2016, Memórias, Não ficção, Parceria, Resenha, Verus

O acerto de contas de uma mãe

O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine, de Sue Klebold

O Acerto de Contas de Uma Mãe (2)

“No dia 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold se armaram com pistolas e explosivos e entraram na Escola de Ensino Médio de Columbine. Eles mataram doze alunos e um professor e feriram outros vinte e quatro, antes de tirar a própria vida. Foi o pior tiroteio em uma escola de que se teve notícia até então.
Dylan Klebold era meu filho.” (p. 19)

Não sabia que trecho escolher para colocar no início do post. Qualquer parágrafo que eu escolhesse, aleatoriamente, serviria. Acabei escolhendo os dois primeiros parágrafos do prefácio, bastante autoexplicativos. Sue Klebold, a autora de O acerto de contas de uma mãe, é mãe de um dos atiradores da escola de Columbine. Este livro é um relato, uma tentativa de organizar os pensamentos e reflexões de Sue diante do suicídio de seu filho e da imensa dor que causou a outros. Mais do que isso, a autora tem a preocupação constante ao longo do texto de tentar alertar os leitores (especialmente aqueles que são pais e mães) para a aparente normalidade nas vidas de seus filhos. Ela não notou nenhum sinal de depressão ou intolerância por parte de Dylan antes do massacre.

Como explica Andrew Solomon em sua brilhante introdução (aliás, agora quero muito ler as coisas que ele escreve), é comum que, diante de supostos defeitos dos filhos, culpemos os pais (por negligência, superproteção, abuso e violência). Mas o que pensar quando o filho não apresenta nenhum indício de distúrbio, comportamento violento ou estranho – ou quando os pais não o notam, por se parecerem com o comportamento comum de um adolescente?

O livro é, obviamente – como qualquer texto -, um discurso; neste caso, da mãe de Dylan. É visível o amor que ela tem por ele, apesar de sua grande incompreensão pelo ato cruel perpetrado pelo seu filho. Os pontos mais destacados e repetidos ao longo das reflexões de Sue são sua desorientação inicial e negação da possibilidade de que seu filho pudesse ter deliberadamente machucado alguém; seu pesar pelas vítimas e pelos seus familiares; sua sensação de impotência, solidão e dor desmesuradas diante de toda a situação; sua vontade de buscar vestígios de ações ou falas do filho que pudessem ter revelado minimamente seus propósitos. Inevitavelmente, notam-se um pouco de vergonha e de culpa pelo que aconteceu, por mais que ela já tenha entendido que algumas coisas estavam fora de seu controle e não houvesse responsabilidade dela no massacre.

Sinto que apenas o trecho que coloquei no início do post não dá conta de mostrar o estilo da autora. Para mostrar um pouco mais do tom do livro, escolhi outros parágrafos que demonstram bem o estado de desespero, vazio e impotência, que cercaram Sue nos dias imediatamente após o ataque:

“Eu estava ávida para evitar a verdade completa sobre o grau de envolvimento de Dylan, mas a negação total que me isolou naqueles primeiros dias não era sustentável. A magnitude e a severidade do ataque recaíam sobre mim a cada manchete e a cada ligação de nosso advogado, sufocando-me novamente a cada vez. Além dos quinze que morreram, vinte e quatro indivíduos estavam hospitalizados por causa dos ferimentos. A situação dos adolescentes gravemente feridos era atualizada constantemente. Se eles sobrevivessem, provavelmente teriam sequelas permanentes. Eu passara a última metade de minha carreira trabalhando com estudantes com deficiência, então sabia muito bem o que aquilo significava.
Minha mente revirava. Como poderia não haver uma maneira de pressionar um botão de reset, para viver as últimas semanas da vida de Dylan de novo, para mudar o resultado daquela vida, para evitar o que acontecera?.” (p. 58)

O livro está dividido em duas partes: As últimas pessoas no mundo, em que Sue conta detalhadamente suas lembranças e impressões no dia do tiroteio na escola e nos meses subsequentes, além de rememorar momentos, episódios e características da personalidade de Dylan em sua infância e adolescência; e Rumo ao entendimento, em que conecta sua experiência a dados mais técnicos e científicos a respeito de depressão, suicídio, bullying.

