2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha, Vídeo

Um antropólogo em Marte

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks


“Nessa perspectiva, deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal, revelando poderes latentes, desenvolvimentos, evoluções, formas de vida que talvez nunca fossem vistos, ou mesmo imaginados, na ausência desses males. Nesse sentido, é o paradoxo da doença, seu potencial ‘criativo’, que forma o tema central deste livro.
Assim como é possível ficar horrorizado com a devastação causada por doenças ou distúrbios de desenvolvimento, por vezes também podemos vê-los como criativos – já que, se por um lado destroem caminhos precisos, certas maneiras de executarmos coisas, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar caminhos e maneiras diferentes, forçá-lo a um inesperado crescimento e evolução. Esse outro lado do desenvolvimento ou da doença é o que vejo, potencialmente, em quase todo paciente; e é isso que me interessa especialmente descrever aqui.” (p. 16)

Oliver Sacks (1933-2015) foi um médico neurologista britânico e que escreveu vários best-sellers ao longo de sua carreira. Seus livros falam principalmente sobre casos interessantes que acompanhou, junto com preciosas e humanas reflexões.

Um antropólogo em Marte se encaixa justamente no modelo: neste livro, Sacks relata sete casos de pacientes que desenvolveram doenças (ou já nasceram com elas) que os levaram a reconstruir toda a sua existência e sua identidade. São pessoas que se adaptaram, apesar de (ou talvez por causa de) suas doenças. Nesse sentido, os paradoxos de que falam o subtítulo referem-se justamente ao potencial criativo decorrente das doenças nesses casos, de um certo poder de renovação e ressignificação diante de tais adversidades.

Um dos primeiros pontos que me chamou a atenção, já na Apresentação do livro, escrita pelo próprio Sacks, foi que ele se questiona o que é chamado de “doença”. Ele se questiona se tudo aquilo que consideramos doenças o são de fato, ou se podem ser simplesmente novas adaptações ao mundo. Muitas vezes, “deficiências” geram caminhos diferentes para um mesmo aprendizado, desenvolvimento, interpretação (inclusive, ao falar sobre isso, o autor cita Vygotsky, um grande pensador da educação e da cognição infantil). (O livro foi publicado em 1995, portanto, deve ter havido avanços relacionados à definição de certas doenças, tratamentos, etc.)

O autor acompanha, nos sete pacientes, a recriação de processos e a reconstrução de identidades, através de duas abordagens: uma médico-científica – mais objetiva -, e uma inter-subjetiva – ele procura ficar junto com esses pacientes nos seus ambientes domésticos, na vida cotidiana, a fim de obter uma visão mais completa de suas vidas.

Vamos aos casos:

  • O caso do pintor daltônico foi um dos mais intrigantes para mim. Trata-se de um homem, Sr. I., que, aos 65 anos de idade, perdeu a visão das cores após um acidente (pequeno) de carro. Parecia que nada havia acontecido, até que este homem, que era pintor e vivia de sua arte, percebeu que estava enxergando tudo em preto, branco e tons de cinza. Inicialmente, seu desespero é total, ao descobrir que não existe possibilidade de voltar a enxergar em cores, ele entra numa depressão profunda. O autor nos apresenta um histórico do conhecimento sobre a capacidade de representar as cores, e nos conta a evolução/adaptação do pintor à sua nova realidade.
sr. I

Duas pinturas feitas pelo sr. I., logo antes do acidente em que perdeu a visão das cores

  • O último hippie fala de Greg, um adolescente rebelde da década de 1960 que, após se envolver com drogas e brigar com os pais, foi para um centro Hare Krishna e lá encontra seu foco. Identificou-se com a filosofia e as práticas da organização. No início da década de 1970, começou a queixar-se de ter a visão ofuscada, o que foi interpretado como iluminação espiritual. Os pais, que não tiveram comunicação direta com ele por anos, acabaram conseguindo permissão para visitá-lo em 1975, e se depararam com uma pessoa completamente diferente de seu filho: agora gordo, careca com um sorriso permanente e “estúpido” no rosto, e comentários “idiotas”. Levado ao médico, foi constatado um tumor no cérebro. O tumor foi retirado, mas Greg permaneceu com as sequelas: ficou completamente cego e seriamente incapacitado neurológica e mentalmente. Tudo isso aos 25 anos. Porém, Greg não tinha consciência de sua cegueira (ele achava que enxergava), de suas capacidades mentais perdidas, do passado nem do futuro – havia um único ponto que o despertava: as bandas dos anos 60 que ele amava. Ao fim das contas, o ex-adolescente rebelde passou a viver serenamente nas condições que se apresentaram a ele. Sua personalidade tornou-se dócil e solar, e sua vida resumia-se ao presente.
  • Uma vida de cirurgião é sobre um homemcom síndrome de Tourette. Trata-se de um distúrbio em que a pessoa pode apresentar, entre outras características, tiques, grunhidos, blasfêmias, xingamentos, obscenidades, comportamento impulsivo, agitação, etc. Tudo isso está fora do controle da pessoa. Ou seja, ela pode estar conversando normalmente e, de repente, estala os dedos, ou toca seu próprio pé, ou fala uma palavra esquisita. (Obviamente que essa descrição está superficial e incompleta. No vídeo abaixo (em inglês), as crianças que têm essa síndrome explicam infinitamente melhor do que eu.) Este caso é curioso pois o paciente que sofre com a síndrome de Tourette (tem todos esses tiques nervosos, comportamentos considerados estranhos e que se manifestam em horas inapropriadas, etc.) é um cirurgião. Entretanto, quando está na sala de cirurgia, concentrado, operando, misteriosamente, perde suas características de Tourette.

