2016, História, Não ficção, Parceria, Resenha

O negro na formação da sociedade paraense

O negro na formação da sociedade paraense, de Vicente Salles

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“Capítulo importante da história social do Pará escreveu o negro nos engenhos de cana-de-açúcar. Ali ele exercitou a fuga para os quilombos. Tornou-se ladino. Incorporou-se à Cabanagem. Solidarizou-se ao caboclo pela condição de escravo. No complexo cultural amazônico, deixou sua marca indelével.” (p. 55)

Estava certa noite em casa, quando, após receber contato da assessoria de imprensa da editora, recebi pelo Correio este belo livro de cortesia da paraense Paka-Tatu. A editora foi fundada em Belém (PA) por professores de História, e publica principalmente (mas não apenas) títulos sobre a Amazônia e autores da região. Os livros abarcam desde poesia e infanto-juvenil a Filosofia e Saúde.

Esta é uma reedição de uma reunião de textos do historiador Vicente Salles (1931-2013), que dedicou sua carreira a estudar temas relativos à História da Amazônia e seus agentes socioculturais. Neste caso, o destaque é dado ao papel dos africanos e afrodescendentes na formação da região amazônica. Cada texto (a que chamarei de “capítulo”), trata de um aspecto ligado ao tema. Temos, por exemplo, A escravidão africana e a AmazôniaGuerras aos quilombolas no Grão-ParáSociedades de mulheres negras no Grão-Pará, e diversos casos retirados de documentos.

Aliás, falemos dos documentos. Salles utiliza uma gama enorme de fontes (jornais, partituras, memórias, conferências, manuscritos, anúncios), além de diversas referências bibliográficas, tudo devidamente informado nas notas de rodapé.

A nova edição está muito bonita e cuidadosa; desde a capa (amarela, estampada e com verniz localizado), até os tipos escolhidos. O prefácio à primeira edição, de Anaíza Vergolino e Silva, já localiza o leitor a respeito da obra de Salles e de sua importância para a historiografia brasileira; e a nota de Paulo Maués Corrêa, revisor da segunda edição, comenta os detalhes que foram ou não alterados no texto. O livro traz um estilo de texto mais acadêmico, apesar de ser, ainda assim, acessível ao público leigo.

O primeiro capítulo trata da ocupação colonial da Amazônia e da instalação dos negros para a lavoura de cana-de-açúcar (que não prosperou na região como o esperado). Existe aqui um cuidado com a denominação de grupos africanos distintos (como bantos e sudaneses, por exemplo), para não cair em generalizações. Fala também do sincretismo religioso que ocorreu entre catolicismo, através das irmandades, práticas caboclas e indígenas de pajelança, e cultos africanos a orixás, sendo este sincretismo muitas vezes sintetizado por músicas e estribilhos, e manifestado na arquitetura e em festas populares e religiosas. Destacam-se aqui leis proibitivas a muitas dessas práticas religiosas, consideradas ofensivas e por vezes subversivas pela população católica tradicional e pelas autoridades. As resistências a tais proibições também são descritas, e a gradual regulamentação dos terreiros.

No capítulo dois, o autor traz o tema da Cabanagem (1835-1840), guerra ocorrida no Pará durante o período regencial, e que teve como destaque a ampla participação popular – negros, índios, mestiços, sertanejos, população urbana e rural, elites).

O terceiro texto mostra o interessante dado da diversificação dos ofícios entre escravos (você sabia que eles não apenas trabalhavam na lavoura da cana-de-açúcar, mas também se especializavam em diversos ofícios?), além de falar também sobre associações de trabalhadores e abolicionismo.

O capítulo quatro comenta sobre a escravização de indígenas e foca na resistência dos escravizados através da fuga e na formação de quilombos na região do Pará. Além disso, são descritas estratégias de captura de quilombolas e combate aos quilombos por meio de expedições militares; algumas lideranças negras e como foi tratada a questão da abolição da escravidão durante a Cabanagem.

O quinto texto é super interessante, chama-se “Memória sobre a rede de dormir que fazem as mulheres índias e negras no Grão-Pará, conforme anotações de cronistas antigos e modernos”. A partir da confecção de redes, artesanato tipicamente indígena, o autor localiza a importância da mulher – negra e indígena – para a economia e a sociedade amazônicas.

O capítulo seis é sobre a capoeira como forma de luta e resistência dos negros escravizados e libertos do Pará. Além dos diversos usos para a palavra “capoeira” ao longo da História brasileira, Salles mostra a visão da classe média sobre essa prática, considerada violenta e sinônimo de vadiagem e criminalidade.

Mais uma vez, no capítulo sete, temos as mulheres como protagonistas, mas dessa vez, o autor se foca nas associações de mulheres negras no Pará: taieiras (lavadeiras que cantavam), Estrelas do Oriente (associação assistencialista), e Irmãs de São Raimundo (associação religiosa).

O oitavo capítulo tem um formato diferente, de pequenos textos, muitos em tom anedótico, em que o autor conta aspectos curiosos da escravidão no Pará, casos (por exemplo, rebelião escrava e homicídio de senhor, anúncio de venda de escravo em jornal, disputa pela posse de uma escrava, dramas teatrais sobre problemas sociais do século XIX, etc.).

Finalmente, no capítulo nove, Vicente Salles conta sobre algumas atividades realizadas pelos negros quando estavam de folga: festas (bumba-meu-boi, lundum, a dança dos cabanos, e danças derivadas), ritmos. Aproximando-se de um dos campos de pesquisa principais deste historiador, a música está presente o tempo todo, e esse capítulo é um apanhado de obras e documentos que falam sobre o assunto, ótima referência para quem faz pesquisa nessa área.