Como não pode deixar de ser, por sua temática e pelo enorme envolvimento emocional da autora, o livro é pesado – atrapalhou meu sono durante alguns dias. Mas claramente é um relato importante – não só pelo seu objetivo de alerta -, mas por dar voz a uma personagem muito próxima da tragédia de Columbine, uma pessoa considerada vilã e culpada por muitos. Sue Klebold foi extremamente corajosa ao publicar sua narrativa. E eu agradeço a ela por ter tido essa coragem, e pelo Grupo Editorial Record pela oportunidade de lê-lo (recebi o livro de parceria). O que não significa que as coisas que ela diz no livro mudem nossa opinião sobre o massacre ter sido absurdamente cruel e sobre o fato de Dylan Klebold ser absolutamente responsável por seus atos. Sue está envolvida na tragédia até o último fio de cabelo, e de certa maneira, foi mais uma vítima de Dylan e Eric. Por isso, nunca deve-se perder de vista que o texto dela é um discurso longe de ser neutro.

A linguagem é muito direta, e a ideia de Sue Klebold foi descrever detalhadamente o que passava pela sua cabeça e quais eram suas impressões e sensações desde o momento em que soube que havia algo errado na escola do filho. Além do texto em si, o livro traz algumas fotos em preto-e-branco da infância e da adolescência de Dylan, agradecimentos da autora, notas explicativas (ela cita algumas pesquisas científicas ao longo do texto, e elas estão devidamente referenciadas no final do livro), recursos (organizações que podem ajudar em casos de depressão, pensamentos suicidas, etc.) e índice remissivo – além da já citada ótima introdução feita por Andrew Solomon.

A obra pode criar uma certa “paranoia”, pois Sue descreve diversos sintomas comuns a pessoas com depressão e com pensamentos suicidas, mas que podem facilmente ser confundidos com comportamento comum de adolescentes: irritabilidade e isolamento, por exemplo. São coisas que enxergamos o tempo todo à nossa volta. Porém, tal nível de alerta ao leitor é compreensível, dada a situação por que a autora passou. Ela prefere que as pessoas pequem por excesso de zelo do que pela falta, como ela própria reconhece que fez.

Além de tudo, o livro levanta considerações interessantes sobre a mídia, o papel que é atribuído à mulher (e à mãe especificamente), o acesso facilitado a armas. São assuntos tratados de forma secundária, mas que definitivamente estão presentes ao longo do texto e valem a reflexão. A leitura foi uma verdadeira tijolada, mas acima de tudo, uma bela e corajosa maneira de divulgar alguns dados importantes sobre diversos temas, e uma possibilidade de ouvirmos a voz de alguém em geral considerada culpada sem direito de defesa. Recomendadíssimo para quem tem estômago para esse tipo de relato.

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+ info:

O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine / Sue Klebold; tradução Ana Paula Doherty.
Campinas: Verus, 2016.
299 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, LeYa, Não ficção, Resenha

O ano da leitura mágica

O ano da leitura mágica, de Nina Sankovitch


“E, lendo, eu descobria o peso de viver numa parcela ilimitada e irregular de dor. A tragédia é distribuída injustamente, ao acaso. Qualquer promessa de tempos melhores no futuro é falsa. Mas sei que posso sobreviver a tempos ruins, lendo o pior que me acontece como um fardo, mas não como uma armadilha. Os livros espelham a vida – minha vida! E agora eu entendia que todas as coisas ruins e tristes que me acontecem e que aconteceram a todas as pessoas sobre as quais estava lendo são ao mesmo tempo o preço e a prova da resiliência.
O valor da experiência, real ou imaginada, está no fato de ela nos mostrar como viver – ou como não viver. Ao ler sobre diferentes personagens e as consequências de suas escolhas, eu estava me descobrindo transformada. Estava descobrindo maneiras novas e distintas de suportar as tristezas e alegrias da vida.” (p. 135)

O ano da leitura mágica é um livro de não-ficção em que a autora, Nina Sankovitch, narra sua aventura de ler um livro por dia durante um ano. Tal desafio surge como uma necessidade quando sua irmã mais velha, Anne-Marie, morre aos 46 anos de idade em decorrência de um câncer. Nina se vê sem chão diante de tamanha perda, e inclusive passa os três anos seguintes ao falecimento de sua irmã muitíssimo ocupada, como forma de tentar afastar a dor de sua mente. Em determinado momento, ela para com toda a correria e resolve que a leitura pode ajudá-la a, se não superar, compreender melhor o luto. E então se propõe este desafio: ler um livro por dia durante um ano inteiro, e escrever sobre ele em seu blog. Existem algumas outras regras sobre as leituras que ela escolhe: o tamanho do livro, por exemplo.

