2016, Não ficção, Política, Record, Resenha

Como conversar com um fascista

Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, de Marcia Tiburi


Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro reúne reflexões sobre o estado psicopolítico e cultural de nossa época. O pressuposto que estrutura essas reflexões é que a política define-se como experiência de linguagem e que a qualidade dessa experiência nos une ou nos separa, tornando-nos seres políticos ou antipolíticos.
Se nosso ser político se forma em atos de linguagem, precisamos pensar nessa formação quando o empobrecimento desses atos se torna tão evidente. O autoritarismo é o sistema desse empobrecimento. Ele é o empobrecimento dos atos políticos pela interrupção do diálogo.” (p. 23)

Ganhei este livro de um grande amigo, Edmar, que recentemente tem adentrado a grande aventura dos livros e do pensamento político. Fiquei muito feliz com o presente, e fico ainda mais feliz com o grau de liberdade que vejo o Edmar adquirir ao entrar em contato com tudo isso e debater as questões que lhe surgem.

Antes de começar a apontar alguns aspectos do livro, devo dizer que ele não é exatamente fácil. É um livro complexo, pois exige digestão, e pesado em termos de conceitos, mas também muito claro. Marcia Tiburi é filósofa (daí o grande peso dos conceitos!) e, em suas falas e textos, fala sobre diversos temas pelos vieses filosóficos da ética, da estética, do conhecimento. Ela se coloca muito em relação a temas que tratam dos femininos: a mulher na História, o papel que se atribui a ela, as resistências, o feminismo, o direito ao aborto. Inclusive, deixo aqui um vídeo MARAVILHOSO em que ela fala precisamente sobre O papel da mulher (sério, vejam. É longo mas vale muuuito a pena).

O título, a princípio, me assustou. Como professora de História, o que me vem a cabeça quando falam sobre “fascismo” é a ideologia totalitária que se desenvolveu na Europa no entreguerras. Então logo de cara já fiquei desconfiada de anacronismo. Mas é óbvio que Tiburi não incorre neste erro, e faz questão de definir o que ela trata no livro como “fascismo” – que não é exatamente a mesma coisa que eu pensava que era antes de ler -, e Rubens R. R. Casara, na apresentação do livro, também o faz com maestria. O fascista para a autora é a pessoa com postura autoritária que pode resvalar, e com frequência o faz, para a violência. A formação do fascista geralmente provém de uma falta de consciência política e da não aceitação do outro diferente.

Já o subtítulo, é extremamente preciso: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. O livro é isto. Trata-se de uma coleção de 67 textos muito bem costurados um ao outro, mas ainda assim, independentes entre si, e que tratam sobre o autoritarismo recorrente na cultura brasileira. Eles fazem sentido juntos, e fazem sentido separados. Alguns dos “capítulos” tratam do mesmo tema que seu anterior, outros começam a tratar de um tema novo.

Para se ter uma ideia da gama de assuntos abordados por Tiburi, vai aí uma lista: propaganda, mídia, capitalismo, linguagem como diálogo e como violência simbólica (discurso), vida e morte como categorias políticas, depressão, amor, culpa, assédio, estupro, legalização do aborto, coronelismo intelectual (crítica à falta de reflexão autônoma na Academia), redes sociais e televisão, estereótipos de Brasil e de brasileiro, questões indígenas, identidade e alteridade.

Apesar de perpassar todos esses temas, existe um substrato comum, que é justamente a necessidade de democracia e diálogo frente às atitudes e pensamentos autoritários. Marcia Tiburi procura despertar nossa consciência e, talvez mais do que isso, nossa reflexão, para lidarmos com tudo que é imposto e violento, desde as maiores coisas, até as menores e aparentemente desimportantes.

Como a política parte da experiência da linguagem, para a filósofa, a democracia fundamenta-se no diálogo – falar e ouvir o outro -, enquanto que o autoritarismo seria a interrupção do diálogo, da linguagem (aquilo que ela chama de “discurso”), e, portanto, uma violência. Pensamento autoritário e pensamento democrático se opõem justamente porque se negam. O fascista é aquele sujeito que perde a dimensão do outro, de que o outro é alguém com opiniões, experiências e pensamentos próprios. Por isso, não o escuta; acredita em verdades absolutas, pontos de vista fixos, certezas que, em última instância, negam o outro. Funciona mais ou menos assim: se só existe uma verdade, ela é aquela que eu enxergo. A partir disso, o diálogo torna-se uma ferramenta complexa e difícil se resistência ao autoritarismo e ao fascismo e, consequentemente, um instrumento de transformação social.

