2016, Não ficção, Política, Record, Resenha

Como conversar com um fascista

Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, de Marcia Tiburi


Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro reúne reflexões sobre o estado psicopolítico e cultural de nossa época. O pressuposto que estrutura essas reflexões é que a política define-se como experiência de linguagem e que a qualidade dessa experiência nos une ou nos separa, tornando-nos seres políticos ou antipolíticos.
Se nosso ser político se forma em atos de linguagem, precisamos pensar nessa formação quando o empobrecimento desses atos se torna tão evidente. O autoritarismo é o sistema desse empobrecimento. Ele é o empobrecimento dos atos políticos pela interrupção do diálogo.” (p. 23)

Ganhei este livro de um grande amigo, Edmar, que recentemente tem adentrado a grande aventura dos livros e do pensamento político. Fiquei muito feliz com o presente, e fico ainda mais feliz com o grau de liberdade que vejo o Edmar adquirir ao entrar em contato com tudo isso e debater as questões que lhe surgem.

Antes de começar a apontar alguns aspectos do livro, devo dizer que ele não é exatamente fácil. É um livro complexo, pois exige digestão, e pesado em termos de conceitos, mas também muito claro. Marcia Tiburi é filósofa (daí o grande peso dos conceitos!) e, em suas falas e textos, fala sobre diversos temas pelos vieses filosóficos da ética, da estética, do conhecimento. Ela se coloca muito em relação a temas que tratam dos femininos: a mulher na História, o papel que se atribui a ela, as resistências, o feminismo, o direito ao aborto. Inclusive, deixo aqui um vídeo MARAVILHOSO em que ela fala precisamente sobre O papel da mulher (sério, vejam. É longo mas vale muuuito a pena).

O título, a princípio, me assustou. Como professora de História, o que me vem a cabeça quando falam sobre “fascismo” é a ideologia totalitária que se desenvolveu na Europa no entreguerras. Então logo de cara já fiquei desconfiada de anacronismo. Mas é óbvio que Tiburi não incorre neste erro, e faz questão de definir o que ela trata no livro como “fascismo” – que não é exatamente a mesma coisa que eu pensava que era antes de ler -, e Rubens R. R. Casara, na apresentação do livro, também o faz com maestria. O fascista para a autora é a pessoa com postura autoritária que pode resvalar, e com frequência o faz, para a violência. A formação do fascista geralmente provém de uma falta de consciência política e da não aceitação do outro diferente.

Já o subtítulo, é extremamente preciso: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. O livro é isto. Trata-se de uma coleção de 67 textos muito bem costurados um ao outro, mas ainda assim, independentes entre si, e que tratam sobre o autoritarismo recorrente na cultura brasileira. Eles fazem sentido juntos, e fazem sentido separados. Alguns dos “capítulos” tratam do mesmo tema que seu anterior, outros começam a tratar de um tema novo.

Para se ter uma ideia da gama de assuntos abordados por Tiburi, vai aí uma lista: propaganda, mídia, capitalismo, linguagem como diálogo e como violência simbólica (discurso), vida e morte como categorias políticas, depressão, amor, culpa, assédio, estupro, legalização do aborto, coronelismo intelectual (crítica à falta de reflexão autônoma na Academia), redes sociais e televisão, estereótipos de Brasil e de brasileiro, questões indígenas, identidade e alteridade.

Apesar de perpassar todos esses temas, existe um substrato comum, que é justamente a necessidade de democracia e diálogo frente às atitudes e pensamentos autoritários. Marcia Tiburi procura despertar nossa consciência e, talvez mais do que isso, nossa reflexão, para lidarmos com tudo que é imposto e violento, desde as maiores coisas, até as menores e aparentemente desimportantes.

