2016, Ficção, Multifoco, Parceria, Resenha, Séries e trilogias

Exilado

Exilado (volumes 1 e 2), de Carlos Adriano Estevez

 

“É isso, agora eu me lembro. Não foi quando eu recebi aquele e-mail em russo que a insônia apareceu e as coisas pararam de fazer sentido. Nem quando ela desapareceu. A insônia surgiu antes, quando um cara moreno, vestido de calça sarja caqui, camiseta marrom de manga comprida e com um colete que mais parecia um trapo jogado sobre os ombros, surgiu pela manhã como um Testemunha de Jeová fugido da Ilha de Lost e me deu o Livro Sem Nome que, segundo ele, precisava de um final melhor do que o que havia sido escrito.” (pp. 29-30, v. 1)

O autor de Exilado, Carlos Adriano Estevez, contatou o Redemunhando pelo Facebook e perguntou se eu me interessaria em ler os dois volumes da obra. Fiquei muito curiosa pela sinopse (bem maluca, preparem-se!) e aceitei. Os dois livros me foram enviados e contêm dedicatórias muito cuidadosas feitas pelo Carlos.

No volume 1 desta duologia, o livro divide-se basicamente em dois focos narrativos: temos a história de Emiliano Ruas e Ruas (sim, inspirado no próprio Lucas Silva e Silva do programa Mundo da Lua da TV Cultura!), um cara comum, com um trabalho entediante num banco, e que enfrenta trânsito todos os dias; e paralelamente, corre a história dos garotos Yuri e Igor, gêmeos ucranianos que se veem inserido num mundo quase fantástico de envolvimento com mafiosos e mistérios em 1998, e que só serão compreendidos ao longo da narrativa. Lá para o meio do primeiro volume, um terceiro fio narrativo se desenrola nos Estados Unidos em 1968, tendo como protagonista um menino chamado Peter.

O diário de Emiliano, que se passa em 2014, é absurdamente engraçado – juro que chorei de rir ao ler determinados trechos, por conta dos termos e expressões utilizadas -, enquanto que Yuri parece que vive em um sonho, daqueles bem doidos. Emiliano narra seu cotidiano a partir do momento em que passa a ter noites maldormidas ou insones. Ele atribui parte de seu cansaço ao desaparecimento de uma mulher (no início, não sabemos exatamente qual é seu relacionamento com ela, mas deduz-se que trata-se de um caso amoroso) e ao recebimento de um misterioso e-mail em russo. Mas mais do que isso, sabe que sua dificuldade de dormir tem a ver com o recebimento do Livro Sem Nome, precisamente o livro que conta a história de Yuri, Igor e da família deles na Ucrânia.

Misturando toques de mitologia nórdica, referências pop dos anos 1990, 2000 e 2010, e um pouco de aventura medieval, Estevez traça uma trama intrincada e curiosa. Seu estilo é muito dinâmico e repleto de bom humor, além de ser claro. Ou seja, é possível entender o que está acontecendo na narrativa, apesar de muitas vezes não sabermos como aquilo que está sendo narrado se conecta com as partes que já conhecemos. A narrativa é repleta de idas e vindas no tempo, mas tudo é devidamente explicitado no início de cada capítulo: sabemos em que ano e em que lugar a ação está acontecendo.

O volume 2 é uma continuação do volume 1, e recomendo que ambos sejam comprados juntos. O primeiro termina num ponto muito alto, o que deixa o leitor curioso para saber como as coisas se resolverão. Porém, no segundo volume, as coisas se complicam e o volume de informações que exigem certa memória por parte do leitor é maior. A trama demora para revelar as conexões entre as histórias e personagens, mas mesmo isso achei interessante, já que a narrativa é instigante o bastante para nos manter curiosos e presos à leitura. Como pontos negativos, a existência de muitos personagens – e vários com nomes russos, o que não facilita -, pode confundir o leitor. A alternância nos diferentes tempos da narrativa (anos 1960, 80, 2000 e 2010) também pode causar esse efeito fragmentário e confuso. Ah, a história também tem cenas muito violentas e repletas de sangue, então se você for uma pessoa sensível a esse tipo de coisa, saiba que há bastante.

