2016, Companhia das Letras, Ficção, Resenha, Todo Saramago

Manual de pintura e caligrafia

Manual de pintura e caligrafia, de José Saramago

 “[…] e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos, em vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (Interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração e o cérebro de S.: as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.” (p. 12)

Este ano, resolvi retomar toda a obra de José Saramago – claro que não TODA A OBRA no mesmo ano -, um dos meus escritores favoritos (sinto-me tentada a escrever meu escritor favorito). Achei que o melhor critério seria cronológico: lê-lo desde as primeiras publicações, em direção às últimas. E também pretendo reler as obras que já li, pois estou com saudade. Pensei na hashtag #TodoSaramago , pode ser? 🙂 Só um problema: o primeiro livro dele, chamado Terra do pecado (1947), não foi publicado no Brasil. Ok, #QuaseTodoSaramago então… Resolvi lê-lo agora por motivos de… ROLETA RUSSA (veja o vídeo abaixo para entender):

Manual de pintura e caligrafia saiu pela primeira vez em Portugal em 1977. É narrado por um pintor, daqueles acadêmicos, que são contratados para pintar retratos a óleo, posados. O livro se inicia quando o pintor entra numa crise e resolve escrever para tentar organizar as ideias tendo por instrumento outra arte, além da pintura. Ele começa incomodado com a figura que está pintando, um homem a quem ele chama de S. Tudo que nosso pintor (que se autodenomina H.) quer é entender S. Tanto que, além do quadro oficial e do exercício de escrita, resolve pintar um segundo retrato de S., um quadro secreto, às escondidas. Uma espécie de traição do pintor ao retratado, segredo mesmo.

Aos poucos, vamos conhecendo também um pouco dos relacionamentos de H., algumas de suas viagens a cidades italianas (que ele conta em capítulos que chama de exercícios de autobiografia em forma de narrativa de viagem), e muitas, muitas reflexões. Aliás, para o autor, “tudo é biografia”. Há quem diga que o livro possui traços de autobiografia do próprio Saramago.

O que mais salta aos olhos neste livro é a metalinguagem: o tempo todo, o narrador se volta para analisar e discorrer sobre o ato da escrita – ou caligrafia. Além disso, não faltam reflexões sobre arte (a quem pertence a obra? Ao autor? Ao público? Ao contratante? A todos eles? A nenhum?). Questões de identidade permeiam todo o texto: dúvidas sobre não saber o que se está fazendo – dúvidas sobre a qualidade de seu próprio trabalho -, desencontros com outros e consigo mesmo, distorções de imagem e autoimagem, vaidade e amizade. Até pinceladas de política e pano de fundo autoritário em Portugal existem.

Tudo muito complexo e profundo.  É um livro excelente, cheio daquelas frases – e parágrafos intermináveis! – impactantes de Saramago (marquei muita coisa ao longo do texto, e costumo ser bem controlada quanto a isto). Porém, não possui uma história empolgante que “puxe” o leitor. Quero dizer que, na minha experiência de leitura, eu realmente me animava com o livro apenas quando já o estava lendo. É um livro mais reflexivo que “aventuresco”, não possui um enredo forte – e nem é esta a intenção, acredito. E, ainda assim, achei o final muito bonito. Não tem como não sair transformado de um texto de Saramago.

O estilo que conhecemos do autor já estava presente nesta sua segunda obra publicada; e suas reflexões características também aparecem com frequência. Eu adoro a escrita do autor, então não tenho do que reclamar. É um livro excelente, mas não necessariamente empolgante. Não recomendo para quem quer começar a ler José Saramago; mas quem se interessa por um texto mais profundo, pode gostar.