  • Ver e não ver conta sobre Virgil, um homem que perdeu sua visão aos 6 anos. Portanto, havia aprendido 100% como ser cego. Tinha o tato, o olfato e a audição muito apurados. Aos 50 anos de idade, descobriu-se que sua cegueira era operável e ele poderia recuperar parte de sua visão. Sua esposa insistiu muito na cirurgia, porém, sua reação imediata ao recuperar a visão não foi a de maravilhamento que todos estavam esperando; foi a de incompreensão. Virgil não sabia mais ver. Ele enxergava formas, movimentos e cores, mas não sabia dar sentido àquilo. Seus olhos sequer se fixavam em um objeto. Virgil precisava aprender a ser vidente, da mesma maneira que, quando criança, aprendeu a ser cego. O mais interessante desse caso é perceber que os significados que damos às coisas são resultado da correlação entre sentidos. Nós, que nascemos com todos eles, conectamos som, imagem, sensação tátil, olfativa, etc. Mas alguém que nasce sem um sentido (a visão, por exemplo) ou o perde na infância, faz tais conexões sem precisar dele, que nos faria tanta falta.
  • A paisagem dos seus sonhos é a respeito de Franco Magnani, um homem que nasceu no vilarejo de Pontito, na Itália. Ele pinta quadros que reproduzem as construções e ruas de Pontito de maneira muito precisa, mesmo tendo ido embora de lá definitivamente há quase 30 anos. Ao ir visitar o paciente em sua casa, Sacks se depara com todas as paredes, gavetas, etc., repletas de quadros de Pontito, e o artista só fala sobre suas lembranças de infância no vilarejo, obsessivamente. Ele tinha visões e sonhos com Pontito, tudo emocionalmente muito avassalador e minuciosamente detalhado. As aparições que Magnani presenciava envolviam um aspecto visual tridimensional (ele podia se mover entre as ruas de Pontito e enxergar de vários ângulos), um auditivo (ele ouvia os sinos da igreja de Pontito), um tátil, um olfativo. Pontito se materializava para Franco, mesmo após anos sem visitá-la, e Sacks tenta desvendar isso.

Franco Magnani, pintando uma imagem “futurista” de Pontito

Comparações entre fotografias de Pontito e quadros de Magnani, pintados de memória

  • Prodígios é sobre pessoas autistas que desenvolvem (descobrem) um talento muito pronunciado, intenso e extraordinário. O paradoxo está justamente no fato de que os autistas são pessoas que possuem uma deficiência no entendimento das regras sociais e no desenvolvimento de habilidades sociais. Poderia-se pensar, portanto, que seus cérebros seriam fragilizados – até o momento em que você se depara com um autista com habilidades incríveis, como Stephen Wiltshire. Stephen tinha uma memória fora do comum para construções, prédios e carros; bastava uma olhadela, que absorvia a paisagem. Além disso, Stephen descobriu que sabia desenhar essas coisas extremamente bem (a BBC fez um documentário que conta a história de Stephen. O vídeo abaixo é de uma visita que ele fez a Istambul, mostra Stephen desenhando a paisagem panorâmica que viu em um helicóptero). O que intriga Oliver Sacks (e a nós, leitores), é que o autista não tem uma consciência do “eu”, de uma identidade. Porém, como é possível que um artista não tenha subjetividade? Stephen, mesmo reproduzindo grande parte do que via e captando a essência das coisas, acrescentava detalhes que não estavam originalmente lá.

Um dos desenhos de Stephen Wiltshire

  • O último caso, Um antropólogo em Marte, também fala de uma autista: Temple Grandin, bióloga e engenheira bem-sucedida. Escreve artigos científicos (também é professora universitária), escreveu uma autobiografia e é especialista em comportamento animal. Temple tinha uma vida profissional agitadíssima, e nenhuma vida social. O paradoxo é que a paciente tinha uma capacidade tão grande de compreender os animais (principalmente animais de fazenda, tanto que se especializou em tornar abatedouros de vacas e bois menos cruéis, para que os animais não sofressem tanto), apesar de não ter a menor compreensão do comportamento humano.

 

Ao descrever os casos, parece que contei muita coisa sobre cada um deles, mas o livro é riquíssimo! São histórias muito inspiradoras.

