2016, Crônica, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

A máquina de caminhar

A máquina de caminhar, de Cristovão Tezza

A Máquina de Caminhar

“Toda terça-feira, assim que minhas mal traçadas linhas são publicadas na Gazeta, começa minha peregrinação mental em busca de um assunto decente para entreter o leitor dali a uma semana. Não é fácil. Diz o velho lugar-comum que a falta de assunto é o filé-mignon do cronista – é verdade, quando a crônica acerta o tom e consegue manter com algum estilo uma conversa fiada sobre coisa nenhuma, uma malabarismo que, comigo, raramente acontece. Mas às vezes é o excesso de assuntos que atrapalha, coisas demais acontecendo ao mesmo tempo – minha cabeça dispersiva se perde neste mundo velho sem porteira.” (p. 111)

Com o tanto de leituras que eu tinha acumulado graças ao TCC, precisava com urgência de algo leve para ler. Solicitei ao Grupo Editorial Record o livro de Tezza, na esperança de que ele cumprisse esse papel. E não me arrependi.

De leitura fácil e rápida, A máquina de caminhar traz 64 crônicas de Cristovão Tezza, escritas entre 2012 e 2014 (a maioria delas, mas existem algumas que ultrapassam essas fronteiras temporais) para o jornal Gazeta do povo. O autor é catarinense, mas viveu em Curitiba grande parte da vida. Formado em Letras, já foi professor, e hoje dedica-se exclusivamente à profissão de escritor.

O estilo do autor é muito dinâmico e simples, o que torna a leitura extremamente fluida. O livro chega a ser curto, porque cada crônica tem apenas uma página e meia, e a leitura corre rapidamente. Chega um momento em que ficamos querendo ouvir mais do que o autor tem a dizer, já que os 2900 caracteres que ele tinha disponíveis para escrever no jornal semanalmente parecem pouco para alguns dos temas que ele escolhe.

Vocês sabem como funcionam as crônicas, não é? Reflexões cotidianas realizadas num espaço curto. Tezza cumpre magnificamente esse papel. Desde assuntos banais até temas considerados mais sofisticados, como política e violência, ele nos conta sobre suas viagens, suas opiniões e visões, suas leituras, em geral muito bem ponderadas e colocadas de maneira que cria empatia com o leitor.

Algumas das crônicas que mais me chamaram a atenção por essas características foram as relacionadas com a situação política do país, antes de que se começasse a falar tanto em polarização como ouvimos hoje. Transcrevo dois parágrafos e meio de uma dessas crônicas, chamada O ornitorrinco, de 2012:

“O pensamento chapado funciona assim: se defendo a Comissão da Verdade e o levantamento dos crimes de Estado durante o período da ditadura militar brasileira, que foi assunto do meu último texto, necessariamente devo fazer parte de um pacote que inclui a defesa da presidente Dilma – aliás, da presidenta Dilma, perdão -, da estatização da economia, do governo Chávez, e assim por diante, numa cascata que termina com uma ovação ao comandante Fidel Castro.
Por outro lado, virando a chapa, se eu acho que as Farc são um movimento terrorista e que Battisti deveria ter sido devolvido à Itália, sou, naturalmente, de direita, e portanto quero entregar a Amazônia aos imperialistas, acho que essa Comissão da Verdade é um revanchismo de quem mama na teta do Estado, certamente penso que a prisão de Guantánamo é ótima para segurar os militantes islâmicos, e, apertando bem, até defendo que o fuzilamento sumário de marginais é uma boa ideia e a tortura um legítimo método de investigação policial.
Parece que alguém defender o ponto de vista de que o Estado deve ser sempre responsabilizado por seus crimes, em qualquer situação ou regime político, e que por isso a Comissão da Verdade marca um momento de maturidade política do Brasil, e, ao mesmo tempo, considerar Cuba uma ditadura decrépita nas mãos de uma gerontocracia que destruiu o país, é uma contradição metafísica que colocaria essa pessoa fora do mundo possível, fruto de alguma imaginação desvairada que cria ornitorrincos mentais inviáveis na vida real. Ou você se encaixa, ou é encaixado.” (pp. 52-53)

Difícil não se identificar, né? Para se ter uma ideia, o autor já havia trabalhado essa mesma ideia na crônica O pensamento chapado, de 2010, antecipando muito de visões que muita gente só percebe hoje. Isso também acontece com o tema da liberdade de expressão (ele chega a citar casos de religiosos que reagem violentamente à publicação de charges, por exemplo, e antes do caso do Charlie Hebdo).

Ao final do livro, tem um texto um pouco maior explicando o que é uma crônica na visão do autor. Quero ler mais coisas do Tezza, com sua escrita clara e divertida!

As ilustrações de Benett também são dignas de menção; combinam muito bem com o gênero crônica por sua singeleza, simplicidade e capacidade de síntese. Segue aí uma das imagens:

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Recomenda-se para quem gosta de textos ágeis e variados, pois o autor passeia por temas tão diversos que o que unifica os textos são justamente seu formato de crônica, e não algum tema em particular. Livro muito bom para se ler para descansar!

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+ info:

A máquina de caminhar / Cristovão Tezza.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
191 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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6 comentários sobre “A máquina de caminhar

    • Pensei muito em vc e na Nai quando li essa citação da polarização política!!! 😀
      É um livro muito bom, e leve. Dá pra ler aos poucos, porque são textos curtos a tranquilos… super recomendável! 🙂

    • Oiii Amanda!!! É verdade, o pedaço dessa crônica traduz muito bem o que vários brasileiros estão sentindo…
      A capa e as ilustrações são lindaaasss, essa da lua é de se apaixonar!!!! ❤
      Beijoooooo!

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