Tiburi usa sentimentos como pontos de partida para alguns textos: amor, ódio, estranhamento. Por vezes, me pareceu que o texto adquiria um tom emocional ao invés de racional, o que me incomodou. Incomodou e me fez refletir (olha aí os objetivos filosóficos sendo atingidos!): por que os sentimentos não poderiam – na minha cabeça – fazer parte de uma análise racional? Sentimentos e emoções fazem parte da vida, assim como a racionalidade. Cada vez mais, vemos como o ódio é manipulado por discursos diversos e direcionado a alguns alvos específicos de acordo com interesses, em geral conservadores, como o impedimento ou a aniquilação dos direitos do outro. Por que, então, excluir o ódio (ou o amor) do debate? Ponto para Marcia Tiburi. Inclusive, ela faz algo pouco usual: trata as emoções menos como um sentimento particular e natural, e mais como parte de uma engrenagem organizada e social.

A análise que ela faz da realidade brasileira consegue ser profunda, provocadora e esclarecedora ao mesmo tempo. Percebemos, por exemplo, que os discursos de incitação à violência de alguns líderes e figuras públicas encontram terreno fértil na paranoia coletiva, no medo, na insegurança (que nada mais são do que a negação do outro). Tudo isso é devidamente alimentado por imagens, discursos, cultura de boatos, assédios, agressões, crimes e sensacionalismos.

Fica óbvio de que lado Tiburi está. A favor da democracia e contra o autoritarismo; como boa filósofa, sempre instigadora da reflexão. O livro traz uma afirmação constante da necessidade de consciência, de análise crítica, de questionamentos, de diálogo – e a negação do vazio, da repetição automática, do ódio, da violência. Em alguns momentos, pode se tornar pesado, mas é um livro necessário em tempos como os nossos.

Clique aqui para comprar Como conversar com um fascista pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Como conversar com um fascista / Marcia Tiburi.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
194 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

8 comentários sobre “Como conversar com um fascista

    • Oiii Alinde! fico feliz que tenha gostado da resenha! 😀
      O livro é interessantíssimo, ainda mais considerando a conjuntura política atual… vale a pena lê-lo pela lucidez da argumentação da autora, nem que seja para depois criticar, sabe? O mais importante do livro é que ele estimula a reflexão, gostei muito.
      Beijos, obrigada por visitar e comentar!
      Nati

    • Concordo, Menchikos! Eu até ia escrever isso, mas esqueci. “Como conversar com um fascista” é mais apelativo aos olhos do público (até pela polêmica que o termo pode causar). Mas no livro eles elucidam bem o que querem dizer com esse termo, só não entende quem não quer. São só preocupações excessivas de historiadora, sabe? Hahahaha! Não querer que as pessoas generalizem conceitos… 😛

  1. Que lindo o que você falou do Ed!!! ❤ Acho que é uma ótima leitura para o momento difícil que estamos vivendo. Suas resenhas são maravilhosas! Eu poderia escrever isso em todas, mas acho que ficaria meio chato ficar chovendo no molhado! ahahah Você arrasa!!

  2. Alessandra Costa disse:

    Eu estou lendo ele no momento e de fato, estou numa parte pesada. Seu texto me incentivou a continuar a leitura. E que reflexão maravilhosa a sua, hein?! Parabéns!!!

    • Ô Alessandra, muito obrigada pelo seu comentário!!! ❤
      Alguns capítulos são mais pesadinhos mesmo. Se for o caso, dê um tempinho do livro e volte a lê-lo depois. Minha impressão é a de que ter lido de uma vez fez alguns dos textos ficarem muito densos; dar um tempo entre um e outro pode ajudar a digerir melhor o conteúdo.
      Beijooos!
      Nati

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s