2016, José Olympio, Parceria, Poesia, Resenha

Toda poesia de Augusto dos Anjos

Toda poesia, de Augusto dos Anjos

Toda Poesia de Augusto dos Anjos

“PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialidade inorgânica da terra!” (p. 94)

Tive contato com a poesia de Augusto dos Anjos durante o Ensino Médio. Foi um contato extremamente superficial, já que estudei em um colégio bastante voltado para o vestibular – e a obra do poeta não constava em nenhuma das listas de leituras obrigatórias. Ou seja, ouvi um ou outro professor fazer uma ou outra citação a respeito do autor, e explicar suas principais características. Me lembro de ter ouvido ou lido (dá pra ver que não me lembro tão bem assim) um ou outro poema. E já me chamava muito a atenção.

No mês de março, o Grupo Editorial Record disponibilizou alguns títulos para que os parceiros solicitassem aqueles que mais lhes interessaria ler e resenhar. Não resisti quando me deparei com uma coletânea de poemas de Augusto dos Anjos. Senti que era hora de ler a obra do paraibano e me aprofundar um pouco nela.

As 80 primeiras páginas desta edição são um excelente estudo crítico de Ferreira Gullar a respeito de Augusto. Conta um pouco de sua biografia, passeia pela história regional e nacional do período que o poeta viveu (de 1884 a 1914), e insere ali diversas discussões sobre Literatura, poesia e modernidade. Ferreira Gullar também propõe uma cronologia para a obra do poeta. Além do estudo de Gullar, esta edição compila o livro Eu, publicado pela primeira vez em 1912, que contém 58 poesias, e também diversos poemas não reunidos por autor em livro. Gostei mais dos poemas apresentados em Eu.

Augusto dos Anjos viveu num local, numa família e num período de decadência. Sua família, antiga proprietária de engenhos, teve que vender os bens a preço baixo, e alguns dos parentes de Anjos adoecem e morrem. O contexto nordestino à época também é de declínio frente às transformações sociopolíticas e econômicas das últimas décadas do século XIX: proclamação da República (1889), abolição oficial da escravidão (1888) e modernização econômica dos centros urbanos acabam por arruinar toda a aristocracia rural latifundiária da região. Tal cenário de decadência influenciará a obra de Augusto dos Anjos, dando-lhe um tom profundamente negativo.

Nesse momento, a Literatura brasileira inseria-se no contexto mundial como dependente da Literatura estrangeira, e por isso, imitadora especialmente dos países europeus. A produção literária no Brasil tinha seus principais expoentes no Parnasianismo e no Simbolismo. Segundo Gullar, Augusto dos Anjos certamente é tributário desses modelos, mas faz uma poesia que não se encaixa exatamente em nenhum deles. Isso porque Augusto dos Anjos cria uma poesia muito vívida e pulsante, baseada na experiência da realidade e na vivência cotidiana, coisa rara na Literatura brasileira do período (Machado de Assis é a óbvia e genial exceção que propõe críticas ácidas à sua realidade).

Poesia costuma ser um desafio para mim, que sou uma leitora fanática de prosa. Me parece que a poesia exige outra lógica de leitura, um ritmo diferente, uma disposição única para a releitura, entre outras características. Mas com Augusto dos Anjos minha dificuldade diminui consideravelmente. Me agrada muito a temática, a linguagem e o ritmo de sua poesia. Aliás, recomendo que leiam em voz alta os versos de Anjos. Traz toda uma musicalidade interessante à leitura, já que o poeta serve-se de rimas e aliterações com frequência.

Muitas vezes formatados em sonetos (dois quartetos e dois tercetos, como o poema destacado no trecho inicial do post), os versos de Augusto dos Anjos falam de materiais cotidianos, e às vezes também transcendentais. A morte e a decadência são assuntos recorrentes. Mas acredito que o verdadeiro diferencial deste poeta esteja no universo que ele cria a partir de seu vocabulário, bastante voltado para termos científicos e alguns nem um pouco fáceis (ou você acha comum inserir o termo “dicotiledôneas” em um poema?). Elementos retirados da Química, da Anatomia, da Patologia, da Biologia, da Filosofia, se repetem nos poemas, e produzem uma atmosfera muito terrena, tão real que chega a ser até irônica.

