2016, Civilização Brasileira, História, Não ficção, Parceria, Resenha

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, de Mario Luis Grangeia

Brasil (1)

No mês de julho, tive uma enorme meta literária, já que participei da Maratona Literária de Inverno #MLI2016 . Sabendo que além de todas essas leituras, ainda viajaria, apresentaria o TCC, e precisaria voltar para minha cidade a tempo de preparar aulas, resolvi pedir livros de tamanho menor, mas que ainda assim, me fossem de grande interesse. Entre os disponibilizados para parceiros do Grupo Editorial Record, acabei escolhendo dois de não-ficção, e que certamente me acrescentaram demais em termos de reflexão e bagagem cultural.

Os professores de História sabem que os temas mais sangrentos são alguns dos favoritos de serem estudados pelos alunos (como Holocausto e ditadura militar). E, à medida em que a História vai ficando mais próxima de nós, ainda mais instigadora fica, pois nos diz respeito diretamente. Já fiz a experiência de levar músicas para a sala de aula, e Cazuza e Renato Russo fizeram parte dela. Foi um sucesso! Levando em conta essa experiência, achei que esta obra de Mario Luis Grangeia poderia ser de grande apoio teórico para aproximar ainda mais os alunos do conteúdo do final da ditadura militar no país, o período da chamada “transição democrática”.

O Brasil atravessou um período de regime militar, em que os principais cargos do poder Executivo da União eram exercidos por militares. Do golpe, em 1964, até a eleição do primeiro presidente civil, em 1985, foram 21 anos de ditadura, em que direitos políticos foram cerceados da população. A censura aos meios de comunicação é um dos mais conhecidos, o qual atingiu a muitos artistas e programas de rádio, jornais e televisão. Além da censura oficial, havia também a perseguição de opositores ao regime, os quais eram chamados de “subversivos” e perseguidos, presos, torturados, exilados, “desaparecidos”.

Nos anos 1980, o regime já não se sustentava, em decorrência de crise econômica (índices de inflação crescentes) e aumento da pressão por uma abertura política por parte da sociedade civil. Nessa década, vivemos o período chamado de “transição democrática” no Brasil, anos de idas e vindas em direção à democracia e de retorno a atitudes autoritárias. Diferentemente dos países vizinhos da América Latina, a passagem de um governo autoritário para um governo democrático no nosso país foi mais contínuo, sem rupturas bruscas. Tratou-se de um processo gradual e lento, daí a adoção de medidas democráticas, mas pontuadas pela manutenção ou pelo recrudescimento de medidas autoritárias.

O livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática trata justamente desse período conturbado e de como esses dois artistas perceberam todas as mudanças e continuidades que o país vinha sofrendo. A via oposta também é verdadeira: Cazuza e Renato não só foram influenciados pelo contexto, como também influenciaram significativamente toda uma geração (não só uma!) de jovens com suas canções a respeito de autoritarismo, vida íntima, liberdade, revolta, questionamento e reflexão.

Além de uma apresentação, em que o autor explica a origem do livro e do que ele trata, e o primeiro capítulo introdutório, o texto ainda está dividido em 5 partes temáticas: Autoritarismo: aversão ao regime militarPatriotismo: exaltação e indignação convivemIdeologia: oscilação da esperança ao desencantoDesigualdades: renda concentrada e outras disparidades; e Orientação sexual: homossexualidade sem tabu. A obra também conta com um capítulo final chamado Crônicas do Brasil de ontem e hoje, posfácio, agradecimentos, uma linha do tempo com acontecimentos selecionados das vidas de Cazuza e Renato Russo, bibliografia e discografia.

Trabalho muito bem feito, Grangeia conseguiu transformar um texto acadêmico em obra acessível ao público leigo. De linguagem fluida, o autor parte das letras de Cazuza e Renato Russo para analisá-las à luz do momento político e social vivido à época. Um dos aspectos mais bacanas do livro é o entrelaçamento das letras com entrevistas que os cantores deram a jornais, revistas e televisão. Fugindo um pouco das especulações sobre o significado de cada verso, Grangeia consegue ir buscar quais foram as interpretações dos próprios autores das músicas.

É curioso que algumas músicas tratadas no livro tenham demorado quase 10 anos para serem gravadas e divulgadas, e ainda assim, continuavam fazendo sentido no contexto brasileiro (caso de Que país é este, escrita em 1978, mas que só estourou nas rádios em 1987). Era de se esperar que a situação melhorasse, mas é o tipo de letra que se encaixa como uma luva à nossa realidade ainda hoje. Nota-se não só nas músicas tratadas, mas também nas décadas de 1980 e início de 1990 como um todo, essa oscilação entre extremo desânimo pela situação e otimismo esperançoso pelas mudanças tão aguardadas – que nem sempre vieram, ou vieram, mas não com tantos benefícios.

Realmente, não me enganei quanto ao propósito do livro. É um material interessantíssimo para se pensar o contexto político dos anos 1980 no Brasil, muito possível de ser utilizado em sala de aula – muito atrativo também! -, e confiável em termos de pesquisa. Também recomendado para fãs de Cazuza, Barão Vermelho, Renato Russo, Aborto Elétrico e Legião Urbana!

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+ info:

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática / Mario Luis Grangeia.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
175 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática

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