Como a política parte da experiência da linguagem, para a filósofa, a democracia fundamenta-se no diálogo – falar e ouvir o outro -, enquanto que o autoritarismo seria a interrupção do diálogo, da linguagem (aquilo que ela chama de “discurso”), e, portanto, uma violência. Pensamento autoritário e pensamento democrático se opõem justamente porque se negam. O fascista é aquele sujeito que perde a dimensão do outro, de que o outro é alguém com opiniões, experiências e pensamentos próprios. Por isso, não o escuta; acredita em verdades absolutas, pontos de vista fixos, certezas que, em última instância, negam o outro. Funciona mais ou menos assim: se só existe uma verdade, ela é aquela que eu enxergo. A partir disso, o diálogo torna-se uma ferramenta complexa e difícil se resistência ao autoritarismo e ao fascismo e, consequentemente, um instrumento de transformação social.

Tiburi usa sentimentos como pontos de partida para alguns textos: amor, ódio, estranhamento. Por vezes, me pareceu que o texto adquiria um tom emocional ao invés de racional, o que me incomodou. Incomodou e me fez refletir (olha aí os objetivos filosóficos sendo atingidos!): por que os sentimentos não poderiam – na minha cabeça – fazer parte de uma análise racional? Sentimentos e emoções fazem parte da vida, assim como a racionalidade. Cada vez mais, vemos como o ódio é manipulado por discursos diversos e direcionado a alguns alvos específicos de acordo com interesses, em geral conservadores, como o impedimento ou a aniquilação dos direitos do outro. Por que, então, excluir o ódio (ou o amor) do debate? Ponto para Marcia Tiburi. Inclusive, ela faz algo pouco usual: trata as emoções menos como um sentimento particular e natural, e mais como parte de uma engrenagem organizada e social.

A análise que ela faz da realidade brasileira consegue ser profunda, provocadora e esclarecedora ao mesmo tempo. Percebemos, por exemplo, que os discursos de incitação à violência de alguns líderes e figuras públicas encontram terreno fértil na paranoia coletiva, no medo, na insegurança (que nada mais são do que a negação do outro). Tudo isso é devidamente alimentado por imagens, discursos, cultura de boatos, assédios, agressões, crimes e sensacionalismos.

Fica óbvio de que lado Tiburi está. A favor da democracia e contra o autoritarismo; como boa filósofa, sempre instigadora da reflexão. O livro traz uma afirmação constante da necessidade de consciência, de análise crítica, de questionamentos, de diálogo – e a negação do vazio, da repetição automática, do ódio, da violência. Em alguns momentos, pode se tornar pesado, mas é um livro necessário em tempos como os nossos.

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+ info:

Como conversar com um fascista / Marcia Tiburi.
Rio de Janeiro: Record, 2016.
194 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2015, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha, Séries e trilogias, Vídeo

O tempo e o vento – #LendoOTempoEOVento

O tempo e o vento, de Erico Verissimo

oteov

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
[…]
Licurgo respira fundo, com um feroz sentimento de orgulho. De certo modo ele ainda governa Santa Fé! Maragato algum jamais botará o pé no Sobrado nem como inimigo nem como amigo: nem agora nem nunca!
Tira do bolso uma palha de milho, enrola-a à maneira de cigarro, acende-lhe a ponta e leva-a aos lábios. Como não há mais nenhum pedaço de fumo em casa, para aliviar a vontade de fumar ele pita apenas a palha.
Ruído de passos. Licurgo volta-se e, na penumbra do patamar, distingue o vulto da cunhada.
— Acho que a criança vai nascer esta madrugada — murmura Maria Valéria.
Fica ali imóvel, muito alta e tesa, enrolada num xale escuro, com as mãos trançadas sobre o estômago. Por alguns instantes Licurgo permanece calado. Nada mais pode dizer senão repetir o que vem dizendo há quase uma semana com uma obstinação que às vezes se transforma em fúria: aconteça o que acontecer, não pedirá trégua.” (pp. 17-26)

O tempo e o vento é uma saga que conta a história da família Terra Cambará desde suas origens, em 1745, até o momento em que a obra foi escrita, 1945. Passeamos através das gerações dessa família totalmente imersa na história do Rio Grande do Sul – e, portanto, do Brasil – e de suas tradições, mudanças, guerras, disputas políticas.