Posso afirmar que, ao menos nas escolas da região Sudeste, conhece-se pouquíssimo da história da região Norte. Estes textos trazem um material valioso para professores utilizarem na sala de aula e enriquecerem cada vez mais as aulas, mostrando que nem só de índio, rio e floresta se faz a região Norte. Uma verdadeira desconstrução de estereótipos – do norte e do escravizado -, que pode ser feita de forma totalmente embasada. Textos, tabelas, trechos e citações trazidos pelo livro podem ser muito úteis em sala de aula.

É notável o trabalho de Salles em trazer à luz um tema em geral pouco notado na historiografia do Norte do país, que é a questão do negro (ali, tendemos a nos lembrar muito mais da presença indígena). Percebe-se uma grande e legítima preocupação em mostrar personagens anônimos que fizeram parte da construção das culturas paraenses, e não a ideia positivista de destacar heróis individuais na História. O autor valoriza as pessoas “comuns”, muitas das quais tiveram seus nomes esquecidos.

Ele nos conta sobre a música e a religião do negro no contexto paraense, num arco temporal que vai do século XVII ao XIX. Tais estudos são fundamentais na medida em que mostram tais elementos como cultura, e não simplesmente como folclore ou prática. As religiões afro-brasileiras são religiões, e não “crendices” ou “superstições”.

Os temas são tratados de maneira a percebermos que não se trata de “um negro” que formou a história do Brasil, mas tantos negros quanto são possíveis indivíduos diferentes. Ou seja, “o negro” é, na verdade, várias religiosidades, culturas, etnias, línguas, práticas, profissões, opiniões. A forma como o autor abarca toda essa complexidade é sensacional.

Recomenda-se a leitura a todo e qualquer professor de História, e a quem mais interessar o tema! Por estar dividido em vários textos, o livro pode ser lido aos poucos.

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+ info:

O negro na formação da sociedade paraense: textos reunidos / Vicente Salles.
Belém: Paka-Tatu, 2015.
260 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha, Vídeo

Um antropólogo em Marte

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks


“Nessa perspectiva, deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal, revelando poderes latentes, desenvolvimentos, evoluções, formas de vida que talvez nunca fossem vistos, ou mesmo imaginados, na ausência desses males. Nesse sentido, é o paradoxo da doença, seu potencial ‘criativo’, que forma o tema central deste livro.
Assim como é possível ficar horrorizado com a devastação causada por doenças ou distúrbios de desenvolvimento, por vezes também podemos vê-los como criativos – já que, se por um lado destroem caminhos precisos, certas maneiras de executarmos coisas, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar caminhos e maneiras diferentes, forçá-lo a um inesperado crescimento e evolução. Esse outro lado do desenvolvimento ou da doença é o que vejo, potencialmente, em quase todo paciente; e é isso que me interessa especialmente descrever aqui.” (p. 16)

Oliver Sacks (1933-2015) foi um médico neurologista britânico e que escreveu vários best-sellers ao longo de sua carreira. Seus livros falam principalmente sobre casos interessantes que acompanhou, junto com preciosas e humanas reflexões.

Um antropólogo em Marte se encaixa justamente no modelo: neste livro, Sacks relata sete casos de pacientes que desenvolveram doenças (ou já nasceram com elas) que os levaram a reconstruir toda a sua existência e sua identidade. São pessoas que se adaptaram, apesar de (ou talvez por causa de) suas doenças. Nesse sentido, os paradoxos de que falam o subtítulo referem-se justamente ao potencial criativo decorrente das doenças nesses casos, de um certo poder de renovação e ressignificação diante de tais adversidades.

Um dos primeiros pontos que me chamou a atenção, já na Apresentação do livro, escrita pelo próprio Sacks, foi que ele se questiona o que é chamado de “doença”. Ele se questiona se tudo aquilo que consideramos doenças o são de fato, ou se podem ser simplesmente novas adaptações ao mundo. Muitas vezes, “deficiências” geram caminhos diferentes para um mesmo aprendizado, desenvolvimento, interpretação (inclusive, ao falar sobre isso, o autor cita Vygotsky, um grande pensador da educação e da cognição infantil). (O livro foi publicado em 1995, portanto, deve ter havido avanços relacionados à definição de certas doenças, tratamentos, etc.)

O autor acompanha, nos sete pacientes, a recriação de processos e a reconstrução de identidades, através de duas abordagens: uma médico-científica – mais objetiva -, e uma inter-subjetiva – ele procura ficar junto com esses pacientes nos seus ambientes domésticos, na vida cotidiana, a fim de obter uma visão mais completa de suas vidas.

Vamos aos casos:

  • O caso do pintor daltônico foi um dos mais intrigantes para mim. Trata-se de um homem, Sr. I., que, aos 65 anos de idade, perdeu a visão das cores após um acidente (pequeno) de carro. Parecia que nada havia acontecido, até que este homem, que era pintor e vivia de sua arte, percebeu que estava enxergando tudo em preto, branco e tons de cinza. Inicialmente, seu desespero é total, ao descobrir que não existe possibilidade de voltar a enxergar em cores, ele entra numa depressão profunda. O autor nos apresenta um histórico do conhecimento sobre a capacidade de representar as cores, e nos conta a evolução/adaptação do pintor à sua nova realidade.
sr. I

Duas pinturas feitas pelo sr. I., logo antes do acidente em que perdeu a visão das cores

