2016, Ficção, Parceria, Record, Resenha

Sem tetas não há paraíso

Sem tetas não há paraíso, de Gustavo Bolívar Moreno

Tetas

“Catalina nunca imaginou que a prosperidade e a felicidade das meninas de sua geração dependessem do número de seu sutiã. Só começou a entender isso na tarde em que Yésica lhe explicou, sem qualquer cerimônia, por que o homem que ela esperava com tantas expectativas a tinha deixado plantada na porta de casa:
– Por causa dos seus peitos! El Titi preferiu ficar com a Paola porque seus peitos são muito pequenos, cara!
Com estas palavras humilhantes, Yésica pôs um ponto final na primeira tentativa de Catalina de se prostituir. Enquanto isso, Paola entrava, sorridente, em uma luxuosa caminhonete que a levaria a uma fazenda de Cartago onde, por 500 mil pesos, ficaria nua e transaria com um traficante de drogas em ascensão, apelidado de El Titi e com pretensões de se tornar um Pablo Escobar, na beira de uma piscina descomunal, ao lado de outras mulheres tão ignorantes e ambiciosas quanto ela e de inúmeras estátuas de mármore e pedra que jorravam água com entediada resignação.” (p. 9)

Meu grau de querência por este livro estava fora do normal. Logo que dei uma olhada na sinopse, sabia que precisava lê-lo. E não é que o Grupo Editorial Record, parceiro do Redemunhando, me ofereceu como uma das opções para solicitar do catálogo?! 😀 Não tive dúvida! (Acabei ganhando de presente de Natal o mesmo livro do meu primo, e adorei o presente! Para não ficar com duas cópias repetidas, troquei por outro).

O livro, escrito por um autor colombiano, fala sobre o universo do tráfico de drogas. Insere-se numa “onda” literária chamada narcoliteratura, que discute questões e respostas relativas ao tráfico de drogas (especialmente na América Latina e nos Estados Unidos), e vem se espalhando há cerca de dez anos, chegando ao auge com a produção de séries de sucesso como Narcos. Talvez um dos livros mais conhecidos da narcoliteratura seja Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos.

Sem tetas não há paraíso conta a história de Catalina, uma menina de 14 anos, colombiana. Ela mora com sua mãe e seu irmão mais velho num bairro onde também vivem suas colegas de escola (ou ex-colegas de escola, já que muitas delas largaram os estudos, e a própria Catalina quer parar, porque não gosta de estudar) e tem um namorado, Albeiro, que é louco por ela desde que ela tinha 11 anos. Porém, ele é pobre e ingênuo e Catalina é uma garota ambiciosa; ela tem muita inveja das meninas do bairro (todas por volta dos 15, 16 anos), as quais se prostituem para traficantes de drogas e voltam para suas casas cheias de dinheiro. A meta de vida de Catalina passa a ser, portanto, tornar-se uma dessas prostitutas que ganham muito dinheiro dos narcotraficantes. Mas Yésica, a colega que indica as garotas aos clientes, diz que eles gostam de mulheres com peitos grandes. Por isso, Catalina tem um problema cíclico: seios pequenos a impedem de começar a atividade a que tanto almeja, mas ela só conseguirá implantes de silicone com dinheiro de prostituição.

A escrita de Bolívar é absolutamente ágil e direta, chega a ser seca em determinados momentos. Os diálogos são feitos em discurso direto, com travessão, o que a torna ainda mais dinâmica. Por conta disso, o livro é muito fluido. Para se ter uma ideia do quão objetiva é a linguagem, dê uma olhada no trecho inicial do post. Aqueles são os dois primeiros parágrafos da obra, e já é possível entender todo o mote e todo o clima que a permeia. As 100 primeiras páginas transcorrem de maneira mais repetitiva, explicando o porquê de Catalina querer entrar nesse mundo e suas tentativas, muitas vezes frustradas. Depois do primeiro terço do livro, a história ganha um ritmo mais rápido e os acontecimentos se sucedem de maneira mais diversa e dinâmica.

Achei que algumas coisas têm explicação fraca, mas isso talvez aconteça por conta de minha diferença em relação à cultura dos personagens do livro. Por exemplo, o alto grau de autonomia de Catalina e suas amigas, todas menores de idade – nem falo em relação à fiscalização do país, porque Moreno faz questão de ressaltar aspectos como corrupção e falta de ética, mas mais em relação à suas famílias mesmo. Outra coisa que não compreendi, e acredito que isso não decorre de diferenças culturais, foi a rapidez com que alguns personagens se apaixonam por Catalina, algo que não ficou exatamente explicado.

Há diversos assuntos tratados neste livro, como o prestígio do tráfico de drogas, os padrões corporais impostos como modelo a ser (necessariamente) seguido – no caso, o tamanho grande dos peitos -, a “adultização” de crianças (Catalina tem catorze anos!), machismo, consumismo, prostituição, violência. O autor não tem papas na língua e, embora não se atenha às cenas de sexo ou violência, descrevendo-as nos mínimos detalhes, também não esconde o que acontece e suas consequências. As enumerações dos luxos dos traficantes são bem vivazes e interessantes.

Recomendado para quem se interessa pelo tema do narcotráfico, da prostituição e da condição feminina, ou para quem quer ler uma história ágil! Obviamente, não é uma narrativa recomendada para crianças, pelas temáticas abordadas.

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+ info:

Sem tetas não há paraíso / Gustavo Bolívar Moreno; tradução Luís Carlos Moreira Cabral.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
306 páginas.

classificação: 3 estrelas

(Contém temática adulta e explícita: tráfico de drogas, violência, prostituição, sexo)

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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10 comentários sobre “Sem tetas não há paraíso

  1. Oi, Nati!
    Parece ser bom, hein?
    Esse tema é muito interessante e mostra uma realidade dos países que têm grandes problemas com drogas, né?
    Parece ser um livro bem forte, de fazer pesar a cabeça, no sentido da reflexão.
    Ótima resenha! Bjos!

    • Sim, Giovanni!!! É muito interessante, e achei criativa a ideia do autor também! 🙂 Mostra uma realidade muito absurda (e, ainda assim, realidade), tanto que chega a ser cômica (e trágica) em alguns momentos!
      Beijos, obrigada!
      Nati

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