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 + info:
Manual de pintura e caligrafia / José Saramago.
– São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
277 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2016, Cultura em letras, História, Não ficção, Parceria, Resenha

A era dos mortos-vivos

A era dos mortos-vivos: zumbis, mito, modernidade, de Eliel Barberino

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“Alteridade é o conceito que melhor define a análise que faremos dos mortos-vivos. Ao buscar entendê-los, na verdade estaremos numa busca de nós mesmos. Ao fazermos um exame dos temas que os zumbis nos apresentam, creio que você perceberá que os zumbis somos nós, eu e você. Que o medo que temos dessas criaturas é um medo sublimado de nós mesmos e dessa civilização que criamos. Que o levante dos mortos-vivos contra toda a ordem social é apenas a sublimação inconsciente de nossa revolta contra um mundo que perdeu a graça.” (p. 10)

O autor Eliel Barberino entrou em contato comigo pela página do Redemunhando no Facebook. No princípio, fiquei um pouco receosa por ser um livro de zumbis (sou covarde para temas de terror), mas quando vi que tratava-se de uma história dos zumbis, ou seja, da origem desses personagens, definitivamente fiquei interessada.

Barberino é um entusiasta dos zumbis e estudou Filosofia. Resolveu unir as duas atividades neste livro de não-ficção, que está dividido em introdução, duas partes teóricas, epílogo, agradecimentos e bibliografia. As partes I e II do livro são bastante diferentes: a primeira, chamada O surgimento do fenômeno, trata das origens do zumbi como monstro; e a segunda, O zumbi como crítica da modernidade, analisa alguns aspectos da contemporaneidade para conectá-las com a mitologia dos mortos-vivos.

A parte I pende mais para uma análise histórica, e contextualiza toda a epidemia – com o perdão do trocadilho – de popularidade dos zumbis: jogos, filmes, séries, livros. Esta parte é deliciosa de ler. Certamente um dos momentos que mais gostei foi o exame sobre os monstros “típicos” de cada tempo (bruxas, vampiros, Frankenstein, etc.), pois cada um deles reflete os medos mais intrínsecos com os quais cada uma das comunidades lida naquele momento. O zumbi representa o nosso medo da morte, mas também da decadência e da impotência. Por ser um monstro secularizado (corporificado, e não sobrenatural), possui um grande apelo à realidade atual.

Quanto às origens das lendas de mortos-vivos, Barberino as busca na cultura pop, na história europeia, haitiana e também nas obras do cineasta George Romero, que criou o zumbi (e também o apocalipse zumbi!) da maneira como conhecemos hoje. Preciso ressaltar que achei geniais as relações da crença vodu no morto-vivo com a escravidão colonial nas Américas.

Na segunda parte, mais filosófica, o texto muda de tom. Aí, o autor propõe reflexões sobre as representações e simbologias que o zumbi evoca, além de uma forte crítica à modernidade. Apesar de muito interessante, fiquei com a impressão de uma pessoalidade muito grande na argumentação: o autor critica diversas posições filosóficas das quais discorda (por exemplo, posturas materialistas/empiristas/naturalistas “radicais”, relativismos) e, com isso, acaba emitindo julgamentos de valor, pessoais, sobre alguns aspectos da modernidade. Parece que tais posições se tornam o objetivo principal dos capítulos, e os zumbis aparecem só pontualmente. E por se tratar de argumentações filosóficas, o texto fica bem mais teórico, o que pode não agradar a alguns leitores, embora não tenha me incomodado.

De qualquer maneira, foi uma leitura extremamente agradável, e fiquei muito empolgada ao ler a primeira parte – inclusive, me deu algumas ideias para a sala de aula. Encontrei um ou outro erro de revisão, mas o livro é curto (tem 116 páginas) e direto, com uma escrita prazerosa. A fonte é de tamanho relativamente grande, o que facilita ainda mais a fluidez da leitura.

A análise dos zumbis e de toda a sua cosmologia como fenômeno cultural e desses personagens como metáforas do século XXI enriquece demais a percepção que temos sobre a realidade e a “moda” dos zumbis em todas as mídias. Além disso, ao propor um exercício de identidade e alteridade, Barberino nos provoca a pensarmos também sobre nós mesmos, a morte e nossos medos. Recomendadíssimo para quem se interessa pelo tema!