Acho que é seguro dizer que este texto é uma espécie de livro de memórias (e também de divulgação de seu desafio) para Nina, pois nele ela recorda muitos acontecimentos e sentimentos, organiza suas próprias ideias, reflete sobre sua realidade. E, no meio de tudo isso, ela nos brinda com belas palavras sobre os livros (como as que coloquei no trecho inicial do post). Como leitora ávida, eu obviamente me identifiquei com essas afirmações, verdadeiras declarações de amor para os livros.

Mas além de ser uma ode à leitura, Nina nos conta no livro uma história bastante completa, sobre amor, sobre família, sobre identidade, sobre dor, sobre memória. E como pano de fundo, lembranças de histórias sobre a Segunda Guerra Mundial e a situação de sua família como imigrante nos Estados Unidos.

Um livro leve, reflexivo e cheio de sensibilidade. Como se não bastasse a inspiração pelo exemplo, Nina ainda nos apresenta ao final uma lista em ordem alfabética com todos os livros lidos no período de 28 de outubro de 2008 a 28 de outubro de 2009. Recomendado para quem ama livros, para quem gosta de ler histórias sobre famílias e livros de memórias, e para quem está passando por um momento difícil.

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+ info:

O ano da leitura mágica / Nina Sankovitch; tradução Paulo Polzonoff.
São Paulo: Leya, 2011.
230 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, História, Não ficção, Resenha

Olga

Olga, de Fernando Morais


“- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo duro encostando em sua nuca. Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
– Solte o preso!
[…]
O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala:
– O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. […]
Na hora do almoço, uma edição extra do diário
 Berliner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de ‘ousada cena de faroeste’ ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o ‘assalto comunista’: Olga Benario. (pp. 17-18)

A convite da Lu (Abstração Coletiva) e da Gi (Lendo a Estante), fui participar de um encontro do grupo Leituras Compartilhadas dOs Espanadores, em São Paulo. O livro da vez era Olga, do jornalista Fernando Morais, publicado em 1984.

O livro se pretende uma narrativa fiel de parte da vida da alemã judia e comunista Olga Benario, desde meados dos anos 1920 a meados dos anos 1930. Confesso que a fala inicial do jornalista na apresentação à 1ª edição me deu arrepios como historiadora. Ele diz: “A história que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro: a vida de Olga Benario Prestes […]”. É muito claro que todo documento é discurso – por mais fidedigno que ele se pretenda. Nenhum texto retrata a realidade tal como ela foi, a realidade é irrecuperável. É possível juntar peças de quebra-cabeças, confrontar diferentes testemunhos, tentar reconstituir os fatos de maneira plausível e o mais complexa possível. Mas relatar fatos exatamente como ocorreram é impossível. Mesmo no trecho que selecionei para o início do post, fica evidente a escolha de palavras de maneira a conduzir o leitor para determinado tipo de pensamento: ao qualificar Olga como uma “linda moça”, já se forma uma ideia de surpresa, graças a nossa cultura. Quase que inconscientemente, já nos vem a curiosidade: o que uma moça – e, quem diria, “linda”! – está fazendo com uma arma na mão, voz firme, chefiando uma situação ilegal desse porte? O estranhamento é imediato. E é esse estranhamento que o autor visa produzir quando escolhe precisamente essas palavras.

Fora esse questionamento inicial, considerei o livro uma leitura bastante agradável por sua linguagem, mas não pense que é leve. As temáticas abordadas são pesadíssimas: tortura e perseguição (cheguei a sonhar que estava sendo perseguida!), prisão política, nazismo, ditadura. Devo dizer também que o final não é feliz, para os que não gostam muito desse tipo de história. Olga é comunista, e precisa fugir do governo alemão. Vai para a União Soviética, onde é reconhecida como uma grande agente. Lá, recebe a missão de acompanhar Luis Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, até o Brasil e aqui organizar uma revolução comunista através da tomada de poder.