Perdão, mas terei que trazer Machado de Assis ao texto novamente. A maioria dos poemas de Augusto me trazem uma sensação parecida com a que tive ao ler Memórias póstumas de Brás Cubas, aquele clima de constrangimento frente às verdades tão cruas e doloridas que eles nos atiram na cara. Aquele incômodo que sentimos ao ler a dedicatória de Brás Bubas (“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…”) e a frase final do livro (“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”).

Os traços de pessimismo e negatividade são impossíveis de serem ignorados. Não apenas pelos temas preferidos de Augusto, mas a abordagem que ele dá à morte não é a da elevação, e sim a da putrefação. Aí vai um dos inúmeros exemplos:

“Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo
A apodrecer!… És poeira, e embalde vibras!
O corvo que comer as tuas fibras
Há de achar nelas um sabor amargo!” (p. 116)

Percebo que os críticos e os leitores de Anjos se perturbam com esse aspecto. É comum encontrarmos o termo “mau gosto” para caracterizar a poesia dele. Verdadeiramente não creio que se trate de mau gosto. Trata-se, sim, de uma poesia crua e incômoda, que fala sobre temas nem sempre agradáveis e utilizando palavras que podem causar nojo e abjeção. Mas tudo isso faz parte da vida, certo? Lidemos com isso, poeticamente.

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+ info:

Toda poesia / Augusto dos Anjos.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.
162 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Best Business, Não ficção, Parceria, Resenha

Escassez

Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir

9788568905197

“A escassez captura a mente. Assim como os participantes famintos do estudo tinham a comida em suas mentes, quando experimentamos qualquer tipo de escassez, somos absorvidos por ela. A mente se direciona automática e fortemente para as necessidades não supridas. Para o faminto, essa necessidade é a comida. Para as pessoas ocupadas, pode ser um projeto a ser concluído. Para quem está sem dinheiro, pode ser o pagamento do aluguel daquele mês; para o solitário, a falta de companhia. A escassez é mais do que o simples desprazer de ter muito pouco. A escassez muda a maneira como pensamos. Ela se impõe em nossas mentes.” (p. 18)

Solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, o livro Escassez. Me chamou a atenção a abordagem que os autores prometiam na sinopse: analisar os efeitos mentais da escassez de determinado recurso na vida das pessoas.

Os autores são professores universitários: Mullainathan de Economia na Universidade de Harvard, e Shafir de Psicologia na Universidade de Princeton. A partir de estudos e experiências, eles traçam reflexões sobre como o ser humano lida com a falta de alguma coisa, seja essa coisa água, comida, tempo, dinheiro.

Através de pesquisas muito interessantes, entrevemos como nosso cérebro lida com situações de escassez. Inconscientemente, ficamos mais alertas em relação a tudo que se conecta de alguma maneira àquilo que sentimos falta, como numa espécie de obsessão inconsciente. Como no caso em que um grupo de pessoas foi submetido a um teste: ficar em frente a uma tela e ter que identificar a palavra nela projetada (sendo que a palavra só aparecia durante poucos milésimos de segundo, a fim de garantir que a identificação da palavra se desse num nível inconsciente). Metade do grupo estava faminta e a outra metade, saciada. Os resultados dos dois grupos foram parecidos, exceto em uma situação: quando a palavra projetada se relacionava com comida. Neste caso, o grupo faminto se saiu muito melhor que o grupo saciado. Isso significa que as pessoas que estavam com fome tinha sua mente tomada – ou, usando a palavra que os próprios autores utilizam, capturada – por tudo que se relacionava ao que lhe faltava (no caso, comida).