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+ info:

A era dos mortos vivos / Eliel Barberino.
Rio de Janeiro: Cultura em Letras Edições, 2016.
116 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Vozes de Tchernóbil

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

“Você vive como uma pessoa normal. Uma pessoa comum. Assim, como todo mundo à sua volta: vai ao trabalho e volta para casa. Recebe um salário médio. Uma vez por ano, você sai de férias. Você tem mulher. Filhos. É uma pessoa normal! E de repente, de um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. Um animal raro! Uma coisa que interessa a todo mundo, mas que ninguém conhece. Você quer ser como todas as pessoas, mas isso não é mais possível. Não há como voltar ao mundo anterior. Você passa a ser olhado de forma diferente. As pessoas lhe perguntam: ‘Lá foi tão terrível assim? Como foi o incêndio da central? O que você viu?’. Ou, por exemplo: ‘Você pode ter filhos? A sua mulher o abandonou?’. Nos primeiros tempos, todos nós nos tornamos raridades em exposição. A própria expressão ‘homem de Tchernóbil’  até hoje funciona como sinal acústico. Todos giram a cabeça na sua direção. ‘Você é de lá!'” (Monólogo sobre toda uma vida escrita nas portas, depoimento de Nikolai Fomítch Kalúguin, um pai, pp. 65-66)

Svetlana Aeksiévitch é uma escritora nascida em 1948 na Ucrânia e criada na Bielorrússia. Ela foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2015, que é dado pelo conjunto da obra, e lhe foi concedido “pela sua escrita polifônica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”. Ela é uma das únicas vencedoras do Nobel de Literatura a escreverem não-ficção (junto com outros 4 escritores), o que reflete sua formação jornalística. Segundo a Wikipedia, o escritor bielorrusso Ales Adamovich costuma dizer que ela alavancou um novo gênero literário, que ele chamou de  “novela coletiva”, “novela-oratório”, “novela-evidência”, “gente dançando com lobos” ou “coro épico”.

O livro em questão, Vozes de Tchernóbil, é o primeiro da autora traduzido e publicado no Brasil, e trata justamente do desastre nuclear ocorrido na cidade de Tchernóbil (ou Chernobyl) em 1986, pela voz de diversos depoimentos – daí os termos que evocam coletividade em sua obra. É realmente um coro, uma compilação de vozes de pessoas que, de alguma maneira, foram vítimas do acidente nuclear de Tchernóbil. No dia 26 de abril de 1986, houve uma explosão e um grande incêndio na Usina Nuclear de Tchernóbil, que lançaram uma enorme quantidade de radioatividade nas regiões ao redor. A Rússia teve 0,5% de seu território contaminado; a Ucrânia, 4,8%; a Bielorrússia sofreu contaminação de 70% de seu território pelas partículas radioativas – todos esses países eram parte da União Soviética. Mais de 400 aldeias da Bielorrússia (quase 500) foram abandonadas e até enterradas. Apesar disso, 20% da população desse país vive em território contaminado. Todas essas informações são fornecidas no início do livro.

Aleksiévitch pouco escreve textos próprios ao longo do livro, por isso é difícil falar de seu estilo como escritora lendo apenas esta obra. É claro que o estilo transparece nas transcrições, na seleção de depoimentos e na escolha da ordem em que eles são apresentados, mas não da mesma maneira que o estilo de um autor de ficção. Ressalta-se seu brilhante trabalho de coleta e transcrição de todos esses depoimentos; as pessoas de Tchernóbil, apesar de se sentirem o centro das atenções em diversas ocasiões (como fica claro no trecho inicial do post), também se sentem invisibilizadas, negligenciadas e rejeitadas. A autora enxergou além e realmente deu voz a esses seres, que em muitos casos vivem de maneira isolada em suas antigas aldeias radioativas.