Narrado em terceira pessoa, Morais buscou uma gama variada de documentos para montar este trecho da biografia de Olga (a infância e sua relação com os pais é citada, mas não aprofundada), tais como: entrevistas, notícias de jornais, fotografias, relatórios policiais – inclusive, segundo ele, muitos somente foram encontrados em território internacional. De linguagem acessível, visualizamos a tensão e o embate direto entre regimes capitalistas, como o governo de Getúlio Vargas no Brasil, e grupos comunistas, como a Aliança Nacional Libertadora – ANL. O grande problema com relação à pesquisa foi a exposição dos fatos e documentos, já que não fica claro de onde o autor retirou várias informações. O livro é romanceado, então é muito comum encontrarmos falas atribuídas a alguns personagens (Olga, principalmente) e que não sabemos de onde Morais tirou. A falta de notas de rodapé indicando de que fonte é alguma citação ou informação é uma falha enorme do livro.

A narrativa destaca uma mulher extremamente forte e determinada. Olga aparece como uma personagem destemida e independente, sempre pronta a lutar pelos seus ideais. É uma verdadeira heroína, o que acaba por torná-la uma personagem plana, sem defeitos, como bem lembrou a Luana Werb durante nossa discussão sobre o livro. Há momentos em que questiona a instituição do casamento, proposto a ela por um ex-namorado também comunista – por outro lado, também colocam-se falas machistas na boca dela (mas sem a devida referência). Segundo o livro, ela era ousada e corria riscos se isso significasse algum tipo de benefício ou vitória para a causa em que acreditava. Outras mulheres também se destacam na narrativa: Lígia e dona Leocádia, respectivamente irmã e mãe de Luís Carlos Prestes, que realizam intensa mobilização e campanha na Europa para libertar Olga; as colegas comunistas de Olga e Prestes – a maioria das quais também é presa e torturada e, ainda assim, resiste.

Uma das cenas que achei mais emocionantes foi quando a polícia de Getúlio Vargas vai buscar Olga, grávida, na prisão a fim de deportá-la para a Alemanha nazista. As presas e os presos resistem de maneira impressionante e muito solidária.

Em suma, como historiadora, não recomendo o livro por falta de rigor no tratamento com a documentação e na exposição das informações. Ou seja, o livro traz muito mais características do gênero ficção do que de biografia, como ele se pretende. Por outro lado, uma vez que consegui fechar os olhos para essas falhas, achei uma leitura agradável.

O filme Olga (2004), dirigido por Jayme Monjardim e estrelado por Camila Morgado no papel principal, foi baseado no livro de Fernando Morais.

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+ info:

Olga / Fernando Morais.
São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
321 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Chiado, Crônica, Filosofia, Não ficção, Parceria, Resenha

Perfume de mulher

Perfume de mulher, de Marcelo Pereira Rodrigues

 

“E hoje, sou seleto para ler e apreciar pontos de vistas. Claro que conjugo coerência intelectual, de forma que dispenso os ensaístas que não passam de bonecos de ventríloquo. Como escrevi anteriormente, não me venham com pensamentos de Platão pura e simplesmente. Faço questão de ler na fonte. E antes de propor um livro (este que vocês estão lendo agora), e neste texto específico, quero ser original e escrever sobre coisas que nos afligem diretamente, como o mundo virtual e os amores virtuais (o que é traição virtual e se ela é aceitável), sobre o excesso de tipologias psicológicas e psiquiátricas que somadas a altas doses de medicação dopam o ser humano, sobre o consumismo desenfreado que nos faz cordeirinhos deste grande rebanho, sobre religiões que estupidificam o incauto, sobre o sentido da vida (nascemos para a morte?, como perguntava Sartre), sobre a dor e as sensações, enfim, escrever sobre sentimentos, que é o componente do ser humano em sua plenitude.” (p. 16)

Marcelo Pereira Rodrigues, autor de Perfume de mulher, contatou o Redemunhando pelo Facebook e perguntou se eu estaria interessada em ler algum livro que ele escreveu. Dentre os vários livros de sua autoria (9 estão listados na orelha do livro que recebi, entre romances e coletâneas de crônicas), pedi para que ele me enviasse algum que ele achasse que eu gostaria.

