2016, Memórias, Não ficção, Parceria, Resenha, Verus

O acerto de contas de uma mãe

O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine, de Sue Klebold

O Acerto de Contas de Uma Mãe (2)

“No dia 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold se armaram com pistolas e explosivos e entraram na Escola de Ensino Médio de Columbine. Eles mataram doze alunos e um professor e feriram outros vinte e quatro, antes de tirar a própria vida. Foi o pior tiroteio em uma escola de que se teve notícia até então.
Dylan Klebold era meu filho.” (p. 19)

Não sabia que trecho escolher para colocar no início do post. Qualquer parágrafo que eu escolhesse, aleatoriamente, serviria. Acabei escolhendo os dois primeiros parágrafos do prefácio, bastante autoexplicativos. Sue Klebold, a autora de O acerto de contas de uma mãe, é mãe de um dos atiradores da escola de Columbine. Este livro é um relato, uma tentativa de organizar os pensamentos e reflexões de Sue diante do suicídio de seu filho e da imensa dor que causou a outros. Mais do que isso, a autora tem a preocupação constante ao longo do texto de tentar alertar os leitores (especialmente aqueles que são pais e mães) para a aparente normalidade nas vidas de seus filhos. Ela não notou nenhum sinal de depressão ou intolerância por parte de Dylan antes do massacre.

Como explica Andrew Solomon em sua brilhante introdução (aliás, agora quero muito ler as coisas que ele escreve), é comum que, diante de supostos defeitos dos filhos, culpemos os pais (por negligência, superproteção, abuso e violência). Mas o que pensar quando o filho não apresenta nenhum indício de distúrbio, comportamento violento ou estranho – ou quando os pais não o notam, por se parecerem com o comportamento comum de um adolescente?

O livro é, obviamente – como qualquer texto -, um discurso; neste caso, da mãe de Dylan. É visível o amor que ela tem por ele, apesar de sua grande incompreensão pelo ato cruel perpetrado pelo seu filho. Os pontos mais destacados e repetidos ao longo das reflexões de Sue são sua desorientação inicial e negação da possibilidade de que seu filho pudesse ter deliberadamente machucado alguém; seu pesar pelas vítimas e pelos seus familiares; sua sensação de impotência, solidão e dor desmesuradas diante de toda a situação; sua vontade de buscar vestígios de ações ou falas do filho que pudessem ter revelado minimamente seus propósitos. Inevitavelmente, notam-se um pouco de vergonha e de culpa pelo que aconteceu, por mais que ela já tenha entendido que algumas coisas estavam fora de seu controle e não houvesse responsabilidade dela no massacre.

Sinto que apenas o trecho que coloquei no início do post não dá conta de mostrar o estilo da autora. Para mostrar um pouco mais do tom do livro, escolhi outros parágrafos que demonstram bem o estado de desespero, vazio e impotência, que cercaram Sue nos dias imediatamente após o ataque:

“Eu estava ávida para evitar a verdade completa sobre o grau de envolvimento de Dylan, mas a negação total que me isolou naqueles primeiros dias não era sustentável. A magnitude e a severidade do ataque recaíam sobre mim a cada manchete e a cada ligação de nosso advogado, sufocando-me novamente a cada vez. Além dos quinze que morreram, vinte e quatro indivíduos estavam hospitalizados por causa dos ferimentos. A situação dos adolescentes gravemente feridos era atualizada constantemente. Se eles sobrevivessem, provavelmente teriam sequelas permanentes. Eu passara a última metade de minha carreira trabalhando com estudantes com deficiência, então sabia muito bem o que aquilo significava.
Minha mente revirava. Como poderia não haver uma maneira de pressionar um botão de reset, para viver as últimas semanas da vida de Dylan de novo, para mudar o resultado daquela vida, para evitar o que acontecera?.” (p. 58)

O livro está dividido em duas partes: As últimas pessoas no mundo, em que Sue conta detalhadamente suas lembranças e impressões no dia do tiroteio na escola e nos meses subsequentes, além de rememorar momentos, episódios e características da personalidade de Dylan em sua infância e adolescência; e Rumo ao entendimento, em que conecta sua experiência a dados mais técnicos e científicos a respeito de depressão, suicídio, bullying.

