2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Resenha

As bruxas de Eastwick

As bruxas de Eastwick, de John Updike


“Alexandra voltou então ao preparo de vidros de molho para espaguete, molho para mais espaguete do que ela e os filhos seriam capazes de consumir mesmo que tivessem sido enfeitiçados e condenados a passar cem anos dentro de um conto de fadas italiano, vidros e mais vidros retirados, fumegantes, do panelão azul sarapintado de branco em cima da grelha de metal redonda trêmula e sibilante. Percebeu vagamente que isso era uma espécie de ridículo tributo ao seu atual amante, um encanador de origem italiana. A receita de Alexandra levava cebola, dois dentes de alho picados e salteados por três minutos em azeite quente (nem mais, nem menos; era essa a magia), bastante açúcar para contrabalançar a acidez, uma única cenoura ralada, mais pimenta do que sal; mas a colher de chá de manjericão picado era o que dava ao molho a sua virilidade, e a pitada de beladona proporcionava a libertação sem a qual a virilidade não passa de uma congestão assassina. Tudo isso devia ser acrescentado aos seus próprios tomates, colhidos e guardados em cada peitoril de janela durante as últimas semanas e agora cortados e levados ao liquidificador – desde que, dois verões antes, Joe Marino havia começado a frequentar sua cama, uma absurda fecundidade tomara conta dos pés de tomate plantados no jardim lateral onde o sol do sudoeste batia enviesado por entre as fileiras de salgueiros durante as longas tardes. Os pequenos galhos retorcidos dos tomates, suculentos e descorados como se feitos de um papel verde barato, se quebravam com o peso de tantos frutos; havia algo de frenético em tamanha fertilidade, uma histeria parecida com a de crianças ansiosas para agradar. Dentre todas as plantas, os tomates pareciam as mais humanas, ansiosas e frágeis, vulneráveis à deterioração. Ao colher as polpudas esferas vermelho-alaranjadas, Alexandra tinha a impressão de estar segurando na mão os testículos de um gigantesco amante. Enquanto se atarefava na cozinha, reconhecia o quê de tristemente menstrual em tudo aquilo, o molho parecido com sangue a ser despejado sobre o branco espaguete. As grossas tiras brancas iriam se transformar em sua própria gordura branca. Sua luta feminina contra o próprio peso: aos trinta e oito anos, ela achava isso cada vez menos natural. Será que para atrair o amor ela precisava negar o próprio corpo, como uma santa neurótica de antigamente? A natureza é o indicador e o contexto de toda saúde e, se temos um apetite, ele está lá para ser saciado, satisfazendo assim a ordem cósmica. Mas apesar disso ela às vezes desprezava a si mesma por ser preguiçosa, por ter arrumado um amante de uma ascendência tão reputadamente tolerante em relação à corpulência.” (pp. 9-11)

Li As bruxas de Eastwick para O Grande Desafio do Culto Booktuber de janeiro (se você não sabe do que estou falando, clique aqui)! Este desafio foi proposto pela Tamirez (do blog e canal Resenhando Sonhos), e eu era obrigada a fazer – já que a outra alternativa era o meu próprio desafio (que acabei fazendo também hihihihi). O desafio dela consistia em ler o livro que menos temos vontade na nossa estante. Fiquei em dúvida entre três, mas acabei escolhendo este por ser menor em tamanho (edição de bolso, assim pude levar na minha viagem).

Já havia tentado ler este livro em 2015, na Maratona Literária de Inverno, mas não passei do primeiro parágrafo. Isso prova que existem momentos para lermos certos livros. Digo isso porque, nessa segunda tentativa, as primeiras cem páginas passaram voando!

