2015, Ciência, Favoritos, História, Não ficção, Papo de Historiadoras, Paz E Terra, Pesquisa, Resenha, Vídeo

O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton


“Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam – como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção. […]
Mas uma coisa parece clara a todos os que voltam do trabalho de campo: os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença. […]
Quando não conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza de que encontramos algo. Analisando o documento em que ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e maravilhosa visão de mundo.
Este livro tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares. Seu procedimento é examinar as surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos; uma versão primitiva de ‘Chapeuzinho Vermelho’ (‘Little Red Hiding Hood’), a narrativa de um massacre de gatos, uma bizarra descrição de uma cidade, um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia – documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele.” (pp. 13-15)

 

A leitura deste livro faz parte do projeto Papo de Historiadoras, proposto pela Lari (blog Papo de Historiadora). Nos conhecemos via internet graças a esse mesmo projeto, e junto conosco, as amigas Kelly (blog e canal Aventuras na Leitura) e Cris (blog Pedras em Bolsos) também embarcaram. Foi um prazer conhecê-las, e espero que este projeto ajude a espalhar um pouquinho de conhecimento historiográfico para o público que nos lê/assiste. Para mim, serviu como uma retomada dos estudos e da leitura de obras consideradas clássicas para a historiografia.

Conforme explicitado pelo trecho inicial do texto, o intuito do livro de Darnton é analisar alguns documentos inusitados, geralmente desprezados por historiadores que utilizam metodologias mais tradicionais, para nos abrir uma janela para o pensamento popular da França do Antigo Regime (séculos XV a XVIII). Em cada um dos seis capítulos, ele analisa um tipo de documento diferente, escrito por um “tipo” social (trabalhadores da zona rural, burguesia, intelectuais, etc.), e tais documentos, aparentemente “esquisitos” nos dias de hoje, revelam detalhes interessantíssimos da época, além de nos lembrarem da distância temporal que nos separa daquelas populações.

Um dos pecados dos historiadores – talvez o maior – é cometer anacronismos, que nada mais são do que “utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico”. Este livro definitivamente não os comete. Darnton analisa cada aspecto descrito com o maior cuidado em investigar qual teria sido o provável significado daqueles fatos na época, sua importância e suas simbologias. Uma palavra, uma maneira de descrever, uma referência; tudo isso serve de material ao historiador para vislumbrar as maneiras de pensar.

A linguagem do autor é deliciosa e acessível – ainda mais vinda de um historiador, de quem esperamos grande pompa! -; apesar de em alguns momentos a leitura poder ficar mais lenta, vale muito a pena para quem se interessa por História e por seus detalhes que revelam muito (aqui reside parte da mágica da História, ao meu ver!).

No meu canal no Youtube, fiz um diário de leitura, uma espécie de resumo e impressões de leitura para cada capítulo do livro.

Apresentação

É a porção mais curta da obra, e de importância crucial. Aqui, o autor revela suas intenções, objetivos e métodos de maneira muito clara, além de situar o leitor a respeito da História das Mentalidades. O trecho inicial do post é retirado dessa parte.

Capítulo 1 – Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso

O primeiro capítulo baseia-se nos contos de fadas camponeses do Antigo Regime. Parte de uma história do que hoje chamamos de Chapeuzinho Vermelho para contextualizar, questionar a análise psicanalítica dos contos de fadas, perceber as transformações e permanências nesses textos – no tempo e no espaço. É um estudo extremamente perspicaz por parte de Darnton, além de ser sobre um tema que todo mundo adora: os misteriosos contos de fadas.

Capítulo 2 – Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin

O massacre de gatos que dá nome ao livro aqui toma forma; através de um documento escrito por um dos participantes deste massacre, um trabalhador urbano de uma gráfica parisiense, somos levados a uma “viagem” para compreender o contexto, a simbologia, os significados e os motivos que levaram à matança de tantos felinos certo dia no fim do século XVIII.

Capítulo 3 – Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto

Neste capítulo, o autor parte de uma descrição da cidade de Montpellier feita por um autor anônimo (e burguês) e não se sabe com qual objetivo. A ideia principal é descobrir, através da maneira como esse burguês descreve a cidade, qual é a sua visão de mundo, com que categorias ele organiza a sociedade e como enxerga as relações entre os habitantes de Montpellier.

Capítulo 4 – Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras

A partir de um arquivo de polícia, Darnton nos apresenta um panorama da intelectualidade de Paris em meados do século XVIII. Um policial que organizou as fichas de seus investigados nos oferece a oportunidade de compreender como funcionava a vida dos escritores dessa época, qual ideia a sociedade fazia deles, porquê eram suspeitos ou perigosos a ponto de ser necessário que fossem investigados.

Capítulo 5 – Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie

No quinto capítulo, Darnton analisa o porquê de a Enciclopédia organizada por Diderot e D´Alambert ser considerada tão revolucionária, se ela trazia temas tão banais em seu conteúdo. Tratou-se de uma verdadeira crítica à visão de conhecimento que se tinha anteriormente.

Capítulo 6 – Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica

Aqui, veremos através de cartas a enorme influência de Rousseau teve sobre seus leitores e a construção de uma nova forma de leitura, de relacionamento entre escritor e leitor.

Fiz ainda um vídeo de conclusão, usando as críticas que o próprio Darnton faz ao seu trabalho. Só gostaria de dizer que este foi um dos melhores livros lidos em 2015, e recomenda-se tanto para um público especializado, quanto para um público leigo.

 

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+ info:

O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução Sonia Coutinho.
São Paulo: Paz e Terra, 2014.
379 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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6 comentários sobre “O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

    • Deu mesmoooooo, Menchikos!!! Hahahaha! Vou pensar duas vezes antes de fazer outro diário de leitura. Dá muito trabalho e não tem muita gente que assiste.
      Mas pelo menos foi um livro excelenteeeeeeeee, adorei ter lido! 😀
      Beijão!

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