Como não pode deixar de ser, por sua temática e pelo enorme envolvimento emocional da autora, o livro é pesado – atrapalhou meu sono durante alguns dias. Mas claramente é um relato importante – não só pelo seu objetivo de alerta -, mas por dar voz a uma personagem muito próxima da tragédia de Columbine, uma pessoa considerada vilã e culpada por muitos. Sue Klebold foi extremamente corajosa ao publicar sua narrativa. E eu agradeço a ela por ter tido essa coragem, e pelo Grupo Editorial Record pela oportunidade de lê-lo (recebi o livro de parceria). O que não significa que as coisas que ela diz no livro mudem nossa opinião sobre o massacre ter sido absurdamente cruel e sobre o fato de Dylan Klebold ser absolutamente responsável por seus atos. Sue está envolvida na tragédia até o último fio de cabelo, e de certa maneira, foi mais uma vítima de Dylan e Eric. Por isso, nunca deve-se perder de vista que o texto dela é um discurso longe de ser neutro.

A linguagem é muito direta, e a ideia de Sue Klebold foi descrever detalhadamente o que passava pela sua cabeça e quais eram suas impressões e sensações desde o momento em que soube que havia algo errado na escola do filho. Além do texto em si, o livro traz algumas fotos em preto-e-branco da infância e da adolescência de Dylan, agradecimentos da autora, notas explicativas (ela cita algumas pesquisas científicas ao longo do texto, e elas estão devidamente referenciadas no final do livro), recursos (organizações que podem ajudar em casos de depressão, pensamentos suicidas, etc.) e índice remissivo – além da já citada ótima introdução feita por Andrew Solomon.

A obra pode criar uma certa “paranoia”, pois Sue descreve diversos sintomas comuns a pessoas com depressão e com pensamentos suicidas, mas que podem facilmente ser confundidos com comportamento comum de adolescentes: irritabilidade e isolamento, por exemplo. São coisas que enxergamos o tempo todo à nossa volta. Porém, tal nível de alerta ao leitor é compreensível, dada a situação por que a autora passou. Ela prefere que as pessoas pequem por excesso de zelo do que pela falta, como ela própria reconhece que fez.

Além de tudo, o livro levanta considerações interessantes sobre a mídia, o papel que é atribuído à mulher (e à mãe especificamente), o acesso facilitado a armas. São assuntos tratados de forma secundária, mas que definitivamente estão presentes ao longo do texto e valem a reflexão. A leitura foi uma verdadeira tijolada, mas acima de tudo, uma bela e corajosa maneira de divulgar alguns dados importantes sobre diversos temas, e uma possibilidade de ouvirmos a voz de alguém em geral considerada culpada sem direito de defesa. Recomendadíssimo para quem tem estômago para esse tipo de relato.

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+ info:

O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine / Sue Klebold; tradução Ana Paula Doherty.
Campinas: Verus, 2016.
299 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “O acerto de contas de uma mãe

    • Mereceu combo dessa vez, né, Menchikos?! 🙂 Esse tipo de livro acho que tem que ser divulgado, pelo tipo de voz que ele permite que se expresse.
      Que boooooom que vc vai participar, boa sorte!!! 😀
      Beijos, obrigada por acompanhar sempre!

  1. Ana Lina disse:

    Fiquei muito interessada neste livro pois lido com adolescentes( sou professora) e costumamos culpar as mães principalmente por tudo.Preciso repensar alguns pensamentos para não generalizar mais.Obrigada por ter feito esta resenha.

    • Oii Ana!!! Também sou professora, e precisamos ficar de olho, né? Ainda mais numa tragédia desse tamanho, é muito complicado culparmos os pais (ou apenas eles). Por que será que ninguém mais reparou em algum comportamento estranho?
      O livro foi muito impactante para mim, por todo esse conteúdo e a coragem da mãe de falar de maneira tão objetiva. Vi gente que não gostou, mas para mim, foi uma das melhores leituras do ano.
      Vc está participando do sorteio? 🙂
      Beijos, obrigada pela visita e pelo comentário!
      Nati

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