  • O último hippie fala de Greg, um adolescente rebelde da década de 1960 que, após se envolver com drogas e brigar com os pais, foi para um centro Hare Krishna e lá encontra seu foco. Identificou-se com a filosofia e as práticas da organização. No início da década de 1970, começou a queixar-se de ter a visão ofuscada, o que foi interpretado como iluminação espiritual. Os pais, que não tiveram comunicação direta com ele por anos, acabaram conseguindo permissão para visitá-lo em 1975, e se depararam com uma pessoa completamente diferente de seu filho: agora gordo, careca com um sorriso permanente e “estúpido” no rosto, e comentários “idiotas”. Levado ao médico, foi constatado um tumor no cérebro. O tumor foi retirado, mas Greg permaneceu com as sequelas: ficou completamente cego e seriamente incapacitado neurológica e mentalmente. Tudo isso aos 25 anos. Porém, Greg não tinha consciência de sua cegueira (ele achava que enxergava), de suas capacidades mentais perdidas, do passado nem do futuro – havia um único ponto que o despertava: as bandas dos anos 60 que ele amava. Ao fim das contas, o ex-adolescente rebelde passou a viver serenamente nas condições que se apresentaram a ele. Sua personalidade tornou-se dócil e solar, e sua vida resumia-se ao presente.
  • Uma vida de cirurgião é sobre um homemcom síndrome de Tourette. Trata-se de um distúrbio em que a pessoa pode apresentar, entre outras características, tiques, grunhidos, blasfêmias, xingamentos, obscenidades, comportamento impulsivo, agitação, etc. Tudo isso está fora do controle da pessoa. Ou seja, ela pode estar conversando normalmente e, de repente, estala os dedos, ou toca seu próprio pé, ou fala uma palavra esquisita. (Obviamente que essa descrição está superficial e incompleta. No vídeo abaixo (em inglês), as crianças que têm essa síndrome explicam infinitamente melhor do que eu.) Este caso é curioso pois o paciente que sofre com a síndrome de Tourette (tem todos esses tiques nervosos, comportamentos considerados estranhos e que se manifestam em horas inapropriadas, etc.) é um cirurgião. Entretanto, quando está na sala de cirurgia, concentrado, operando, misteriosamente, perde suas características de Tourette.

  • Ver e não ver conta sobre Virgil, um homem que perdeu sua visão aos 6 anos. Portanto, havia aprendido 100% como ser cego. Tinha o tato, o olfato e a audição muito apurados. Aos 50 anos de idade, descobriu-se que sua cegueira era operável e ele poderia recuperar parte de sua visão. Sua esposa insistiu muito na cirurgia, porém, sua reação imediata ao recuperar a visão não foi a de maravilhamento que todos estavam esperando; foi a de incompreensão. Virgil não sabia mais ver. Ele enxergava formas, movimentos e cores, mas não sabia dar sentido àquilo. Seus olhos sequer se fixavam em um objeto. Virgil precisava aprender a ser vidente, da mesma maneira que, quando criança, aprendeu a ser cego. O mais interessante desse caso é perceber que os significados que damos às coisas são resultado da correlação entre sentidos. Nós, que nascemos com todos eles, conectamos som, imagem, sensação tátil, olfativa, etc. Mas alguém que nasce sem um sentido (a visão, por exemplo) ou o perde na infância, faz tais conexões sem precisar dele, que nos faria tanta falta.
  • A paisagem dos seus sonhos é a respeito de Franco Magnani, um homem que nasceu no vilarejo de Pontito, na Itália. Ele pinta quadros que reproduzem as construções e ruas de Pontito de maneira muito precisa, mesmo tendo ido embora de lá definitivamente há quase 30 anos. Ao ir visitar o paciente em sua casa, Sacks se depara com todas as paredes, gavetas, etc., repletas de quadros de Pontito, e o artista só fala sobre suas lembranças de infância no vilarejo, obsessivamente. Ele tinha visões e sonhos com Pontito, tudo emocionalmente muito avassalador e minuciosamente detalhado. As aparições que Magnani presenciava envolviam um aspecto visual tridimensional (ele podia se mover entre as ruas de Pontito e enxergar de vários ângulos), um auditivo (ele ouvia os sinos da igreja de Pontito), um tátil, um olfativo. Pontito se materializava para Franco, mesmo após anos sem visitá-la, e Sacks tenta desvendar isso.

Franco Magnani, pintando uma imagem “futurista” de Pontito

Comparações entre fotografias de Pontito e quadros de Magnani, pintados de memória

  • Prodígios é sobre pessoas autistas que desenvolvem (descobrem) um talento muito pronunciado, intenso e extraordinário. O paradoxo está justamente no fato de que os autistas são pessoas que possuem uma deficiência no entendimento das regras sociais e no desenvolvimento de habilidades sociais. Poderia-se pensar, portanto, que seus cérebros seriam fragilizados – até o momento em que você se depara com um autista com habilidades incríveis, como Stephen Wiltshire. Stephen tinha uma memória fora do comum para construções, prédios e carros; bastava uma olhadela, que absorvia a paisagem. Além disso, Stephen descobriu que sabia desenhar essas coisas extremamente bem (a BBC fez um documentário que conta a história de Stephen. O vídeo abaixo é de uma visita que ele fez a Istambul, mostra Stephen desenhando a paisagem panorâmica que viu em um helicóptero). O que intriga Oliver Sacks (e a nós, leitores), é que o autista não tem uma consciência do “eu”, de uma identidade. Porém, como é possível que um artista não tenha subjetividade? Stephen, mesmo reproduzindo grande parte do que via e captando a essência das coisas, acrescentava detalhes que não estavam originalmente lá.