A escassez opera desta maneira: ocupa nosso pensamentos e diminui nossa largura de banda, ou seja, nossa capacidade de tomar decisões e raciocinar logicamente. O que acaba por empurrar-nos para um ciclo vicioso. É assim que os autores explicam o fato de pessoas pobres raramente conseguirem “se livrar” da pobreza ou o fato de alguém que está de dieta (escassez de calorias) comumente “escorreguem”, a descumpram, e voltem a seus velhos hábitos. Sua capacidade de tomar decisões está comprometida pela escassez.

Se existe um lado bom de tudo isso, é que a escassez tende a nos tornar mais focados. Se por um lado sua mente só se ocupa com o assunto que te inquieta, por outro lado, às vezes é disso que você precisa. Pense no caso de uma pessoa que precise terminar um trabalho acadêmico em determinado prazo. É muito mais comum as pessoas se saírem melhor sob pressão, conseguirem escrever um artigo ou uma monografia em menos tempo do que o previsto, simplesmente porque o fim do prazo se aproxima, ou seja, quando o tempo é escasso ( #quemnunca ). Quando tempos tempo em abundância (ou dinheiro, ou outras coisas), determinado compromisso não parece tão urgente; outras coisas nos distraem. Quando o tempo é escasso, um único projeto captura nossa atenção.

Calvin entendendo a psicologia da escassez

Tudo isso que rapidamente expus está detalhado ao longo do livro, e existem muitos conceitos definidos pelos autores e devidamente explanados.

O livro está dividido em 3 partes: A mentalidade da escassez, em que são explicados os mecanismos pelos quais a escassez captura nossa mente e algumas de suas consequências; Escassez gera escassez, por meio do qual os autores demonstram como as pessoas ficam presas em armadilhas da escassez (como por exemplo, pegar empréstimos a altos juros) e dificilmente quebram seu ciclo; e Um design para a escassez, parte onde analisam a situação específica da pobreza (da escassez de dinheiro). Este é considerado um caso especial pois a falta de dinheiro acaba causando falta de outras coisas, como comida e sono. Nesta terceira parte, fala-se um pouco mais de como as corporações lidam com as questões de escassez e os autores dão algumas “dicas”.

Trata-se de um livro de não-ficção escrito em um estilo direto e acessível. Apesar de os autores serem professores universitários, é muito fácil compreender o texto, já que trata-se mais de uma obra de divulgação do que acadêmica. É claro que as referências estão ali, através de notas ao final do livro, o que possibilita que o leitor se aprofunde em determinado assunto caso seja de seu interesse. Não concordo 100% com o que os autores afirmam, mas isso provavelmente é um problema da minha própria largura de banda (hihihi). Sendo formada na área de História, utilizo ciências próximas a ela para pensar a questão da pobreza, e a abordagem puramente econômica ou psicológica ainda me parecem incompletas. Mas os argumentos dos autores são bem embasados em pesquisas e experiências. Eles utilizam também muitas metáforas que tornam palpáveis os exemplos, além de repetirem diversas vezes o mesmo conceito ao longo do texto.

Confesso que inicialmente, fiquei com preguiça de ler o livro. Não costumo gostar de livros direcionados a empresas, como é o caso dos livros do selo Best Business. Mas, como livro de parceria, foi obrigatório que eu o resenhasse. Que bom! Definitivamente li um estilo fora da minha zona de conforto, e foi uma ótima experiência, prazerosa inclusive. É um livro que muda nossa forma de olhar para as coisas. Para que fique registrado, bastou que eu começasse a ler a introdução para ser fisgada pelo tema e pela abordagem dos autores. Gostei muito da leitura e recomendo!

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+ info:

Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações / Sendhil Mullainathan, Eldar Shafir; tradução Bruno Casotti.
Rio de Janeiro: Best Business, 2016.
381 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2015, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Penadinho: vida

Penadinho: vida, de Paulo Crumbim e Cristina Eiko

Penadinho: vida é mais uma a graphic novel do projeto Graphic MSP, em que outros artistas contam histórias dos personagens de Mauricio de Sousa, mas no estilo próprio de cada quadrinista (para saber mais sobre os projetos de homenagem aos 50 anos dos personagens de Mauricio de Sousa, veja aqui).

