2015, Cosac Naify, Infantil, Infanto-juvenil, Resenha

Lampião e Lancelote

Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela


“Do meio da esfera branca, Lampião viu surgir a imagem de um cavaleiro em galope acelerado. E o cavaleiro veio serpeando em sua direção. Quando chegou bem perto, Lampião vislumbrou que a armadura e o cavalo eram de tal clareza que pareciam assombração. Mas o valente Lampião não sabia o que era o medo, cabra que cai nessa vida dorme nunca e acorda cedo, daquilo que não se sabe a sorte faz arremedo, da sombra de um cavaleiro nunca se teme o segredo, saiu montado no jegue e foi apontando o dedo, sua voz rasgou o ar e fez tremer o arvoredo:
‘Pois pare já eu lhe ordeno
Ó fantasma de metal
Encarnação do demônio
Grande embaixador do Mal
Logo se vê que fugiu
De um século medieval’
Lancelote, desperto da estranheza daquele mundo pela voz áspera de Lampião, arribou súbito as rédeas e freou seu cavalo com todas as forças, para não atropelar o cangaceiro, parado a pouco mais de um golpe de espada.” (pp. 22-25)

Este foi mais um dos livros comprados “por impulso” – mas este, já faz tempo que comprei.

Sou apaixonada por histórias do sertão brasileiro, e o cangaço não foge à regra. Lampião, Maria Bonita e seu bando têm o poder de fascinar até hoje por sua coragem, mas principalmente por sua ambiguidade heróis / vilões. Já Lancelote, cavaleiro lendário da Távola Redonda arturiana, também é um ícone (da literatura de cavalaria, da honra) pelo qual tenho admiração (e um pouquinho de raiva, graças à série As brumas de Avalon, mas isso fica pra outro post).

Este é um livro considerado infantil por seu formato (ele é grande!), sua quantidade de ilustrações – muitas – e de texto – pouco. Mas só. A história é absolutamente deliciosa para qualquer idade, trata-se do improvável encontro entre essas duas grandes personagens. Lancelote, graças a um feitiço de Morgana, adentra uma bruma e sai na caatinga brasileira, onde está Lampião. O encontro descamba para uma luta entre o bando de cangaceiros e os cavaleiros da Távola Redonda (que, graças a Merlin, conseguem aparecer nesse exato lugar e exato tempo), e em seguida, para uma batalha. Absolutamente brilhante.

Com o perdão do trocadilho, o livro é brilhante não só pela história e pelo texto, mas também pelas ilustrações magníficas. As fotografias aqui colocadas não dão conta da grandeza das imagens ao vivo, tanto por conta do tamanho, quanto pelo material e pelas cores. As páginas e motivos dedicados a Lancelote são desenhados em tons de branco, preto e prateado. Prateado mesmo. Já os de Lampião, seguindo a estética do cangaço, apresenta as cores branca, preta e cobre. Cobre mesmo. Ou seja, as páginas do livro literalmente brilham (na verdade, assim que escrevi isso, fui verificar e elas não brilham de fato. Mas a impressão que fica é que brilham, então vou deixar assim mesmo o texto. Só para constar, a capa, sim, literalmente brilha, pois apresenta uma espécie de verniz localizado). A ambientação do espaço de Lancelote foi feita baseada nas iluminuras medievais, enquanto que a de Lampião, muito conectada às técnicas de xilogravura da literatura de cordel.

 

O texto intercala entre as linguagens típicas de novelas de cavalaria e  de cordel. As rimas e o ritmo do texto tornam impossível que leiamos em voz baixa (ao ler, eu incorporei os dois personagens, inclusive, com sotaque e tudo, e dei muita risada). Isso torna o livro divertido e muito adequado ao público mais infantil. As falas de Lampião seguem a estrutura e a métrica mais tradicional do cordel (veja a fala do cangaceiro no trecho inicial do post).

Não por acaso, este livro ganhou diversos prêmios, como o Prêmio Jabuti 2007 (duas vezes! 2º lugar pela capa e 1º lugar nas categorias Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil e Livro Infantil), quatro FNLIJ (Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil) e menção honrosa na Feira de Bolonha. Merecidos. Recomendo para qualquer idade!

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+ info:

Lampião e Lancelote / Fernando Vilela. Ilustrações do autor.
São Paulo: Cosac Naify, 2006.
55 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2 comentários sobre “Lampião e Lancelote

  1. Myene disse:

    A crianca eterna que existe em mim agradece Fernando Vilela por este livro lindo e ma’gico…Imagino que ele va’ se tornar livro favorito da infancia de quem tiver oportunidade de le-lo.

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