Apesar disso, para mim, este foi o típico caso de livro certo na hora certa. Eu estava querendo já há um tempo ler algo com uma história instigante e uma narrativa mais rápida. Estevez conduz bem o fio dos acontecimentos, cheios de ação, e conseguiu me prender na leitura. É um orgulho ter autores brasileiros e independentes produzindo obras tão divertidas e criativas!

Clique aqui para acessar a página do autor no Facebook e encomendar o livro.

+ info:

Exilado v. 1 / Carlos Adriano Estevez.
Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2015.
283 páginas.

Exilado v. 2 / Carlos Adriano Estevez.
Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2015.
246 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, História, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Amantes

Amantes: uma história da outra, de Elizabeth Abbott

9788501404299

“Tantas amantes e concubinas, com tantas histórias! […] Elas vêm de todos os lugares e tempos, de todas as classes, castas, cores e condições. São aristocratas e escravas, esposas, mães e solteironas, habitam cabanas e haréns, casas e mansões. Algumas são famosas, geralmente por causa de suas relações, ao passo que outras só podem ser trazidas de volta à vida pelas reminiscências dos amantes e outras pessoas ou através de documentos oficiais. O que todas essas mulheres têm em comum é o fato de terem sido amantes ou concubinas. Esta obra trata de suas experiências e histórias especiais. O que torna importante cada mulher deste livro é a maneira única como sua história de vida reflete e explica a multifacetada instituição da amante.” (pp. 26-27)

História das amantes: uma história da outra. Um título provocativo ao leitor, e que obviamente também me despertou a atenção. Tenho gostado muito de História temática: escolhe-se um assunto principal e “passeia-se” por ele em diversos tempos e lugares diferentes, mostrando continuidades e rupturas. Pedi o livro ao Grupo Editorial Record.

Elizabeth Abbott é historiadora e pesquisadora na universidade de Toronto, além de trabalhar também com jornalismo. Isso significa que a autora é rigorosa na análise das fontes e ao mesmo tempo constrói um texto acessível e agradável de ser lido.

Segundo a própria autora, a ideia para pesquisar a história das amantes veio de uma pesquisa prévia, sobre celibato. Ironicamente (ou não), essa pesquisa abriu o caminho para que Abbott pensasse em relações entre homens e mulheres fora do casamento. A definição que ela dá de amante é abrangente: “uma mulher envolvida num relacionamento sexual por período relativamente longo, voluntariamente ou pela força, com um homem que geralmente é casado com outra mulher”. Trata-se de uma definição ampla, pois permite pensar também no caso das concubinas, mulheres que viviam na mesma casa que os homens com os quais mantinham relacionamento, mas sem serem suas esposas.

O primeiro questionamento que me veio à cabeça foi, obviamente, “por que uma história das amantes”? Por que temos montes de histórias a respeito de mulheres em situação de instabilidade (de maneira geral, esta é a condição da amante, que não tem garantias legais como a esposa) e pouquíssimas de homens? A resposta é óbvia demais: a posição de submissão a que a mulher foi repetidamente relegada ao longo da História, com louváveis exceções. As mulheres raramente, para não dizer nunca, contavam com status independente, direitos e cidadania. O feminino quase sempre foi tratado como um apoio ao masculino, um apêndice seu, especialmente nas elites. O status da mulher dependia de seu pai, e posteriormente de seu marido. Muitas das que não conseguiam maridos enxergavam um possível futuro como amantes ou concubinas. O que dizer sobre o costume de mão única (embora hoje no Brasil sejam legalmente possíveis outras opções) de a mulher adotar o sobrenome do marido? Para citar apenas um exemplo aparentemente inocente. Para o homem, a infidelidade conjugal não era (não é!) condenada da mesma maneira que para a mulher, embora muitas tenham arriscado neste sentido. Daí, termos muito mais casos registrados de homens com amantes do que mulheres com amantes.

