2016, História, Não ficção, Parceria, Resenha

O negro na formação da sociedade paraense

O negro na formação da sociedade paraense, de Vicente Salles

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“Capítulo importante da história social do Pará escreveu o negro nos engenhos de cana-de-açúcar. Ali ele exercitou a fuga para os quilombos. Tornou-se ladino. Incorporou-se à Cabanagem. Solidarizou-se ao caboclo pela condição de escravo. No complexo cultural amazônico, deixou sua marca indelével.” (p. 55)

Estava certa noite em casa, quando, após receber contato da assessoria de imprensa da editora, recebi pelo Correio este belo livro de cortesia da paraense Paka-Tatu. A editora foi fundada em Belém (PA) por professores de História, e publica principalmente (mas não apenas) títulos sobre a Amazônia e autores da região. Os livros abarcam desde poesia e infanto-juvenil a Filosofia e Saúde.

Esta é uma reedição de uma reunião de textos do historiador Vicente Salles (1931-2013), que dedicou sua carreira a estudar temas relativos à História da Amazônia e seus agentes socioculturais. Neste caso, o destaque é dado ao papel dos africanos e afrodescendentes na formação da região amazônica. Cada texto (a que chamarei de “capítulo”), trata de um aspecto ligado ao tema. Temos, por exemplo, A escravidão africana e a AmazôniaGuerras aos quilombolas no Grão-ParáSociedades de mulheres negras no Grão-Pará, e diversos casos retirados de documentos.

Aliás, falemos dos documentos. Salles utiliza uma gama enorme de fontes (jornais, partituras, memórias, conferências, manuscritos, anúncios), além de diversas referências bibliográficas, tudo devidamente informado nas notas de rodapé.

A nova edição está muito bonita e cuidadosa; desde a capa (amarela, estampada e com verniz localizado), até os tipos escolhidos. O prefácio à primeira edição, de Anaíza Vergolino e Silva, já localiza o leitor a respeito da obra de Salles e de sua importância para a historiografia brasileira; e a nota de Paulo Maués Corrêa, revisor da segunda edição, comenta os detalhes que foram ou não alterados no texto. O livro traz um estilo de texto mais acadêmico, apesar de ser, ainda assim, acessível ao público leigo.

O primeiro capítulo trata da ocupação colonial da Amazônia e da instalação dos negros para a lavoura de cana-de-açúcar (que não prosperou na região como o esperado). Existe aqui um cuidado com a denominação de grupos africanos distintos (como bantos e sudaneses, por exemplo), para não cair em generalizações. Fala também do sincretismo religioso que ocorreu entre catolicismo, através das irmandades, práticas caboclas e indígenas de pajelança, e cultos africanos a orixás, sendo este sincretismo muitas vezes sintetizado por músicas e estribilhos, e manifestado na arquitetura e em festas populares e religiosas. Destacam-se aqui leis proibitivas a muitas dessas práticas religiosas, consideradas ofensivas e por vezes subversivas pela população católica tradicional e pelas autoridades. As resistências a tais proibições também são descritas, e a gradual regulamentação dos terreiros.

No capítulo dois, o autor traz o tema da Cabanagem (1835-1840), guerra ocorrida no Pará durante o período regencial, e que teve como destaque a ampla participação popular – negros, índios, mestiços, sertanejos, população urbana e rural, elites).

O terceiro texto mostra o interessante dado da diversificação dos ofícios entre escravos (você sabia que eles não apenas trabalhavam na lavoura da cana-de-açúcar, mas também se especializavam em diversos ofícios?), além de falar também sobre associações de trabalhadores e abolicionismo.

O capítulo quatro comenta sobre a escravização de indígenas e foca na resistência dos escravizados através da fuga e na formação de quilombos na região do Pará. Além disso, são descritas estratégias de captura de quilombolas e combate aos quilombos por meio de expedições militares; algumas lideranças negras e como foi tratada a questão da abolição da escravidão durante a Cabanagem.

O quinto texto é super interessante, chama-se “Memória sobre a rede de dormir que fazem as mulheres índias e negras no Grão-Pará, conforme anotações de cronistas antigos e modernos”. A partir da confecção de redes, artesanato tipicamente indígena, o autor localiza a importância da mulher – negra e indígena – para a economia e a sociedade amazônicas.

O capítulo seis é sobre a capoeira como forma de luta e resistência dos negros escravizados e libertos do Pará. Além dos diversos usos para a palavra “capoeira” ao longo da História brasileira, Salles mostra a visão da classe média sobre essa prática, considerada violenta e sinônimo de vadiagem e criminalidade.

