2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, História, Não ficção, Resenha

Olga

Olga, de Fernando Morais


“- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo duro encostando em sua nuca. Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
– Solte o preso!
[…]
O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala:
– O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. […]
Na hora do almoço, uma edição extra do diário
 Berliner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de ‘ousada cena de faroeste’ ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o ‘assalto comunista’: Olga Benario. (pp. 17-18)

A convite da Lu (Abstração Coletiva) e da Gi (Lendo a Estante), fui participar de um encontro do grupo Leituras Compartilhadas dOs Espanadores, em São Paulo. O livro da vez era Olga, do jornalista Fernando Morais, publicado em 1984.

O livro se pretende uma narrativa fiel de parte da vida da alemã judia e comunista Olga Benario, desde meados dos anos 1920 a meados dos anos 1930. Confesso que a fala inicial do jornalista na apresentação à 1ª edição me deu arrepios como historiadora. Ele diz: “A história que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro: a vida de Olga Benario Prestes […]”. É muito claro que todo documento é discurso – por mais fidedigno que ele se pretenda. Nenhum texto retrata a realidade tal como ela foi, a realidade é irrecuperável. É possível juntar peças de quebra-cabeças, confrontar diferentes testemunhos, tentar reconstituir os fatos de maneira plausível e o mais complexa possível. Mas relatar fatos exatamente como ocorreram é impossível. Mesmo no trecho que selecionei para o início do post, fica evidente a escolha de palavras de maneira a conduzir o leitor para determinado tipo de pensamento: ao qualificar Olga como uma “linda moça”, já se forma uma ideia de surpresa, graças a nossa cultura. Quase que inconscientemente, já nos vem a curiosidade: o que uma moça – e, quem diria, “linda”! – está fazendo com uma arma na mão, voz firme, chefiando uma situação ilegal desse porte? O estranhamento é imediato. E é esse estranhamento que o autor visa produzir quando escolhe precisamente essas palavras.

Fora esse questionamento inicial, considerei o livro uma leitura bastante agradável por sua linguagem, mas não pense que é leve. As temáticas abordadas são pesadíssimas: tortura e perseguição (cheguei a sonhar que estava sendo perseguida!), prisão política, nazismo, ditadura. Devo dizer também que o final não é feliz, para os que não gostam muito desse tipo de história. Olga é comunista, e precisa fugir do governo alemão. Vai para a União Soviética, onde é reconhecida como uma grande agente. Lá, recebe a missão de acompanhar Luis Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, até o Brasil e aqui organizar uma revolução comunista através da tomada de poder.

Narrado em terceira pessoa, Morais buscou uma gama variada de documentos para montar este trecho da biografia de Olga (a infância e sua relação com os pais é citada, mas não aprofundada), tais como: entrevistas, notícias de jornais, fotografias, relatórios policiais – inclusive, segundo ele, muitos somente foram encontrados em território internacional. De linguagem acessível, visualizamos a tensão e o embate direto entre regimes capitalistas, como o governo de Getúlio Vargas no Brasil, e grupos comunistas, como a Aliança Nacional Libertadora – ANL. O grande problema com relação à pesquisa foi a exposição dos fatos e documentos, já que não fica claro de onde o autor retirou várias informações. O livro é romanceado, então é muito comum encontrarmos falas atribuídas a alguns personagens (Olga, principalmente) e que não sabemos de onde Morais tirou. A falta de notas de rodapé indicando de que fonte é alguma citação ou informação é uma falha enorme do livro.

A narrativa destaca uma mulher extremamente forte e determinada. Olga aparece como uma personagem destemida e independente, sempre pronta a lutar pelos seus ideais. É uma verdadeira heroína, o que acaba por torná-la uma personagem plana, sem defeitos, como bem lembrou a Luana Werb durante nossa discussão sobre o livro. Há momentos em que questiona a instituição do casamento, proposto a ela por um ex-namorado também comunista – por outro lado, também colocam-se falas machistas na boca dela (mas sem a devida referência). Segundo o livro, ela era ousada e corria riscos se isso significasse algum tipo de benefício ou vitória para a causa em que acreditava. Outras mulheres também se destacam na narrativa: Lígia e dona Leocádia, respectivamente irmã e mãe de Luís Carlos Prestes, que realizam intensa mobilização e campanha na Europa para libertar Olga; as colegas comunistas de Olga e Prestes – a maioria das quais também é presa e torturada e, ainda assim, resiste.

Uma das cenas que achei mais emocionantes foi quando a polícia de Getúlio Vargas vai buscar Olga, grávida, na prisão a fim de deportá-la para a Alemanha nazista. As presas e os presos resistem de maneira impressionante e muito solidária.

Em suma, como historiadora, não recomendo o livro por falta de rigor no tratamento com a documentação e na exposição das informações. Ou seja, o livro traz muito mais características do gênero ficção do que de biografia, como ele se pretende. Por outro lado, uma vez que consegui fechar os olhos para essas falhas, achei uma leitura agradável.

O filme Olga (2004), dirigido por Jayme Monjardim e estrelado por Camila Morgado no papel principal, foi baseado no livro de Fernando Morais.

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+ info:

Olga / Fernando Morais.
São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
321 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “Olga

    • Sim, um absurdo essa parte! O Morais aparentemente foi membro do Partido Comunista Brasileiro, então era super entusiasta da Olga. A via como uma heroína mesmo. Mas poxa, se vai escrever uma biografia, tenha rigor, né?! E, por favor, não diga que é um retrato da realidade porque nunca vai ser!!! 😛
      Olha, eu vi o filme há bastante tempo, antes de ler o livro. Preciso rever para poder comparar Porém, pelo que me lembro, achei que o filme está bem adaptado em relação ao livro; tem esse ar novelesco de heroísmo dos protagonistas que também tem no livro (até porque é dirigido pelo Monjardim, né?!). Vc já viu o filme?
      Beijoooooooo!

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