Abbott separou capítulos temáticos que iniciam-se com uma introdução ao assunto, uma contextualização histórica – as fontes das informações trazidas estão devidamente referenciadas em notas no final do livro – e, em seguida, contam-se casos curiosos e/ou famosos de mulheres que foram amantes. Obviamente, muitas dessas histórias foram esquecidas ou simplesmente não foram registradas, por isso a autora cita alguns casos que se destacaram por alguma características. Listo abaixo os títulos dos capítulos para quem se interessar:

O amor extraconjugal na Antiguidade (caso bíblico, e da antiga Atenas); Concubinas e haréns no Oriente (casos no Japão, China, e Turquia; aqui, trata também a condição das gueixas); Puta de quem? As amantes reais da EuropaArranjos matrimoniais em círculos aristocráticosAs consortes clandestinas de padres (nada) celibatários (inclusive papas); Os conquistadores e suas amantes (o costume aplicado ao Novo Mundo com amantes nativas, este foi um dos meus capítulos favoritos); Uniões sexuais inter-raciais no contexto da “instituição peculiar”; As uniões sexuais e a questão judaica (inclusive com casos de campos de concentração); As amantes como musasAmantes de homens acima da lei (mafiosos e políticos poderosos); Amantes como troféusDecaídas: as amantes na literaturaA década de 1960 transforma o casamento e a condição de amante. Além de todos esses variados capítulos, contamos ainda com uma introdução e uma conclusão, notas, agradecimentos e índice.

Utilizando-se das mais variadas fontes, tais como a Bíblia, livros de Filosofia, poemas, legislações, relatos de viajantes, diários biografias e autobiografias, correspondências, depoimentos, notícias, a autora reconstrói essa grande história social das amantes, e também histórias individuais, cada qual com suas peculiaridades.

Um trecho que me incomodou por fugir à proposta do livro foi o caso de Corina, amante do poeta latino Ovídio. Não o caso inteiro. Mas no final da narrativa, quando Abbott descreve as partes do livro A arte de amar de Ovídio, ela imagina como Corina teria se sentido ao ler cada uma das seções. Achei essa interferência ficcional um pouco esquisita e completamente desnecessária. Não chegou a atrapalhar a leitura, mas ficou destoante da obra na minha opinião.

Cabe ressaltar que, muitas vezes, essas mulheres utilizaram sua condição “subalterna” de amantes e concubinas – “subalterna” no sentido de menos privilegiada que a condição das esposas, que tinham benefícios mais garantidos, e, obviamente, que a condição dos homens -, ou seja, utilizaram os mecanismos de sua própria condição, como forma de resistência, ascensão social, e questionamento.

O Pedro, do canal Não apenas histórias, também notou algo fundamental que se destaca nessa obra: o fato de que, quanto mais conhecemos as histórias dessas mulheres, mais percebemos o quanto elas contribuíram para o correr dos acontecimentos (ou seja, para a própria História). E, ainda assim, o que mais se fala delas no senso comum é de sua personalidade agressiva (ou sentimental, ou ciumenta, ou ambiciosa, etc.). Novamente, vemos a condição feminina relegada ao âmbito particular e privado, em contraste com os discursos sobre homens, em geral considerados “grandes” figuras públicas e fundamentais nos processos de transformação, mesmo que eles tenham traços de personalidade condenáveis ou, no mínimo, questionáveis (pensei no caso de Napoleão, só para exemplificar).

É claro, além das diferenças estabelecidas por gênero, havia (há!) também as estabelecidas por condições socioeconômicas. De mulheres de classes mais altas eram tolerados comportamentos extraconjugais, dentro de algumas regras – desde que não comprometessem a imagem do marido e da família; já mulheres vindas de classes pobres eram mais socialmente condenadas por serem amantes, e nunca poderiam ascender à condição de esposas oficiais.

Trata-se de um calhamaço de 670 páginas, mas que passa mais rápido do que esperamos, pois é uma leitura deliciosa. Mais que julgamentos, esta leitura nos traz histórias inspiradoras, trágicas, revoltantes, de mulheres com personalidades fortes o suficiente para desafiar a moral rígida de diferentes lugares e épocas, ou para aproveitar-se dessa oportunidade, numa época em que poucos direitos eram reconhecidos. Não se trata de concordar com casos extraconjugais, mas de conhecer outros lados de histórias aparentemente unânimes, estanques e inquestionáveis. São diferentes experiências femininas ao longo da História, lembrando novamente que o adultério cometido pelo homem nunca foi visto como tão terrível quanto o cometido por uma mulher. Não cabe a nós condená-las ou absolvê-las.