Mais uma vez, no capítulo sete, temos as mulheres como protagonistas, mas dessa vez, o autor se foca nas associações de mulheres negras no Pará: taieiras (lavadeiras que cantavam), Estrelas do Oriente (associação assistencialista), e Irmãs de São Raimundo (associação religiosa).

O oitavo capítulo tem um formato diferente, de pequenos textos, muitos em tom anedótico, em que o autor conta aspectos curiosos da escravidão no Pará, casos (por exemplo, rebelião escrava e homicídio de senhor, anúncio de venda de escravo em jornal, disputa pela posse de uma escrava, dramas teatrais sobre problemas sociais do século XIX, etc.).

Finalmente, no capítulo nove, Vicente Salles conta sobre algumas atividades realizadas pelos negros quando estavam de folga: festas (bumba-meu-boi, lundum, a dança dos cabanos, e danças derivadas), ritmos. Aproximando-se de um dos campos de pesquisa principais deste historiador, a música está presente o tempo todo, e esse capítulo é um apanhado de obras e documentos que falam sobre o assunto, ótima referência para quem faz pesquisa nessa área.

Posso afirmar que, ao menos nas escolas da região Sudeste, conhece-se pouquíssimo da história da região Norte. Estes textos trazem um material valioso para professores utilizarem na sala de aula e enriquecerem cada vez mais as aulas, mostrando que nem só de índio, rio e floresta se faz a região Norte. Uma verdadeira desconstrução de estereótipos – do norte e do escravizado -, que pode ser feita de forma totalmente embasada. Textos, tabelas, trechos e citações trazidos pelo livro podem ser muito úteis em sala de aula.

É notável o trabalho de Salles em trazer à luz um tema em geral pouco notado na historiografia do Norte do país, que é a questão do negro (ali, tendemos a nos lembrar muito mais da presença indígena). Percebe-se uma grande e legítima preocupação em mostrar personagens anônimos que fizeram parte da construção das culturas paraenses, e não a ideia positivista de destacar heróis individuais na História. O autor valoriza as pessoas “comuns”, muitas das quais tiveram seus nomes esquecidos.

Ele nos conta sobre a música e a religião do negro no contexto paraense, num arco temporal que vai do século XVII ao XIX. Tais estudos são fundamentais na medida em que mostram tais elementos como cultura, e não simplesmente como folclore ou prática. As religiões afro-brasileiras são religiões, e não “crendices” ou “superstições”.

Os temas são tratados de maneira a percebermos que não se trata de “um negro” que formou a história do Brasil, mas tantos negros quanto são possíveis indivíduos diferentes. Ou seja, “o negro” é, na verdade, várias religiosidades, culturas, etnias, línguas, práticas, profissões, opiniões. A forma como o autor abarca toda essa complexidade é sensacional.

Recomenda-se a leitura a todo e qualquer professor de História, e a quem mais interessar o tema! Por estar dividido em vários textos, o livro pode ser lido aos poucos.

Clique aqui para comprar O negro na formação da sociedade paraense

+ info:

O negro na formação da sociedade paraense: textos reunidos / Vicente Salles.
Belém: Paka-Tatu, 2015.
260 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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8 comentários sobre “O negro na formação da sociedade paraense

  1. Ótima resenha, Nati! 😉
    A nossa história é tão vasta, né?
    Podemos aprender tanto com tantas histórias que são praticamente ignoradas nas escolas. Essa coisa de eliminar esteriótipos é brilhante. É uma quebra de preconceitos!
    😀 Parabéns!!!
    Bjos! 🙂

    • Muito obrigadaaa, Giovanni!!!!
      EXATAMENTE essa é a importância da obra, abrir nossa cabeça, quebrar estereótipos e generalizações que tendemos a fazer graças ao senso comum. A História é fundamental (também) por isso!
      Beijooo, obrigada por ler!
      Nati

    • É verdade, Menchikos! Trabalho de ANOS, né? Na verdade, esse é o campo de estudo dele, e dedicou praticamente a vida toda a isso, ou seja… é muito documento mesmo! 😛 Mas o legal é que ele os tornou bem acessíveis! 🙂

  2. Mylene disse:

    Nossa, temos que olhar mais de perto a nossa Amazônia! Quanta riqueza do ponto de vista antropológico, (também!). Torço para que o Brasil conheça mais o Brasil…Lindo livro e uma bela resenha Natasha!

    • É isso mesmo, é importante ver a diversidade do país, e perceber que isso é uma riqueza, e não uma fraqueza!
      São muitos aspectos interessantes para serem conhecidos que ainda ficam encobertos. Que bom que tem gente que faz esse tipo de pesquisa e disponibiliza para nós! 🙂

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