2016, Contos, Parceria, Record, Resenha

Antes que seque

Antes que seque, de Marta Barcellos

Antes

“As gêmeas são louríssimas, cachos balançantes, bochechas rosadas, teriam saído de uma pintura renascentista não fossem o short e a camiseta, tudo da GAP. Uma babá para cada filha, uniforme destacando os braços fortes, e mesmo assim a mãe tem o olhar cansado. Quando ia ficar orgulhosa da saúde transbordante das meninas, que afinal ficaram gordinhas – que aflição, a fase da incubadora! -, uma delas desanda a falar como nordestina. O desconforto é atropelado pela agitação na sala, a conversa quase interrompida se apruma novamente, e ficamos sentadas enquanto as babás decidem se voltarão ao playground depois do lanche.
Um suspiro, e Milena parece lembrar que sou eu a visita; decide falar a verdade. Quando uma babá tira folga, mesmo revezando, é um inferno. Elas sentem falta, uma pirraça atrás da outra, o fim de semana parece que nunca vai acabar. Filho é a melhor coisa do mundo, claro, mas ela tem pensado muito no dia em que o médico avisou que dois embriões tinham se fixado, que atualmente é comum a redução, uma gravidez mais segura, para a mãe e para o filho. Penso nisso e choro, ela me diz, porque é um pensamento horrível. Milena tenta ler minha reprovação em algum gesto ou olhar, mas sabe que no fundo também sou uma mulher prática. Passamos juntas por algo assim na juventude, uma acompanhando a outra na clínica. Nunca mais tocamos no assunto.” (pp. 48-49)

Antes que seque foi um livro que solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro. Algumas coisas me chamaram a atenção: em primeiro lugar, essa capa maravilhosa (quando abrimos a orelha do livro, é possível ver o útero por inteiro!), o título, o fato de a autora ter sido vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015 na categoria contos e a temática.

O fio condutor de muitas das narrativas (não de todas) é justamente a maternidade e as expectativas que vêm com tal decisão. Em algumas, isso não é tão explícito assim, o que vemos são mulheres comuns que passam por situações inusitadas, bizarras, tristes, e tais situações envolvem seus filhos ou seu papel de mãe. Os contos abordam de maneira sutil assuntos como: aborto, convenções sociais, morte, dificuldade de engravidar, memórias, planos, regras e aparências da classe média.

A autora parte sempre de uma situação bem cotidiana (como escrever num blog, visitar um apartamento para comprar, sair para dançar) para desenvolver o mote principal. A linguagem é coloquial e bem compreensível, e alguns contos trazem um tipo de surpresa (gostei muito de Planta circularHe or sheReduçãoÀ revelia, ContradançaQueima de arquivo, À moda antiga Copacabana).

O assunto da maternidade, tratado em alguns dos contos de maneira direta ou indireta, abrange diversos aspectos e é extremamente relevante ainda hoje, num momento de tomada de consciência de grande parte da população sobre o feminismo. Os aspectos vão desde a escolha de não ser mãe e ainda assim ser uma mulher “completa”, até o papel social que espera-se de uma mãe, e o “equilíbrio” entre ser mãe, ser mulher, ser profissional, tudo ao mesmo tempo, etc. Existe todo um mito a respeito de que uma mulher só é completa se ela engravidar e tiver filhos (assim como as solteiras são frequentemente vistas como “fracassadas”; as que priorizam suas carreiras, como “desnaturadas”; as que são mães e trabalham em casa como “relaxadas”, etc. – ou seja, nenhuma escolha é suficientemente boa). Nesse sentido, os contos de Marta Barcellos despertam a reflexão, seja por criarmos empatia com as personagens, seja porque não nos identificamos com a situação relatada e pensamos nos porquês de tudo isso – outros contos são mais despretensiosos.

A mulher atual merece ser tratada com a diversidade trazida por Barcellos, e são poucos os livros de ficção que se atêm ao assunto da maternidade e o discutem com clareza e sinceridade. Me parece que é justamente o que faz Antes que seque.

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+ info:

Antes que seque / Marta Barcellos.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
190 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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9 comentários sobre “Antes que seque

  1. Myene disse:

    Me parece que a autora aborda de forma corajosa assuntos femininos, sempre muito envolvidos em preconceitos ou coloridos com fantasias ingenuas, para convencer que nao existe escolhas e estigmatizar quem ousa desafiar o que e’ senso comum…Quero muito ler!!

  2. Oi Nat! Confesso que eu nunca escolheria ler esse livro porque eu nunca tive a vontade de ser mãe e tudo relacionado ao tema me entedia. Mas como vi no seu vídeo que você mostrou esse livro que você também não tem vontade, percebi que não é só porque não quero ser mãe que preciso repudiar tudo sobre o assunto, e o seu interesse me deixou levemente curiosa. Lendo sua resenha me despertou uma curiosidade maior. Não devo lê-lo tão cedo, porque as vacas estão magras e o pouco dinheiro que ainda recebo uso para coisas que realmente me interesso. Mas quando as coisas melhorarem, quem sabe, eu compro pra ver como é isso tudo?
    Beijocas!
    E olha, tô virando fã dos seus vídeos e do blog, viu?

    • Liviaaaa, que linda vc!!! É um prazer te ter por aqui e no canal! ❤
      Eu me interesso muito pelos papeis que as mulheres podem assumir, e por aqueles que elas tradicionalmente """devem""" assumir. O caso da maternidade é um clássico desse "dever" soicial, né? Também não tenho vontade de ser mãe, mas acho que isso é puramente uma escolha. Por isso, quanto mais for desconstruído, melhor. Esses contos são legais por isso, mostram mulheres em diversos papeis sociais, e muitas delas sendo humanas e entrando em colapso (quem nunca?) diante de alguma situação!
      Vale a pena! 😀
      Beijooooooo, obrigada pelo comentário!
      Nati

  3. Adorei a temática! A capa é maravilhosa!!! Esse assunto tem tudo haver comigo, sofro bastante preconceito na minha família por não estar nada ansiosa para ser mãe. Fiquei com bastante vontade de ler! Beijocas!

    • Siiiiiim, a capa é maravilhosa!!!!!!
      O livro tem uma proposta muito legal, mas a execução não é tããão empolgante assim. Acho que vale a pena ler por essa diversidade de histórias, e algumas são bem boas. Pode deixar que te empresto quando estiver em São José! 🙂

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