Me surpreenderam e impressionaram especificamente os casos de Aspásia, amante de Péricles, governante da antiga Atenas; da imperatriz chinesa Tzu-hsi; da nativa americana Malinche, considerada traidora por ter se aliado a Hernán Cortéz; de Phibbah, mulher escravizada numa fazenda jamaicana no século XVIII; da filósofa judia Hannah Arendt e seu caso de amor com seu professor e também filósofo Heidegger (nazista); da inteligente Émilie du Châtelet, amante do filósofo francês Voltaire.

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+ info:

Amantes: uma história da outra / Elizabeth Abbott; tradução Clóvis Marques.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
670 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Ciência, História, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

Anatomias

Anatomias: uma história cultural do corpo humano, de Hugh Aldersey-Williams

Anatomias 2

“Nos anos entre a publicação do tratado de Versálio sobre a anatomia humana, em 1543, e a pintura de Rembrandt, em 1632, o tópico [corpo, anatomia] tornou-se uma espécie de febre. A queda de Constantinopla em 1453 diante dos otomanos permitiu que a Europa fosse invadida por um influxo de conhecimentos médicos baseados em fontes árabes e da Grécia Antiga. Restrições à abertura do corpo humano, vigentes quando os médicos também eram homens do clero, já não se aplicavam. Decretos reais e papais liberavam para a dissecação corpos de criminosos executados. De repente, tudo podia ser ‘anatomizado’, se não em termos físicos, pelo menos em termos filosóficos. John Donne proclamou em suas Devoções: ‘Retalhei minha própria Anatomia.’ William Shakespeare fez o rei Lear exclamar em sua aflição: ‘Que anatomizem Regan; a ver o que se engendra em seu coração.’” (p. 18)

O livro Anatomias me chamou a atenção pelo título, pela capa e pelo subtítulo. Me interesso muito por ciência e Biologia (e nem preciso mencionar a História, né?!), então não resisti. Solicitei que o Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, me enviasse o livro.

O autor, Hugh Aldersey-Williams, é britânico, formado em Ciências Naturais e autor de livros que examinam a ciência (fica a dica que ele tem um livro chamado Histórias Periódicas: a curiosa vida dos elementos, e eu quero!). Neste livro, ele escolheu falar sobre o corpo humano e suas anatomizações, ou seja, nossas tentativas de classificá-lo, separar suas partes, mas principalmente de entendê-lo. Surpreso pelo pouco conhecimento que temos a respeito de nossos próprios corpos, Aldersey-Williams resolveu mergulhar nas maneiras como enxergamos o corpo e suas diversas partes ao longo do tempo e do espaço.

O livro é dividido em três seções (o todoas partes, e o futuro), e cada uma dessas divisões, em capítulos, tais como: a carneos ossoso cérebroo sangueo sexo, a pele. Conta também com introdução, prólogo, epílogo, referências, bibliografia selecionada, e índice. Ah, nesta edição também existe uma parte central com imagens em preto e branco que remetem a alguns trechos do texto.

Na primeira parte, o autor começa tratando o corpo como um lugar, retomando a ideia corrente na Antiguidade Clássica de que o corpo é um microcosmos, uma representação diminuta da perfeição do universo. A partir daí, nos mostra algumas tentativas de mapeá-lo e racionalizá-lo, tornando-o muitas vezes bases para medidas (polegada, pé, etc.) e discutindo questões de simetria corporal, proporção e tamanho na literatura, na arquitetura, nas artes plásticas, na criminalística.