Um dos desenhos de Stephen Wiltshire

  • O último caso, Um antropólogo em Marte, também fala de uma autista: Temple Grandin, bióloga e engenheira bem-sucedida. Escreve artigos científicos (também é professora universitária), escreveu uma autobiografia e é especialista em comportamento animal. Temple tinha uma vida profissional agitadíssima, e nenhuma vida social. O paradoxo é que a paciente tinha uma capacidade tão grande de compreender os animais (principalmente animais de fazenda, tanto que se especializou em tornar abatedouros de vacas e bois menos cruéis, para que os animais não sofressem tanto), apesar de não ter a menor compreensão do comportamento humano.

 

Ao descrever os casos, parece que contei muita coisa sobre cada um deles, mas o livro é riquíssimo! São histórias muito inspiradoras.

Nos sete capítulos, Sacks descreve  o histórico e as sensações do paciente, discute alguns pontos (sobre “normalidade”, questiona o sentido que as coisas têm para nós porque estamos acostumados a determinadas percepções e interpretações do mundo) e, em geral, apresenta um histórico do conhecimento que se tem a respeito de determinada “doença” – por exemplo, como as cores foram percebidas e teorizadas ao longo do tempo, como descobriu-se que o cérebro interpreta as cores e dá sentido a elas, como desenvolveu-se o conceito de autismo, a evolução e as contradições dos estudos sobre a memória humana, etc. Além de tudo isso, ele apresenta a visão médica do caso, e conta como foi a adaptação à nova (ou antiga) condição. Sem dúvida, os momentos em que ele conta a respeito do personagem (paciente) e suas reflexões são mais literários, ao passo que os panoramas da construção dos conhecimentos necessários a analisar o caso, e também as descrições médicas, são mais técnicas, científicas e, portanto, mais áridas.

O presente e o passado, as memórias e lembranças que se perdem ou não desaparecem nunca, permeiam todo o texto; são aspectos que levam a uma reorganização da realidade do indivíduo e da construção de sua identidade.

O autor é cuidadoso ao falar de doenças, e desconfia de ações como atribuir a genialidade criativa de diversas personalidades (como Sócrates, Einstein, as irmãs Bronte, Baudelaire, Dostoievski, Van Gogh, Proust, entre muitos outros) apenas a uma doença ou condição psíquica. Isso é apenas parte de como essas pessoas são, e obviamente podem contribuir para suas obras, mas será que explicam tudo?

Sacks cita pensadores de diversas áreas ao longo do texto: física, filosofia, educação, literatura, artes plásticas. Isso dá ao seu texto um caráter muito interdisciplinar, e tira o “peso” que teria uma obra técnica sobre um assunto puramente médico. Além disso, as notas de rodapé são absolutamente pertinentes e explicativas, e não simples referências a outras obras. Isso também facilita o entendimento do leitor leigo e torna a obra mais compreensível e menos acadêmica.

As descrições vívidas que o autor faz das situações dos pacientes-protagonistas nos levam a uma empatia muito grande (como não ficar desesperado, ou ao menos incomodado, ao ler que o pintor entrou em seu ateliê multicolorido pelas telas e viu tudo em preto e branco? Ao perceber que sua arte e, portanto, sua vida, haviam perdido o sentido?). A busca pela pessoa do paciente, por sua vida cotidiana, social, seus pensamentos e impressões, torna esta obra única e muito especial, além de reforçar a já mencionada empatia. Embora os dados médicos e explicações técnicas sejam interessantes, os casos dos pacientes são definitivamente o ponto mais fascinante do livro, ao menos para um leitor leigo como eu.

Deu pra perceber que recomendo o livro?!

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+ info:

Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais / Oliver Sacks; tradução Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
333 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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Sorteio de 1 ano do canal!

Olá, pessoas! 😀

O canal Redemunhando está completando um ano no mês de fevereiro (o blog já tem dois! ❤ ), e para comemorar, resolvi fazer um sorteio de três livros que amo para vocês! Assista ao vídeo e veja quais são os títulos e quais são as regras para participar (o link para o formulário de inscrição está na descrição do vídeo no Youtube)!

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2016, Bertrand Brasil, Ficção, Parceria, Resenha

O pássaro do bom senhor

O pássaro do bom senhor, de James McBride

Passaro

“- Vou fazer você jurar por essa Bíblia que é a favor da escravidão e da Constituição Americana – disse ele. – Se fizer isso, velhote, pode sair daqui sem um arranhão. Mas se estiver mentindo, seu abolicionista desgraçado, vou bater tanto na sua cabeça com essa pistola que os seus miolos vão escorrer pelos ouvidos. Coloca a mão aqui em cima.
Vejam bem, eu viria a conhecer um pouco do Velho John Brown nos anos seguintes. E ele era capaz de coisas sanguinárias e terríveis. Mas se tinha algo que o velho não sabia fazer era mentir – especialmente com a mão sobre a Bíblia. Estava sem saída. Colocou a mão na Bíblia e, pela primeira vez, se mostrou tenso de verdade.
[…]
– Meu nome é John Brown. Capitão dos Rifles de Pottawatomie. Venho com a bênção do senhor libertar todos os homens de cor neste território. Aqueles que se opuserem a mim vão comer óleo e pólvora.” (pp. 22-24)

O pássaro do bom senhor foi escrito e publicado nos Estados Unidos em 2013. Foi ganhador do National Book Award no mesmo ano. Seu autor, James McBride, é escritor, saxofonista e compositor.