Chegou aqui em casa o Perfume de mulher, coletânea de textos com formatos variados (crônicas, ensaios, artigos), com uma dedicatória cuidadosa e também um exemplar do jornal Conhece-te a ti mesmo, periódico sobre Cultura e Filosofia editado pelo próprio autor há 14 anos. Aliás, MPR, como ele próprio se chama, é filósofo, e isso transparece em vários dos seus textos, inclusive no trecho que selecionei para abrir o post.

A reflexão e a originalidade de pensamento são pontos importantes para o autor, e aparecem em alguns dos escritos: Pensar o próprio pensamentoSer filósofo, por exemplo. Entre comentários críticos sobre leituras, a Internet e as redes sociais, alguns estados de espírito bastante humanos – solidão, sucesso e reconhecimento -, reflexões sobre a leitura e o processo de escrita, MPR aborda uma gama variada de temas. Há textos também sobre a morte e a finitude das coisas, burocracia, aventuras amorosas e desventuras (escatológicas, devo dizer) do autor.

A linguagem do autor é direta e bem fácil de entender, apesar alguns dos temas serem “espiralados” e profundos. A edição é simples  e bem montada: o livro tem orelhas e páginas amareladas, além de uma diagramação confortável para a leitura.

Minhas principais críticas negativas recaem sobre algumas passagens machistas que encontrei ao longo das crônicas. Para dar exemplos, cito as seguintes passagens: em determinado momento, o autor afirma que “Já é sabida e notória a característica verborrágica das mulheres” (p. 103), em outro, ao relatar que deu uns beijos numa desconhecida no ônibus, diz que “Uma senhora na poltrona ao lado acordou e tossiu, tipo um alerta para os atentados à moral e aos bons costumes. Era feia. Estava explicado!” (p. 100). A reprodução de estereótipos (“mulher fala muito”) e de ideias irrelevantes e, muitas vezes, errôneas, para o caso narrado (“mulher feia, portanto mal-amada, portanto invejosa da sexualidade alheia”) me incomodaram. Foram apenas pequenos pontos dentro das histórias, mas gritantes o suficiente para me chamarem a atenção.

De qualquer maneira, gostei da escrita objetiva do autor, da dedicatória que ele me fez (agradeço muito!), e principalmente dos textos iniciais, bastante reflexivos. O tom cotidiano, por vezes bem humorado, típico das crônicas, também sempre me agrada. Fui surpreendida com as reflexões de MPR, mesmo que não tenha concordado com todas as suas afirmações. Afinal, nada mais filosófico do que provocar em si mesmo e no outro (no caso, em mim, a leitora) a reflexão.

A dedicatória do livro é para o “espírito” da cachorrinha Baleia, do livro Vidas secas, de Graciliano Ramos. Como não abrir um sorriso?

Para encomendar o livro, envie um e-mail para o autor: nosmpr@hotmail.com

+ info:

Perfume de mulher / Marcelo Pereira Rodrigues.
Lisboa: Chiado Editora, 2015.
148 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Contos, Ficção, Leia Mulheres, Parceria, Resenha

Filhas de Eva

Filhas de Eva, de Martha Mendonça

Filhas de Eva (2)

Eva
Nunca me tornei mulher. Já nasci assim: seios fartos, cintura fina, quadris largos, um milagre de carne saído do osso de uma costela. Nunca brinquei de boneca, não joguei amarelinha, jamais coloquei o dente debaixo do travesseiro esperando que a fada realizasse um desejo.
Nasci suja de sangue, mas de outro tipo. O vermelho da urgência da criação do mundo, da reprodução da espécie, da dor de ser a segunda, a coadjuvante, a frágil – e, ainda assim, ser o espaço humano desse repetido milagre que, depois de mim, não vai mais parar de acontecer, todos os dias, todas as horas e minutos, para sempre.
Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era a culpada. Pelo que houve e pelo que não houve: pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo.
Ele – de letra maiúscula – e ele – de letra minúscula – esperam que eu seja, pela eternidade, um instrumento de sua ordem. Que eu obedeça, que eu aceite, que eu recue, que eu tema, que eu ceda, que eu entenda, que eu me dobre, triplique, multiplique… Mas há a árvore, a maçã e a serpente.
Amanhã termina a Criação. Mas, enquanto o novo dia não nasce, eu durmo. E sonho com o futuro de minhas filhas. Hoje elas ainda são vozes. Diferentes vozes, às vezes em uníssono, às vezes dissonantes. Mas, um dia, serão carne e osso.” (pp. 5-6)