Mas existem, sim, momentos do livro que foram escritos por ela: A título de epílogo, que traz o discurso de Aleksiévitch na ocasião do recebimento do Nobel (e ali, há trechos belamente escritos do seu diário) e a Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo. Nesse texto, ela defende a ideia de que o desastre nuclear em questão foi uma verdadeira quebra no tempo, um ponto de inflexão, e um enigma incompreensível. Para a autora, Tchernóbil foi o marco de uma nova era, no sentido de nos apresentar uma nova dimensão de catástrofe, nos levar a repensar os limites de conceitos como civilização e progresso; é o passado que interfere diretamente no futuro. Trata-se de uma visão muito lúcida e consciente da enormidade da situação. Transcrevo mais um trecho, que deixa claras algumas intenções de Aleksiévitch ao escrever:

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária de pessoas comuns. Aqui, no entanto, nada é ordinário: nem as circunstâncias nem as pessoas que, obrigada pelas circunstâncias, colonizaram esse novo espaço, vindo a assumir uma nova condição. Tchernóbil para elas não é uma metáfora ou um símbolo, mas a sua casa. Quantas vezes a arte ensaiou o Apocalipse, experimentou diversas versões tecnológicas do fim do mundo, mas agora sabemos com certeza que a vida é mais fantástica ainda.” (p. 40)

O foco de Svetlana é nas pessoas, em oposição a grande parte dos documentários e matérias já realizados sobre o tema, que têm seu enfoque principal da natureza não-humana, altamente contaminada pelos próximos (milhares de) anos.

Porém, existem pessoas que residem nas redondezas, recebendo as doses de radioatividade da região, e absorvendo ainda mais ao beber água, comer alimentos ali cultivados, beber leite de animais de Tchernóbil. O que leva alguém a ficar numa zona nuclearmente perigosa? As respostas são muito humanas: a maioria daquelas pessoas não quer sair do seu lugar. O sentimento de pertencimento é fortíssimo ao longo das falas dos entrevistados, e também a sensação de que não se encaixam em nenhum outro lugar. Essas pessoas tendem a ser idosas, que viveram ali durante muitos anos e não querem abrir mão de seu modo de vida. A Bielorrússia é um país essencialmente agrário, e muitas dessas pessoas são camponesas. A radiação, invisível e inodora – e onipresente -, parece uma ficção, uma invenção das autoridades, para quem ali vive. Embora eles reconheçam que há mortes em decorrência disso, não concebem recomeçar a vida em outro lugar. Vivem por ali, isolados e em situação de solidão.

Em se tratando de uma história oral do desastre nuclear, o que há em profusão são lembranças, ou memórias. Discursos de testemunhas do evento. Por vezes, os depoimentos são fragmentários e os acontecimentos, narrados ao sabor da memória, sem ordem cronológica ou de qualquer outro tipo. Isso passa a impressão de uma conversa informal com essas pessoas, e muito sensível. A autora divide o livro em três partes, e cada uma dessas partes em monólogos, feitos pelas pessoas entrevistadas (são os depoimentos em si). Temos desde a fala da esposa de um bombeiro que foi ao reator imediatamente após a explosão (obviamente, ele tomou doses letais de radiação), até um deputado bielorrusso que foi visitar a área após o desastre; passando por cientistas, pais, crianças e soldados que tiveram um grande envolvimento emocional e físico com a cidade de Tchernóbil no decorrer dos acontecimentos.

Além do tema principal, tocam-se em assuntos que se repetem com frequência nas falas: guerra (guerras civis, Segunda Guerra Mundial, guerra do Afeganistão), questões de identidade e alteridade, nacionalidade, etnia, humanidade, política (é possível apreender um pouco da realidade soviética na segunda metade do século XX). Impressiona nos relatos a consciência que se tem da fragilidade da vida humana e a impotência em relação a situações dessa dimensão. É revoltante também os usos políticos do desastre, ao invés de proteger o máximo possível as vidas ali presentes.