O livro conta a história do Velho John Brown, um abolicionista branco, velho e casca-dura que percorria o Oeste dos Estados Unidos libertando escravos negros na década de 1850, através de luta armada. Em uma de suas andanças, acaba levando consigo um jovem menino negro escravizado, chamado Henry Shackleford, que é quem nos conta toda a história. Há nisso tudo um porém: Brown acredita que o jovem Henry é uma menina, e dá a ele o apelido de Cebola. Brown é realmente uma figura histórica (e polêmica) norte-americana, e não apenas fictícia, e possui uma certa característica messiânica em sua liderança e em sua luta violenta pela liberdade dos negros. No livro, sua personalidade é totalmente religiosa e ligada ao Senhor (Deus), como se cumprisse uma missão, ao melhor estilo Destino Manifesto.

Daguerreótipo do velho John Brown

O período abordado insere-se no contexto de expansão norte-americana para o Oeste (a chamada Marcha para o Oeste do século XIX), em que uma diversidade de colonos aceitou colonizar essa parte do território bastante difícil – em grande parte, formada por desertos e grandes desfiladeiros – em troca de terras baratas oferecidas pelo governo. Mas, apesar de difícil, o território não estava vazio. Vários grupos indígenas ocupavam a região, além de colonos de outros países. Aos poucos, os Estados Unidos passaram a anexar territórios, os quais adquiriam através de compra (como a Louisiana da França e a Flórida da Espanha) ou guerra (como o Texas, anteriormente pertencente ao México). A conquista não foi nada pacífica, especialmente para os americanos nativos.

No período tratado pelo livro, a segunda metade do século XIX, o grande embate se dá entre abolicionistas (defensores do Estado livre) e rebeldes ou camisas-vermelhas (proprietários que eram favoráveis à escravidão). Brown e seu bando são abolicionistas convictos, e suas abordagens violentas e repentinas às cidades escravistas do Oeste me lembraram diversas características de movimentos brasileiros: Canudos, por seu caráter messiânico; a Coluna Prestes, por seu nomadismo; e o Cangaço, por sua moralidade questionável (dualidade moral, violência, saques e combate a privilégios).

Outro aspecto interessante da obra é retratar bem as diferenças entre o Leste e o Oeste dos EUA no período, especialmente em termos de disponibilidade de mercadorias variadas e de luxo, produtos industrializados e infraestrutura.

A linguagem do livro é muito fácil de ser compreendida – me lembrou um pouco até a “pegada” de O sol é para todos, de Harper Lee, considerado por muito um infanto-juvenil – , e nos diálogos, o autor reproduz a fala dos personagens inclusive com concordâncias fora das normas-padrão quando necessário. Além de tudo, o livro tem um toque de humor muito interessante, que torna a leitura mais leve! Veja o trecho abaixo:

“- Você gosta de faisão?
– Sim, mestre.
– Não sou seu mestre, Cebola.
– Sim, sinhô. – disse eu, por hábito.
– Não me chama de sinhô.
– Sim, sinhô.
– Então vou te chamar de sinhazinha.
– Tudo bem, sinhô.
– Se continuar a me chamar de sinhô, vou continuar te chamando de sinhazinha – disse ele.
E assim foi por alguns minutos, com um chamando o outro de sinhô e sinhazinha, até eu ficar tão irritado que tive vontade de bater na sua cabeça com uma pedra. Mas ele era branco, e eu não, então abri o berreiro outra vez.” (p. 33)

Além da linguagem leve, o livro traz as temáticas de gênero e de racismo, ligadas à condição da escravidão, e à condição feminina atribuída a Cebola. Aos poucos, ele vai se adaptando à sua identidade (imposta) feminina, reproduzindo comportamentos considerados então como tipicamente femininos e, assim, tenta resistir à sua nova situação. Por exemplo, começa a se utilizar do choro como subterfúgio; veste um vestido por medo de ser descoberto e dado como “mentiroso” pelo velho; pensa em usar a possibilidade de ficar sozinho para fazer suas necessidades (como menina) para escapulir de seu cárcere.

É muito interessante, inclusive, que o autor utilize a voz de um ex-escravo para expor algumas contradições e aspectos não pensados quando falamos de escravidão. Por exemplo, Cebola, nosso narrador, comenta que se alimentava muito melhor quando era escravo numa taverna, do que quando passou a ser livre, membro do exército de Brown e defensor da abolição, o que demonstra um descaso para com a condição do negro liberto. Mais um exemplo:

“Ninguém perguntava para os negros o que eles achavam de tudo aquilo, a propósito, e nem para os índios, agora que penso nisso, já que a opinião de nenhum deles importava, por mais que a maior parte da discussão dissesse respeito a eles, pois no fim tudo girava em torno de terras e dinheiro, coisas com as quais aqueles que debatiam jamais pareciam estar satisfeitos.” (p. 47)

A necessidade de sobrevivência e adaptação perpassa a questão da resistência dos escravizados, que muitas vezes é uma resistência pacífica e de cooptação para com o opressor:

“Ela nunca disse nada, mas é isso que você faz quando é escravo e tem intenção de escapar. Acordos. Faz o que tem que fazer. Trai a confiança de quem precisar. E se o peixe pular do balde em cima de você e depois voltar para o lago, só se pode lamentar. Pie tinha aquele jarro de dinheiro embaixo da cama e estava aprendendo as letras comigo. Entregou Sibonia e aqueles que odiavam sua pele mais clara e sua beleza. Não culpo ela. Eu mesmo estava vivendo a minha vida como uma menina. Todas as pessoas de cor faziam o que precisavam para seguir em frente. Mas a teia da escravidão era algo pegajoso. E, no final das contas, ninguém estava livre dela.” (pp. 161-162)

A partir de uma trama que mescla a ficão com elementos históricos, McBride consegue, através de uma linguagem simples e coloquial, trazer problematizações e uma narrativa rica e empolgante. Não faltam cenas de ação, com as descrições dos ataques dos abolicionistas a propriedades para libertarem escravos e realizarem saques. Recomendado!