OBS.: Já fiz resenha das seguintes Graphic MSP (clique para ver):

Quando eu lia os quadrinhos da Turma da Mônica, adorava as historinhas de Penadinho e seus amigos. Queria que as historinhas durassem mais, mas geralmente eram curtas. Qual não foi minha empolgação quando lançaram essa HQ!

Teaser de “Penadinho: vida”

 

Os personagens originais da turma do Penadinho, no traço de Maurício de Sousa

Com o mesmo capricho das outras graphic MSP (peraí que já comento sobre a arte!), Penadinho: vida narra a aventura de Penadinho, Zé Vampir, Muminho e Frank em busca de Alminha, amor da vida morte de Penadinho, que foi sequestrada. E ainda há os agravantes: logo antes de Alminha sumir, ela e Penadinho brigam, ele nunca contou para ela que a ama, e ainda por cima, a Dona Cegonha avisa a Penadinho que Alminha vai reencarnar pela manhã. Tudo isso aumenta a dramaticidade da história e também dá um tempo-limite para que toda a ação aconteça.

Minhas principais críticas são em relação ao roteiro: o início da história achei bem lento e chatinho, mas depois ela melhora. Outra coisa, o vilão principal é um tanto quanto incompetente, pois seu plano é facilmente quebrado. E seus ajudantes são irritantes. Também achei a resolução do conflito forçada, mas não vou falar detalhadamente sobre isso, pois seria spoiler.

Mas vamos à parte boa: a arte. Como sempre, as imagens são muuuito melhores ao vivo do que aqui, pela tela do computador. Mas vou tentar mostrar um pouco do que é essa lindeza:

Penadinho, Muminho, Zé Vampir, Frank e Cranicola

Uma das coisas que mais gostei no traço é que ele varia de acordo com cada personagem: Penadinho, Zé Vampir e Frank seguem uma linha mais fofa; Cranicola, é mais realista, e Muminho, mais grotesco. Aliás, todos eles são representados de uma maneira caricatural, que combina com a história.

E, aqui, meus quadrinhos preferidos: Dona Cegonha e Dona Morte. Arrasaram.

Esse da Dona Morte é impressionante ao vivo! Notem as mandingas presas à foice! Hahaha!

Como a história toda se passa em uma noite / madrugada, os artistas tiveram que arranjar soluções para luz, e devo dizer que foram geniais nisso. Os fantasmas emitem luz própria, e possuem esse brilho azulado, e as sombras tornam a arte desses quadrinhos ainda mais bonita – talvez seja o elemento gráfico que mais tenha me agradado!

Recomendado para quem gosta de Penadinho e Maurício de Sousa, embora o roteiro deixe a desejar!

+ info:
Penadinho: vida / Paulo Crumbim, Cristina Eiko
– Barueri, SP: Panini Comics, 2015.
82 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, Resenha

A caixa-preta

A caixa-preta, de Amós Oz

caixapreta

 “Não há caminho de volta para esta carta. Nem haverá. Traio Michel como traí você tantas vezes em seis dos nove anos do nosso casamento.
Sangue de puta.
Sim, eu sabia que você diria isso, com a maldade oceânica flamejando como a aurora boreal na profundeza de seus olhos cinza. Mas não, Alec. Você está enganado. Esta traição é diferente: toda vez que eu o traí com seus amigos, com seus comandantes do Exército, com seus alunos, com o eletricista e com o encanador, estava sempre tentando me aproximar de você por meio da traição. Era sempre você que eu tinha na mente. Mesmo quando gritava de prazer. Especialmente nesses momentos. Como está escrito em letras de ouro sobre a Arca Sagrada, na sinagoga de Michel: “Coloquei meu Senhor sempre diante de mim”.
Agora são duas da madrugada em Jerusalém, Michel está encolhido como um feto nos lençóis suados, o cheiro de seu corpo peludo mistura-se no ar quente com o cheiro de urina que vem da pilha de lençóis da menina num canto do quarto atulhado, um vento seco e quente vindo do deserto passa pela janela aberta e bate com ódio na minha cara. Estou de camisola, sentada à mesa de Michel, rodeada de cadernos dos seus alunos, e escrevo para você à luz de um abajur recurvado, com um mosquito demente zumbindo sobre mim e luzes árabes distantes me olhando do outro lado do uádi, e eu escrevendo para você das profundezas, traindo Michel e traindo minha filha de maneiras diferentes. De um jeito como nunca traí você. E eu o traio justamente com você. Traindo-o depois de todos esses anos, nos quais nem uma sombra de mentira pairou sobre nós.
(p. 49)