Na segunda seção, visualizamos pela escrita do autor o caleidoscópio de nossas “partes” e as metáforas que elas suscitam no imaginário humano, seja no campo da linguagem (já parou para pensar no tanto de expressões – em quase qualquer idioma, ou deveria dizer língua? – que envolvem partes do corpo? Estar com a pulga atrás da orelha, pagar os olhos da cara, estender uma mão a alguém, etc., etc., etc.), seja nas artes, nas ciências e no senso comum. Fala-se de pesquisas científicas e pseudocientíficas – que, inclusive, descambaram para teorias racistas -, questões de transplante, observações e constatações feitas pelo próprio autor ao longo de sua pesquisa para a escrita do livro.

Cabe nos perguntarmos a respeito do título do livro: Anatomias. O plural é curioso e nos diz muito, como fica confirmado pelo subtítulo: o autor buscou os olhares diferentes sobre o corpo, e tem consciência de que o seu olhar é apenas mais um. Ou seja, que as visões que temos de nossas próprias anatomias são extremamente culturais, influenciadas pelo contexto em que vivemos. A estrutura corporal é a mesma (dentro de um grande número de variações, é claro), mas as interpretações são múltiplas.

Trata-se de um livro multidisciplinar e de uma viagem pelo tempo. Passando por livros de anatomia, peças de Shakespeare, quadros de Rembrandt, um quebra-cabeças vai tomando forma em nossas cabeças, e é possível perceber o quão ricas são as possibilidades do nosso corpo – e mais do que isso, de interpretações sobre nosso corpo.

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+ info:

Anatomias: uma história cultural do corpo humano / Hugh Aldersey-Williams; tradução Bruno Casotti.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
363 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Crônica, Não ficção, Parceria, Record, Resenha

A máquina de caminhar

A máquina de caminhar, de Cristovão Tezza

A Máquina de Caminhar

“Toda terça-feira, assim que minhas mal traçadas linhas são publicadas na Gazeta, começa minha peregrinação mental em busca de um assunto decente para entreter o leitor dali a uma semana. Não é fácil. Diz o velho lugar-comum que a falta de assunto é o filé-mignon do cronista – é verdade, quando a crônica acerta o tom e consegue manter com algum estilo uma conversa fiada sobre coisa nenhuma, uma malabarismo que, comigo, raramente acontece. Mas às vezes é o excesso de assuntos que atrapalha, coisas demais acontecendo ao mesmo tempo – minha cabeça dispersiva se perde neste mundo velho sem porteira.” (p. 111)

Com o tanto de leituras que eu tinha acumulado graças ao TCC, precisava com urgência de algo leve para ler. Solicitei ao Grupo Editorial Record o livro de Tezza, na esperança de que ele cumprisse esse papel. E não me arrependi.

De leitura fácil e rápida, A máquina de caminhar traz 64 crônicas de Cristovão Tezza, escritas entre 2012 e 2014 (a maioria delas, mas existem algumas que ultrapassam essas fronteiras temporais) para o jornal Gazeta do povo. O autor é catarinense, mas viveu em Curitiba grande parte da vida. Formado em Letras, já foi professor, e hoje dedica-se exclusivamente à profissão de escritor.

O estilo do autor é muito dinâmico e simples, o que torna a leitura extremamente fluida. O livro chega a ser curto, porque cada crônica tem apenas uma página e meia, e a leitura corre rapidamente. Chega um momento em que ficamos querendo ouvir mais do que o autor tem a dizer, já que os 2900 caracteres que ele tinha disponíveis para escrever no jornal semanalmente parecem pouco para alguns dos temas que ele escolhe.

Vocês sabem como funcionam as crônicas, não é? Reflexões cotidianas realizadas num espaço curto. Tezza cumpre magnificamente esse papel. Desde assuntos banais até temas considerados mais sofisticados, como política e violência, ele nos conta sobre suas viagens, suas opiniões e visões, suas leituras, em geral muito bem ponderadas e colocadas de maneira que cria empatia com o leitor.

