2016, Bertrand Brasil, Ficção, Parceria, Resenha

O pássaro do bom senhor

O pássaro do bom senhor, de James McBride

Passaro

“- Vou fazer você jurar por essa Bíblia que é a favor da escravidão e da Constituição Americana – disse ele. – Se fizer isso, velhote, pode sair daqui sem um arranhão. Mas se estiver mentindo, seu abolicionista desgraçado, vou bater tanto na sua cabeça com essa pistola que os seus miolos vão escorrer pelos ouvidos. Coloca a mão aqui em cima.
Vejam bem, eu viria a conhecer um pouco do Velho John Brown nos anos seguintes. E ele era capaz de coisas sanguinárias e terríveis. Mas se tinha algo que o velho não sabia fazer era mentir – especialmente com a mão sobre a Bíblia. Estava sem saída. Colocou a mão na Bíblia e, pela primeira vez, se mostrou tenso de verdade.
[…]
– Meu nome é John Brown. Capitão dos Rifles de Pottawatomie. Venho com a bênção do senhor libertar todos os homens de cor neste território. Aqueles que se opuserem a mim vão comer óleo e pólvora.” (pp. 22-24)

O pássaro do bom senhor foi escrito e publicado nos Estados Unidos em 2013. Foi ganhador do National Book Award no mesmo ano. Seu autor, James McBride, é escritor, saxofonista e compositor.

O livro conta a história do Velho John Brown, um abolicionista branco, velho e casca-dura que percorria o Oeste dos Estados Unidos libertando escravos negros na década de 1850, através de luta armada. Em uma de suas andanças, acaba levando consigo um jovem menino negro escravizado, chamado Henry Shackleford, que é quem nos conta toda a história. Há nisso tudo um porém: Brown acredita que o jovem Henry é uma menina, e dá a ele o apelido de Cebola. Brown é realmente uma figura histórica (e polêmica) norte-americana, e não apenas fictícia, e possui uma certa característica messiânica em sua liderança e em sua luta violenta pela liberdade dos negros. No livro, sua personalidade é totalmente religiosa e ligada ao Senhor (Deus), como se cumprisse uma missão, ao melhor estilo Destino Manifesto.

Daguerreótipo do velho John Brown

O período abordado insere-se no contexto de expansão norte-americana para o Oeste (a chamada Marcha para o Oeste do século XIX), em que uma diversidade de colonos aceitou colonizar essa parte do território bastante difícil – em grande parte, formada por desertos e grandes desfiladeiros – em troca de terras baratas oferecidas pelo governo. Mas, apesar de difícil, o território não estava vazio. Vários grupos indígenas ocupavam a região, além de colonos de outros países. Aos poucos, os Estados Unidos passaram a anexar territórios, os quais adquiriam através de compra (como a Louisiana da França e a Flórida da Espanha) ou guerra (como o Texas, anteriormente pertencente ao México). A conquista não foi nada pacífica, especialmente para os americanos nativos.

No período tratado pelo livro, a segunda metade do século XIX, o grande embate se dá entre abolicionistas (defensores do Estado livre) e rebeldes ou camisas-vermelhas (proprietários que eram favoráveis à escravidão). Brown e seu bando são abolicionistas convictos, e suas abordagens violentas e repentinas às cidades escravistas do Oeste me lembraram diversas características de movimentos brasileiros: Canudos, por seu caráter messiânico; a Coluna Prestes, por seu nomadismo; e o Cangaço, por sua moralidade questionável (dualidade moral, violência, saques e combate a privilégios).

Outro aspecto interessante da obra é retratar bem as diferenças entre o Leste e o Oeste dos EUA no período, especialmente em termos de disponibilidade de mercadorias variadas e de luxo, produtos industrializados e infraestrutura.

A linguagem do livro é muito fácil de ser compreendida – me lembrou um pouco até a “pegada” de O sol é para todos, de Harper Lee, considerado por muito um infanto-juvenil – , e nos diálogos, o autor reproduz a fala dos personagens inclusive com concordâncias fora das normas-padrão quando necessário. Além de tudo, o livro tem um toque de humor muito interessante, que torna a leitura mais leve! Veja o trecho abaixo:

“- Você gosta de faisão?
– Sim, mestre.
– Não sou seu mestre, Cebola.
– Sim, sinhô. – disse eu, por hábito.
– Não me chama de sinhô.
– Sim, sinhô.
– Então vou te chamar de sinhazinha.
– Tudo bem, sinhô.
– Se continuar a me chamar de sinhô, vou continuar te chamando de sinhazinha – disse ele.
E assim foi por alguns minutos, com um chamando o outro de sinhô e sinhazinha, até eu ficar tão irritado que tive vontade de bater na sua cabeça com uma pedra. Mas ele era branco, e eu não, então abri o berreiro outra vez.” (p. 33)

Além da linguagem leve, o livro traz as temáticas de gênero e de racismo, ligadas à condição da escravidão, e à condição feminina atribuída a Cebola. Aos poucos, ele vai se adaptando à sua identidade (imposta) feminina, reproduzindo comportamentos considerados então como tipicamente femininos e, assim, tenta resistir à sua nova situação. Por exemplo, começa a se utilizar do choro como subterfúgio; veste um vestido por medo de ser descoberto e dado como “mentiroso” pelo velho; pensa em usar a possibilidade de ficar sozinho para fazer suas necessidades (como menina) para escapulir de seu cárcere.

É muito interessante, inclusive, que o autor utilize a voz de um ex-escravo para expor algumas contradições e aspectos não pensados quando falamos de escravidão. Por exemplo, Cebola, nosso narrador, comenta que se alimentava muito melhor quando era escravo numa taverna, do que quando passou a ser livre, membro do exército de Brown e defensor da abolição, o que demonstra um descaso para com a condição do negro liberto. Mais um exemplo:

“Ninguém perguntava para os negros o que eles achavam de tudo aquilo, a propósito, e nem para os índios, agora que penso nisso, já que a opinião de nenhum deles importava, por mais que a maior parte da discussão dissesse respeito a eles, pois no fim tudo girava em torno de terras e dinheiro, coisas com as quais aqueles que debatiam jamais pareciam estar satisfeitos.” (p. 47)

A necessidade de sobrevivência e adaptação perpassa a questão da resistência dos escravizados, que muitas vezes é uma resistência pacífica e de cooptação para com o opressor:

“Ela nunca disse nada, mas é isso que você faz quando é escravo e tem intenção de escapar. Acordos. Faz o que tem que fazer. Trai a confiança de quem precisar. E se o peixe pular do balde em cima de você e depois voltar para o lago, só se pode lamentar. Pie tinha aquele jarro de dinheiro embaixo da cama e estava aprendendo as letras comigo. Entregou Sibonia e aqueles que odiavam sua pele mais clara e sua beleza. Não culpo ela. Eu mesmo estava vivendo a minha vida como uma menina. Todas as pessoas de cor faziam o que precisavam para seguir em frente. Mas a teia da escravidão era algo pegajoso. E, no final das contas, ninguém estava livre dela.” (pp. 161-162)

A partir de uma trama que mescla a ficão com elementos históricos, McBride consegue, através de uma linguagem simples e coloquial, trazer problematizações e uma narrativa rica e empolgante. Não faltam cenas de ação, com as descrições dos ataques dos abolicionistas a propriedades para libertarem escravos e realizarem saques. Recomendado!

Este livro foi solicitado ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro.
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+ info:

O pássaro do bom senhor / James McBride; tradução de Roberto Muggiati.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
378 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “O pássaro do bom senhor

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