Eva sempre foi uma personagem sobre quem fui extremamente curiosa. Na realidade, me sentia muito incomodada pelo fato de ela ser considerada a culpada de todo o Mal, e sobre quem recaía grande parte da punição divina. Ainda pior, que a perpetuação dessa punição atingisse a todas as suas filhas -nós, mulheres. Por isso, ao abrir o livro de Martha Mendonça e dar de cara com este conto (fiz questão de colocá-lo inteiro no início do post), soube que o livro seria para mim, mesmo não sendo um tratado sobre religião, nem uma análise psicológica.

A primeira coisa que me chamou a atenção no livro foi o título; e em seguida, a capa. Solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, que me enviasse o livro.

Filhas de Eva é uma reunião de contos escritos por Martha Mendonça, jornalista e uma das cabeças por trás do site Sensacionalista. Eles falam do ponto de vista feminino sobre diversas situações, muitas das quais são relacionamentos. Mas não de maneira clichê. Martha consegue buscar detalhes muito sutis da relação da mulher com seu corpo, da compulsão por gordices, da ansiedade e da expectativa por grandes acontecimentos – os quais, por vezes, não chegam nunca a se realizar -, do fim da paixão, de dilemas profissionais, de sonhos e oportunidades.

Os títulos dos contos revelam características marcantes de cada uma das protagonistas: AmanteCompulsivaApressadaIndecisaPombagiraAnsiosaNamoradaDecidida. E vale ressaltar que o livro tem claramente um início e um fim, apesar de os contos em si não possuírem uma continuidade cronológica: o primeiro chama-se Eva; e o último, Morta.

Já há algum tempo venho procurando conscientemente ler mais autoras, inspirada pelo projeto #LeiaMulheres , e especialmente pelos debates desse grupo que acontecem em Belo Horizonte. Tenho me deparado com textos incríveis, e tão diversos entre si quanto as pessoas podem ser – ao contrário do que muita gente pensa, de que mulher só pode (ou só sabe) escrever romances românticos, e apenas para um público feminino. Cada uma tem uma maneira de lidar com as situações, descrevê-las, destacar uma ou outra visão.

(Veja mais algumas resenhas de bons livros escritos por mulheres aqui, aqui, aqui e aqui. Se quiser ainda mais indicações, peça nos comentários, que as darei com o maior prazer.)

Martha é uma dessas vozes fortes e encantadoras. Seus textos transmitem emoção e certa suavidade – mas não resvalam para um tom frágil. Os assuntos cotidianos aproximam ainda mais o texto de seus leitores. Os contos se alternam, mostrando ora um tom mais dramático, ora mais leve ou melancólico, e alguns são bem-humorados.

Livro fácil, rápido e de linguagem muito clara e fluida, recomendo bastante para praticamente qualquer tipo de público (exceto talvez o infantil)! Foi um presente poder ler estes contos.

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+ info:

Filhas de Eva / Martha Mendonça.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
127 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Fantasia, Independente, Infanto-juvenil, Parceria, Resenha

Lobo de rua

Lobo de rua, de Jana P. Bianchi

“E, desde o princípio, havia a dor. De intensidade sempre crescente, ela já embaçava quase todos os seus sentidos e faculdades – porém não era suficiente para fazer desvanecer aquela sensação de ter cada molécula de líquido de seu corpo marulhando dentro de si, avançando e retrocedendo dentro das veias como as marés.
Daquele jeito, logo seu corpo iria se romper. A coisa dentro dele estaria livre mais uma vez, e, com ela, voltaria o terror. Já se sentira daquele jeito no mês anterior, e nem mesmo a dor era capaz de fazê-lo esquecer do que acontecera em seguida.
” (p. 13)

Conheci Jana por intermédio de um grande amigo da escola, Pedro Menchik. Ambos frequentaram o mesmo curso na Unicamp, o de Engenharia de Alimentos. Nos adicionamos no Facebook e, aos poucos, surgiu uma grande empatia entre Jana e eu: por alguns gostos em comum (como a leitura e a escrita), por posições políticas parecidas, etc. Certo dia, Jana me deu um presente lindo: me enviou seu livro Lobo de rua. Junto com ele, chegaram marcadores combinando com o livro ( ❤ ) e uma dedicatória que é puro carinho!

