2016, História, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

A mãe eterna

A mãe eterna: morrer é um direito, de Betty Milan

A Mãe Eterna (2)

“Se eu pudesse te dar de novo a vida… fazer você nascer de mim como eu nasci de você… Não paro de desejar o impossível. Apesar dos seus 98 anos, não suporto te perder. Eu, que sei do fim de tudo, não me conformo com o seu fim. De que adiantou ler os budistas e saber que tudo muda, ‘as causas e as condições variam continuamente’? Que a vida é ‘fluxo de criação, transformação, extinção e nada permanece’? Sei que só a impermanência possibilita a renovação do universo, porém o coração não acompanha a cabeça.
Acredito que posso curar as suas mãos se eu mesma puser pomada nos seus dedos, imprimindo neles o meu ritmo. Acredito, embora estejam tomadas por uma micose há anos. Mais parecem as mãos de uma mendiga.” (p. 9)

Assim começa o livro A mãe eterna: morrer é um direito. Pedi o livro ao Grupo Editorial Record porque gostei da sinopse. Meu processo de escolha dos livros de parceria são um pouco diferentes dos de quando vou comprar um livro. Na parceria, me permito experimentar mais, arriscar. Foi o que aconteceu nesse caso. Convenhamos que a morte e a velhice não são os temas mais agradáveis do mundo; mas me chamou a atenção as possibilidades de reflexão trazidas por esses assuntos, e também que as personagens fossem mãe e filha.

O livro conta sobre uma filha que cuida da mãe, a qual está com 98 anos e muito debilitada física e mentalmente.

A filha escreve em primeira pessoa para uma interlocutora imaginária, pois sabe que a mãe não vai compreender suas palavras. Mas é como se fossem cartas para sua mãe. Os capítulos bem curtos e a linguagem intimista sugerem um tom de diário ou confissão. É um daqueles casos em que escrever lava a alma, serve para expiar e purificar sentimentos e pensamentos. A escrita é objetiva, mas muitíssimo delicada. O que não significa que fale apenas de coisas boas.

A dificuldade de lidar com a velhice da mãe e com a finitude dela (e nossa, e de tudo) faz com que nem tudo – ou melhor, nada – sejam flores. A inversão de papeis entre mãe e filha é algo forte no texto; a narradora vira mãe de sua própria mãe. Ao escrever esse texto, ela tenta achar maneiras de entender, ou pelo menos de aceitar, o luto, a tristeza e a impotência. Além dessas questões “maiores”, existe ainda o embaraço de ter que viver com a teimosia cada vez mais acentuada da mãe e com o cansaço da vigilância constante. Pode parecer extremamente pesado (e é), mas acima de tudo, fica a impressão de um amor desmedido entre filha e mãe.

Questionamentos sobre a morte, a longevidade e a escolha que os humanos têm sobre suas próprias vidas não faltam. E, eu diria, são reflexões mais do que necessárias, pois concernem a todos nós. Até que ponto vale a pena continuar vivo a qualquer custo? Será que a vida é mais importante do que a qualidade de vida?

Gostei muito de ler um livro centrado nesse tipo de relação tão particular mãe-filha. Acho que é o primeiro que leio do tipo, e me tocou bastante. Fica difícil de acreditar que Betty Milan não tenha passado por algo parecido, dada a vivacidade do texto, bonito e duro ao mesmo tempo, embora o livro esteja classificado como “autoficção”. Chega a ser dolorido em alguns pontos, pois não é um texto “maquiado”. Não fala apenas as coisas e lembranças boas que tem da mãe. Traz todo o cotidiano difícil, a impaciência que às vezes é inevitável ao lidar com um parente idoso.

Recomendadíssimo; é um livro pequeno (dá para ser lido em um dia) e muito tocante!

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+ info:

A mãe eterna: morrer é um direito / Betty Milan.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
141 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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6 comentários sobre “A mãe eterna

    • Nao eh tao pesado e depre… claro que o tema eh, mas o formato nao eh muito. Bem sincero, pratico. E bonito, pela relacao entre mae e filha! 🙂
      Tambem estou amando a variedade de temas que a parceria esta me proporcionando!
      Beijooo!

  1. remiseandrade disse:

    Nossa… Gostei muito da resenha. É um tema difícil, mas necessário. Tudo que gira em torno me interessa. Nosso modo de viver não dá lugar ao sofrimento e à finitude e acaba nos adoecendo e nos entupindo de remédios. Falar sobre é cura, nossa e do outro.

    • Ai, que comentario lindo, Remise!!! Eh isso mesmo! ❤ A tematica do livro eh que acaba sendo pesada (por sua natureza mesma), mas achei o tratamento dado ao tema bem pratico, alem de reflexivo – e, por que nao, lirico?
      Recomendo demaaaais!
      obrigada pela visita, beijao!
      Nati

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