2016, Bertrand Brasil, Contos, Crônica, Parceria, Resenha

Histórias de duas cidades

Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, organizado por John Freeman e ilustrado por Molly Crabapple

Histórias de Duas Cidades 2

“Há alguns anos comprei um apartamento em Manhattan, fruto de uma herança que recebi de minha avó, que era filha de um antigo advogado da Standard Oil. Ela sobreviveu a três maridos, administrou bem seu dinheiro e, de uma só tacada, desfechada de além-túmulo, me içou de uma classe social para outra.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, meu irmão mais novo vivia num abrigo para sem-tetos.
[…]
Tal situação [de desigualdade] é insustentável. E mais: a distância entre o que Nova York afirma ser – em seus mitos, em sua cultura popular, em sua literatura, nas imagens que guardamos na lembrança quando visitamos a cidade – e a realidade é insustentável também. Eu gostaria que esta antologia desse sua contribuição para fechar a lacuna entre os que têm e os que não têm em Nova York. Talvez seja possível fazer isso corrigindo essa lacuna, pensando e sonhando; e descrevendo como as coisas são na Nova York de hoje. Qual a sensação que transmite, o que se vê, que histórias contamos sobre nós mesmos e como a desigualdade mudou a cidade.” (pp. 1 e 15)

O livro História de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, é uma coletânea de 29 textos de diferentes autores sobre a cidade de Nova  York e seus enormes contrastes socioeconômicos. Pedi-o ao Grupo Editorial Record, parceiro do blog, e eles gentilmente me enviaram. (Não é por nada não, mas os livros que o Grupo Editorial Record tem me mandado de parceria estão salvando minhas leituras!)

O organizador da coletânea, John Freeman, é escritor e crítico literário. Em 2014, escreveu a diversos autores contando sua ideia de reunir textos sobre as desigualdades da cidade de Nova York. Obteve três dezenas de respostas, que culminaram neste livro (a edição brasileira, por razões de motivos autorais, não conta com três dos textos originalmente reunidos).

É sempre difícil resenhar livros que não têm uma história só – ou seja, que não tenham o formato de romances ou novelas, mas sim livros de contos, crônicas, poesias. Em geral, esse tipo de livro traz textos de que gostamos mais ou menos, não tem um narrador único ou os mesmos personagens que podemos esmiuçar, etc. Mas esse tipo de livro também tem grandes vantagens. A primeira, é a de trazer “capítulos” mais curtos e, portanto, uma tendência maior à fluidez da leitura e a possibilidade de parar a leitura e retomar no futuro. A segunda, é a riqueza de temas e formatos. Neste caso específico, existe uma terceira qualidade enorme: por reunir textos de diferentes pessoas, é possível tomar contato com autores novos e seus respectivos estilos de escrita. Não fica um livro cansativo por sua dinâmica de trocar de autor, estilo e assunto com muita frequência.

Um passeio por dois bairros de Nova York revela os grandes contrastes não só entre pobreza e riqueza material, mas também a enorme diferença de interação entre as pessoas nas ruas e em seu entorno; o caso do sumiço de um garoto autista de uma escola é pretexto para a discussão de sistemas de saúde e educação para pessoas especiais; um emprego no turno da noite revela personagens inusitados; uma visita aos túneis de NY leva a pensar sobre a questão da dignidade das pessoas; para citar apenas algumas das “viagens” que é possível fazer durante a leitura.

Certamente o tema mais recorrente de todos é o do alto preço dos aluguéis na cidade e as dificuldades no sistema habitacional para pessoas de baixa renda e a gentrificação dos bairros novaiorquinos, seguido pela efervescência social e cultural derivada do grande número de imigrantes de outros países. Meus textos favoritos foram Estrangeiros extremamente capazes, de Taiye Selasi, sobre os imigrantes e algumas de suas estratégias de sobrevivência, e Pequenos destinos 1912, de Teju Cole. Este é uma compilação de pequenas notas que apareciam em 1912 nos jornais de Nova York contando notícias “curiosas” – em geral, casos de morte. Não pude deixar de comparar com os atuais microcontos, reavivados por conta do sucesso do Twitter (até 140 caracteres!). Este era um gênero que aparecia em periódicos de outros locais também, especialmente os francófonos, mas o livro é sobre Nova York, por isso a seleção. São microtextos absolutamente geniais. Para dar um gostinho, aí vão três deles:

“O engenheiro John Griffiths é um homem de família. Tem uma no Queens, com Sadie, e outra em Long Island, com Rose.”

“Em Williamsburg, o inspetor da companhia de gás George Hill, enlouquecido pela insônia, abriu o gás e finalmente dormiu.”

“Immekus, um pintor, deixou cair sua carteira no Erie Canal. Mergulhou rapidamente para buscá-la e não voltou.”

Cada escritor relatando suas próprias experiências criam uma colcha de retalhos desta que é uma das mais importantes e dinâmicas cidades do mundo. Nunca fui a Nova York, mas após a leitura, sinto que conheço muito mais de sua realidade cotidiana, para além das luzes brilhantes da Times Square. É curioso pensar que as coisas em grandes cidades podem ser tão parecidas, e ao mesmo tempo, tão diversas. Em Nova York, nos deparamos com um sistema jurídico diferente, relações interpessoais diferentes, debates étnico-raciais diferentes, mas ao mesmo tempo, tudo tão próximo de nossas próprias estruturas. Vale a pena pensarmos, a partir dessa leitura, questões de empatia, comparações entre “modelos” de cidades, diversidades e similaridades culturais.

Clique aqui para comprar Histórias de duas cidades pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje / organização John Freeman; tradução Paulo Afonso.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2016.
319 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

12 comentários sobre “Histórias de duas cidades

  1. Nati! Quando eu vi o catálogo da Record tinha pensado nesse livro, mas acabei escolhendo outros. Escutei esses dias sobre um dos autores dos quais você gostou do conto, o Teju Cole. Achei bem interessante a quebra de imagem ou reconstrução da imagem da cidade de Nova Iorque. Essa coisa de cidade incrível sempre rola por aí, né? Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, Paris, Londres e tantas outras. Isso cria a sensação de que a grama do vizinho é sempre mais verde, mas evitamos perceber que é um verde artificial. Fazia um tempão que eu nem aparecia por aqui, né? Que bom que eu voltei. Beijo.

  2. Oi Nati! Adorei a resenha. Amo NY, inclusive sonho em um dia poder morar lá. Inclusive, parte da minha família mora na cidade e conheço um pouco da realidade dos moradores e dos imigrantes. Fiquei super interessada no livro. Com certeza vou querer ler.
    bjs! 😉

    • Manuuuuuu! Eu sou uma pessoa muito urbana, amo SP! 😀 Nos EUA, tenho vontade de visitar poucos lugares, mas NY com certeza é um deles! O livro é muito bom em nos fornecer outras visões da cidade e das pessoas que a habitam, e não apenas aquela imagem “congelada” que vemos muito em filmes e seriados! 🙂
      Beijooooo, obrigada pela visita!
      Nati

  3. Lembrei bastante do Menchik lendo a resenha!!! Bem interessante! De vez em quando, gosto de ler contos, justamente por conta da fluidez e de não ter muito esse lance de enjoar dos personagens. Super beijo, Toca!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s