Já no primeiro capítulo, conhecemos Raul, um garoto de rua que está sofrendo uma dor excruciante. Esta noite, seu corpo está passando por modificações, da mesma maneira que no mês passado – e não são apenas as modificações da puberdade. Logo, com a ajuda de Tito, um homem mais velho que o leva para um abrigo, descobre que é um lobisomem. Tito vai guiar o garoto Raul por sua transformação e tentar ajudá-lo nos momentos de dor e insegurança, inclusive garantindo que ele não ataque ninguém. Faz isso conduzindo o garoto a um lugar seguro e escondido na metrópole paulistana: a Galeria Creta, local misteriosamente comandado pelo Minotauro, e que se estende pelos subterrâneos da cidade.

O livro de Jana é curto (tem cerca de 110 páginas, contando alguns conteúdos extras) e ótimo. Para quem gosta de fantasia urbana, é um prato cheio. Estava um pouco intrigada por ver que a história era tão curtinha (a maneira como a história é contada é deliciosa, não dá vontade que acabe), mas o final é redondinho e deixa gancho para uma próxima história. Talvez a melhor definição para o livro que encontrei tenha sido na resenha de Thiago d´Evecque no Skoob: trata-se de um prólogo a ser degustado, uma introdução ao universo fantástico da Galeria Creta.

Os pontos altos do livro são, para mim, as boas explicações dadas pela autora para a licantropia (o porquê de só ser transmitida a alguns homens, como eles se escondem, como ocorrem as transformações em noite de lua cheia, etc.), o fato de se passar em São Paulo, e de o protagonista ser um garoto de rua. Acho que são elementos complexos e que foram muito bem executados! O final só eleva a história toda, o que garantiu ao livro a quinta estrela na minha avaliação.

A linguagem é clara e muito tranquila, fluida; e os diálogos têm alguns palavrões bem localizados (são colocados exatamente nos momentos certos!). É recomendado a qualquer tipo de público, inclusive “pré-adolescente”, já que traz fantasia e uma boa dose de realidade (pobreza, invisibilidade, empatia) que não faz mal a ninguém. O menino Raul – aliás, seu nome me dá vontade de ler como um uivo: “Rauuuuuuuuuuuuul” – é um personagem nada simples: enfrenta mazelas da vida desde que se conhece por gente e possui grandes defeitos e grandes qualidades. Em tempo, já que falei do nome de Raul, ele tem um significado especial, foi escolhido a dedo pela autora; assim como o nome de Tito Agnelli, seu mentor. Até esse cuidado é digno de menção.

Jana tem um carimbo da Galeria Creta, com o qual ela marca o livro e o envelope na hora de mandar. Detalhes que fazem toda diferença! A edição é independente, ou seja, foi bancada pela própria autora. Justamente por isso, é visível que Jana fez o livro exatamente da maneira como queria: as páginas são amareladas e o papel, de ótima qualidade; o livro tem ilustrações e um projeto gráfico bem-feito, inclusive com orelhas na capa e na contracapa. Vale muito a pena adquirir para ler e dar de presente!

(Para quem já gosta da Galeria Creta: Jana está escrevendo outro livro! Não se trata de uma continuação propriamente dita, mas de uma história que se passa no mesmo universo, e inclusive protagonizada por um personagem que aparece em Lobo de rua! Aguardamos ansiosos!)

Clique aqui para acessar a página da Galeria Creta no Facebook e encomendar o livro.

+ info:

Lobo de rua / Jana P. Bianchi; ilustrações de Renato Quirino.
Paulínia: Edição da autora, 2015.
112 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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