A série conta com três obras (O continenteO retratoO arquipélago) geralmente divididas em 7 volumes, conforme mostrado na imagem do início do post.

Esta foi uma das melhores experiências de leitura que tive em 2015. Já tinha o box com os sete livros, que haviam sido indicados por minha mãe, porém, a preguiça sempre falava mais alto e fui deixando para lá. Até que a Tati Feltrin iniciou o projeto #LendoOTempoEOVento, e eu resolvi embarcar junto, aproveitar o embalo.

Os sete livros contam a história da família Terra-Cambará; nos dois volumes de O continente, temos contato com diversos personagens que remontam ao passado distante da família e viram figuras icônicas. São os fundadores da família: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, etc. Intercalados com os capítulos desses personagens, visualizamos o “presente”, ou seja, o início do século XX, em que o Sobrado da família Terra-Cambará está em guerra: cercado por inimigos políticos (ver o trecho inicial do post). Aos poucos, magistralmente, Verissimo vai costurando uma narrativa dinâmica, viva e interessante. Vai se delineando a história da família Terra-Cambará.

A partir dos dois volumes de O retrato – e isso inclui também os três volumes de O arquipélago -, o foco será o personagem dr. Rodrigo Terra Cambará e sua família nuclear: filhos, esposa, irmão, tios. Ele condensa muitas das características do lado Cambará (carisma, intrepidez,

Não se preocupe com a quantidade de personagens, pois todos os livros (ao menos os da edição da Companhia das Letras) vêm com a devida árvore genealógica, e Erico Veríssimo é habilidoso em introduzir personagens aos poucos e lhes dar características muito marcantes. Por isso, eles se tornam quase que pessoas reais, graças a suas contradições, qualidades e defeitos – inclusive, Verissimo coloca personagens históricos misturados com os ficcionais (como Getúlio Vargas, por exemplo), e uns não deixam nada a dever aos outros.

A saga está repleta de dualidades e circularidades, o que aumenta ainda mais o mérito do autor.

As dualidades são opostas, mas ao mesmo tempo complementares, uma precisa da outra para atingir um equilíbrio. O simbolismo de tempovento é muito forte, estando o tempo representando as permanências, enquanto que o vento (o minuano) representa as mudanças bruscas. No caso das permanências, basta perceber que, apesar de as gerações passarem na família, muitos personagens “se repetem”: é o caso das mulheres que comandam a família – e, posteriormente, o Sobrado -: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria. Elas são a mesma personagem em tempos diferentes: as rochas da família, mulheres que enxergam além dos seus próprios olhos (quando velhas, inclusive ficam cegas), e organizam a vida familiar. Quanto às transformações, são marcadas principalmente pelas guerras na região, mortes na família, conflitos.

Outro caso das dualidades complementares são os polos homem-mulher. As personagens femininas da família, como já foi dito, são, em geral, fortes e estáveis. Apesar de estarem conformadas à vida doméstica (como era comum à época), ali exercem seu poder de decisão e de resistência. Elas são, assim como o tempo, a permanência, a continuidade. São essas mulheres que esperam as mudanças e as atitudes dos personagens masculinos – os quais são mais intempestivos, volúveis, e, por isso, efêmeros. Eles representam as mudanças bruscas, como o vento.

Os Terras e os Cambarás também formam uma dualidade que encontra seu equilíbrio dentro da dinâmica familiar: os Terras são fixos, teimosos, resistentes, enraizados. Já os Cambarás, tendem a ser aventureiros, apaixonados, correm riscos.

Outra virtude da saga é mesclar acontecimentos históricos com a ficção; guerras por fronteiras no sul do país, fraudes eleitorais durante o período oligárquico, reviravoltas políticas que culminam na Revolução de 1930, etc. Os contextos são muito bem apresentados, e o autor habilmente coloca nas falas dos personagens opiniões diversas sobre política, religião, economia, ideologias, etc. Ou seja, temos acesso a muitos argumentos e pontos de vista diferentes através dos personagens. É importante ler livros que tragam o diálogo, ainda que ficcional, em tempos – como o nosso – de ameaça à democracia.