Já comentei sobre o escritor israelense Amós Oz aqui no blog, quando fiz o post sobre Judas, provavelmente o melhor livro que li em 2015.

Em março de 2016, passei por um período de quase-ressaca literária. No meio do mês, me vi com 6 livros “encalhados”, pela metade, e com pouca vontade de continuá-los. Percebi logo que precisava de algo para me estimular a ler com prazer novamente, e rápido! 😛 Amós Oz me chamou.

Assim que iniciei a leitura, o formato já me chamou a atenção: é um livro todo escrito em cartas, o que costuma se chamar de romance epistolar.

Começamos observando a correspondência entre uma mulher e seu ex-marido no ano de 1976. Ilana mora em Israel com sua nova família (Michel, o marido, e Yifat, a filha pequena), e Alexander é professor universitário nos Estados Unidos. Eles tiveram um divórcio difícil há alguns anos, e não se falam desde então. Agora, ela escreve para que ele ajude financeiramente o filho de ambos, Boaz (o qual é um personagem muito interessante, diga-se de passagem), que vive afastado, se metendo em encrencas e com raiva dos pais. Aos poucos, vamos entendendo a trama e as relações e sentimentos de cada um em relação aos outros. Acompanhamos não só as cartas de Ilana e Alexander, mas também de Michel, Boaz, e do advogado Zakheim.

O mais incrível é a capacidade de Oz nos inserir num ambiente e numa história de maneira muito clara, a através de cartas, ou seja, de diferentes olhares. Penso que você descrever todo um universo e muitas ações a partir de um único narrador seja mais fácil. Neste caso, a cada carta vamos descobrindo novas informações e novos pontos de vista sobre uma mesma situação.

É uma sensação diferente a de ir descobrindo aos poucos sobre a vida e os problemas dos personagens. E ainda tem o interessante aspecto do voyeurismo – que pode dar a impressão de invasão de privacidade! -, pois observamos a vida íntima desta família fragmentada através das palavras de cada um. Ler a carta particular de alguém para outra pessoa é como ler os pensamentos dessa pessoa, quase que a sua alma, pelo menos esta é a impressão que passa.

O autor consegue mudar sutilmente o estilo para cada personagem que escreve; é possível identificar quem está escrevendo sem ver a assinatura – com exceção dos telegramas, todos em caixa alta e sem um estilo próprio – afinal de contas, são telegramas!

Não espere um livro de ação e cheio de reviravoltas. Pelo que já li do autor, essa não é a pegada dele. Amós Oz preza por uma literatura mais calma e profunda, mais sutil. É um livro um pouco angustiante em alguns momentos, e complexo como a vida familiar. Após a leitura, achei que a segunda metade torna-se cada vez menos dura, e mais terna e melancólica. Do jeito que eu gosto!

E assim como aconteceu em Judas, entrevemos aspectos da vida em Israel e de algumas posições políticas ali presentes no século XX. O judaísmo está inserido pela figura de Michel, o atual marido de Ilana, com seus costumes mais conservadores e defesa do Estado de Israel. Reiterarei o que já falei na outra resenha: é um sopro de ar fresco ler sobre personagens judeus não apenas sob a perspectiva da perseguição e do Holocausto (que, obviamente, também são temas importantes). Nos traz uma visão mais complexa e caleidoscópica – e, por isso, mais próxima da realidade – deste povo especificamente.

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+ info:

A caixa-preta / Amós Oz; tradução Nancy Rozenchan.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
267 páginas.

classificação: 5 estrelas


grau de dificuldade de leitura:
 MEDIO

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