Quando ouvi falar pela primeira vez neste livro (logo que a autora venceu o Nobel), fiquei imaginando como deveria ser. A leitura foi exatamente o que eu esperava. Pela variedade de depoimentos, pelo formato, e principalmente pela importância de dar voz a essas pessoas, em geral tão discriminadas, a obra de Svetlana é, de fato, fundamental. Recomendo muito a leitura – mas prepare-se, pois as falas são muito intensas. Trata-se de um exercício em que refletimos sobre o que nos faz humanos; quais são os limites para nossas ambições; e como lidamos com a morte e o sofrimento.

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+ info:

Vozes de Tchernóbil / Svetlana Aleksiévitch; tradução Sonia Branco.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
383 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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A tortura como arma de guerra

A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado, de Leneide Duarte-Plon

Tortura Como Arte de Guerra (1)

“Foi a doutrina francesa que serviu de alicerce ao edifício teórico que elaborou a tese do inimigo interno e redesenhou a Doutrina de Segurança Nacional. Segundo essa teoria militar, o adversário a ser combatido é o inimigo interno, representado por comunistas, intelectuais, operários, camponeses, líderes sindicais, estudantes e artistas, simpatizantes de ideias consideradas subversivas. Para lutar contra o inimigo interno, os militares criaram a Lei de Segurança Nacional (LSN).
[…]
As principais vítimas das ditaduras que foram se implantando na América do Sul eram, pois, membros do Partido Comunista (PC), de partidos de esquerda e até mesmo teólogos da Libertação. […]
O primado dos serviços de informação, o controle das populações civis, os interrogatórios ‘coercitivos’ em centros clandestinos, o uso do soro da verdade, os desaparecimentos forçados de opositores, os esquadrões da morte, as execuções sumárias e a prática de jogar de um avião os ‘subversivos’ ou ‘terroristas’ são elementos da prática da doutrina francesa de ‘guerra contrarrevolucionária’, o antídoto para a ‘guerra revolucionária’.” (pp. 37-38)

Conforme expliquei no post sobre o livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, em julho escolhi esses dois livros porque me parecem temas extremamente relevantes, e também interessantes para a reflexão e, inclusive, para serem levados para a sala de aula. São temas que me interessam profissionalmente falando, e é importante que os professores se mantenham (nos mantenhamos) atualizados a respeito das novidades – não só em termos de notícias, mas também no que se refere a trabalhos acadêmicos mais recentes. Requisitei ao Grupo Editorial Record o livro A tortura como arma de guerra justamente com este intuito.

Leneide Duarte-Plon é uma jornalista brasileira que reside atualmente na França. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2015 com o livro Um homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar (Civilização Brasileira), que escreveu em coautoria com Clarisse Meireles.

No livro A tortura como arma de guerra, Duarte-Plon parte de entrevistas com o general francês Paul Aussaresses, responsável pela utilização de tortura como arma de combate contra os independentistas na Argélia (país que, até o ano de 1962 era colônia francesa). Tais entrevistas lhe forneceram material para analisar como a tortura é admitida e até considerada um método aceitável de “manutenção da ordem” ou “combate ao terrorismo” em determinados momentos da História, e inclusive por Estados considerados desenvolvidos, como a França.

Obviamente, não se pretende dizer que o exército francês inventou a tortura, já praticada há tempos por diversas pessoas e instituições. O mais impressionante é imaginar que o Estado francês, considerado o baluarte dos direitos humanos, tenha praticado tortura como arma de guerra, como método de guerra recomendado e aprovado pelas autoridades. Mais do que isso, esse tipo de informação só veio à tona no ano de 2001, quando o general Aussaresses publicou um livro detalhando os métodos cruéis de combate dos militares franceses na Argélia nas décadas de 1950 e 1960. Até então, a França acreditava já ter resolvido o assunto do que eles chamavam de “acontecimentos da Argélia” – que nada mais eram que a Guerra de Independência (1964-1962).

O livro desperta reflexões sobre o fazer historiográfico e a memória oficial. Considerando, por exemplo, que o próprio reconhecimento de que os “acontecimentos” foram, em realidade, uma guerra contra a independência argelina, é possível refletirmos sobre o porquê de se tratar uma guerra como simples acontecimentos. O que muda quando mudamos essas (aparentemente) simples palavras? Percebemos que os aspectos simbólicos da memória são fundamentais para a política de uma nação, para entender como e porquê as coisas estão como estão. Um passado autoritário que não é bem resolvido cria rachaduras profundas no presente “democrático”.