Se você tem medo de ler clássicos ou literatura brasileira, procure O continente em alguma biblioteca. Tenho certeza de que não vai achar a linguagem difícil nem a história chata. Verissimo nos brinda com uma escrita maravilhosa, descritiva na medida certa para nos fazer ter sensações e nos situarmos no ambiente da narrativa, mas não excessiva. E a linguagem dele permanece atual e simples, muito fluida e acessível ao leitor brasileiro. Recomendadíssimo!

No canal, fiz uma playlist com todo o diário de leitura de O tempo e o vento: são 11 vídeos em que falo separadamente sobre cada livro (no caso de O continente, falo de cada capítulo).

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2016, Contos, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Leia Mulheres, Pallas, Resenha

Olhos d´água

Olhos d´água, de Conceição Evaristo


“A babá Lidiane, da novela das oito, acabou sozinha. Não gostei do final. Assisti outra novela em que a babá casou com o filho do patrão. Bonito, tudo muito bonito. Chorei de emoção. Quando choro diante de novela, choro também por outras coisas e pela vida ser tão diferente. Choro por coisas que não gosto nem de pensar. Dorvi é companheiro de Bica, minha filha. Fizeram um filho, meu primeiro netinho. Acho que não terei tantos. Não vou deixar Bica virar mulher parideira. Isso de ter muitos filhos era do meu tempo. Nem eu virei. Que Deus me perdoe! Será que minha alma vai padecer no fogo do inferno?” (pp. 104-105)

Li Olhos d´água para o encontro de fevereiro do Leia Mulheres de Belo Horizonte. E acabei encaixando-o também no desafio de fevereiro dO Grande Desafio do Culto Booktuber proposto pela Laíse, do canal Boards e Books. O desafio consistia em ler um autor ainda não lido. Conceição Evaristo é uma escritora natural de Belo Horizonte e que teve uma juventude pobre: foi moradora de favela e conciliou os estudos e o trabalho como empregada doméstica. Formou-se em Letras, e hoje em dia é Mestra e Doutora em Literatura. Começou sua carreira como escritora em 1990.

Olhos d´água é uma reunião de contos de Conceição. Eles têm como protagonistas na maioria dos casos mulheres negras, e em muitos casos, pobres e em baixa condição socioeconômica.

No prefácio e na introdução que há no livro – ambos muito bons, de Heloisa Toller Gomes e Jurema Werneck -, destaca-se muito os diversos papéis desempenhados pela mulher em geral, e pela mulher negra e pobre, em particular. Mas o que mais me atingiu nas narrativas da autora foram duas coisas: o amor e a violência, ambos presentes em todos os contos.

Sou uma pessoa muito enjoada para ler sobre amor. Acho quase tudo que se fala sobre ele um clichê. Tudo brega. Mas Conceição Evaristo tem o dom de tornar tudo bastante real, e ao mesmo tempo, singelo e impactante. E não se trata apenas de amor romântico entre um casal. O primeiro conto, por exemplo, que dá nome ao livro, é narrado por uma mulher que procura lembrar-se de que cor são os olhos de sua mãe. Tão simples, tão complicado! (Este é o melhor conto, na minha opinião.) Existe, é claro, também o amor entre casal; casos muito ternos de amor-próprio e autodescoberta, sexo, traição. E, é claro, a raiva que advém de tudo isso, frustrações, ódios, necessidades, que muitas vezes levam à violência e à morte. As mortes de personagens, inclusive, implicam na denúncia da impossibilidade de viver a realidade – palavras da própria autora.

