2016, Best Business, Não ficção, Parceria, Resenha

Escassez

Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir

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“A escassez captura a mente. Assim como os participantes famintos do estudo tinham a comida em suas mentes, quando experimentamos qualquer tipo de escassez, somos absorvidos por ela. A mente se direciona automática e fortemente para as necessidades não supridas. Para o faminto, essa necessidade é a comida. Para as pessoas ocupadas, pode ser um projeto a ser concluído. Para quem está sem dinheiro, pode ser o pagamento do aluguel daquele mês; para o solitário, a falta de companhia. A escassez é mais do que o simples desprazer de ter muito pouco. A escassez muda a maneira como pensamos. Ela se impõe em nossas mentes.” (p. 18)

Solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, o livro Escassez. Me chamou a atenção a abordagem que os autores prometiam na sinopse: analisar os efeitos mentais da escassez de determinado recurso na vida das pessoas.

Os autores são professores universitários: Mullainathan de Economia na Universidade de Harvard, e Shafir de Psicologia na Universidade de Princeton. A partir de estudos e experiências, eles traçam reflexões sobre como o ser humano lida com a falta de alguma coisa, seja essa coisa água, comida, tempo, dinheiro.

Através de pesquisas muito interessantes, entrevemos como nosso cérebro lida com situações de escassez. Inconscientemente, ficamos mais alertas em relação a tudo que se conecta de alguma maneira àquilo que sentimos falta, como numa espécie de obsessão inconsciente. Como no caso em que um grupo de pessoas foi submetido a um teste: ficar em frente a uma tela e ter que identificar a palavra nela projetada (sendo que a palavra só aparecia durante poucos milésimos de segundo, a fim de garantir que a identificação da palavra se desse num nível inconsciente). Metade do grupo estava faminta e a outra metade, saciada. Os resultados dos dois grupos foram parecidos, exceto em uma situação: quando a palavra projetada se relacionava com comida. Neste caso, o grupo faminto se saiu muito melhor que o grupo saciado. Isso significa que as pessoas que estavam com fome tinha sua mente tomada – ou, usando a palavra que os próprios autores utilizam, capturada – por tudo que se relacionava ao que lhe faltava (no caso, comida).

A escassez opera desta maneira: ocupa nosso pensamentos e diminui nossa largura de banda, ou seja, nossa capacidade de tomar decisões e raciocinar logicamente. O que acaba por empurrar-nos para um ciclo vicioso. É assim que os autores explicam o fato de pessoas pobres raramente conseguirem “se livrar” da pobreza ou o fato de alguém que está de dieta (escassez de calorias) comumente “escorreguem”, a descumpram, e voltem a seus velhos hábitos. Sua capacidade de tomar decisões está comprometida pela escassez.

Se existe um lado bom de tudo isso, é que a escassez tende a nos tornar mais focados. Se por um lado sua mente só se ocupa com o assunto que te inquieta, por outro lado, às vezes é disso que você precisa. Pense no caso de uma pessoa que precise terminar um trabalho acadêmico em determinado prazo. É muito mais comum as pessoas se saírem melhor sob pressão, conseguirem escrever um artigo ou uma monografia em menos tempo do que o previsto, simplesmente porque o fim do prazo se aproxima, ou seja, quando o tempo é escasso ( #quemnunca ). Quando tempos tempo em abundância (ou dinheiro, ou outras coisas), determinado compromisso não parece tão urgente; outras coisas nos distraem. Quando o tempo é escasso, um único projeto captura nossa atenção.

Calvin entendendo a psicologia da escassez

Tudo isso que rapidamente expus está detalhado ao longo do livro, e existem muitos conceitos definidos pelos autores e devidamente explanados.

O livro está dividido em 3 partes: A mentalidade da escassez, em que são explicados os mecanismos pelos quais a escassez captura nossa mente e algumas de suas consequências; Escassez gera escassez, por meio do qual os autores demonstram como as pessoas ficam presas em armadilhas da escassez (como por exemplo, pegar empréstimos a altos juros) e dificilmente quebram seu ciclo; e Um design para a escassez, parte onde analisam a situação específica da pobreza (da escassez de dinheiro). Este é considerado um caso especial pois a falta de dinheiro acaba causando falta de outras coisas, como comida e sono. Nesta terceira parte, fala-se um pouco mais de como as corporações lidam com as questões de escassez e os autores dão algumas “dicas”.

Trata-se de um livro de não-ficção escrito em um estilo direto e acessível. Apesar de os autores serem professores universitários, é muito fácil compreender o texto, já que trata-se mais de uma obra de divulgação do que acadêmica. É claro que as referências estão ali, através de notas ao final do livro, o que possibilita que o leitor se aprofunde em determinado assunto caso seja de seu interesse. Não concordo 100% com o que os autores afirmam, mas isso provavelmente é um problema da minha própria largura de banda (hihihi). Sendo formada na área de História, utilizo ciências próximas a ela para pensar a questão da pobreza, e a abordagem puramente econômica ou psicológica ainda me parecem incompletas. Mas os argumentos dos autores são bem embasados em pesquisas e experiências. Eles utilizam também muitas metáforas que tornam palpáveis os exemplos, além de repetirem diversas vezes o mesmo conceito ao longo do texto.

Confesso que inicialmente, fiquei com preguiça de ler o livro. Não costumo gostar de livros direcionados a empresas, como é o caso dos livros do selo Best Business. Mas, como livro de parceria, foi obrigatório que eu o resenhasse. Que bom! Definitivamente li um estilo fora da minha zona de conforto, e foi uma ótima experiência, prazerosa inclusive. É um livro que muda nossa forma de olhar para as coisas. Para que fique registrado, bastou que eu começasse a ler a introdução para ser fisgada pelo tema e pela abordagem dos autores. Gostei muito da leitura e recomendo!

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+ info:

Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações / Sendhil Mullainathan, Eldar Shafir; tradução Bruno Casotti.
Rio de Janeiro: Best Business, 2016.
381 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “Escassez

  1. Naaaati! Mesmo te achando eclética, jamais imaginei ler um livro desse estilo por aqui, benefícios da parceria com a editora, te fazer sair da zona de conforto, certo? E olha, fiquei super instigada a ler. Eu sou super fã de psicologia, e apesar de raramente ler coisas sobre o assunto, quando chegam no meu colo, paro e fico ali super concentrada. Esses dias, fazendo compras fictícias no site da amazon (sim, faço isso pra saciar um pouco a vontade de comprar kkkkkkkkk), cheguei a colocar na cestinha dois livros do Freud. Totem e Tabu que um professor de economia indicou pra turma a aaaanos, e um outro sobre luto. E apesar de não ser oficialmente formada, sou super das Humanas, e por isso tbm as vzs me pego com esse sentimento, quase dicotômico de que certas coisas são explicadas por acontecimentos históricos e sociais, mas ao mesmo tempo tem esse lance psicológico que justifica até certo ponto o comportamento de uma sociedade x. Enfim! Tudo o que nos faz queimar a cuca de tanto pensar, é difícil e até meio maluco, mas faz um bem danado! Hahahaha. Beeeijo Nati, só pra variar, resenha maaaara!

    • Kaaat, sua linda!!!!!! 😀
      Nem me fale, esse livro foi uma surpresa (até eu me surpreendi de pedir esse livro!), ainda bem que foi uma boa leitura!
      Psicologia é bem interessante!
      HAHAHAHAHA compras fictícias!!!!!!!! Adorei…
      Beijoooo, muito obrigada por ler e comentar! 🙂
      Nati

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