Este livro foi solicitado ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro.
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+ info:

O pássaro do bom senhor / James McBride; tradução de Roberto Muggiati.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
378 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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A sexta extinção

A sexta extinção: uma história não natural, de Elizabeth Kolbert


“Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Premiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo.
A extinção em curso tem sua própria causa original – não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas ‘uma espécie daninha’. Como me disse Walter Alvarez, ‘estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres humanos’.” (p. 276)

Extinções em massa são reduções bruscas (em termos geológicos) do número de espécies que habitam o planeta. De acordo com a autora Elizabeth Kolbert, jornalista norte-americana, já houve 5 extinções conhecidas até o momento, com extinções de até 95% das espécies. O livro A sexta extinção trata do momento atual que, como sugere o título, apresenta sinais que apontam para uma nova extinção em massa, desta vez possivelmente causada – e tendo como vítimas – nós mesmos, os seres humanos.

O livro conta, de maneira leve (o tema é bem pesado, mas o estilo, não), viagens que Kolbert fez em busca de informações sobre o meio ambiente – ela era colunista de ecologia da revista The New Yorker. Já no primeiro capítulo, ela nos conta sobre uma expedição que fez ao Panamá. Lá, viu o caso da extinção de diversas espécies de anfíbios (ela dá destaque à rã dourada), que tem preocupado muitos biólogos e ambientalistas. Este é o pontapé inicial para toda a discussão do livro. Em cada capítulo, ela fala sobre alguma espécie (extinta, viva ou ameaçada) e, a partir deste microuniverso, trata de algum tema maior, introduz conceitos biológicos, como aquecimento global, introdução de espécies estrangeiras (invasoras) em determinados territórios, as especificidades das zonas intertropicais, etc.

Um dos capítulos de que mais gostei está no início, e fala sobre como surge essa ideia de extinção no meio científico. Eu nunca havia pensado sobre isso, e acho que a maioria das pessoas tende a pensar que alguns conceitos já nascem prontos. Mas demorou para que alguém pensasse na possibilidade de que alguma espécie já tivesse sumido, desaparecido da face da Terra. Devemos lembrar que, antigamente, a ideia de que o mundo havia nascido do jeito que é (pelas mãos de um ou vários deuses) era o que imperava, e raramente era questionada. Kolbert nos situa nessa discussão, em que o naturalista francês Couvier, na década de 1790, propõe que existiu um mundo anterior ao nosso, com formas de vida finitas, não eternas. Tudo isso foi proposto com base em observações geológicas, anatômicas e paleontológicas. Imaginem o alvoroço que isso não causou na comunidade leiga e científica da época!

Outro aspecto interessante que ela traz é que, a partir da aceitação da ideia de extinção, surgem então duas correntes: o catastrofismo, que defendia que essas extinções aconteciam de forma rápida, e o uniformitarismo, segundo o qual as extinções eram graduais – assim como a própria evolução das espécies. Esses conflitos entre ideias revelam o processo de construção de novas teorias e paradigmas científicos, e são importantes para esclarecer que a ciência é uma prática, é modificável de acordo com as evidências que vão surgindo e, portanto, diferem substancialmente de doutrinas religiosas nesse ponto. Não se trata de mágica ou vontade divina inexplicável, mas sim de teorias baseadas em evidências, e que podem ser questionadas e revistas.

Intercalando com o contexto histórico das teorias científicas, alguns capítulos tratam de descrever prováveis causas das extinções em massa anteriores, como por exemplo, um meteorito ou aumento da concentração de oxigênio ou do dióxido de carbono na atmosfera e nos oceanos.

No início da leitura, me pareceu que os exemplos dados (o caso das rãs douradas, por exemplo) se sobrepunham ao assunto principal (as extinções em massa), mas aos poucos, essa impressão se diluiu. Ainda assim, seria interessante uma organização mais cronológica (para ser justa, existe uma linha do tempo ao final da obra) e sistemática; talvez uma simples mudança nos títulos dos capítulos conseguisse esse efeito.

A rã dourada do panamá, Elizabeth Kolbert, e o arau gigante

A autora – obviamente – tem um estilo jornalístico, no sentido de que descreve os aspectos cotidianos de suas viagens e pesquisas, e também traz dados e informações científicas mais precisas, com as devidas referências em notas de fim. Trata-se de um bom jornalismo de divulgação científica! Recomendo para quem se interessa pelo assunto e para quem quer estar mais informado a respeito das coisas do nosso mundo! 🙂

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+ info:

A sexta extinção: uma história não natural / Elizabeth Kolbert; tradução Mauro Pinheiro.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
334 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Resenha