Nos sete capítulos, Sacks descreve  o histórico e as sensações do paciente, discute alguns pontos (sobre “normalidade”, questiona o sentido que as coisas têm para nós porque estamos acostumados a determinadas percepções e interpretações do mundo) e, em geral, apresenta um histórico do conhecimento que se tem a respeito de determinada “doença” – por exemplo, como as cores foram percebidas e teorizadas ao longo do tempo, como descobriu-se que o cérebro interpreta as cores e dá sentido a elas, como desenvolveu-se o conceito de autismo, a evolução e as contradições dos estudos sobre a memória humana, etc. Além de tudo isso, ele apresenta a visão médica do caso, e conta como foi a adaptação à nova (ou antiga) condição. Sem dúvida, os momentos em que ele conta a respeito do personagem (paciente) e suas reflexões são mais literários, ao passo que os panoramas da construção dos conhecimentos necessários a analisar o caso, e também as descrições médicas, são mais técnicas, científicas e, portanto, mais áridas.

O presente e o passado, as memórias e lembranças que se perdem ou não desaparecem nunca, permeiam todo o texto; são aspectos que levam a uma reorganização da realidade do indivíduo e da construção de sua identidade.

O autor é cuidadoso ao falar de doenças, e desconfia de ações como atribuir a genialidade criativa de diversas personalidades (como Sócrates, Einstein, as irmãs Bronte, Baudelaire, Dostoievski, Van Gogh, Proust, entre muitos outros) apenas a uma doença ou condição psíquica. Isso é apenas parte de como essas pessoas são, e obviamente podem contribuir para suas obras, mas será que explicam tudo?

Sacks cita pensadores de diversas áreas ao longo do texto: física, filosofia, educação, literatura, artes plásticas. Isso dá ao seu texto um caráter muito interdisciplinar, e tira o “peso” que teria uma obra técnica sobre um assunto puramente médico. Além disso, as notas de rodapé são absolutamente pertinentes e explicativas, e não simples referências a outras obras. Isso também facilita o entendimento do leitor leigo e torna a obra mais compreensível e menos acadêmica.

As descrições vívidas que o autor faz das situações dos pacientes-protagonistas nos levam a uma empatia muito grande (como não ficar desesperado, ou ao menos incomodado, ao ler que o pintor entrou em seu ateliê multicolorido pelas telas e viu tudo em preto e branco? Ao perceber que sua arte e, portanto, sua vida, haviam perdido o sentido?). A busca pela pessoa do paciente, por sua vida cotidiana, social, seus pensamentos e impressões, torna esta obra única e muito especial, além de reforçar a já mencionada empatia. Embora os dados médicos e explicações técnicas sejam interessantes, os casos dos pacientes são definitivamente o ponto mais fascinante do livro, ao menos para um leitor leigo como eu.

Deu pra perceber que recomendo o livro?!

Clique aqui para comprar Um antropólogo em Marte pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

+ info:

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais / Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
333 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

15 comentários sobre “Um antropólogo em Marte

  1. Nossa, fiquei curioso do porquê que o da Temple Grandin chama “um antropólogo em marte”…Você já viu o filme sobre a vida dela? É bem legal…Tem um prof. aqui de Cornell que é colega dela, ele já contou várias estórias interessantes 🙂

  2. Myene disse:

    Parece muuuuuito interessante, histo’rias surpreendentes, que sem du’vida nos levam a pensar e rever conceitos. Adoro saber de pessoas que superam ou convivem muito bem com o que convencionou-se ser impossivel. SIM quero ler!!
    Bj

    • Muito obrigadaaa, Aline! 😀
      A capa agora é outra, acho que esta amarela não está sendo mais editada (agora, ela é meio azul/roxa, pela Companhia de Bolso); mas o conteúdo continua sendo o mesmo. O livro é excelente, entrou para os meus favoritos!
      Beijooosss, muuito obrigada pela visita e pelo comentário! 🙂
      Nati

  3. Nati, te acompanho lá no youtube, e, por conta da promoção que você está fazendo do livro Antropólogo em Marte, vim aqui conhecer sua resenha do blog.

    Adorei, vou continuar vindo e fazer parte do sorteio.

    Além disso, é bem legal ter uma opinião sobre esse livro. Eu conheci o título quando era “monitora” em uma aula de sociologia para estudantes de terapia ocupacional.
    Todos (todos!) eles conheciam esse livro e achavam um absurdo, nós, sociólogos e antropólogos, nunca termos lido. Acho que para eles deve realmente ser uma referência, na medida em que, pelo que aprendi lecionando, a ideia de seus cursos não é trazer os “doentes” a norma, mas sim empoderá-los para que aprendam a lidar com a sua “doença” e adaptar a sua maneira as atividades no mundo.

    Naquelas aulas já fiquei com vontade de ler, agora então… Obrigada pela resenha!

    • Oiii Monise, que delícia seu comentário!!!!! ❤
      Vc falou tudo, este livro é absolutamente empoderador. Esses pacientes do dr. Sacks nos inspiram demais, pelas suas formas criativas e únicas de encarar a vida, apesar de muitas pessoas apenas os enxergarem como "doentes". Fico MUITO feliz de saber que este livro seja referência para cursos como T.O., realmente faz todo o sentido, e me aumenta a fé na humanidade saber disso! ❤
      Obrigada pela informação, e seja muito bem-vinda, sempre! O blog está "de férias", mas o canal continua lá ativo.
      Beijooooo!
      Nati

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s