2015, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha, Séries e trilogias, Vídeo

O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

O tempo e o vento, de Erico Verissimo

oteov

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
[…]
Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo modo ele ainda governa Santa Fé! Maragato algum jamais botará o pé no Sobrado nem como inimigo nem como amigo: nem agora nem nunca!
Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a à maneira de cigarro, acende-lhe a ponta e leva-a aos lábios. Como não há mais nenhum pedaço de fumo em casa, para aliviar a vontade de fumar ele pita apenas a palha.
Ruído de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue o vulto da cunhada.
— Acho que a criança vai nascer esta madrugada — murmura Maria Valéria.
Fica ali imóvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as mãos trançadas sobre o estômago. Por alguns instantes Licurgo permanece calado. Nada mais pode dizer senão repetir o que vem dizendo há quase uma semana com uma obstinação que às vezes se transforma em fúria: aconteça o que acontecer, não pedirá trégua.” (pp. 17-26)

O tempo e o vento é uma saga que conta a história da família Terra Cambará desde suas origens, em 1745, até o momento em que a obra foi escrita, 1945. Passeamos através das gerações dessa família totalmente imersa na história do Rio Grande do Sul – e, portanto, do Brasil – e de suas tradições, mudanças, guerras, disputas políticas.

A série conta com três obras (O continenteO retratoO arquipélago) geralmente divididas em 7 volumes, conforme mostrado na imagem do início do post.

Esta foi uma das melhores experiências de leitura que tive em 2015. Já tinha o box com os sete livros, que haviam sido indicados por minha mãe, porém, a preguiça sempre falava mais alto e fui deixando para lá. Até que a Tati Feltrin iniciou o projeto #LendoOTempoEOVento, e eu resolvi embarcar junto, aproveitar o embalo.

Os sete livros contam a história da família Terra-Cambará; nos dois volumes de O continente, temos contato com diversos personagens que remontam ao passado distante da família e viram figuras icônicas. São os fundadores da família: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, etc. Intercalados com os capítulos desses personagens, visualizamos o “presente”, ou seja, o início do século XX, em que o Sobrado da família Terra-Cambará está em guerra: cercado por inimigos políticos (ver o trecho inicial do post). Aos poucos, magistralmente, Verissimo vai costurando uma narrativa dinâmica, viva e interessante. Vai se delineando a história da família Terra-Cambará.

A partir dos dois volumes de O retrato – e isso inclui também os três volumes de O arquipélago -, o foco será o personagem dr. Rodrigo Terra Cambará e sua família nuclear: filhos, esposa, irmão, tios. Ele condensa muitas das características do lado Cambará (carisma, intrepidez,

Não se preocupe com a quantidade de personagens, pois todos os livros (ao menos os da edição da Companhia das Letras) vêm com a devida árvore genealógica, e Erico Veríssimo é habilidoso em introduzir personagens aos poucos e lhes dar características muito marcantes. Por isso, eles se tornam quase que pessoas reais, graças a suas contradições, qualidades e defeitos – inclusive, Verissimo coloca personagens históricos misturados com os ficcionais (como Getúlio Vargas, por exemplo), e uns não deixam nada a dever aos outros.

A saga está repleta de dualidades e circularidades, o que aumenta ainda mais o mérito do autor.

As dualidades são opostas, mas ao mesmo tempo complementares, uma precisa da outra para atingir um equilíbrio. O simbolismo de tempovento é muito forte, estando o tempo representando as permanências, enquanto que o vento (o minuano) representa as mudanças bruscas. No caso das permanências, basta perceber que, apesar de as gerações passarem na família, muitos personagens “se repetem”: é o caso das mulheres que comandam a família – e, posteriormente, o Sobrado -: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria. Elas são a mesma personagem em tempos diferentes: as rochas da família, mulheres que enxergam além dos seus próprios olhos (quando velhas, inclusive ficam cegas), e organizam a vida familiar. Quanto às transformações, são marcadas principalmente pelas guerras na região, mortes na família, conflitos.

Outro caso das dualidades complementares são os polos homem-mulher. As personagens femininas da família, como já foi dito, são, em geral, fortes e estáveis. Apesar de estarem conformadas à vida doméstica (como era comum à época), ali exercem seu poder de decisão e de resistência. Elas são, assim como o tempo, a permanência, a continuidade. São essas mulheres que esperam as mudanças e as atitudes dos personagens masculinos – os quais são mais intempestivos, volúveis, e, por isso, efêmeros. Eles representam as mudanças bruscas, como o vento.

Os Terras e os Cambarás também formam uma dualidade que encontra seu equilíbrio dentro da dinâmica familiar: os Terras são fixos, teimosos, resistentes, enraizados. Já os Cambarás, tendem a ser aventureiros, apaixonados, correm riscos.

Outra virtude da saga é mesclar acontecimentos históricos com a ficção; guerras por fronteiras no sul do país, fraudes eleitorais durante o período oligárquico, reviravoltas políticas que culminam na Revolução de 1930, etc. Os contextos são muito bem apresentados, e o autor habilmente coloca nas falas dos personagens opiniões diversas sobre política, religião, economia, ideologias, etc. Ou seja, temos acesso a muitos argumentos e pontos de vista diferentes através dos personagens. É importante ler livros que tragam o diálogo, ainda que ficcional, em tempos – como o nosso – de ameaça à democracia.

Se você tem medo de ler clássicos ou literatura brasileira, procure O continente em alguma biblioteca. Tenho certeza de que não vai achar a linguagem difícil nem a história chata. Verissimo nos brinda com uma escrita maravilhosa, descritiva na medida certa para nos fazer ter sensações e nos situarmos no ambiente da narrativa, mas não excessiva. E a linguagem dele permanece atual e simples, muito fluida e acessível ao leitor brasileiro. Recomendadíssimo!

No canal, fiz uma playlist com todo o diário de leitura de O tempo e o vento: são 11 vídeos em que falo separadamente sobre cada livro (no caso de O continente, falo de cada capítulo).

Clique aqui para comprar O Tempo E O Vento – Caixa. 7 Volumes pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

 

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s