As bruxas de Eastwick

As bruxas de Eastwick, de John Updike


“Alexandra voltou então ao preparo de vidros de molho para espaguete, molho para mais espaguete do que ela e os filhos seriam capazes de consumir mesmo que tivessem sido enfeitiçados e condenados a passar cem anos dentro de um conto de fadas italiano, vidros e mais vidros retirados, fumegantes, do panelão azul sarapintado de branco em cima da grelha de metal redonda trêmula e sibilante. Percebeu vagamente que isso era uma espécie de ridículo tributo ao seu atual amante, um encanador de origem italiana. A receita de Alexandra levava cebola, dois dentes de alho picados e salteados por três minutos em azeite quente (nem mais, nem menos; era essa a magia), bastante açúcar para contrabalançar a acidez, uma única cenoura ralada, mais pimenta do que sal; mas a colher de chá de manjericão picado era o que dava ao molho a sua virilidade, e a pitada de beladona proporcionava a libertação sem a qual a virilidade não passa de uma congestão assassina. Tudo isso devia ser acrescentado aos seus próprios tomates, colhidos e guardados em cada peitoril de janela durante as últimas semanas e agora cortados e levados ao liquidificador – desde que, dois verões antes, Joe Marino havia começado a frequentar sua cama, uma absurda fecundidade tomara conta dos pés de tomate plantados no jardim lateral onde o sol do sudoeste batia enviesado por entre as fileiras de salgueiros durante as longas tardes. Os pequenos galhos retorcidos dos tomates, suculentos e descorados como se feitos de um papel verde barato, se quebravam com o peso de tantos frutos; havia algo de frenético em tamanha fertilidade, uma histeria parecida com a de crianças ansiosas para agradar. Dentre todas as plantas, os tomates pareciam as mais humanas, ansiosas e frágeis, vulneráveis à deterioração. Ao colher as polpudas esferas vermelho-alaranjadas, Alexandra tinha a impressão de estar segurando na mão os testículos de um gigantesco amante. Enquanto se atarefava na cozinha, reconhecia o quê de tristemente menstrual em tudo aquilo, o molho parecido com sangue a ser despejado sobre o branco espaguete. As grossas tiras brancas iriam se transformar em sua própria gordura branca. Sua luta feminina contra o próprio peso: aos trinta e oito anos, ela achava isso cada vez menos natural. Será que para atrair o amor ela precisava negar o próprio corpo, como uma santa neurótica de antigamente? A natureza é o indicador e o contexto de toda saúde e, se temos um apetite, ele está lá para ser saciado, satisfazendo assim a ordem cósmica. Mas apesar disso ela às vezes desprezava a si mesma por ser preguiçosa, por ter arrumado um amante de uma ascendência tão reputadamente tolerante em relação à corpulência.” (pp. 9-11)

Li As bruxas de Eastwick para O Grande Desafio do Culto Booktuber de janeiro (se você não sabe do que estou falando, clique aqui)! Este desafio foi proposto pela Tamirez (do blog e canal Resenhando Sonhos), e eu era obrigada a fazer – já que a outra alternativa era o meu próprio desafio (que acabei fazendo também hihihihi). O desafio dela consistia em ler o livro que menos temos vontade na nossa estante. Fiquei em dúvida entre três, mas acabei escolhendo este por ser menor em tamanho (edição de bolso, assim pude levar na minha viagem).

Já havia tentado ler este livro em 2015, na Maratona Literária de Inverno, mas não passei do primeiro parágrafo. Isso prova que existem momentos para lermos certos livros. Digo isso porque, nessa segunda tentativa, as primeiras cem páginas passaram voando!

Neste livro, conhecemos a história de três mulheres bastante independentes, mães solteiras, que vivem na pequena cidade estadunidense de Eastwick. Alexandra, Jane e Sukie, cada qual com sua personalidade e aparência física. Não demora muito para sabermos que elas são, literalmente, bruxas (achei melhor deixar isso claro, porque eu própria não sabia se o título era apenas uma metáfora). Com poderes mágicos e tudo. E provavelmente foi isto que mais gostei em toda a obra: as três mulheres concentram uma força enorme em si mesmas, sem deixarem de ser humanas. Ou seja, são mulheres (com problemas e questões como depressão, culpa, sexualidade, etc.), mas extremamente empoderadas.

A trama se inicia quando um forasteiro misterioso se muda para uma mansão isolada na cidade. As três amigas, Jane, Sukie e Alexandra, acabam se interessando por sua figura um tanto excêntrica e se envolvendo com ele. Nas partes 2 e 3 do livro, acompanhamos a evolução desse relacionamento a quatro e com outras pessoas da comunidade da pequena Eastwick.

Tenho algumas ressalvas em relação ao livro: o fato de o fio narrativo girar em torno dos casos amorosos dessas mulheres tão fascinantes me parece que empobreceu a obra. Gostaria de que o foco fossem elas, e não seus relacionamentos sexuais. Sinto quase como se o protagonismo das bruxas fosse deslocado e puxado um pouco para o lado dos personagens masculinos, propositalmente desinteressantes no livro. A maioria das cenas não passaria no Teste de Bechdel [outra explicação sobre o teste aqui], o que é terrível.

As descrições de sensações e desejos sexuais das três bruxas por vezes me soaram como as que um homem imagina que uma mulher sinta – o que, de fato, deve ser o que ocorreu, já que o autor do livro é homem -; mas não posso afirmar com 100% de certeza, pois é possível que algumas mulheres se identifiquem. Em todo caso, não destacaria isso como um ponto forte da obra.

O final também, infelizmente, não me agradou por motivos similares, e por isso, tirei uma estrela da minha avaliação.

Como pontos positivos, destaco principalmente a escrita de Updike. Em determinados momentos, o autor tem um olhar muito acurado e cuidadoso do universo feminino, e algumas partes mais místicas e mágicas são muito encantadoras, apesar de sutis. Escolhi o trecho inicial do post tendo isso em mente: quis mostrar para vocês o primeiro momento que me encantou no livro: Alexandra preparando um caldeirão de molho de tomate como se fosse uma poção, e essa mistura perfeita de realidade e magia que às vezes perdemos em nosso cotidiano. 

De maneira geral, gostei da experiência, mesmo tendo as críticas que destaquei. A minha leitura teve momentos mais rápidos e empolgantes, e outros, mais lentos. É uma obra um pouco contraditória na maneira de tratar as personagens mulheres, mas ainda assim, acho que vale a pena como literatura de entretenimento!

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+ info:

As bruxas de Eastwick / John Updike; tradução Fernanda Abreu.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
355 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO
(Contém temas adultos, especialmente sexo. Não é recomendado para crianças.)