Conceição Evaristo compareceu ao encontro do Leia Mulheres Belo Horizonte e foi uma surpresa agradabilíssima! Ela ouviu nossos debates sobre os livros e os contos e, ao final, nos brindou com uma fala extremamente consciente de sua condição de mulher negra e de sua literatura. Em ambos ela enxerga poder: suas palavras têm força, e suas histórias refletem sua visão de mundo. Veja algumas fotos do encontro (fotos de André Castro, retiradas do blog da Mari Castro, uma das mediadoras):

2016-02-17 - 271_Leia Mulheres BH

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A escrita é magistral. Confesso que os finais foram, aos poucos, tornando-se parecidos e, por isso, previsíveis, mas os inícios e todo o decorrer das narrativas são belamente escritos, fortes, sensíveis. A linguagem mistura fala popular e que contém elementos bantu, o que garante fluidez ao texto.

Trata-se de um livro necessário. Autora negra, protagonistas negros, realidades de pobreza que pouco aparecem na literatura, grande maioria de personagens mulheres. Bem diferente da média que vemos por aí em geral (veja aqui as estatísticas da literatura brasileira, sendo a maioria de autores e protagonistas homens, brancos, heterossexuais, de classe média). É um caso maravilhoso de representatividade na literatura. Fora a escrita deliciosa e impactante ao mesmo tempo, e as narrativas e personagens interessantíssimas. Altamente recomendado!

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+ info:

Olhos d´água / Conceição Evaristo.
Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2015.
116 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2016, Leia Mulheres, Vídeo

Dia Internacional da Mulher 2016 – Lygia Fagundes Telles

Bom dia!!!

Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é dia de reafirmar a luta contra o machismo e pelos direitos equitativos! 🙂

Junto com outros amigos booktubers, resolvi fazer um vídeo em homenagem a uma das minhas escritora favoritas: a Lygia Fagundes Telles! ❤

Aproveitei a ocasião para, além de recomendar a leitura dessa grande escritora, bater um papo sobre como funciona o Prêmio Nobel de Literatura (para o qual Lygia foi indicada este ano!) e representatividade nesse tipo de prêmio.

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O grande massacre de gatos – #PapoDeHistoriadoras

O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton


“Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam – como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção. […]
Mas uma coisa parece clara a todos os que voltam do trabalho de campo: os outros povos são diferentes. Não pensam da maneira que pensamos. E, se queremos entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a ideia de captar a diferença. […]
Quando não conseguimos entender um provérbio, uma piada, um ritual ou um poema, temos a certeza de que encontramos algo. Analisando o documento em que ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho. O fio pode até conduzir a uma pitoresca e maravilhosa visão de mundo.
Este livro tenta explorar essas visões de mundo pouco familiares. Seu procedimento é examinar as surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos; uma versão primitiva de ‘Chapeuzinho Vermelho’ (‘Little Red Hiding Hood’), a narrativa de um massacre de gatos, uma bizarra descrição de uma cidade, um curioso arquivo mantido por um inspetor de polícia – documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele.” (pp. 13-15)

 

A leitura deste livro faz parte do projeto Papo de Historiadoras, proposto pela Lari (blog Papo de Historiadora). Nos conhecemos via internet graças a esse mesmo projeto, e junto conosco, as amigas Kelly (blog e canal Aventuras na Leitura) e Cris (blog Pedras em Bolsos) também embarcaram. Foi um prazer conhecê-las, e espero que este projeto ajude a espalhar um pouquinho de conhecimento historiográfico para o público que nos lê/assiste. Para mim, serviu como uma retomada dos estudos e da leitura de obras consideradas clássicas para a historiografia.

Conforme explicitado pelo trecho inicial do texto, o intuito do livro de Darnton é analisar alguns documentos inusitados, geralmente desprezados por historiadores que utilizam metodologias mais tradicionais, para nos abrir uma janela para o pensamento popular da França do Antigo Regime (séculos XV a XVIII). Em cada um dos seis capítulos, ele analisa um tipo de documento diferente, escrito por um “tipo” social (trabalhadores da zona rural, burguesia, intelectuais, etc.), e tais documentos, aparentemente “esquisitos” nos dias de hoje, revelam detalhes interessantíssimos da época, além de nos lembrarem da distância temporal que nos separa daquelas populações.

