se mais humano o ser humano.
    Bjos.

    • Muito obrigada, Déa!
      Este foi um caso em que preferi a resenha por escrito ao vídeo.
      Vc falou bem, a questão do sensacionalismo dói muito nessas pessoas. Elas reiteram o tempo todo que aquele é o lar delas, sua vida inteira e de suas famílias – ainda mais considerando que muitas delas são pessoas idosas e do campo. Não conhecem nem imaginam outra vida para si.
      Beijooo, amei seu comentário! ❤
      Nati

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