Além de todos esses pontos importantíssimos, Duarte-Plon ainda revela, através de pesquisas documentais, que o general Aussaresses participou ativamente do treinamento de militares norte-americanos e latinoamericanos – inclusive brasileiros – na “escola francesa” ou “doutrina francesa”, que nada mais são que os métodos de tortura utilizados na Argélia com fins de repressão a guerrilhas rurais e urbanas. O general chamava isso de “guerra contrarrevolucionária”. Tais métodos, nas ditaduras militares latino-americanas, foram utilizados também na “caça” ao “inimigo interno”: pessoas de esquerda, como professores, artistas, políticos, operários, estudantes. Ele esteve no Brasil entre 1973 e 1975 e possuía estreitos laços de amizade com João Batista Figueiredo (entre outros figurões militares brasileiros), general presidente durante a ditadura.

O livro está dividido em duas partes, sendo que a primeira trata de como a “doutrina francesa” foi ensinada para militares de toda a América na década de 1960 e influenciou nas ditaduras militares latinoamericanas; e a segunda, mostra as entrevistas da autora com o general Aussaresses, realizadas em 2008 (ele faleceu em 2013), e entrevistas e depoimentos de outras pessoas interessantes ao caso. O livro conta com um prefácio extremamente lúcido de Vladimir Safatle, que fala sobre a importância de um país encarar seu passado violento de forma aberta e clara, a fim de realmente resolver tais situações. O paralelo o Brasil é evidente, já que, a tendência de “varrer para baixo do tapete” aspectos de um passado que nos envergonha parece ser a mais forte. A falta de elaboração dessas incômodas questões históricas no nível simbólico leva à emergência de situações reais, tais como pedidos pela volta da ditadura nas ruas, e manifestações pela “caça aos comunistas” num momento em que o Comunismo não é mais um horizonte possível.

Definitivamente, minhas partes favoritas foram o prefácio e a primeira parte, em que Duarte-Plon tece um panorama da ditadura brasileira em particular, e das latinoamericanas em geral, cruzando as informações dadas pelo general Ausseresses com relatórios militares da época e outras entrevistas. Existem, ao final, notas que esclarecem as fontes das informações. Depois de verificar tudo isso, fica impossível negar que houve, sim, torturas durante o regime militar.

Livro importante para se entender mais um aspecto da ditadura militar brasileira, e para se refletir sobre questões de direitos humanos. Recomendo demais!

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+ info:

A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil: como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado / Leneide Duarte-Plon.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
294 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática

Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, de Mario Luis Grangeia

Brasil (1)

No mês de julho, tive uma enorme meta literária, já que participei da Maratona Literária de Inverno #MLI2016 . Sabendo que além de todas essas leituras, ainda viajaria, apresentaria o TCC, e precisaria voltar para minha cidade a tempo de preparar aulas, resolvi pedir livros de tamanho menor, mas que ainda assim, me fossem de grande interesse. Entre os disponibilizados para parceiros do Grupo Editorial Record, acabei escolhendo dois de não-ficção, e que certamente me acrescentaram demais em termos de reflexão e bagagem cultural.

Os professores de História sabem que os temas mais sangrentos são alguns dos favoritos de serem estudados pelos alunos (como Holocausto e ditadura militar). E, à medida em que a História vai ficando mais próxima de nós, ainda mais instigadora fica, pois nos diz respeito diretamente. Já fiz a experiência de levar músicas para a sala de aula, e Cazuza e Renato Russo fizeram parte dela. Foi um sucesso! Levando em conta essa experiência, achei que esta obra de Mario Luis Grangeia poderia ser de grande apoio teórico para aproximar ainda mais os alunos do conteúdo do final da ditadura militar no país, o período da chamada “transição democrática”.