Algumas das crônicas que mais me chamaram a atenção por essas características foram as relacionadas com a situação política do país, antes de que se começasse a falar tanto em polarização como ouvimos hoje. Transcrevo dois parágrafos e meio de uma dessas crônicas, chamada O ornitorrinco, de 2012:

“O pensamento chapado funciona assim: se defendo a Comissão da Verdade e o levantamento dos crimes de Estado durante o período da ditadura militar brasileira, que foi assunto do meu último texto, necessariamente devo fazer parte de um pacote que inclui a defesa da presidente Dilma – aliás, da presidenta Dilma, perdão -, da estatização da economia, do governo Chávez, e assim por diante, numa cascata que termina com uma ovação ao comandante Fidel Castro.
Por outro lado, virando a chapa, se eu acho que as Farc são um movimento terrorista e que Battisti deveria ter sido devolvido à Itália, sou, naturalmente, de direita, e portanto quero entregar a Amazônia aos imperialistas, acho que essa Comissão da Verdade é um revanchismo de quem mama na teta do Estado, certamente penso que a prisão de Guantánamo é ótima para segurar os militantes islâmicos, e, apertando bem, até defendo que o fuzilamento sumário de marginais é uma boa ideia e a tortura um legítimo método de investigação policial.
Parece que alguém defender o ponto de vista de que o Estado deve ser sempre responsabilizado por seus crimes, em qualquer situação ou regime político, e que por isso a Comissão da Verdade marca um momento de maturidade política do Brasil, e, ao mesmo tempo, considerar Cuba uma ditadura decrépita nas mãos de uma gerontocracia que destruiu o país, é uma contradição metafísica que colocaria essa pessoa fora do mundo possível, fruto de alguma imaginação desvairada que cria ornitorrincos mentais inviáveis na vida real. Ou você se encaixa, ou é encaixado.” (pp. 52-53)

Difícil não se identificar, né? Para se ter uma ideia, o autor já havia trabalhado essa mesma ideia na crônica O pensamento chapado, de 2010, antecipando muito de visões que muita gente só percebe hoje. Isso também acontece com o tema da liberdade de expressão (ele chega a citar casos de religiosos que reagem violentamente à publicação de charges, por exemplo, e antes do caso do Charlie Hebdo).

Ao final do livro, tem um texto um pouco maior explicando o que é uma crônica na visão do autor. Quero ler mais coisas do Tezza, com sua escrita clara e divertida!

As ilustrações de Benett também são dignas de menção; combinam muito bem com o gênero crônica por sua singeleza, simplicidade e capacidade de síntese. Segue aí uma das imagens:

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Recomenda-se para quem gosta de textos ágeis e variados, pois o autor passeia por temas tão diversos que o que unifica os textos são justamente seu formato de crônica, e não algum tema em particular. Livro muito bom para se ler para descansar!

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+ info:

A máquina de caminhar / Cristovão Tezza.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
191 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Bertrand Brasil, Contos, Crônica, Parceria, Resenha

Histórias de duas cidades

Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, organizado por John Freeman e ilustrado por Molly Crabapple

Histórias de Duas Cidades 2

“Há alguns anos comprei um apartamento em Manhattan, fruto de uma herança que recebi de minha avó, que era filha de um antigo advogado da Standard Oil. Ela sobreviveu a três maridos, administrou bem seu dinheiro e, de uma só tacada, desfechada de além-túmulo, me içou de uma classe social para outra.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, meu irmão mais novo vivia num abrigo para sem-tetos.
[…]
Tal situação [de desigualdade] é insustentável. E mais: a distância entre o que Nova York afirma ser – em seus mitos, em sua cultura popular, em sua literatura, nas imagens que guardamos na lembrança quando visitamos a cidade – e a realidade é insustentável também. Eu gostaria que esta antologia desse sua contribuição para fechar a lacuna entre os que têm e os que não têm em Nova York. Talvez seja possível fazer isso corrigindo essa lacuna, pensando e sonhando; e descrevendo como as coisas são na Nova York de hoje. Qual a sensação que transmite, o que se vê, que histórias contamos sobre nós mesmos e como a desigualdade mudou a cidade.” (pp. 1 e 15)

O livro História de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje, é uma coletânea de 29 textos de diferentes autores sobre a cidade de Nova  York e seus enormes contrastes socioeconômicos. Pedi-o ao Grupo Editorial Record, parceiro do blog, e eles gentilmente me enviaram. (Não é por nada não, mas os livros que o Grupo Editorial Record tem me mandado de parceria estão salvando minhas leituras!)