Obrigada pela leitura!

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2016, Ficção, Parceria, Record, Resenha

Sem tetas não há paraíso

Sem tetas não há paraíso, de Gustavo Bolívar Moreno

Tetas

“Catalina nunca imaginou que a prosperidade e a felicidade das meninas de sua geração dependessem do número de seu sutiã. Só começou a entender isso na tarde em que Yésica lhe explicou, sem qualquer cerimônia, por que o homem que ela esperava com tantas expectativas a tinha deixado plantada na porta de casa:
– Por causa dos seus peitos! El Titi preferiu ficar com a Paola porque seus peitos são muito pequenos, cara!
Com estas palavras humilhantes, Yésica pôs um ponto final na primeira tentativa de Catalina de se prostituir. Enquanto isso, Paola entrava, sorridente, em uma luxuosa caminhonete que a levaria a uma fazenda de Cartago onde, por 500 mil pesos, ficaria nua e transaria com um traficante de drogas em ascensão, apelidado de El Titi e com pretensões de se tornar um Pablo Escobar, na beira de uma piscina descomunal, ao lado de outras mulheres tão ignorantes e ambiciosas quanto ela e de inúmeras estátuas de mármore e pedra que jorravam água com entediada resignação.” (p. 9)

Meu grau de querência por este livro estava fora do normal. Logo que dei uma olhada na sinopse, sabia que precisava lê-lo. E não é que o Grupo Editorial Record, parceiro do Redemunhando, me ofereceu como uma das opções para solicitar do catálogo?! 😀 Não tive dúvida! (Acabei ganhando de presente de Natal o mesmo livro do meu primo, e adorei o presente! Para não ficar com duas cópias repetidas, troquei por outro).

O livro, escrito por um autor colombiano, fala sobre o universo do tráfico de drogas. Insere-se numa “onda” literária chamada narcoliteratura, que discute questões e respostas relativas ao tráfico de drogas (especialmente na América Latina e nos Estados Unidos), e vem se espalhando há cerca de dez anos, chegando ao auge com a produção de séries de sucesso como Narcos. Talvez um dos livros mais conhecidos da narcoliteratura seja Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos.

Sem tetas não há paraíso conta a história de Catalina, uma menina de 14 anos, colombiana. Ela mora com sua mãe e seu irmão mais velho num bairro onde também vivem suas colegas de escola (ou ex-colegas de escola, já que muitas delas largaram os estudos, e a própria Catalina quer parar, porque não gosta de estudar) e tem um namorado, Albeiro, que é louco por ela desde que ela tinha 11 anos. Porém, ele é pobre e ingênuo e Catalina é uma garota ambiciosa; ela tem muita inveja das meninas do bairro (todas por volta dos 15, 16 anos), as quais se prostituem para traficantes de drogas e voltam para suas casas cheias de dinheiro. A meta de vida de Catalina passa a ser, portanto, tornar-se uma dessas prostitutas que ganham muito dinheiro dos narcotraficantes. Mas Yésica, a colega que indica as garotas aos clientes, diz que eles gostam de mulheres com peitos grandes. Por isso, Catalina tem um problema cíclico: seios pequenos a impedem de começar a atividade a que tanto almeja, mas ela só conseguirá implantes de silicone com dinheiro de prostituição.

A escrita de Bolívar é absolutamente ágil e direta, chega a ser seca em determinados momentos. Os diálogos são feitos em discurso direto, com travessão, o que a torna ainda mais dinâmica. Por conta disso, o livro é muito fluido. Para se ter uma ideia do quão objetiva é a linguagem, dê uma olhada no trecho inicial do post. Aqueles são os dois primeiros parágrafos da obra, e já é possível entender todo o mote e todo o clima que a permeia. As 100 primeiras páginas transcorrem de maneira mais repetitiva, explicando o porquê de Catalina querer entrar nesse mundo e suas tentativas, muitas vezes frustradas. Depois do primeiro terço do livro, a história ganha um ritmo mais rápido e os acontecimentos se sucedem de maneira mais diversa e dinâmica.

Achei que algumas coisas têm explicação fraca, mas isso talvez aconteça por conta de minha diferença em relação à cultura dos personagens do livro. Por exemplo, o alto grau de autonomia de Catalina e suas amigas, todas menores de idade – nem falo em relação à fiscalização do país, porque Moreno faz questão de ressaltar aspectos como corrupção e falta de ética, mas mais em relação à suas famílias mesmo. Outra coisa que não compreendi, e acredito que isso não decorre de diferenças culturais, foi a rapidez com que alguns personagens se apaixonam por Catalina, algo que não ficou exatamente explicado.

Há diversos assuntos tratados neste livro, como o prestígio do tráfico de drogas, os padrões corporais impostos como modelo a ser (necessariamente) seguido – no caso, o tamanho grande dos peitos -, a “adultização” de crianças (Catalina tem catorze anos!), machismo, consumismo, prostituição, violência. O autor não tem papas na língua e, embora não se atenha às cenas de sexo ou violência, descrevendo-as nos mínimos detalhes, também não esconde o que acontece e suas consequências. As enumerações dos luxos dos traficantes são bem vivazes e interessantes.

Recomendado para quem se interessa pelo tema do narcotráfico, da prostituição e da condição feminina, ou para quem quer ler uma história ágil! Obviamente, não é uma narrativa recomendada para crianças, pelas temáticas abordadas.

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+ info:

Sem tetas não há paraíso / Gustavo Bolívar Moreno; tradução Luís Carlos Moreira Cabral.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
306 páginas.

classificação: 3 estrelas

(Contém temática adulta e explícita: tráfico de drogas, violência, prostituição, sexo)

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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