Neste livro, conhecemos a história de três mulheres bastante independentes, mães solteiras, que vivem na pequena cidade estadunidense de Eastwick. Alexandra, Jane e Sukie, cada qual com sua personalidade e aparência física. Não demora muito para sabermos que elas são, literalmente, bruxas (achei melhor deixar isso claro, porque eu própria não sabia se o título era apenas uma metáfora). Com poderes mágicos e tudo. E provavelmente foi isto que mais gostei em toda a obra: as três mulheres concentram uma força enorme em si mesmas, sem deixarem de ser humanas. Ou seja, são mulheres (com problemas e questões como depressão, culpa, sexualidade, etc.), mas extremamente empoderadas.

A trama se inicia quando um forasteiro misterioso se muda para uma mansão isolada na cidade. As três amigas, Jane, Sukie e Alexandra, acabam se interessando por sua figura um tanto excêntrica e se envolvendo com ele. Nas partes 2 e 3 do livro, acompanhamos a evolução desse relacionamento a quatro e com outras pessoas da comunidade da pequena Eastwick.

Tenho algumas ressalvas em relação ao livro: o fato de o fio narrativo girar em torno dos casos amorosos dessas mulheres tão fascinantes me parece que empobreceu a obra. Gostaria de que o foco fossem elas, e não seus relacionamentos sexuais. Sinto quase como se o protagonismo das bruxas fosse deslocado e puxado um pouco para o lado dos personagens masculinos, propositalmente desinteressantes no livro. A maioria das cenas não passaria no Teste de Bechdel [outra explicação sobre o teste aqui], o que é terrível.

As descrições de sensações e desejos sexuais das três bruxas por vezes me soaram como as que um homem imagina que uma mulher sinta – o que, de fato, deve ser o que ocorreu, já que o autor do livro é homem -; mas não posso afirmar com 100% de certeza, pois é possível que algumas mulheres se identifiquem. Em todo caso, não destacaria isso como um ponto forte da obra.

O final também, infelizmente, não me agradou por motivos similares, e por isso, tirei uma estrela da minha avaliação.

Como pontos positivos, destaco principalmente a escrita de Updike. Em determinados momentos, o autor tem um olhar muito acurado e cuidadoso do universo feminino, e algumas partes mais místicas e mágicas são muito encantadoras, apesar de sutis. Escolhi o trecho inicial do post tendo isso em mente: quis mostrar para vocês o primeiro momento que me encantou no livro: Alexandra preparando um caldeirão de molho de tomate como se fosse uma poção, e essa mistura perfeita de realidade e magia que às vezes perdemos em nosso cotidiano. 

De maneira geral, gostei da experiência, mesmo tendo as críticas que destaquei. A minha leitura teve momentos mais rápidos e empolgantes, e outros, mais lentos. É uma obra um pouco contraditória na maneira de tratar as personagens mulheres, mas ainda assim, acho que vale a pena como literatura de entretenimento!

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+ info:

As bruxas de Eastwick / John Updike; tradução Fernanda Abreu.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
355 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO
(Contém temas adultos, especialmente sexo. Não é recomendado para crianças.)

Obrigada pela leitura!

Ficarei muito feliz se você deixar um comentário! (Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

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6 comentários sobre “As bruxas de Eastwick

    • Siiim, a história poderia ser melhor, sabe? Não apenas sobre o cara. Elas são personagens tão legais! Tinham que ser melhor aproveitadas!
      E o trecho do molho é demais, né?!?! 😀 Foi o primeiro que me deixou encantada! O autor escreve super bem.
      Beijooooo! Obrigada pelo comentário!

  1. Myene disse:

    Ei Nati!
    Este livro poderia ser perfeito, se o autor fosse ousado o suficiente…faltou coragem ou competencia! Prefiro deixa’-lo de molho, quem sabe de tomate!
    Bj!

    • É verdade! Molho de tomate! Hahahaha!
      O livro vale a pena pela escrita, mas achei a história fraca, infelizmente. A oscilação dele em relação às personagens foi uma pena… se ele as tivesse mantido fortes (mesmo em suas respectivas fragilidades), seria um livro fantástico!!!
      Beijooooo!

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