O organizador da coletânea, John Freeman, é escritor e crítico literário. Em 2014, escreveu a diversos autores contando sua ideia de reunir textos sobre as desigualdades da cidade de Nova York. Obteve três dezenas de respostas, que culminaram neste livro (a edição brasileira, por razões de motivos autorais, não conta com três dos textos originalmente reunidos).

É sempre difícil resenhar livros que não têm uma história só – ou seja, que não tenham o formato de romances ou novelas, mas sim livros de contos, crônicas, poesias. Em geral, esse tipo de livro traz textos de que gostamos mais ou menos, não tem um narrador único ou os mesmos personagens que podemos esmiuçar, etc. Mas esse tipo de livro também tem grandes vantagens. A primeira, é a de trazer “capítulos” mais curtos e, portanto, uma tendência maior à fluidez da leitura e a possibilidade de parar a leitura e retomar no futuro. A segunda, é a riqueza de temas e formatos. Neste caso específico, existe uma terceira qualidade enorme: por reunir textos de diferentes pessoas, é possível tomar contato com autores novos e seus respectivos estilos de escrita. Não fica um livro cansativo por sua dinâmica de trocar de autor, estilo e assunto com muita frequência.

Um passeio por dois bairros de Nova York revela os grandes contrastes não só entre pobreza e riqueza material, mas também a enorme diferença de interação entre as pessoas nas ruas e em seu entorno; o caso do sumiço de um garoto autista de uma escola é pretexto para a discussão de sistemas de saúde e educação para pessoas especiais; um emprego no turno da noite revela personagens inusitados; uma visita aos túneis de NY leva a pensar sobre a questão da dignidade das pessoas; para citar apenas algumas das “viagens” que é possível fazer durante a leitura.

Certamente o tema mais recorrente de todos é o do alto preço dos aluguéis na cidade e as dificuldades no sistema habitacional para pessoas de baixa renda e a gentrificação dos bairros novaiorquinos, seguido pela efervescência social e cultural derivada do grande número de imigrantes de outros países. Meus textos favoritos foram Estrangeiros extremamente capazes, de Taiye Selasi, sobre os imigrantes e algumas de suas estratégias de sobrevivência, e Pequenos destinos 1912, de Teju Cole. Este é uma compilação de pequenas notas que apareciam em 1912 nos jornais de Nova York contando notícias “curiosas” – em geral, casos de morte. Não pude deixar de comparar com os atuais microcontos, reavivados por conta do sucesso do Twitter (até 140 caracteres!). Este era um gênero que aparecia em periódicos de outros locais também, especialmente os francófonos, mas o livro é sobre Nova York, por isso a seleção. São microtextos absolutamente geniais. Para dar um gostinho, aí vão três deles:

“O engenheiro John Griffiths é um homem de família. Tem uma no Queens, com Sadie, e outra em Long Island, com Rose.”

“Em Williamsburg, o inspetor da companhia de gás George Hill, enlouquecido pela insônia, abriu o gás e finalmente dormiu.”

“Immekus, um pintor, deixou cair sua carteira no Erie Canal. Mergulhou rapidamente para buscá-la e não voltou.”

Cada escritor relatando suas próprias experiências criam uma colcha de retalhos desta que é uma das mais importantes e dinâmicas cidades do mundo. Nunca fui a Nova York, mas após a leitura, sinto que conheço muito mais de sua realidade cotidiana, para além das luzes brilhantes da Times Square. É curioso pensar que as coisas em grandes cidades podem ser tão parecidas, e ao mesmo tempo, tão diversas. Em Nova York, nos deparamos com um sistema jurídico diferente, relações interpessoais diferentes, debates étnico-raciais diferentes, mas ao mesmo tempo, tudo tão próximo de nossas próprias estruturas. Vale a pena pensarmos, a partir dessa leitura, questões de empatia, comparações entre “modelos” de cidades, diversidades e similaridades culturais.

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+ info:

Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje / organização John Freeman; tradução Paulo Afonso.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2016.
319 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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