2016, Chiado, Crônica, Filosofia, Não ficção, Parceria, Resenha

Perfume de mulher

Perfume de mulher, de Marcelo Pereira Rodrigues

 

“E hoje, sou seleto para ler e apreciar pontos de vistas. Claro que conjugo coerência intelectual, de forma que dispenso os ensaístas que não passam de bonecos de ventríloquo. Como escrevi anteriormente, não me venham com pensamentos de Platão pura e simplesmente. Faço questão de ler na fonte. E antes de propor um livro (este que vocês estão lendo agora), e neste texto específico, quero ser original e escrever sobre coisas que nos afligem diretamente, como o mundo virtual e os amores virtuais (o que é traição virtual e se ela é aceitável), sobre o excesso de tipologias psicológicas e psiquiátricas que somadas a altas doses de medicação dopam o ser humano, sobre o consumismo desenfreado que nos faz cordeirinhos deste grande rebanho, sobre religiões que estupidificam o incauto, sobre o sentido da vida (nascemos para a morte?, como perguntava Sartre), sobre a dor e as sensações, enfim, escrever sobre sentimentos, que é o componente do ser humano em sua plenitude.” (p. 16)

Marcelo Pereira Rodrigues, autor de Perfume de mulher, contatou o Redemunhando pelo Facebook e perguntou se eu estaria interessada em ler algum livro que ele escreveu. Dentre os vários livros de sua autoria (9 estão listados na orelha do livro que recebi, entre romances e coletâneas de crônicas), pedi para que ele me enviasse algum que ele achasse que eu gostaria.

Chegou aqui em casa o Perfume de mulher, coletânea de textos com formatos variados (crônicas, ensaios, artigos), com uma dedicatória cuidadosa e também um exemplar do jornal Conhece-te a ti mesmo, periódico sobre Cultura e Filosofia editado pelo próprio autor há 14 anos. Aliás, MPR, como ele próprio se chama, é filósofo, e isso transparece em vários dos seus textos, inclusive no trecho que selecionei para abrir o post.

A reflexão e a originalidade de pensamento são pontos importantes para o autor, e aparecem em alguns dos escritos: Pensar o próprio pensamentoSer filósofo, por exemplo. Entre comentários críticos sobre leituras, a Internet e as redes sociais, alguns estados de espírito bastante humanos – solidão, sucesso e reconhecimento -, reflexões sobre a leitura e o processo de escrita, MPR aborda uma gama variada de temas. Há textos também sobre a morte e a finitude das coisas, burocracia, aventuras amorosas e desventuras (escatológicas, devo dizer) do autor.

A linguagem do autor é direta e bem fácil de entender, apesar alguns dos temas serem “espiralados” e profundos. A edição é simples  e bem montada: o livro tem orelhas e páginas amareladas, além de uma diagramação confortável para a leitura.

Minhas principais críticas negativas recaem sobre algumas passagens machistas que encontrei ao longo das crônicas. Para dar exemplos, cito as seguintes passagens: em determinado momento, o autor afirma que “Já é sabida e notória a característica verborrágica das mulheres” (p. 103), em outro, ao relatar que deu uns beijos numa desconhecida no ônibus, diz que “Uma senhora na poltrona ao lado acordou e tossiu, tipo um alerta para os atentados à moral e aos bons costumes. Era feia. Estava explicado!” (p. 100). A reprodução de estereótipos (“mulher fala muito”) e de ideias irrelevantes e, muitas vezes, errôneas, para o caso narrado (“mulher feia, portanto mal-amada, portanto invejosa da sexualidade alheia”) me incomodaram. Foram apenas pequenos pontos dentro das histórias, mas gritantes o suficiente para me chamarem a atenção.

De qualquer maneira, gostei da escrita objetiva do autor, da dedicatória que ele me fez (agradeço muito!), e principalmente dos textos iniciais, bastante reflexivos. O tom cotidiano, por vezes bem humorado, típico das crônicas, também sempre me agrada. Fui surpreendida com as reflexões de MPR, mesmo que não tenha concordado com todas as suas afirmações. Afinal, nada mais filosófico do que provocar em si mesmo e no outro (no caso, em mim, a leitora) a reflexão.

A dedicatória do livro é para o “espírito” da cachorrinha Baleia, do livro Vidas secas, de Graciliano Ramos. Como não abrir um sorriso?

Para encomendar o livro, envie um e-mail para o autor: nosmpr@hotmail.com

+ info:

Perfume de mulher / Marcelo Pereira Rodrigues.
Lisboa: Chiado Editora, 2015.
148 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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6 comentários sobre “Perfume de mulher

  1. Mylene disse:

    Me pareceu interessante o livro. Fiquei feliz com uma resenha para lá de sincera. Mostrar que há passagens que ainda nos expõe sob o ponto de vista “deles”, é muito positivo. Nos faz refletir sobre coisas e idéias pré-concebitas que muitas vezes passam despercebidas. Mas dito isto, fiquei curiosa a respeito da obra do autor.

  2. Andréa Karla disse:

    Nati, tbm não achei a capa feliz. Sei que teve um propósito p o título, mas pela capa nunca imaginei que se tratasse de questões tão reflexivas.
    Os argumentos que vc expõe p justificar o machismo encontrado no livro são bem fortes. Incomodam mesmo.
    Caso tenha oportunidade, lerei. Só não acho que vou gostar.
    Quando li Robinson Crusoé, há muitos anos, fiquei passada quando este avistou índios brasileiros e afirmou que eles eram de um “amarelecido nojento”. Quase parei a leitura…rs
    Hoje sei que precisamos aguçar o olhar p retirar o que é relevante. Analisar os discursos, propriamente.
    Bjos, Déa.

    • Oiii Déa! Realmente, a capa não dá a ideia dos textos que o livro traz, parece mais um romance romântico (ou erótico), né?
      Nossaaa, esse dos índios de um amarelecido nojento é um absurdo, hein?! Eu também ficaria com o estômago revirado…
      O caso do machismo no livro é menos escancarado, mas nem por isso incomoda menos… são pontos com os quais precisamos tomar cuidado sempre.
      Beijooooo, muito obrigada por visitar o blog e comentar! ❤
      Nati

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