2016, Contos, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Leia Mulheres, Pallas, Resenha

Olhos d´água

Olhos d´água, de Conceição Evaristo


“A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno?” (pp. 104-105)

Li Olhos d´água para o encontro de fevereiro do Leia Mulheres de Belo Horizonte. E acabei encaixando-o também no desafio de fevereiro dO Grande Desafio do Culto Booktuber proposto pela Laíse, do canal Boards e Books. O desafio consistia em ler um autor ainda não lido. Conceição Evaristo é uma escritora natural de Belo Horizonte e que teve uma juventude pobre: foi moradora de favela e conciliou os estudos e o trabalho como empregada doméstica. Formou-se em Letras, e hoje em dia é Mestra e Doutora em Literatura. Começou sua carreira como escritora em 1990.

Olhos d´água é uma reunião de contos de Conceição. Eles têm como protagonistas na maioria dos casos mulheres negras, e em muitos casos, pobres e em baixa condição socioeconômica.

No prefácio e na introdução que há no livro – ambos muito bons, de Heloisa Toller Gomes e Jurema Werneck -, destaca-se muito os diversos papéis desempenhados pela mulher em geral, e pela mulher negra e pobre, em particular. Mas o que mais me atingiu nas narrativas da autora foram duas coisas: o amor e a violência, ambos presentes em todos os contos.

Sou uma pessoa muito enjoada para ler sobre amor. Acho quase tudo que se fala sobre ele um clichê. Tudo brega. Mas Conceição Evaristo tem o dom de tornar tudo bastante real, e ao mesmo tempo, singelo e impactante. E não se trata apenas de amor romântico entre um casal. O primeiro conto, por exemplo, que dá nome ao livro, é narrado por uma mulher que procura lembrar-se de que cor são os olhos de sua mãe. Tão simples, tão complicado! (Este é o melhor conto, na minha opinião.) Existe, é claro, também o amor entre casal; casos muito ternos de amor-próprio e autodescoberta, sexo, traição. E, é claro, a raiva que advém de tudo isso, frustrações, ódios, necessidades, que muitas vezes levam à violência e à morte. As mortes de personagens, inclusive, implicam na denúncia da impossibilidade de viver a realidade – palavras da própria autora.

Conceição Evaristo compareceu ao encontro do Leia Mulheres Belo Horizonte e foi uma surpresa agradabilíssima! Ela ouviu nossos debates sobre os livros e os contos e, ao final, nos brindou com uma fala extremamente consciente de sua condição de mulher negra e de sua literatura. Em ambos ela enxerga poder: suas palavras têm força, e suas histórias refletem sua visão de mundo. Veja algumas fotos do encontro (fotos de André Castro, retiradas do blog da Mari Castro, uma das mediadoras):

2016-02-17 - 271_Leia Mulheres BH

2016-02-17 - 304_Leia Mulheres BH

2016-02-17 - 390_Leia Mulheres BH

A escrita é magistral. Confesso que os finais foram, aos poucos, tornando-se parecidos e, por isso, previsíveis, mas os inícios e todo o decorrer das narrativas são belamente escritos, fortes, sensíveis. A linguagem mistura fala popular e que contém elementos bantu, o que garante fluidez ao texto.

Trata-se de um livro necessário. Autora negra, protagonistas negros, realidades de pobreza que pouco aparecem na literatura, grande maioria de personagens mulheres. Bem diferente da média que vemos por aí em geral (veja aqui as estatísticas da literatura brasileira, sendo a maioria de autores e protagonistas homens, brancos, heterossexuais, de classe média). É um caso maravilhoso de representatividade na literatura. Fora a escrita deliciosa e impactante ao mesmo tempo, e as narrativas e personagens interessantíssimas. Altamente recomendado!

Clique aqui para comprar Olhos d´água pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Olhos d´água / Conceição Evaristo.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2015.
116 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

6 comentários sobre “Olhos d´água

  1. Theressa disse:

    Naty! Amei oq disse sobre esse livro , estou bastante empolgada com sua contribuição nessa sua arte de entrar no mundo da literatura a fundo …Sou amante tbm de uma boa literatura seja qual for o genero e confesso q me deu agua na boca essa sua proposta…Sobre esse enredo , parece ser bastante fascinante , vc soube se colocar de um modo q qualquer pessoa lendo oq vc sentiu sobre o livro queira mais q depressa devora-lo! continue sempre nos deliciando com novidades , estarei sempre acompanhando esse seu lindo trabalho!!!

    • Theressaaaa, que delícia seu comentário!!! Muito obrigada! ^^
      Este livro é bonito demais, e tem muita força. Foi uma ótima surpresa. Esse projeto Leia Mulheres está me trazendo tanta coisa boa! Seria ótimo se tivesse em São José, né?
      Se vc chegar a lê-lo, quero muito saber sua opinião.
      Fique à vontade pra navegar aqui no blog (já tem muita resenha!!!); na página Índice de posts, vc pode pode ver todos os que já resenhei e que nota dei para eles.
      Tem também o canal no Youtube, não sei se vc gosta de vídeos sobre livros. 🙂
      Muito obrigada por visitar e comentar!
      Beijãooo!
      Nati

  2. Oi, Nati!
    Bem diferenciado esse livro né? Personagens mulheres, negras e pobres é bem o que anda faltando na literatura brasileira.
    Fiquei querendo. Hahaha!
    O que é bantu, Nati?
    A resenha foi ótima!
    Bjos!

    • Obrigada, Giovanni!
      Bantu (ou banto) é um grupo etnolinguístico de alguns locais do continente africano (África subsaariana). Muitas pessoas deste grupo vieram para o Brasil na época da escravidão, e acabaram influenciando nossa linguagem e modos de vida.
      Beijooo!
      Nati

    • Obrigadaaaa, Ju!!!
      Pois é, isso de conhecer autores é relativamente novo para mim, mas é muito bacana! Quando vc tiver a oportunidade de conhecer alguém cuja obra vc já leu, acho que vai curtir! 🙂
      Beijooo!
      Nati

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s