2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, Resenha

A caixa-preta

A caixa-preta, de Amós Oz

caixapreta

 “Não há caminho de volta para esta carta. Nem haverá. Traio Michel como traí você tantas vezes em seis dos nove anos do nosso casamento.
Sangue de puta.
Sim, eu sabia que você diria isso, com a maldade oceânica flamejando como a aurora boreal na profundeza de seus olhos cinza. Mas não, Alec. Você está enganado. Esta traição é diferente: toda vez que eu o traí com seus amigos, com seus comandantes do Exército, com seus alunos, com o eletricista e com o encanador, estava sempre tentando me aproximar de você por meio da traição. Era sempre você que eu tinha na mente. Mesmo quando gritava de prazer. Especialmente nesses momentos. Como está escrito em letras de ouro sobre a Arca Sagrada, na sinagoga de Michel: “Coloquei meu Senhor sempre diante de mim”.
Agora são duas da madrugada em Jerusalém, Michel está encolhido como um feto nos lençóis suados, o cheiro de seu corpo peludo mistura-se no ar quente com o cheiro de urina que vem da pilha de lençóis da menina num canto do quarto atulhado, um vento seco e quente vindo do deserto passa pela janela aberta e bate com ódio na minha cara. Estou de camisola, sentada à mesa de Michel, rodeada de cadernos dos seus alunos, e escrevo para você à luz de um abajur recurvado, com um mosquito demente zumbindo sobre mim e luzes árabes distantes me olhando do outro lado do uádi, e eu escrevendo para você das profundezas, traindo Michel e traindo minha filha de maneiras diferentes. De um jeito como nunca traí você. E eu o traio justamente com você. Traindo-o depois de todos esses anos, nos quais nem uma sombra de mentira pairou sobre nós.
(p. 49)

Já comentei sobre o escritor israelense Amós Oz aqui no blog, quando fiz o post sobre Judas, provavelmente o melhor livro que li em 2015.

Em março de 2016, passei por um período de quase-ressaca literária. No meio do mês, me vi com 6 livros “encalhados”, pela metade, e com pouca vontade de continuá-los. Percebi logo que precisava de algo para me estimular a ler com prazer novamente, e rápido! 😛 Amós Oz me chamou.

Assim que iniciei a leitura, o formato já me chamou a atenção: é um livro todo escrito em cartas, o que costuma se chamar de romance epistolar.

Começamos observando a correspondência entre uma mulher e seu ex-marido no ano de 1976. Ilana mora em Israel com sua nova família (Michel, o marido, e Yifat, a filha pequena), e Alexander é professor universitário nos Estados Unidos. Eles tiveram um divórcio difícil há alguns anos, e não se falam desde então. Agora, ela escreve para que ele ajude financeiramente o filho de ambos, Boaz (o qual é um personagem muito interessante, diga-se de passagem), que vive afastado, se metendo em encrencas e com raiva dos pais. Aos poucos, vamos entendendo a trama e as relações e sentimentos de cada um em relação aos outros. Acompanhamos não só as cartas de Ilana e Alexander, mas também de Michel, Boaz, e do advogado Zakheim.

O mais incrível é a capacidade de Oz nos inserir num ambiente e numa história de maneira muito clara, a através de cartas, ou seja, de diferentes olhares. Penso que você descrever todo um universo e muitas ações a partir de um único narrador seja mais fácil. Neste caso, a cada carta vamos descobrindo novas informações e novos pontos de vista sobre uma mesma situação.

É uma sensação diferente a de ir descobrindo aos poucos sobre a vida e os problemas dos personagens. E ainda tem o interessante aspecto do voyeurismo – que pode dar a impressão de invasão de privacidade! -, pois observamos a vida íntima desta família fragmentada através das palavras de cada um. Ler a carta particular de alguém para outra pessoa é como ler os pensamentos dessa pessoa, quase que a sua alma, pelo menos esta é a impressão que passa.

O autor consegue mudar sutilmente o estilo para cada personagem que escreve; é possível identificar quem está escrevendo sem ver a assinatura – com exceção dos telegramas, todos em caixa alta e sem um estilo próprio – afinal de contas, são telegramas!

Não espere um livro de ação e cheio de reviravoltas. Pelo que já li do autor, essa não é a pegada dele. Amós Oz preza por uma literatura mais calma e profunda, mais sutil. É um livro um pouco angustiante em alguns momentos, e complexo como a vida familiar. Após a leitura, achei que a segunda metade torna-se cada vez menos dura, e mais terna e melancólica. Do jeito que eu gosto!

E assim como aconteceu em Judas, entrevemos aspectos da vida em Israel e de algumas posições políticas ali presentes no século XX. O judaísmo está inserido pela figura de Michel, o atual marido de Ilana, com seus costumes mais conservadores e defesa do Estado de Israel. Reiterarei o que já falei na outra resenha: é um sopro de ar fresco ler sobre personagens judeus não apenas sob a perspectiva da perseguição e do Holocausto (que, obviamente, também são temas importantes). Nos traz uma visão mais complexa e caleidoscópica – e, por isso, mais próxima da realidade – deste povo especificamente.

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+ info:

A caixa-preta / Amós Oz; tradução Nancy Rozenchan.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
267 páginas.

classificação: 5 estrelas


grau de dificuldade de leitura:
 MEDIO

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6 comentários sobre “A caixa-preta

  1. Oi, Nati!
    Nossa! Que interessante. Esse Amós deve ser muito bom. Essa habilidade de criar vozes pros personagens é incrível. E a história parece bem intrigante.
    Vou tentar ler Judas esse ano!
    Parabéns, Nati!

    • Oiii Giovanni!!!!!
      Então, é muito interessante, e o Amós tem MUITA coisa que eu gosto. Super candidato a autor favorito também, mas ainda quero ler mais coisas dele.
      Não sei se vc vai gostar mais de Judas ou de A caixa-preta (acho que do segundo), vc vai ter que ler pra saber! 🙂
      Beijoooo!
      Nati

    • É, então… não sei se Amós Oz é muito a sua praia, mesmo o Judas, viu… recomendo que vc leia o primeiro capítulo pra ver se gosta do estilo (geralmente a Cia. das Letras disponibiliza o primeiro capítulo no site!)

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