2016, História, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Amantes

Amantes: uma história da outra, de Elizabeth Abbott

9788501404299

“Tantas amantes e concubinas, com tantas histórias! […] Elas vêm de todos os lugares e tempos, de todas as classes, castas, cores e condições. São aristocratas e escravas, esposas, mães e solteironas, habitam cabanas e haréns, casas e mansões. Algumas são famosas, geralmente por causa de suas relações, ao passo que outras só podem ser trazidas de volta à vida pelas reminiscências dos amantes e outras pessoas ou através de documentos oficiais. O que todas essas mulheres têm em comum é o fato de terem sido amantes ou concubinas. Esta obra trata de suas experiências e histórias especiais. O que torna importante cada mulher deste livro é a maneira única como sua história de vida reflete e explica a multifacetada instituição da amante.” (pp. 26-27)

História das amantes: uma história da outra. Um título provocativo ao leitor, e que obviamente também me despertou a atenção. Tenho gostado muito de História temática: escolhe-se um assunto principal e “passeia-se” por ele em diversos tempos e lugares diferentes, mostrando continuidades e rupturas. Pedi o livro ao Grupo Editorial Record.

Elizabeth Abbott é historiadora e pesquisadora na universidade de Toronto, além de trabalhar também com jornalismo. Isso significa que a autora é rigorosa na análise das fontes e ao mesmo tempo constrói um texto acessível e agradável de ser lido.

Segundo a própria autora, a ideia para pesquisar a história das amantes veio de uma pesquisa prévia, sobre celibato. Ironicamente (ou não), essa pesquisa abriu o caminho para que Abbott pensasse em relações entre homens e mulheres fora do casamento. A definição que ela dá de amante é abrangente: “uma mulher envolvida num relacionamento sexual por período relativamente longo, voluntariamente ou pela força, com um homem que geralmente é casado com outra mulher”. Trata-se de uma definição ampla, pois permite pensar também no caso das concubinas, mulheres que viviam na mesma casa que os homens com os quais mantinham relacionamento, mas sem serem suas esposas.

O primeiro questionamento que me veio à cabeça foi, obviamente, “por que uma história das amantes”? Por que temos montes de histórias a respeito de mulheres em situação de instabilidade (de maneira geral, esta é a condição da amante, que não tem garantias legais como a esposa) e pouquíssimas de homens? A resposta é óbvia demais: a posição de submissão a que a mulher foi repetidamente relegada ao longo da História, com louváveis exceções. As mulheres raramente, para não dizer nunca, contavam com status independente, direitos e cidadania. O feminino quase sempre foi tratado como um apoio ao masculino, um apêndice seu, especialmente nas elites. O status da mulher dependia de seu pai, e posteriormente de seu marido. Muitas das que não conseguiam maridos enxergavam um possível futuro como amantes ou concubinas. O que dizer sobre o costume de mão única (embora hoje no Brasil sejam legalmente possíveis outras opções) de a mulher adotar o sobrenome do marido? Para citar apenas um exemplo aparentemente inocente. Para o homem, a infidelidade conjugal não era (não é!) condenada da mesma maneira que para a mulher, embora muitas tenham arriscado neste sentido. Daí, termos muito mais casos registrados de homens com amantes do que mulheres com amantes.

Abbott separou capítulos temáticos que iniciam-se com uma introdução ao assunto, uma contextualização histórica – as fontes das informações trazidas estão devidamente referenciadas em notas no final do livro – e, em seguida, contam-se casos curiosos e/ou famosos de mulheres que foram amantes. Obviamente, muitas dessas histórias foram esquecidas ou simplesmente não foram registradas, por isso a autora cita alguns casos que se destacaram por alguma características. Listo abaixo os títulos dos capítulos para quem se interessar:

O amor extraconjugal na Antiguidade (caso bíblico, e da antiga Atenas); Concubinas e haréns no Oriente (casos no Japão, China, e Turquia; aqui, trata também a condição das gueixas); Puta de quem? As amantes reais da EuropaArranjos matrimoniais em círculos aristocráticosAs consortes clandestinas de padres (nada) celibatários (inclusive papas); Os conquistadores e suas amantes (o costume aplicado ao Novo Mundo com amantes nativas, este foi um dos meus capítulos favoritos); Uniões sexuais inter-raciais no contexto da “instituição peculiar”; As uniões sexuais e a questão judaica (inclusive com casos de campos de concentração); As amantes como musasAmantes de homens acima da lei (mafiosos e políticos poderosos); Amantes como troféusDecaídas: as amantes na literaturaA década de 1960 transforma o casamento e a condição de amante. Além de todos esses variados capítulos, contamos ainda com uma introdução e uma conclusão, notas, agradecimentos e índice.