Um dos pecados dos historiadores – talvez o maior – é cometer anacronismos, que nada mais são do que “utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico”. Este livro definitivamente não os comete. Darnton analisa cada aspecto descrito com o maior cuidado em investigar qual teria sido o provável significado daqueles fatos na época, sua importância e suas simbologias. Uma palavra, uma maneira de descrever, uma referência; tudo isso serve de material ao historiador para vislumbrar as maneiras de pensar.

A linguagem do autor é deliciosa e acessível – ainda mais vinda de um historiador, de quem esperamos grande pompa! -; apesar de em alguns momentos a leitura poder ficar mais lenta, vale muito a pena para quem se interessa por História e por seus detalhes que revelam muito (aqui reside parte da mágica da História, ao meu ver!).

No meu canal no Youtube, fiz um diário de leitura, uma espécie de resumo e impressões de leitura para cada capítulo do livro.

Apresentação

É a porção mais curta da obra, e de importância crucial. Aqui, o autor revela suas intenções, objetivos e métodos de maneira muito clara, além de situar o leitor a respeito da História das Mentalidades. O trecho inicial do post é retirado dessa parte.

Capítulo 1 – Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso

O primeiro capítulo baseia-se nos contos de fadas camponeses do Antigo Regime. Parte de uma história do que hoje chamamos de Chapeuzinho Vermelho para contextualizar, questionar a análise psicanalítica dos contos de fadas, perceber as transformações e permanências nesses textos – no tempo e no espaço. É um estudo extremamente perspicaz por parte de Darnton, além de ser sobre um tema que todo mundo adora: os misteriosos contos de fadas.

Capítulo 2 – Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin

O massacre de gatos que dá nome ao livro aqui toma forma; através de um documento escrito por um dos participantes deste massacre, um trabalhador urbano de uma gráfica parisiense, somos levados a uma “viagem” para compreender o contexto, a simbologia, os significados e os motivos que levaram à matança de tantos felinos certo dia no fim do século XVIII.

Capítulo 3 – Um burguês organiza seu mundo: a cidade como texto

Neste capítulo, o autor parte de uma descrição da cidade de Montpellier feita por um autor anônimo (e burguês) e não se sabe com qual objetivo. A ideia principal é descobrir, através da maneira como esse burguês descreve a cidade, qual é a sua visão de mundo, com que categorias ele organiza a sociedade e como enxerga as relações entre os habitantes de Montpellier.

Capítulo 4 – Um inspetor de polícia organiza seus arquivos: a anatomia da república das letras

A partir de um arquivo de polícia, Darnton nos apresenta um panorama da intelectualidade de Paris em meados do século XVIII. Um policial que organizou as fichas de seus investigados nos oferece a oportunidade de compreender como funcionava a vida dos escritores dessa época, qual ideia a sociedade fazia deles, porquê eram suspeitos ou perigosos a ponto de ser necessário que fossem investigados.

Capítulo 5 – Os filósofos podam a árvore do conhecimento: a estratégia epistemológica da Encyclopédie

No quinto capítulo, Darnton analisa o porquê de a Enciclopédia organizada por Diderot e D´Alambert ser considerada tão revolucionária, se ela trazia temas tão banais em seu conteúdo. Tratou-se de uma verdadeira crítica à visão de conhecimento que se tinha anteriormente.

Capítulo 6 – Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação de sensibilidade romântica

Aqui, veremos através de cartas a enorme influência de Rousseau teve sobre seus leitores e a construção de uma nova forma de leitura, de relacionamento entre escritor e leitor.

Fiz ainda um vídeo de conclusão, usando as críticas que o próprio Darnton faz ao seu trabalho. Só gostaria de dizer que este foi um dos melhores livros lidos em 2015, e recomenda-se tanto para um público especializado, quanto para um público leigo.

 

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+ info:

O grande massacre de gatos: e outros episódios da história cultural francesa / Robert Darnton; tradução Sonia Coutinho.
São Paulo: Paz e Terra, 2014.
379 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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