O Brasil atravessou um período de regime militar, em que os principais cargos do poder Executivo da União eram exercidos por militares. Do golpe, em 1964, até a eleição do primeiro presidente civil, em 1985, foram 21 anos de ditadura, em que direitos políticos foram cerceados da população. A censura aos meios de comunicação é um dos mais conhecidos, o qual atingiu a muitos artistas e programas de rádio, jornais e televisão. Além da censura oficial, havia também a perseguição de opositores ao regime, os quais eram chamados de “subversivos” e perseguidos, presos, torturados, exilados, “desaparecidos”.

Nos anos 1980, o regime já não se sustentava, em decorrência de crise econômica (índices de inflação crescentes) e aumento da pressão por uma abertura política por parte da sociedade civil. Nessa década, vivemos o período chamado de “transição democrática” no Brasil, anos de idas e vindas em direção à democracia e de retorno a atitudes autoritárias. Diferentemente dos países vizinhos da América Latina, a passagem de um governo autoritário para um governo democrático no nosso país foi mais contínuo, sem rupturas bruscas. Tratou-se de um processo gradual e lento, daí a adoção de medidas democráticas, mas pontuadas pela manutenção ou pelo recrudescimento de medidas autoritárias.

O livro Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática trata justamente desse período conturbado e de como esses dois artistas perceberam todas as mudanças e continuidades que o país vinha sofrendo. A via oposta também é verdadeira: Cazuza e Renato não só foram influenciados pelo contexto, como também influenciaram significativamente toda uma geração (não só uma!) de jovens com suas canções a respeito de autoritarismo, vida íntima, liberdade, revolta, questionamento e reflexão.

Além de uma apresentação, em que o autor explica a origem do livro e do que ele trata, e o primeiro capítulo introdutório, o texto ainda está dividido em 5 partes temáticas: Autoritarismo: aversão ao regime militarPatriotismo: exaltação e indignação convivemIdeologia: oscilação da esperança ao desencantoDesigualdades: renda concentrada e outras disparidades; e Orientação sexual: homossexualidade sem tabu. A obra também conta com um capítulo final chamado Crônicas do Brasil de ontem e hoje, posfácio, agradecimentos, uma linha do tempo com acontecimentos selecionados das vidas de Cazuza e Renato Russo, bibliografia e discografia.

Trabalho muito bem feito, Grangeia conseguiu transformar um texto acadêmico em obra acessível ao público leigo. De linguagem fluida, o autor parte das letras de Cazuza e Renato Russo para analisá-las à luz do momento político e social vivido à época. Um dos aspectos mais bacanas do livro é o entrelaçamento das letras com entrevistas que os cantores deram a jornais, revistas e televisão. Fugindo um pouco das especulações sobre o significado de cada verso, Grangeia consegue ir buscar quais foram as interpretações dos próprios autores das músicas.

É curioso que algumas músicas tratadas no livro tenham demorado quase 10 anos para serem gravadas e divulgadas, e ainda assim, continuavam fazendo sentido no contexto brasileiro (caso de Que país é este, escrita em 1978, mas que só estourou nas rádios em 1987). Era de se esperar que a situação melhorasse, mas é o tipo de letra que se encaixa como uma luva à nossa realidade ainda hoje. Nota-se não só nas músicas tratadas, mas também nas décadas de 1980 e início de 1990 como um todo, essa oscilação entre extremo desânimo pela situação e otimismo esperançoso pelas mudanças tão aguardadas – que nem sempre vieram, ou vieram, mas não com tantos benefícios.

Realmente, não me enganei quanto ao propósito do livro. É um material interessantíssimo para se pensar o contexto político dos anos 1980 no Brasil, muito possível de ser utilizado em sala de aula – muito atrativo também! -, e confiável em termos de pesquisa. Também recomendado para fãs de Cazuza, Barão Vermelho, Renato Russo, Aborto Elétrico e Legião Urbana!

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Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática / Mario Luis Grangeia.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
175 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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