Utilizando-se das mais variadas fontes, tais como a Bíblia, livros de Filosofia, poemas, legislações, relatos de viajantes, diários biografias e autobiografias, correspondências, depoimentos, notícias, a autora reconstrói essa grande história social das amantes, e também histórias individuais, cada qual com suas peculiaridades.

Um trecho que me incomodou por fugir à proposta do livro foi o caso de Corina, amante do poeta latino Ovídio. Não o caso inteiro. Mas no final da narrativa, quando Abbott descreve as partes do livro A arte de amar de Ovídio, ela imagina como Corina teria se sentido ao ler cada uma das seções. Achei essa interferência ficcional um pouco esquisita e completamente desnecessária. Não chegou a atrapalhar a leitura, mas ficou destoante da obra na minha opinião.

Cabe ressaltar que, muitas vezes, essas mulheres utilizaram sua condição “subalterna” de amantes e concubinas – “subalterna” no sentido de menos privilegiada que a condição das esposas, que tinham benefícios mais garantidos, e, obviamente, que a condição dos homens -, ou seja, utilizaram os mecanismos de sua própria condição, como forma de resistência, ascensão social, e questionamento.

O Pedro, do canal Não apenas histórias, também notou algo fundamental que se destaca nessa obra: o fato de que, quanto mais conhecemos as histórias dessas mulheres, mais percebemos o quanto elas contribuíram para o correr dos acontecimentos (ou seja, para a própria História). E, ainda assim, o que mais se fala delas no senso comum é de sua personalidade agressiva (ou sentimental, ou ciumenta, ou ambiciosa, etc.). Novamente, vemos a condição feminina relegada ao âmbito particular e privado, em contraste com os discursos sobre homens, em geral considerados “grandes” figuras públicas e fundamentais nos processos de transformação, mesmo que eles tenham traços de personalidade condenáveis ou, no mínimo, questionáveis (pensei no caso de Napoleão, só para exemplificar).

É claro, além das diferenças estabelecidas por gênero, havia (há!) também as estabelecidas por condições socioeconômicas. De mulheres de classes mais altas eram tolerados comportamentos extraconjugais, dentro de algumas regras – desde que não comprometessem a imagem do marido e da família; já mulheres vindas de classes pobres eram mais socialmente condenadas por serem amantes, e nunca poderiam ascender à condição de esposas oficiais.

Trata-se de um calhamaço de 670 páginas, mas que passa mais rápido do que esperamos, pois é uma leitura deliciosa. Mais que julgamentos, esta leitura nos traz histórias inspiradoras, trágicas, revoltantes, de mulheres com personalidades fortes o suficiente para desafiar a moral rígida de diferentes lugares e épocas, ou para aproveitar-se dessa oportunidade, numa época em que poucos direitos eram reconhecidos. Não se trata de concordar com casos extraconjugais, mas de conhecer outros lados de histórias aparentemente unânimes, estanques e inquestionáveis. São diferentes experiências femininas ao longo da História, lembrando novamente que o adultério cometido pelo homem nunca foi visto como tão terrível quanto o cometido por uma mulher. Não cabe a nós condená-las ou absolvê-las.

Me surpreenderam e impressionaram especificamente os casos de Aspásia, amante de Péricles, governante da antiga Atenas; da imperatriz chinesa Tzu-hsi; da nativa americana Malinche, considerada traidora por ter se aliado a Hernán Cortéz; de Phibbah, mulher escravizada numa fazenda jamaicana no século XVIII; da filósofa judia Hannah Arendt e seu caso de amor com seu professor e também filósofo Heidegger (nazista); da inteligente Émilie du Châtelet, amante do filósofo francês Voltaire.

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+ info:

Amantes: uma história da outra / Elizabeth Abbott; tradução Clóvis Marques.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
670 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “Amantes

  1. Interessante, Toca!! Como eu disse, não gosto de ver mulheres em situações de submissão, no entanto talvez seja interessante ver o outro lado das amantes. Sempre achei muito antiético, seja para mulher ou para homem, se envolver com alguém comprometido. Sei que pode ser radical, mas discordo que a responsabilidade seja apenas da pessoa comprometida. Pelo menos eu vivo em compromisso de respeito com o outro, independente de ter um vínculo com ele. Sei lá, apenas um ponto de vista.

    • É antiético sim, Nai. E concordo com você. É um desrespeito. Mas o que acontece é que quando um cara trai a namorada, por exemplo, todo mundo vai em cima da amante, e não do cara! Puro reflexo do machismo, é claro. E aí vêm com aquele papo de que “ele é homem, não consegue se controlar” que a gente falou no almoço! huahuahuahuahuahuauhau! Um insulto para os homens!
      Beijooo!

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